Rui Knopfli

Rui Knopfli

1932–1997 · viveu 65 anos MZ MZ

Rui Knopfli foi um poeta e jornalista português cuja obra se destaca pela exploração de temas como a identidade, a memória e a condição humana, frequentemente abordados com uma linguagem cuidada e um tom reflexivo. A sua poesia é marcada por uma forte introspeção e uma musicalidade subtil, explorando as nuances do quotidiano e as complexidades das relações humanas, o que lhe conferiu um lugar singular na poesia contemporânea de língua portuguesa.

n. 1932-08-10, Inhambane · m. 1997-12-25, Lisboa

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Testamento

Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.


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Biografia

Identificação e contexto básico

Rui de Sousa Toscano Martins Horta e Costa, conhecido como Rui Knopfli, nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, em 10 de maio de 1932, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 24 de agosto de 1997. Era filho de um administrador colonial português e de uma moçambicana de ascendência europeia. Foi um poeta e jornalista luso-moçambicano.

Infância e formação

Passou a infância e juventude em Moçambique, onde frequentou o Liceu Salazar (atual Liceu 7 de Abril). A sua formação foi marcada pela cultura colonial e pelas realidades sociais de Moçambique. Desde cedo, demonstrou interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências da literatura portuguesa e estrangeira.

Percurso literário

Iniciou a sua atividade literária em Moçambique, colaborando em publicações locais. Em 1961, publicou o seu primeiro livro, "O Livro de Job". A sua obra evoluiu ao longo do tempo, explorando diferentes facetas da sua experiência e visão do mundo. Foi também jornalista, tendo trabalhado em diversos órgãos de comunicação social em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras principais incluem "O Livro de Job" (1961), "Homenagem a Walt Whitman" (1963), "Maria Macária" (1965), "Filho da Terra" (1974), "A Ilha de Moçambique" (1978) e "O Grande Roxo" (1985). Os temas dominantes na sua poesia são a identidade (particularmente a luso-africana), a memória, a condição humana, a terra e a espiritualidade. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem cuidada, um tom reflexivo e uma musicalidade subtil. Utiliza frequentemente o verso livre e explora uma densidade imagética que evoca as paisagens e sensações de Moçambique. A sua voz poética é, muitas vezes, pessoal e confessional, mas com aspirações universais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Rui Knopfli viveu num período de grandes transformações em África e em Portugal, incluindo o processo de descolonização. A sua obra reflete, de forma subtil, as tensões e ambiguidades da sua identidade de português nascido em África. Foi associado ao movimento cultural africano e à poesia pós-simbolista.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal O seu percurso pessoal foi profundamente marcado pela sua ligação a Moçambique e, posteriormente, a Portugal. As suas experiências como escritor e jornalista moldaram a sua visão do mundo e a sua obra. As relações afetivas e familiares, bem como as experiências de vida em contextos culturais distintos, são elementos que ressoam na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado uma notoriedade de massas em vida, Rui Knopfli é reconhecido pela crítica como um dos poetas mais importantes da sua geração. A sua obra tem vindo a ser redescoberta e valorizada, sendo considerada essencial para a compreensão da poesia contemporânea de língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas como Fernando Pessoa e Walt Whitman, Rui Knopfli deixou um legado importante na poesia de língua portuguesa, particularmente no que diz respeito à exploração da identidade africana e lusófona. A sua obra continua a inspirar novos poetas e a ser objeto de estudo académico.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Rui Knopfli tem sido analisada sob a perspetiva da sua dupla identidade (portuguesa e moçambicana) e da sua profunda ligação à terra natal. A sua poesia é vista como um reflexo das complexidades da experiência colonial e pós-colonial, bem como uma meditação sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O seu pseudónimo "Knopfli" tem origem num apelido familiar. A sua ligação a Moçambique é um aspeto central e definidor da sua identidade e obra. A sua vasta cultura e sensibilidade literária permitiram-lhe transitar com mestria entre diferentes géneros e temas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Rui Knopfli faleceu em Lisboa, vítima de doença. A sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser publicada e estudada, mantendo vivo o seu legado poético.

Poemas

10

Testamento

Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.


2 283

Sem nada de meu

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem) . Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.


1 629

Certidão de óbito

Um tempo de lanças nuas
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.

Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.


1 998

O ladrão de versos

Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.



2 053

Posteridade

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
1 699

Uniforme de poeta

Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.



1 666

Princípio do dia

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar).



1 660

Entre a rampa e o caracol da barreira,

Entre a rampa e o caracol da barreira,
o picadeiro ideal para o exibicionismo
laurentino, ao fim da tarde, passeio raso,
sobranceiro à baía e à Catembe.
Enquanto a malta ia e vinha, até ser Marrocos.
Pavoneavam-se as meninas e nós,
idem, flexionando peito e músculo,
miradas discretas em redor. Rotina
diária, sempre cumprida sem atropelos.
Mesmo com a ruidosa chegada do Cagalhim,
a cavalo na sua desconjuntada carrinha Ford,
a tossir e a resfolegar, cansada das correrias
da véspera. Presumido herói, o Cagalhim
era só o bobo daquela festa. Caçador furtivo
e nocturno, sua maior aventura -
rezava a lenda - fora a de ter enfrentado,
sob o holofote, um cocone que, falhado o tiro,
o terá colhido, arrancando-lhe da cara os óculos.
De borco, espezinhado, dizem que o Cagalhim,
faca em punho, o teria capado. Pior ainda,
que vexado, o boi-cavalo, envergando os óculos
do caçarreta, até hoje percorre os matos
em busca dos testículos perdidos. Entretanto,
no Miradouro, para gáudio do pessoal,
o Cagalhim exibe, com alarido, os que não tem.
1 355

Maxilar triste

Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.

Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza

irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:

espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.



1 261

Justerini & Brooks

Este punhal de veludo,
esta fria estalactite,
esta cicuta tão lenta
e que tão profundamente
fere. Esta lâmina

líquida, doirada,
este filtro parecido ao sol,
este rarefeito odor simultâneo
ao fumo, à água, à pedra.
Este adormecer antes do sono,

só preâmbulo da vigília,
que é o gélido acordar
da imaginação para
as fronteiras dormentes
do horizonte protelado.

Este trajecto subterrâneo e húmido
pelos túneis do infortúnio,
que é o adiar moroso
da morte, no prolongar
silencioso da vida,

lágrimas da noite tornadas
pranto da madrigada,
rumor débil e distante
brandindo já no sangue
o endurecer das artérias.



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