Poemas neste tema
Humor e Ironia
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - I
And so they whisper about us -
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
1 310
Fernando Pessoa
PITY? NO!
Pity? No! I wish not pity.
That were but a bitterer scorn,
Disdain ruthlessly made witty
With a serious look to strain
Its awful joke. No; let me mourn
In peace. Pity me not again!
Pity? No! Let more scorn come,
More indifference, more disdain:
These are the conforts of my home.
To change their look to pity were too far
To make me feel a direr pain.
Pretend not good: it cannot be.
Let evils all seem as they are.
To mask them were a mockery
Heartless and evilly rare.
That were but a bitterer scorn,
Disdain ruthlessly made witty
With a serious look to strain
Its awful joke. No; let me mourn
In peace. Pity me not again!
Pity? No! Let more scorn come,
More indifference, more disdain:
These are the conforts of my home.
To change their look to pity were too far
To make me feel a direr pain.
Pretend not good: it cannot be.
Let evils all seem as they are.
To mask them were a mockery
Heartless and evilly rare.
1 439
Fernando Pessoa
Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!
Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!
Acorda, olha o mistério ao pé de ti!
E assim pensando rio amargamente
Dentro em mim rio como se chorasse.
Acorda, olha o mistério ao pé de ti!
E assim pensando rio amargamente
Dentro em mim rio como se chorasse.
1 458
Fernando Pessoa
Tens uma salva de prata
Tens uma salva de prata
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.
1 477
Fernando Pessoa
Todos os dias eu penso
Todos os dias eu penso
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
1 414
Fernando Pessoa
III - PIERROT BÊBADO
III
PIERROT BÊBADO
Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Só a lua cheia
Branqueia e clareia
As ruas da feira
Na noite entreaberta.
Só a lua alva
Branqueia e clareia
A paisagem calva
De abandono e alva
Alegria alheia.
Bêbeda branqueia
Como pela areia
Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Na noite já cheia
De sombra entreaberta.
A lua branqueia
Nas ruas da feira
Deserta e incerta...
PIERROT BÊBADO
Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Só a lua cheia
Branqueia e clareia
As ruas da feira
Na noite entreaberta.
Só a lua alva
Branqueia e clareia
A paisagem calva
De abandono e alva
Alegria alheia.
Bêbeda branqueia
Como pela areia
Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Na noite já cheia
De sombra entreaberta.
A lua branqueia
Nas ruas da feira
Deserta e incerta...
1 549
António Diniz da Cruz e Silva
A francesia
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
780
António Diniz da Cruz e Silva
Ignorância e mau saber
[...]Pois se francês não foi, replica Lara,
Como monsieur lhe chamam?
Cum sorriso
Lhe torna o padre-mestre: Não se admire,
Que isto está sucedendo a cada passo;
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de monsieurs os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e, como é moda,
A quisemos seguir: e sobre tudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
De tanto peso, pois, lhe volve o Lara,
É, padre jubilado, porventura
O saber francês que disso alarde
Fazer quisessem vossas reverências?
Por acaso sem esse sacramento
Não podiam salvar-se e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês para mim o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
Não diga, senhor, tal; que, neste tempo,
Ó tempos, ó costumes! Diz o padre,
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar, ver, senhor, como um pascácio
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas
Sem que lhes escape a santa teologia,
Alta ciência aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Scoto,
Aos Bacónios, aos Lulos e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai grassando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa português casta linguagem,
Que em tantas traduções corre envasada
(traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! Se as marmóreas campas levantando
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões que com a pena
Ou com a espada e lança a pátria honraram,
Os vossos ideotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos ridículos autores
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhas modas afrontavam
Segunda vez de pejo morreriam.
Como monsieur lhe chamam?
Cum sorriso
Lhe torna o padre-mestre: Não se admire,
Que isto está sucedendo a cada passo;
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de monsieurs os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e, como é moda,
A quisemos seguir: e sobre tudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
De tanto peso, pois, lhe volve o Lara,
É, padre jubilado, porventura
O saber francês que disso alarde
Fazer quisessem vossas reverências?
Por acaso sem esse sacramento
Não podiam salvar-se e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês para mim o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
Não diga, senhor, tal; que, neste tempo,
Ó tempos, ó costumes! Diz o padre,
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar, ver, senhor, como um pascácio
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas
Sem que lhes escape a santa teologia,
Alta ciência aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Scoto,
Aos Bacónios, aos Lulos e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai grassando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa português casta linguagem,
Que em tantas traduções corre envasada
(traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! Se as marmóreas campas levantando
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões que com a pena
Ou com a espada e lança a pátria honraram,
Os vossos ideotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos ridículos autores
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhas modas afrontavam
Segunda vez de pejo morreriam.
829
Antidio Cabal
Epitáfio de Efigenio Gomiá, vulgo O Semicompleto
Aqui jaz um idiota maravilhoso,
acreditou que haver nascido fosse um êxito.
Não ponham flores em seu túmulo.
670
Luís Gama
Serei Conde, Marquês e Deputado
Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
1 596
Luís Gama
A um Nariz
Você perdoe,
Nariz nefando
Que eu vou cortando
E ainda fica nariz em que se assoe.
Gregório de Matos
Aí vai, leitores,
Um monstro esguio,
Que em corropio
De uma rua tem posto os moradores.
Maior que a proa
De nau de linha,
Tem camarinha
Aonde à tarde se obumbra a tocha coa,
Rinoceronte
De tromba enorme,
Mais desconforme
Do que o mero, a baleia, a catodante
Nariz bojante,
Recurvo e longo,
Que lá do Congo
Alcança o Tenerife e monte Atlante.
De raça eslava
Tremenda espiga,
E há quem diga
Que nela Polifemo cavalgava.
Nariz alado,
De cor bringela.
Que de pinguela,
Serviu no Amazonas celebrado.
E se não mente
A tradição,
De lampião
Fazia num farol da Líbia ardente.
Nariz de pau,
Com tal composto,
Que sobre o rosto
Tem forma de bandurra ou berimbau.
Cavado e torto,
Formal tripeça,
Fundido à pressa
Nas forjas de Vulcano — por aborto.
Nariz de forno,
De amplas badanas,
Que mil bananas
Aloja em cada venta, sem transtorno.
É tão famoso
O tal nariz,
Que por um triz
Não fez parte do Cabo Tormentoso.
Qual catatau
Da testa pende,
E alguém entende
Ser ninho de coruja ou picapau.
Nariz de barro,
Mas não cozido,
Que suspendido,
Sobre as grimpas da lua vai de esbarro.
De quanto fiz
Não se enraiveça;
Não enrubesça,
Que pr'a dar e vender sobra nariz.
do livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
Nariz nefando
Que eu vou cortando
E ainda fica nariz em que se assoe.
Gregório de Matos
Aí vai, leitores,
Um monstro esguio,
Que em corropio
De uma rua tem posto os moradores.
Maior que a proa
De nau de linha,
Tem camarinha
Aonde à tarde se obumbra a tocha coa,
Rinoceronte
De tromba enorme,
Mais desconforme
Do que o mero, a baleia, a catodante
Nariz bojante,
Recurvo e longo,
Que lá do Congo
Alcança o Tenerife e monte Atlante.
De raça eslava
Tremenda espiga,
E há quem diga
Que nela Polifemo cavalgava.
Nariz alado,
De cor bringela.
Que de pinguela,
Serviu no Amazonas celebrado.
E se não mente
A tradição,
De lampião
Fazia num farol da Líbia ardente.
Nariz de pau,
Com tal composto,
Que sobre o rosto
Tem forma de bandurra ou berimbau.
Cavado e torto,
Formal tripeça,
Fundido à pressa
Nas forjas de Vulcano — por aborto.
Nariz de forno,
De amplas badanas,
Que mil bananas
Aloja em cada venta, sem transtorno.
É tão famoso
O tal nariz,
Que por um triz
Não fez parte do Cabo Tormentoso.
Qual catatau
Da testa pende,
E alguém entende
Ser ninho de coruja ou picapau.
Nariz de barro,
Mas não cozido,
Que suspendido,
Sobre as grimpas da lua vai de esbarro.
De quanto fiz
Não se enraiveça;
Não enrubesça,
Que pr'a dar e vender sobra nariz.
do livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
1 418
Luís Gama
O Barão da Borracheira
Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.
Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!
Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!
Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!
1 369
Rui Knopfli
Entre a rampa e o caracol da barreira,
Entre a rampa e o caracol da barreira,
o picadeiro ideal para o exibicionismo
laurentino, ao fim da tarde, passeio raso,
sobranceiro à baía e à Catembe.
Enquanto a malta ia e vinha, até ser Marrocos.
Pavoneavam-se as meninas e nós,
idem, flexionando peito e músculo,
miradas discretas em redor. Rotina
diária, sempre cumprida sem atropelos.
Mesmo com a ruidosa chegada do Cagalhim,
a cavalo na sua desconjuntada carrinha Ford,
a tossir e a resfolegar, cansada das correrias
da véspera. Presumido herói, o Cagalhim
era só o bobo daquela festa. Caçador furtivo
e nocturno, sua maior aventura -
rezava a lenda - fora a de ter enfrentado,
sob o holofote, um cocone que, falhado o tiro,
o terá colhido, arrancando-lhe da cara os óculos.
De borco, espezinhado, dizem que o Cagalhim,
faca em punho, o teria capado. Pior ainda,
que vexado, o boi-cavalo, envergando os óculos
do caçarreta, até hoje percorre os matos
em busca dos testículos perdidos. Entretanto,
no Miradouro, para gáudio do pessoal,
o Cagalhim exibe, com alarido, os que não tem.
1 354
Itamar Assumpção
Abobrinhas não
Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não
908
Rui Knopfli
Uniforme de poeta
Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.
1 664
Itamar Assumpção
Prezadíssimos Ouvintes
Muito prazer
Prezadíssimos ouvintes
Pra chegar até aqui tive que ficar na fila
Agüentar tranco na esquina e por cima lotação
Noite e aqui tô eu novo de novo
Com vinte e quatro costelas
O jogo baixo, guitarras, violão e percussão e vozes
Ligadas numas tomadas elétricas e pulmão
Já cantei num galinheiro
Cantei numa procissão
Cantei ponto de terreiro
Agora quero cantar na televisão
Meu irmão o negócio é o seguinte
É pura briga de foice
Um jogo de empurra empurra
Facão tiro chute murro
Chamam mãe de palavrão
Sorte não haver o que segure
Som senhores e senhores
Mas quem é que me garante
Que mesmo esses microfones
Sempre funcionarão?
Cantei tal qual seresteiro
Cantei paixão, solidão
Cantei canto de guerreiro
Agora quero cantar na televisão
.
.
.
812
Lorine Niedecker
Quando o êxtase é inoportuno
Finja uma grande calma;
todo enlevo logo termina.
Cante: quem sabe -
se fim ou início do vôo
para a gaivota em pouso?
Coração, aquiete-se.
Diga: dinheiro há, mas com ferrugem;
diga: luar não é propício para fugas.
É a cor no baixo firmamento
espargindo cores largas
ou, em minha gravata, o vento.
Saiba em espanto como
se toma a própria loucura
nas mãos
e a guarda.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
When ecstasy is inconvenient
Lorine Niedecker
Feign a great calm;
all gay transport soon ends.
Chant: who knows—
flight's end or flight's beginning
for the resting gull?
Heart, be still.
Say there is money but it rusted;
say the time of moon is not right for escape.
It's the color in the lower sky
too broadly suffused,
or the wind in my tie.
Know amazedly how
often one takes his madness
into his own hands
and keeps it.
todo enlevo logo termina.
Cante: quem sabe -
se fim ou início do vôo
para a gaivota em pouso?
Coração, aquiete-se.
Diga: dinheiro há, mas com ferrugem;
diga: luar não é propício para fugas.
É a cor no baixo firmamento
espargindo cores largas
ou, em minha gravata, o vento.
Saiba em espanto como
se toma a própria loucura
nas mãos
e a guarda.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
When ecstasy is inconvenient
Lorine Niedecker
Feign a great calm;
all gay transport soon ends.
Chant: who knows—
flight's end or flight's beginning
for the resting gull?
Heart, be still.
Say there is money but it rusted;
say the time of moon is not right for escape.
It's the color in the lower sky
too broadly suffused,
or the wind in my tie.
Know amazedly how
often one takes his madness
into his own hands
and keeps it.
807
Boris Vian
Sou esnobe
(Paulo Ferraz)
Sou esnobe... sou esnobe
É de nascença e não por hobby
Isso exige um esforço bravo
É uma vida de escravo
Mas quando saio com Magnólia
É só pra mim que se olha
Sou esnobe... um puta esnobe
Meu mundo é a classe A
Ser esnobe é o que há.
Eu tenho estilo, me visto em Paris
Sapato de crocodilo e um ofuscante risca de giz
Um rubi no dedinho... do pé, pois sou fino
As unhas em alinho e um lindo e leve lencinho
Eu vou ao cinema ver filmes-problema
E janto no bistrô num porre de Château Margaux
Meu fígado é foda, ah, cirrose está fora de moda
Sou é depressivo, que é mais chique e exclusivo.
Sou esnobe... sou esnobe
Me chamo José e todos dizem Bob
Cavalgo assim que o sol raia
Porque adoro o odor de baia
Só frequento os importantes
Com passado bandeirante
Sou esnobe... excessivamente esnobe
E se respondo ao “me ama?”
Estou pelado na cama.
A gente se irmana, só entra bacana,
Todo fim de semana, pra jogar no ralo nossa grana
Filas de coca, a gente nem toca
E há camembert, comido com o devido talher.
Moro num apart que é uma obra de arte
Mulheres à la carte, igual nem mesmo em Montmartre
Já tive TV, um tédio de ver
Mandei devolver... mas pra gostar bastava o start.
Sou esnobe... sou esnobe
Essa é uma febre que só sobe
Quando me arrebento é de Jaguar
Se me encho de tudo vou prum spa
É nos detalhes... e no talão
Que se é esnobe ou não
Sou esnobe... Agora mais esnobe do que antes
E quando eu entrar em pane
Que me enterrem de Armani.
:
J'suis snob... J'suis snob
C'est vraiment l'seul défaut que j'gobe
Ça demande des mois d'turbin
C'est une vie de galérien
Mais quand je sors avec Hildegarde
C'est toujours moi qu'on r'garde
J'suis snob... Foutrement snob
Tous mes amis le sont
On est snobs et c'est bon
Chemises d'organdi, chaussures de zébu
Cravate d'Italie et méchant complet vermoulu
Un rubis au doigt... de pied, pas çui-là
Les ongles tout noirs et un tres joli p'tit mouchoir
J'vais au cinéma voir des films suédois
Et j'entre au bistro pour boire du whisky à gogo
J'ai pas mal au foie, personne fait plus ça
J'ai un ulcère, c'est moins banal et plus cher
J'suis snob... J'suis snob
J'm'appelle Patrick, mais on dit Bob
Je fais du ch'val tous les matins
Car j'ador' l'odeur du crottin
Je ne fréquente que des baronnes
Aux noms comme des trombones
J'suis snob... Excessivement snob
Et quand j'parle d'amour
C'est tout nu dans la cour
On se réunit avec les amis
Tous les vendredis, pour faire des snobisme-parties
Il y a du coca, on deteste ça
Et du camembert qu'on mange à la petite cuiller
Mon appartement est vraiment charmant
J'me chauffe au diamant, on n'peut rien rêver d'plus fumant
J'avais la télé, mais ça m'ennuyait
Je l'ai r'tournée... d'l'aut' côté c'est passionnant
J'suis snob... J'suis snob
J'suis ravagé par ce microbe
J'ai des accidents en Jaguar
Je passe le mois d'août au plumard
C'est dans les p'tits détails comme ça
Que l'on est snob ou pas
J'suis snob... Encor plus snob que tout à l'heure
Et quand je serai mort
J'veux un suaire de chez Dior!
Sou esnobe... sou esnobe
É de nascença e não por hobby
Isso exige um esforço bravo
É uma vida de escravo
Mas quando saio com Magnólia
É só pra mim que se olha
Sou esnobe... um puta esnobe
Meu mundo é a classe A
Ser esnobe é o que há.
Eu tenho estilo, me visto em Paris
Sapato de crocodilo e um ofuscante risca de giz
Um rubi no dedinho... do pé, pois sou fino
As unhas em alinho e um lindo e leve lencinho
Eu vou ao cinema ver filmes-problema
E janto no bistrô num porre de Château Margaux
Meu fígado é foda, ah, cirrose está fora de moda
Sou é depressivo, que é mais chique e exclusivo.
Sou esnobe... sou esnobe
Me chamo José e todos dizem Bob
Cavalgo assim que o sol raia
Porque adoro o odor de baia
Só frequento os importantes
Com passado bandeirante
Sou esnobe... excessivamente esnobe
E se respondo ao “me ama?”
Estou pelado na cama.
A gente se irmana, só entra bacana,
Todo fim de semana, pra jogar no ralo nossa grana
Filas de coca, a gente nem toca
E há camembert, comido com o devido talher.
Moro num apart que é uma obra de arte
Mulheres à la carte, igual nem mesmo em Montmartre
Já tive TV, um tédio de ver
Mandei devolver... mas pra gostar bastava o start.
Sou esnobe... sou esnobe
Essa é uma febre que só sobe
Quando me arrebento é de Jaguar
Se me encho de tudo vou prum spa
É nos detalhes... e no talão
Que se é esnobe ou não
Sou esnobe... Agora mais esnobe do que antes
E quando eu entrar em pane
Que me enterrem de Armani.
:
J´suis snob
Boris VianC'est vraiment l'seul défaut que j'gobe
Ça demande des mois d'turbin
C'est une vie de galérien
Mais quand je sors avec Hildegarde
C'est toujours moi qu'on r'garde
J'suis snob... Foutrement snob
Tous mes amis le sont
On est snobs et c'est bon
Chemises d'organdi, chaussures de zébu
Cravate d'Italie et méchant complet vermoulu
Un rubis au doigt... de pied, pas çui-là
Les ongles tout noirs et un tres joli p'tit mouchoir
J'vais au cinéma voir des films suédois
Et j'entre au bistro pour boire du whisky à gogo
J'ai pas mal au foie, personne fait plus ça
J'ai un ulcère, c'est moins banal et plus cher
J'suis snob... J'suis snob
J'm'appelle Patrick, mais on dit Bob
Je fais du ch'val tous les matins
Car j'ador' l'odeur du crottin
Je ne fréquente que des baronnes
Aux noms comme des trombones
J'suis snob... Excessivement snob
Et quand j'parle d'amour
C'est tout nu dans la cour
On se réunit avec les amis
Tous les vendredis, pour faire des snobisme-parties
Il y a du coca, on deteste ça
Et du camembert qu'on mange à la petite cuiller
Mon appartement est vraiment charmant
J'me chauffe au diamant, on n'peut rien rêver d'plus fumant
J'avais la télé, mais ça m'ennuyait
Je l'ai r'tournée... d'l'aut' côté c'est passionnant
J'suis snob... J'suis snob
J'suis ravagé par ce microbe
J'ai des accidents en Jaguar
Je passe le mois d'août au plumard
C'est dans les p'tits détails comme ça
Que l'on est snob ou pas
J'suis snob... Encor plus snob que tout à l'heure
Et quand je serai mort
J'veux un suaire de chez Dior!
1 758
Manuel António Pina
Neste preciso tempo, neste preciso lugar
No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?
Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?
Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.
2 074
Boris Vian
Se os poetas fossem menos bestas
Se os poetas fossem menos bestas
E se fossem menos preguiçosos
Fariam todo o mundo feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Levantariam casas douradas
Cercadas por enormes jardins
E árvores cheias de colibris
De rustiflautas e de aqualises
De pardongros e de luziverdes
De plumuchas e de picapratos
E de pequenos corvos vermelhos
Que soubessem tirar nossa sorte
Haveria grandes chafarizes
Jorrando luzes de zil matizes
Não faltariam duzentos peixes
Do crocantusco ao empedraqueixo
Do trilibelo ao falamumula
Da suazmina ao rara quirila
E do guardavela ao canifeixe
Provaríamos de um ar fresquíssimo
Perfumado pelo odor das folhas
Comeríamos quando quiséssemos
E trabalharíamos sem pressa
A arquitetar escadarias
De formas nunca dantes sonhadas
Com tábuas raiadas de lilás
Lisas como só ela sob os dedos
Mas os poetas são muito bestas
Para começar, eles escrevem
Ao invés de pôr a mão na massa
Isso lhes traz profundos remorsos
Que levam consigo até a morte
Radiantes por sofrerem tanto
O mundo os aclama com requinte
E os esquece no dia seguinte
Se a preguiça não fosse mania
Teriam fama por mais um dia.
:
Si les poètes étaient moins bêtes
Si les poétes étaient moins bêtes
Et s’ils étaient moins paresseux
Ils rendraient tout le monde heureux
Pour pouvoir s’occuper en paix
De leurs souffrances littéraires
Ils construiraient des maisons jaunes
Avec des grands jardins devant
Et des arbres pleins de zoizeaux
De mirliflûtes et de lizeaux
Des mésongres et des feuvertes
Des plumuches, des picassiettes
Et des petits corbeaux tout rouges
Qui diraient la bonne aventure
Il y aurait de grands jets d’eau
Avec des lumières dedans
Il y aurait deux cents poissons
Depuis le croûsque au ramusson
De la libelle au pépamule
De l’orphie au rara curule
Et de l’avoile au canisson
Il y aurait de l’air tout neuf
Parfumé de l’odeur des feuilles
On mangerait quand on voudrait
Et l’on travaillerait sans hâte
A construire des escaliers
De formes encor jamais vues
Avec des bois veinés de mauve
Lisses comme elle sous les doigts
Mais les poètes sont très bêtes
Ils écrivent pour commencer
Au lieu de s’mettre à travailler
Et ça leur donne des remords
Qu’ils conservent jusqu’à la mort
Ravis d’avoir tellement souffert
On leur donne des grands discours
Et on les oublie en un jour
Mais s’ils étaient moins paresseux
On ne les oublierait qu’en deux.
935
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 278
Sosigenes Costa
O pôr-de-sol do papagaio
O papa-vento nos jardins de maio
e o verde no seu mar de leite.
O mar já não é azul, é verde-gaio
num clarão que é relâmpago de azeite.
Se o mar é belo sem que a tarde o enfeite
quanto mais se o enfeitar o sol de maio.
O mar do papa-vento é o papagaio
e o céu do verde papa é o papa-leite.
Latadas cristalinas em desmaio.
Tombam flores do céu, meu papagaio.
E o papa-vento é de cristal e leite.
Deite leite, meu mar, pro papagaio.
Que o papagaio em verde se deleite
e não se enfeite de outra cor em maio.
1 295
Sosigenes Costa
Palhaço verde
Palhaço verde, o mar na areia ruiva
grita e gargalha, salta e cabriola,
como quem sofre, lírico, da bola.
E, querendo assombrar as moças, uiva,
brama, arremete e explode, o mariola,
abrindo uma alvacenta ventarola.
O mar é sempre o mesmo rapazola!
O mar é sempre o mesmo brincalhão
que, todo verde pela areia ruiva,
faz-se palhaço, bobo e valentão.
Vinde ver o bufão de roupa verde,
ver o bobo da corte de Netuno.
Na tarde cor-de-rosa, a roupa verde
do mar parece o tal pavão Juno.
Cai a noite. Do mar a roupa verde
fica de um verde negro, verde bruno.
Crianças, vinde à corte de Netuno
ver o palhaço verde gracejar.
Crianças, vinde ver cabriolar
pela areia amarela o verde mar.
.
.
.
1 103
Barbara Guest
O fim do desfile
O máximo que se pode dizer
a propósito do desfile
é que à Cabeça era vermelho.
Tendo o gosto do grotesco o arquiteto
aquiesceu,
inflados
barrigas e balões.
Ele tinha a mania da grandeza,
foi o que disse.
Acompanhando das laterais
não estávamos exatamente contentes
e sim gelados pelo vento de neve,
nossos pés encolhendo
no couro não-adaptável
nossos olhos formaram lágrimas verdadeiramente gigantescas
que soltamos após a passagem
do último soldado e o enterro
do confete na lixeira.
Foi um dia e tanto. Trouxe para casa
um poema lacrado. Deve crescer
na cozinha próximo ao fogão
se eu conseguir espremer dos olhos
água o suficiente. Água.
:
Parade´s end (in The Blue Stairs, 1968)
The most that can be said
for following the parade
is that the Head was red.
Liking grotesque the architect
went along with it,
the balloons and bellies
enlarged.
He had a craze for size,
so he said.
Looking at it from the sidelines
we weren't so amused
as chilled by the snow wind,
our feet getting smaller
in unadaptable leather
our eyes formed truly gigantic tears
we dropped when the last
soldier had passed and the confetti
was buried in the ash can.
It was quite a day. I brought home
an unopened poem. It should grow
in the kitchen near the stove
if I can squeeze out of my eyes
enough water. Water.
800