Poemas neste tema
Arte
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas...
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a vitrola
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 154
Charles Bukowski
a neve da Itália
do meu rádio agora
vem o som de um órgão louco de verdade,
eu posso ver algum monge
bêbado em uma adega
a mente perdida ou encontrada
falando com Deus de um modo diferente;
eu vejo velas e esse homem tem uma barba vermelha
assim como Deus tem uma barba vermelha;
está nevando, é na Itália, faz frio
e o pão é duro
e não há manteiga,
apenas vinho
vinho em garrafas rubras
com gargalos de girafa,
e agora o órgão sobe, outra vez,
ele o viola,
ele o toca como um louco,
há sangue e cuspe em sua barba,
ele quer rir mas não há tempo,
o sol se põe,
então seus dedos esmorecem,
agora há exaustão e o sonho,
sim, até santidade,
homem indo ao homem,
à montanha, ao elefante, à estrela,
e uma vela cai
mas continua a queimar de lado,
uma poça de cera brilhando nos olhos
do meu monge vermelho,
há musgo nas paredes
e a mancha de pensamento e fracasso e
espera,
então novamente a música sobe como tigres famélicos,
e ele ri,
é um riso de criança, um riso de idiota,
riso por nada,
o único riso que compreende,
ele preme as teclas
igual a parar tudo
e o quarto floresce de loucura,
e então ele para, para,
e senta, as velas queimando,
uma em pé, outra caída,
a neve da Itália é tudo o que resta,
acabou: a essência e a forma.
eu observo enquanto
ele apaga as velas com seus dedos
comprimindo o canto externo de cada olho
e o quarto está escuro
como tudo sempre esteve.
vem o som de um órgão louco de verdade,
eu posso ver algum monge
bêbado em uma adega
a mente perdida ou encontrada
falando com Deus de um modo diferente;
eu vejo velas e esse homem tem uma barba vermelha
assim como Deus tem uma barba vermelha;
está nevando, é na Itália, faz frio
e o pão é duro
e não há manteiga,
apenas vinho
vinho em garrafas rubras
com gargalos de girafa,
e agora o órgão sobe, outra vez,
ele o viola,
ele o toca como um louco,
há sangue e cuspe em sua barba,
ele quer rir mas não há tempo,
o sol se põe,
então seus dedos esmorecem,
agora há exaustão e o sonho,
sim, até santidade,
homem indo ao homem,
à montanha, ao elefante, à estrela,
e uma vela cai
mas continua a queimar de lado,
uma poça de cera brilhando nos olhos
do meu monge vermelho,
há musgo nas paredes
e a mancha de pensamento e fracasso e
espera,
então novamente a música sobe como tigres famélicos,
e ele ri,
é um riso de criança, um riso de idiota,
riso por nada,
o único riso que compreende,
ele preme as teclas
igual a parar tudo
e o quarto floresce de loucura,
e então ele para, para,
e senta, as velas queimando,
uma em pé, outra caída,
a neve da Itália é tudo o que resta,
acabou: a essência e a forma.
eu observo enquanto
ele apaga as velas com seus dedos
comprimindo o canto externo de cada olho
e o quarto está escuro
como tudo sempre esteve.
1 206
Charles Bukowski
Vacas na Aula de Arte
bom tempo
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
1 279
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 057
Charles Bukowski
Morde Morde
ah, as mulheres sabem ser mordazes
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
1 079
Charles Bukowski
O Homem Forte
eu fui vê-lo, lá naquele lugar em
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
693
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
1 115
Charles Bukowski
Praticando
Van Gogh cortou fora sua orelha
e a deu para uma
prostituta
que a jogou longe com
extremo
desgosto.
Van, putas não querem
orelhas
elas querem
dinheiro.
acho que é por isso que você foi
um pintor tão
genial: além da pintura você
não entendia
grande
coisa.
e a deu para uma
prostituta
que a jogou longe com
extremo
desgosto.
Van, putas não querem
orelhas
elas querem
dinheiro.
acho que é por isso que você foi
um pintor tão
genial: além da pintura você
não entendia
grande
coisa.
1 397
Charles Bukowski
Mulher Adormecida
fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
723
Charles Bukowski
Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato
ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
1 394
Charles Bukowski
Milagre
acabei de ouvir uma
sinfonia que Mozart rabiscou
num único dia
e ela tinha uma dose de júbilo
louco e selvagem
capaz de durar
para sempre,
seja lá o que para sempre
for
Mozart chegou o mais próximo
possível
disso.
sinfonia que Mozart rabiscou
num único dia
e ela tinha uma dose de júbilo
louco e selvagem
capaz de durar
para sempre,
seja lá o que para sempre
for
Mozart chegou o mais próximo
possível
disso.
1 189
Charles Bukowski
O Grande Plano
passando fome num inverno da Filadélfia
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
1 244
Charles Bukowski
Bestas Saltando Ao Longo do Tempo –
Van Gogh escrevendo ao irmão pedindo tintas
Hemingway testando sua espingarda
Céline falindo como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs matando a esposa com uma arma
Mailer esfaqueando a dele
a impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remo
Dostoiévski enfileirado num muro para ser fuzilado
Crane pulando de um barco na voragem da hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelos soldados espanhóis
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton tomando veneno de rato
Shakespeare um plagiador
Beethoven com a corneta de surdez enfiada na cabeça
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche totalmente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
esse respirar
pra dentro e pra fora
pra fora e pra dentro
esses marginais
esses covardes
esses campeões
esses loucos cães da glória
movendo um tantinho de luz rumo a
nós
impossivelmente.
Hemingway testando sua espingarda
Céline falindo como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs matando a esposa com uma arma
Mailer esfaqueando a dele
a impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remo
Dostoiévski enfileirado num muro para ser fuzilado
Crane pulando de um barco na voragem da hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelos soldados espanhóis
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton tomando veneno de rato
Shakespeare um plagiador
Beethoven com a corneta de surdez enfiada na cabeça
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche totalmente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
esse respirar
pra dentro e pra fora
pra fora e pra dentro
esses marginais
esses covardes
esses campeões
esses loucos cães da glória
movendo um tantinho de luz rumo a
nós
impossivelmente.
1 263
Charles Bukowski
Um Homem Para Os Séculos
no todo, bebendo aqui rumo às primeiras horas da manhã e
absorvendo o que o rádio me dá: muitos dos compositores das
eras entraram, saíram, tudo no todo, sugando este
adorável vinho e ouvindo, me veio Bach: ele
saboreia a risada de júbilo antes da morte, cada nota como um feijão
selvagem, me entristece que ele tenha baseado sua vida em Deus,
embora eu entenda que isso seja às vezes necessário, mas
não importa tanto a crença de um homem e sim o que ele faz e
Bach o fez tão bem, e ao escutá-lo neste quarto pequeno eu
me sinto um herói só por estar vivo, por ter braços, pernas,
uma cabeça, todas as diversas peças enquanto fico escutando, ingerindo o
som e sugando este adorável vinho
um morto se tornou um amigo e tanto
espero que ele tenha encontrado Deus
ele merece Deus
e Deus
se Ele existir
merece
Bach
e nós também merecemos:
nós os bebuns
nós os agnósticos:
essas notas pulando como feijões
selvagens.
absorvendo o que o rádio me dá: muitos dos compositores das
eras entraram, saíram, tudo no todo, sugando este
adorável vinho e ouvindo, me veio Bach: ele
saboreia a risada de júbilo antes da morte, cada nota como um feijão
selvagem, me entristece que ele tenha baseado sua vida em Deus,
embora eu entenda que isso seja às vezes necessário, mas
não importa tanto a crença de um homem e sim o que ele faz e
Bach o fez tão bem, e ao escutá-lo neste quarto pequeno eu
me sinto um herói só por estar vivo, por ter braços, pernas,
uma cabeça, todas as diversas peças enquanto fico escutando, ingerindo o
som e sugando este adorável vinho
um morto se tornou um amigo e tanto
espero que ele tenha encontrado Deus
ele merece Deus
e Deus
se Ele existir
merece
Bach
e nós também merecemos:
nós os bebuns
nós os agnósticos:
essas notas pulando como feijões
selvagens.
967
Charles Bukowski
Rasgue
quando um poema não funciona, esqueça, não o persiga, não tente
acariciá-lo e molestá-lo, não o faça entrar nos A.A. ou
virar um cristão nascido
de novo.
quando um poema não funciona, simplesmente tire a folha da
máquina, rasgue, jogue no lixo – dá uma sensação
boa.
ouça, você escreve porque é a última metralhadora
na última colina.
você escreve porque é um pássaro sentado num fio, aí
subitamente suas asas batem e o seu traseiro idiota está
voando no ar.
você escreve porque o manicômio está lá arrotando e
peidando, pesado de mentes e corpos, você escreve porque
teme o extremo da loucura...
quando um poema não funciona, ele não funciona; esqueça;
o ritmo é a essência.
sei de uma dama que escreve tantos poemas que ela deve
levantar às 7 da manhã e datilografar até a meia-noite.
ela está numa competição de escrita de poesia – consigo
mesma.
quando um poema não funciona, não é o fim; não é sequer uma
banana podre, não é sequer uma ligação por engano pedindo para falar com
Blanche Higgins.
�
quando um poema não funciona é só porque você não acertou a mão
naquele momento.
ou você acerta
em algum momento?
pegue esse papel, rasgue, descarte, então
espere.
mas não fique sentado diante da máquina, faça outra
coisa – olhe tv, diga oi à sua esposa, mime o
gato.
nem tudo é feito
de papel.
acariciá-lo e molestá-lo, não o faça entrar nos A.A. ou
virar um cristão nascido
de novo.
quando um poema não funciona, simplesmente tire a folha da
máquina, rasgue, jogue no lixo – dá uma sensação
boa.
ouça, você escreve porque é a última metralhadora
na última colina.
você escreve porque é um pássaro sentado num fio, aí
subitamente suas asas batem e o seu traseiro idiota está
voando no ar.
você escreve porque o manicômio está lá arrotando e
peidando, pesado de mentes e corpos, você escreve porque
teme o extremo da loucura...
quando um poema não funciona, ele não funciona; esqueça;
o ritmo é a essência.
sei de uma dama que escreve tantos poemas que ela deve
levantar às 7 da manhã e datilografar até a meia-noite.
ela está numa competição de escrita de poesia – consigo
mesma.
quando um poema não funciona, não é o fim; não é sequer uma
banana podre, não é sequer uma ligação por engano pedindo para falar com
Blanche Higgins.
�
quando um poema não funciona é só porque você não acertou a mão
naquele momento.
ou você acerta
em algum momento?
pegue esse papel, rasgue, descarte, então
espere.
mas não fique sentado diante da máquina, faça outra
coisa – olhe tv, diga oi à sua esposa, mime o
gato.
nem tudo é feito
de papel.
1 060
Charles Bukowski
Todos Os Meus Amigos
Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
1 044
Charles Bukowski
A Geração Perdida
andei lendo um livro sobre uma literata rica
dos anos vinte e seu marido que
beberam, comeram e farrearam pela
Europa toda
encontrando Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, muitos
outros;
os famosos eram como brinquedinhos preciosos para
eles,
e na minha leitura
os famosos se permitiam virar
brinquedinhos preciosos.
durante o livro inteiro
esperei que um único dos famosos
mandasse a literata rica e seu
marido literato rico para
o raio que os partisse
mas, aparentemente, nenhum deles jamais
mandou.
Em vez disso eram fotografados com a dama
e seu marido
em várias praias
com expressão inteligente
como se tudo aquilo fosse parte do ato
da Arte.
talvez o fato de a mulher e o marido
encabeçarem uma exuberante editora
tivesse algo a ver
com isso.
e eram todos fotografados juntos
em festas
ou em frente à livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles foram
artistas excelentes e/ou originais,
mas aquilo parecia um negócio tão refinado
e esnobe,
e o marido por fim cometeu seu
ameaçado suicídio
e a dama publicou um dos meus primeiros
contos nos anos
40 e agora
já morreu, só que
não consigo perdoar nenhum dos dois
pela idiotice de suas vidas ricas
e tampouco
consigo perdoar seus brinquedinhos preciosos
por terem sido
isso.
dos anos vinte e seu marido que
beberam, comeram e farrearam pela
Europa toda
encontrando Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, muitos
outros;
os famosos eram como brinquedinhos preciosos para
eles,
e na minha leitura
os famosos se permitiam virar
brinquedinhos preciosos.
durante o livro inteiro
esperei que um único dos famosos
mandasse a literata rica e seu
marido literato rico para
o raio que os partisse
mas, aparentemente, nenhum deles jamais
mandou.
Em vez disso eram fotografados com a dama
e seu marido
em várias praias
com expressão inteligente
como se tudo aquilo fosse parte do ato
da Arte.
talvez o fato de a mulher e o marido
encabeçarem uma exuberante editora
tivesse algo a ver
com isso.
e eram todos fotografados juntos
em festas
ou em frente à livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles foram
artistas excelentes e/ou originais,
mas aquilo parecia um negócio tão refinado
e esnobe,
e o marido por fim cometeu seu
ameaçado suicídio
e a dama publicou um dos meus primeiros
contos nos anos
40 e agora
já morreu, só que
não consigo perdoar nenhum dos dois
pela idiotice de suas vidas ricas
e tampouco
consigo perdoar seus brinquedinhos preciosos
por terem sido
isso.
1 089
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 220
Charles Bukowski
Algo Sobre a Ação:
aquele
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
1 023
Charles Bukowski
Fazendo Cabeças
ela ainda faz.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
1 180
Charles Bukowski
Porq Tud Se Sgota
abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 050
Charles Bukowski
O.C.E.U.C.S.
em piedade nanica as armas se direcionam para casa,
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
1 028
Charles Bukowski
Risada Literária
escute, cara, não fale sobre os poemas que você
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
1 061
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas –
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
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