Poemas neste tema
Arte
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas –
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 164
Charles Bukowski
Problema Com Espanha
entrei no chuveiro
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
1 040
Charles Bukowski
Carta de Muito Longe
ela me escreveu uma carta de um pequeno
quarto próximo ao Sena.
ela disse que estava indo a uma aula de
dança. ela levantava, me disse
às 5 da manhã
e escrevia poemas
ou pintava
e quando era tomada por uma vontade de chorar
tinha um banco especial
junto ao rio.
seu livro de Canções
sairia
no outono.
eu não sabia o que dizer a ela
mas
eu lhe disse
para arrancar qualquer dente podre
e para tomar cuidado com os amantes
franceses.
coloquei a foto dela sobre o rádio
perto do ventilador
e ela se movia
como uma coisa
viva.
fiquei ali sentado a olhar para ela
até fumar
os 5 ou 6
cigarros restantes.
depois me levantei
e fui para a cama.
quarto próximo ao Sena.
ela disse que estava indo a uma aula de
dança. ela levantava, me disse
às 5 da manhã
e escrevia poemas
ou pintava
e quando era tomada por uma vontade de chorar
tinha um banco especial
junto ao rio.
seu livro de Canções
sairia
no outono.
eu não sabia o que dizer a ela
mas
eu lhe disse
para arrancar qualquer dente podre
e para tomar cuidado com os amantes
franceses.
coloquei a foto dela sobre o rádio
perto do ventilador
e ela se movia
como uma coisa
viva.
fiquei ali sentado a olhar para ela
até fumar
os 5 ou 6
cigarros restantes.
depois me levantei
e fui para a cama.
757
Charles Bukowski
Artista
de súbito me torno um pintor.
uma garota de Galveston me dá
US$ 50 por um quadro de um homem
segurando uma bengala doce enquanto
flutua por um céu escuro.
então um jovem com uma barba negra
aparece
e eu lhe vendo três por US$ 80.
ele gosta de telas grosseiras
nas quais escrevo coisas como –
“cague” ou “GRANDE ARTE É
BOSTA DE CAVALO, COMPRE TACOS”.
posso fazer um quadro em 5 minutos.
uso tinta acrílica, direto do
tubo.
pinto o lado esquerdo do quadro
primeiro com minha mão esquerda e depois
termino o lado direito com minha
mão direita.
agora o jovem barbudo
retorna com um amigo com um cabelo
todo espetado e eles trazem uma loirinha
com eles.
o barba negra continua sendo o mesmo otário:
vendo-lhe um punhado de merda –
um cachorro laranja com a palavra
“CACHORRO” escrita ao seu lado.
o cabelos espetados quer 3 quadros
pelos quais peço US$ 70.
ele não tem a grana.
fico com as telas mas
ele promete me mandar uma
garota chamada Judy
de cinta-liga e saltos altos.
ele já lhe contou sobre mim:
“um escritor de fama internacional”, ele disse
e ela respondeu, “oh, não!” e puxou
seu vestido sobre sua cabeça.
“eu quero isso”, eu lhe disse.
depois discutimos as condições
eu queria comê-la primeiro
e depois receber um boquete.
“que tal o boquete primeiro e
depois a foda?”, ele perguntou.
“isso não funciona”, eu
disse.
então chegamos a um acordo:
Judy viria até aqui e
depois
eu alcançaria a ela as
3 pinturas.
e assim estamos:
de volta ao escambo
o único modo de vencer a
inflação.
apesar disso
gostaria de
iniciar aqui o Movimento pela Libertação Masculina:
quero uma mulher que me dê 3 de
suas pinturas após fazer
amor comigo,
e se ela não souber pintar
pode me deixar
um par de brincos de ouro
ou talvez um pedaço de orelha
em homenagem àquele que
era capaz.
uma garota de Galveston me dá
US$ 50 por um quadro de um homem
segurando uma bengala doce enquanto
flutua por um céu escuro.
então um jovem com uma barba negra
aparece
e eu lhe vendo três por US$ 80.
ele gosta de telas grosseiras
nas quais escrevo coisas como –
“cague” ou “GRANDE ARTE É
BOSTA DE CAVALO, COMPRE TACOS”.
posso fazer um quadro em 5 minutos.
uso tinta acrílica, direto do
tubo.
pinto o lado esquerdo do quadro
primeiro com minha mão esquerda e depois
termino o lado direito com minha
mão direita.
agora o jovem barbudo
retorna com um amigo com um cabelo
todo espetado e eles trazem uma loirinha
com eles.
o barba negra continua sendo o mesmo otário:
vendo-lhe um punhado de merda –
um cachorro laranja com a palavra
“CACHORRO” escrita ao seu lado.
o cabelos espetados quer 3 quadros
pelos quais peço US$ 70.
ele não tem a grana.
fico com as telas mas
ele promete me mandar uma
garota chamada Judy
de cinta-liga e saltos altos.
ele já lhe contou sobre mim:
“um escritor de fama internacional”, ele disse
e ela respondeu, “oh, não!” e puxou
seu vestido sobre sua cabeça.
“eu quero isso”, eu lhe disse.
depois discutimos as condições
eu queria comê-la primeiro
e depois receber um boquete.
“que tal o boquete primeiro e
depois a foda?”, ele perguntou.
“isso não funciona”, eu
disse.
então chegamos a um acordo:
Judy viria até aqui e
depois
eu alcançaria a ela as
3 pinturas.
e assim estamos:
de volta ao escambo
o único modo de vencer a
inflação.
apesar disso
gostaria de
iniciar aqui o Movimento pela Libertação Masculina:
quero uma mulher que me dê 3 de
suas pinturas após fazer
amor comigo,
e se ela não souber pintar
pode me deixar
um par de brincos de ouro
ou talvez um pedaço de orelha
em homenagem àquele que
era capaz.
1 257
Charles Bukowski
O Artista de Domingo
tenho pintado nos últimos dois domingos;
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
1 257
Charles Bukowski
Os Falastrões
o garoto caminha por minha alma com pés
embarrados
falando de recitais, virtuosi, regentes,
os romances menos conhecidos de Dostoiévski;
falando de como corrigiu uma garçonete,
uma fuleira que não sabia que a vestimenta francesa
se compunha disso e daquilo;
ele tagarela sobre as Artes até que
eu odeie as Artes,
e não há nada mais limpo
do que voltar ao bar ou
às pistas para vê-los correr,
ver as coisas sem este
clamor e papagaiada,
conversa, conversa, conversa,
a boquinha que não para, os olhos piscando,
um garoto, uma criança, doente por causa das Artes
agarrado a elas como à saia de uma mãe,
e eu me pergunto quantas dezenas de milhares
existem como ele espalhados pela terra
em noites chuvosas
em manhãs de sol
em fins de tarde feitos para a paz
em salas de concerto
em cafés
em saraus
falando, emporcalhando, argumentando.
é como um porco que vai para a cama
com uma boa mulher
e você já não quer
mais essa mulher.
embarrados
falando de recitais, virtuosi, regentes,
os romances menos conhecidos de Dostoiévski;
falando de como corrigiu uma garçonete,
uma fuleira que não sabia que a vestimenta francesa
se compunha disso e daquilo;
ele tagarela sobre as Artes até que
eu odeie as Artes,
e não há nada mais limpo
do que voltar ao bar ou
às pistas para vê-los correr,
ver as coisas sem este
clamor e papagaiada,
conversa, conversa, conversa,
a boquinha que não para, os olhos piscando,
um garoto, uma criança, doente por causa das Artes
agarrado a elas como à saia de uma mãe,
e eu me pergunto quantas dezenas de milhares
existem como ele espalhados pela terra
em noites chuvosas
em manhãs de sol
em fins de tarde feitos para a paz
em salas de concerto
em cafés
em saraus
falando, emporcalhando, argumentando.
é como um porco que vai para a cama
com uma boa mulher
e você já não quer
mais essa mulher.
1 132
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
1 459
Charles Bukowski
Vegas
havia uma árvore congelada que eu queria pintar
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
796
Charles Bukowski
De Graça
esta garota na arquibancada
com os cabelos de um ruivo esmaecido
ficava apoiando seus peitos contra mim
e falando sobre Gardena
mesas de pôquer
mas joguei fumaça em
seu rosto
e falei a ela sobre uma exposição
de Van Gogh
que eu havia visto lá na colina
e naquela noite
quando a levei para casa
ela disse que
Vermelhão era o melhor cavalo
que ela já tinha visto –
até que eu fiquei sem nada. Embora
eu pensasse naquele negócio do Van Gogh
em que haviam cobrado
50 centavos.
com os cabelos de um ruivo esmaecido
ficava apoiando seus peitos contra mim
e falando sobre Gardena
mesas de pôquer
mas joguei fumaça em
seu rosto
e falei a ela sobre uma exposição
de Van Gogh
que eu havia visto lá na colina
e naquela noite
quando a levei para casa
ela disse que
Vermelhão era o melhor cavalo
que ela já tinha visto –
até que eu fiquei sem nada. Embora
eu pensasse naquele negócio do Van Gogh
em que haviam cobrado
50 centavos.
1 113
Charles Bukowski
A Vida de Borodin
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
1 091
Charles Bukowski
A Promessa
ela se inclinou sobre o lado da cama
e abriu um portfolio
junto à parede.
estávamos bebendo.
ela disse, “você me prometeu esses
quadros uma vez, não
lembra?”
“o quê? não, não, não lembro.”
“bem, você prometeu”, ela disse, “e você
sabe que promessa é dívida.”
“tire a mão desses quadros”,
eu disse.
então fui até a cozinha buscar
uma cerveja. fiz uma parada para vomitar
e quando voltei
pude vê-la sair pela janela
atravessando o pátio
em direção à sua casa que ficava nos fundos.
ela tentava correr
e ao mesmo tempo equilibrar 40 pinturas
sobre a cabeça:
óleos
telas em preto e branco
acrílicos
aquarelas.
ela pisou em falso e quase
caiu sentada.
então subiu depressa os degraus da varanda
e sumiu porta adentro em direção ao
seu apartamento que ficava escada acima
avançando com todos aqueles quadros
sobre a cabeça.
foi uma das coisas mais
engraçadas que jamais vi.
bem, suponho que o negócio agora seja
pintar mais 40.
e abriu um portfolio
junto à parede.
estávamos bebendo.
ela disse, “você me prometeu esses
quadros uma vez, não
lembra?”
“o quê? não, não, não lembro.”
“bem, você prometeu”, ela disse, “e você
sabe que promessa é dívida.”
“tire a mão desses quadros”,
eu disse.
então fui até a cozinha buscar
uma cerveja. fiz uma parada para vomitar
e quando voltei
pude vê-la sair pela janela
atravessando o pátio
em direção à sua casa que ficava nos fundos.
ela tentava correr
e ao mesmo tempo equilibrar 40 pinturas
sobre a cabeça:
óleos
telas em preto e branco
acrílicos
aquarelas.
ela pisou em falso e quase
caiu sentada.
então subiu depressa os degraus da varanda
e sumiu porta adentro em direção ao
seu apartamento que ficava escada acima
avançando com todos aqueles quadros
sobre a cabeça.
foi uma das coisas mais
engraçadas que jamais vi.
bem, suponho que o negócio agora seja
pintar mais 40.
1 132
Charles Bukowski
Um Poema Rude
eles seguem escrevendo
despejando poemas...
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.
eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.
quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próxima revista na lista,
e eles fazem leituras
todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes
esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão todos tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap...
despejando poemas...
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.
eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.
quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próxima revista na lista,
e eles fazem leituras
todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes
esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão todos tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap...
1 300
Charles Bukowski
O Grego
o cara do pátio da frente não consegue
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
680
Charles Bukowski
99 Para Um
o tubarão resplandecente
quer meus bagos
enquanto atravesso a seção de carnes
em busca de salame e queijo
donas de casa púrpuras
apalpando abacates de 75 centavos
sabem que meu carrinho é um
pau monstruoso
sou um homem com um relógio antigo
parado em uma cabine telefônica numa espelunca
chupando um bico vermelho como morango
de cabeça para baixo em meio à multidão na Filadélfia.
de repente tudo ao meu redor são gritos de
ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO
e eu estou metendo em alguma coisa debaixo de mim
cabelos de um ruivo opaco, mau hálito, dentes azuis
costumava gostar de Monet
costumava gostar muito de Monet
era divertido, eu pensava, o que ele fazia
com as cores
mulheres são caras demais
coleiras para cachorro são caras
vou começar a vender ar em sacos alaranjados
com os dizeres: florescências da lua
costumava gostar de garrafas cheias de sangue
jovens garotas em casacos de pelo de camelo
Príncipe Valente
o toque mágico do Popeye
o esforço está no esforço
como um saca-rolhas
um homem de verdade não deixa farelos de cortiça no vinho
este pensamento já ocorreu a milhões de homens
ao se barbearem
a remoção da vida talvez fosse preferível à
remoção dos pelos
cuspa algodão e limpe seu espelho
retrovisor, corra como se tivesse vontade, ex-atleta,
as putas vencerão, os tolos vencerão,
mas dispare como um cavalo ao sinal da largada.
quer meus bagos
enquanto atravesso a seção de carnes
em busca de salame e queijo
donas de casa púrpuras
apalpando abacates de 75 centavos
sabem que meu carrinho é um
pau monstruoso
sou um homem com um relógio antigo
parado em uma cabine telefônica numa espelunca
chupando um bico vermelho como morango
de cabeça para baixo em meio à multidão na Filadélfia.
de repente tudo ao meu redor são gritos de
ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO
e eu estou metendo em alguma coisa debaixo de mim
cabelos de um ruivo opaco, mau hálito, dentes azuis
costumava gostar de Monet
costumava gostar muito de Monet
era divertido, eu pensava, o que ele fazia
com as cores
mulheres são caras demais
coleiras para cachorro são caras
vou começar a vender ar em sacos alaranjados
com os dizeres: florescências da lua
costumava gostar de garrafas cheias de sangue
jovens garotas em casacos de pelo de camelo
Príncipe Valente
o toque mágico do Popeye
o esforço está no esforço
como um saca-rolhas
um homem de verdade não deixa farelos de cortiça no vinho
este pensamento já ocorreu a milhões de homens
ao se barbearem
a remoção da vida talvez fosse preferível à
remoção dos pelos
cuspa algodão e limpe seu espelho
retrovisor, corra como se tivesse vontade, ex-atleta,
as putas vencerão, os tolos vencerão,
mas dispare como um cavalo ao sinal da largada.
1 200
Charles Bukowski
Chopin Bukowski
este é meu piano.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
1 277
Charles Bukowski
Este Poeta
este poeta andou bebendo durante 2 ou 3 dias e ele entrou no palco e olhou para a plateia e
imediatamente soube que iria fazer aquilo. ha via um piano de cauda no palco
e ele foi até lá,
abriu a tampa e vomitou dentro. então fech ou a tampa e fez sua leitura.
eles tiveram
que remover as cordas do piano e limpar o interior para en tão recolocá-las.
posso entender
por que nunca voltaram a convidá-lo. mas espalhar para
outras universidades que ele era um poeta
que gostava de vomitar em pianos de cauda não foi justo.
eles jamais consideraram a qualidade de sua leitura. conheço esse poeta: ele é como todos nós: vomitará em qualquer lugar por dinheiro.
imediatamente soube que iria fazer aquilo. ha via um piano de cauda no palco
e ele foi até lá,
abriu a tampa e vomitou dentro. então fech ou a tampa e fez sua leitura.
eles tiveram
que remover as cordas do piano e limpar o interior para en tão recolocá-las.
posso entender
por que nunca voltaram a convidá-lo. mas espalhar para
outras universidades que ele era um poeta
que gostava de vomitar em pianos de cauda não foi justo.
eles jamais consideraram a qualidade de sua leitura. conheço esse poeta: ele é como todos nós: vomitará em qualquer lugar por dinheiro.
1 149
Manuel Bandeira
Minha Gente Salvemos Ouro Preto
As chuvas de verão ameaçaram derruir Ouro Preto.
Ouro Preto, a avozinha, vacila.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
Bem sei que os monumentos veneráveis
Não correm perigo.
"Mas Ouro Preto não é só o Palácio dos Governadores
A Casa dos Contos,
A Casa da Câmara,
Os templos,
Os chafarizes,
Os nobres sobrados da Rua Direita.
Ouro Preto são também os casebres de taipa de sopapo
Agúentando-se uns aos outros ladeira abaixo,
O casario do Vira-Saia,
Que está vira-não-vira enxurro,
E é a isso que precisamos acudir urgentemente!
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
Homens ricos do Brasil
Que dais quinhentos contos por um puro-sangue de corridas,
Está certo,
Mas dai também dinheiro para Ouro Preto.
Grã-finas cariocas e paulistas
Que pagais dez contos por um modelo de Christian Dior
E meio conto por uma permanente no Baldini,
Está tudo muito certo,
Mas mandai também dez contos para consolidar umas quatro casinhas de Ouro Preto.
(Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto vos acrescentará...)
Gentes da minha terra!
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa vontade de autonomia nos sonhos frustrados dos Inconfidentes.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa arte nas igrejas e esculturas do Aleijadinho.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa poesia nos versinhos do Desembargador.
Minha gente,
Salvemos Ouro Preto.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
Ouro Preto, a avozinha, vacila.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
Bem sei que os monumentos veneráveis
Não correm perigo.
"Mas Ouro Preto não é só o Palácio dos Governadores
A Casa dos Contos,
A Casa da Câmara,
Os templos,
Os chafarizes,
Os nobres sobrados da Rua Direita.
Ouro Preto são também os casebres de taipa de sopapo
Agúentando-se uns aos outros ladeira abaixo,
O casario do Vira-Saia,
Que está vira-não-vira enxurro,
E é a isso que precisamos acudir urgentemente!
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
Homens ricos do Brasil
Que dais quinhentos contos por um puro-sangue de corridas,
Está certo,
Mas dai também dinheiro para Ouro Preto.
Grã-finas cariocas e paulistas
Que pagais dez contos por um modelo de Christian Dior
E meio conto por uma permanente no Baldini,
Está tudo muito certo,
Mas mandai também dez contos para consolidar umas quatro casinhas de Ouro Preto.
(Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto vos acrescentará...)
Gentes da minha terra!
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa vontade de autonomia nos sonhos frustrados dos Inconfidentes.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa arte nas igrejas e esculturas do Aleijadinho.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa poesia nos versinhos do Desembargador.
Minha gente,
Salvemos Ouro Preto.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
1 324
Manuel Bandeira
Saudação a Murilo Mendes
Saudemos Murilo Medina Celi Monteiro Mendes que menino invadiu o céu na cola do cometa de Halley.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
1 161
Charles Bukowski
M.T.
M.T.[1]
ela morava em Galveston e fazia
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
1 137
Charles Bukowski
O Que Eles Querem
Vallejo escrevendo sobre
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cérebro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
– é isso o que eles querem:
o danado dum show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranquilos
seguros
admiradores de
carnavais.
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cérebro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
– é isso o que eles querem:
o danado dum show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranquilos
seguros
admiradores de
carnavais.
1 236
Manuel Bandeira
Gesso
Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.
4 773
Manuel Bandeira
Bélgica
Bélgica dos canais de labor perseverante,
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia...
Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingênua vela branca...
Mais de uma vela nova... mais de uma vela virgem...
Bélgica das velas brancas e virgens!
Bélgica dos velhos paços municipais,
Umidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.
Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.
Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
* Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta...
Bélgica dos carrilhões católicos.
Bélgica dos poetas iniciadores,
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados de Flandres.
Bélgica das velas ingênuas e virgens.
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia...
Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingênua vela branca...
Mais de uma vela nova... mais de uma vela virgem...
Bélgica das velas brancas e virgens!
Bélgica dos velhos paços municipais,
Umidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.
Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.
Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
* Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta...
Bélgica dos carrilhões católicos.
Bélgica dos poetas iniciadores,
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados de Flandres.
Bélgica das velas ingênuas e virgens.
1 089
Manuel Bandeira
Improviso
Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
1 354