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Árvores, florestas e montanhas

Herberto Helder

Herberto Helder

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Dançam segundo o ouro quer dizer fazem da fieira de estrelas africar
uma oficiação dos fogos. Trouxeram-nas para as paredes da caverna,
empurram-nas, uma
ignição floral, arqueadas, amarelo,
espigam nos abismos.
Eles dão luz com os braços e as pernas até que o vento tudo
sopra nessa lição até que
o irradiante os gestos magnificam
as formas do ar no ouro: a seara astronómica.
Primeiro como pessoas depois são animais que o sangue ata na garga
O mundo é numeroso.
O corpo, a dança devora-o vivo.
Alguém remoto sabia de outra escola disse:
este movimento no chão responde em labaredas.
Mas eles traziam à pedra a obra alumiada. Isto mantém em baixo
os organismos, coisas, cadeias
dos elementos.
Quando alguém abre o ar quando entra sideralmente a árvore a luz
consome-a folha a folha. Eles arrastam
em vagas paus queimados desde a medula
estrelas desde a medula eles
entalharam
na árvore
o seu nome vibrante a seiva enche o nome todo
que nome? estrelas é um nome
quem dança é um nome largo
o cordão de células pintado nos recessos,
a terra é o nome que a seiva irriga até aos nós profundos.
Como quem trança fibras — coração fechado
nas palavras, máquina, dentro. Então os espaços dança
a dança ininterruptos, a pedra cardiacamente escrita.
Os dedos tocam, atravessam-na.
Isto electrifica-se isto é um poder que vem
não das câmaras do sangue apenas mas
de uma aliança. Os corpos movem as estrelas.
Essa árvore das chamas essa
constelação inoxidável circundada pelo vento.
Eles brilham entre as folhas que brilham. O mundo — e
colocam pés e mãos, brilha. Colocam os raios das coisas, arrancam
à massa compacta a risca limpa.
Oh cingir tudo, uma
a uma as matérias com as estrelas sísmicas e
— o ar dentro das faúlhas
— as faúlhas dentro da pedra: manchas de tanto amarelo repetido.
Alguém disse: outro
verbo, outra vida, outra floração que as mãos ao rodeá-la
acendessem.
A dança ensina ao alto a astronomia —
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Herberto Helder

Herberto Helder

5

São estes — leopardo e leão: carne turva e
atravessadamente
rítmica a sonhar nas noites de água aos buracos.
Montanhas das áfricas,
montanhas das árvores que sangram.
Há tanto ar rodeando as árvores nas montanhas: na sua
animalidade
dourada, leões e leopardos compactos aligeiram-se
com o ar onde crescem as montanhas. Carne
violenta, e amargo o sangue que lhes alimenta a elegância
— e então eles
aproximam-se, leves em seus arcos eléctricos,
ao canto e ao movimento dos dedos no giro de uma rosa.
Leopardos vivos debaixo das coroas, e os leões que alguém
soprou na boca. Como descem o ar
e a água das montanhas, como
se embrenham pelas árvores sangrando no escuro — e saem
ao reluzir dos dedos e aos cantos
roucos, nas áfricas. Penso
que os não posso aflorar — a descarga queimaria tudo:
mão, e aveia até à garganta e à mágica
das palavras unidas. Mas se viessem decifrar as chagas
das palmas viradas para a lua. E as coisas
mentais
da sua loucura negra se abalassem à corola doada nos dedos.
Se na volta das cabeças abertas entre os nervos de um brilhante
distinguissem a largura da minha noite,
e me enchessem do seu bafo,
e dançassem. O caos encontrava o equilíbrio
dos algarismos. Talvez cantassem, leão e leopardo
comigo: garras e unhas lunadas,
gargantas, as mesmas
pupilas bruscas, a mesma seiva, o mesmo furor
dourado na escuridão. Que sono é esse de onde saio quando os faço
morosamente sair
do sono? Fluxo que descerra o fluxo, rosto
que embranquece contra outros rostos lado a lado, com força, com
segredo. Como se a meia voz
se enaltecesse a floresta. As temperaturas difundem-se pelos feixes
das pedrarias secretas.
Porque é o mundo: vibra tendão a tendão na pedra
que se apanha, acordada na sua
seiva, pedra
de toque ao toque zoológico em tudo: ouro e mármore, o peso
da água sobre
a música. Que voz me dão as vozes? Que doçura ou inocência
ou arte
oculta manobra a minha vida por entre aquilo
que se transforma? E a traqueia, quem
a modula? A noite estremece nos centros de água. E o cristal das cabei
talhado a fio límpido
rasga a membrana: começa a ferver a luz como uma
coroação, a realeza
do poema animal —leopardo e leão. Oh,
cantam em música humana, eles, no trono
das montanhas das áfricas
redivivas —
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Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - Vi

É a colina na colina, colina
das colinas frias.
Colina devagar por ela acima, brotando
sobre a raiz da colina. Oh fria raiz deitada
na pedra sinistra fria da raiz
da colina. Na húmida
treva pedra vazia, na alegria
abstracta dos fogos, das águas oh sombrias.
Colina profunda, colina de
colina muda. Mexendo nos fogos,
nas águas extremas vazias, nas massas
nocturnas unas — respirando.
Batendo os leves pêlos nas gotas frias
das águas,
e as pesadas estrelas nas veias sombrias.
Colina acocorada na raiz ríspida
da colina, feroz por ela abaixo, ladeada
pelas paredes direitas da melancolia. É
a colina na colina. Depois para cima, colina
das colinas amargas estremes.
De alegria para cima, na audácia das brutas
assimetrias. Colina de pé
sobre as visões, as culpas,
os crimes — batendo os pés unidos na boca
aberta das mães sinistras e vazias. Colina
na colina nas colinas das ilusões
quentes, duras, puras, sombrias. Colina
em baixo e para cima.
É a colina em cima com árvores redondas,
vivas, rápidas e oh frias.
Arvorezinhas da colina, vazias.
##RETRATÍSSIMO OU NARRAÇÃO DE UM HOMEM DEPOIS DE MAIO
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.

Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e ardente
perto perto.
Por/cima, nuvens de cinza revoltada.
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.

Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquimpura contínua — mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia. Que os poderes oh confundia.

Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urda do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.

Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.

Não tem amor senão do amor.
E um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.

Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca — ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma.
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
Nele tudo ousa.

Vai morrer imensamente (ass)assinado.
1961-62.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Húmus

Material: palavras, frases, fragmentos, imagens, metáforas do Húmus de Raul Brandão,
Regra: liberdades, liberdade.

Pátios de lajes soerguidas pelo único
esforço da erva: o castelo —
a escada, a torre, a porta,
a praça.
Tudo isto flutua debaixo
de água, debaixo de água.
— Ouves
o grito dos mortos?

A pedra abre a cauda de ouro incessante,
só a água fala nos buracos.

São palavras pronunciadas com medo de pousar,
uma tarde que viesse na ponta dos pés, o som
devagar de uma
borboleta.
—A morte não tem
só cinco letras. Como a claridade na água
para me entontecer,
a cantaria lavrada:
com um povo de estátuas em cima,
com um povo de mortos em baixo.

Primaveras extasiadas, espaços negros, flores desmedidas
— todos os dias debalde repelimos os mortos.

É preciso criar palavras, sons, palavras
vivas, obscuras, terríveis.
Uma candeia vem de mão de mulher
em mão de mulher, debruça-se
sobre uma grandeza.
Aumenta.
— Quem grita?

Só a água fala nos buracos.

Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta
no interior da terra. Somos
um reflexo dos mortos, o mundo
não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto
— as palavras, palavras.

A lua de coral sobe
no silêncio, por trás
da montanha em osso. É o silêncio.
O silêncio e o que se cria no silêncio.
E o que remexe no silêncio.
É uma voz.
A morte.

— Nas tardes estonteadas encontrei
uma árvore de pé, do tamanho
de um prédio. As árvores
atravessam o inverno, ressuscitam.
São as primaveras sucessivas, delicadas, as primaveras
frenéticas. As primeiras primaveras.
Primaveras que atingem o auge nos mortos.

Fecho os olhos: há outra coisa enorme.
Atrás desta vila há outra vila maior, outra
imagem maior. Há palavras
que é preciso afundar logo noutras
palavras.
— Uma vida monstruosa.
Quando falo está ali outra coisa quando
me calo.
Outra figura maior.

Fecho os olhos: vejo virem os gestos. O espanto
recamado de mundos caminha
desabaladamente.
— Sinto os mortos.
Aterra remexe. De mais longe
vem um ímpeto. Põe-se a caminho a imensa
floresta apodrecida. Ouve-se
a dor das árvores. Sente-se a dor
dos seres
vegetativos,
ao terem de apressar a sua
vida lenta. Pôs-se a caminho
um remexer de treva. E não tardam
as dispersas primaveras,
uma atrás da outra.

Passa no mundo a estranha ventania. Os mortos
empurram os vivos.
E o tumulto,
o peso do espanto, as forças
monstruosas e cegas. Apedra espera ainda
dar flor, o som
tem um peso, há almas embrionárias.
—Tudo isto se fez pelo lado de dentro,
tudo isto cresceu pelo lado de dentro.

Acrescentou-se o tempo um alto
relevo esquecido.
O tempo.
Acrescentou-se um pórtico aos pórticos,
um terraço aos terraços. E um friso
fantástico com uma cidade incompleta.
Aqui a nave atinge alturas
desconexas: o tempo.
Ouves o grito dos mortos?
— O tempo.

É preciso criar palavras, sons, palavras
vivas, obscuras, terríveis.
É preciso criar os mortos pela força
magnética das palavras.
Através da paciência,
o esforço do homem tende para
a criação dos mortos.

Por trás da imobilidade, horas verdes
caem de espaço a espaço
— gotas de água no fundo de um subterrâneo.
E em volta um círculo de montanhas atentas.
No alto da noite côncava e branca,
uma camélia gelada. E metem as árvores
para o interior
a tinta e os ramos.
Absorção
dolorosa, diamante polido, vegetação
criptogâmica.
— O tempo.
E o céu. Basta-nos o nome para lidar
com ele.
O céu.
Uma nódoa que se entranha
noutra nódoa.
—A água tem um som.

Mar inesgotável que desliza no silêncio.

Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo
sem tremer: sinto-me
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.
E estou só e a noite.

Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.

O lento acordar das vozes submersas: uma treva
viva, um buraco de treva.
Imaginem
isto, imaginem
o lojista em debate com a vida subterrânea,
o lojista deparando com uma alma esplêndida,
e depois outro assombro.
E atrás deste assombro há outro assombro.
Passos apressados dentro das próprias almas.

A pedra abre a cauda de ouro incessante.

Mãos sôfregas palpam sedas amarelas,
e pergunto,
perguntas, perguntam.
Oh, palavras não, porque tudo está vivo:
o assombro, o esplendor, o êxtase,
o crime.
Noite caiada com uma mancha vermelha
de pólo a pólo, catástrofes
boreais, estrelas no caos, terrores
eléctricos.
— Ouves o grito dos mortos?

Também eu atravessei o inferno.
Chegava
a ouvir o contacto das aranhas devorando-se
no fundo. O meu horrível pensamento só a custo
continha o tumulto dos mortos.
Há dias em que o céu e o inferno esperam
e desesperam. Velhos lojistas
olham para si próprios com terror.
Uma coisa desconforme
levanta-se
e deita-se
connosco.
— São outros mortos ainda.

Vê tu a árvore: uma camada de flor — um grito,
outra camada de flor —outro grito.
Sob o fluido eléctrico, o quintal
tresnoita. Até o escuro se eriça. Há diálogos
formidáveis na obscuridade.
Nesta primavera há duas primaveras — perfume,
ferocidade. Turbilhão azul sem nome.
O sonho irrompe como hastes de cactos, pélago
desordenado.
— Eu sou a árvore e o céu,
faço parte do espanto, vivo e morro.

Vem a noite. Os céus nocturnos parecem
ter gelado em azul. Vem a noite,
e com a noite interrogo-me: — Existe?
O que existe é monstruoso.
Por trás de mim há uma coisa
que apavora.
— Ouves o grito dos mortos?

Respiro. É uma atmosfera
de reticências. Aparte de dentro é que está
viva. Respiro.
—A beleza não existe.
A miséria conserva, tem os cabelos pretos,
perde-os todas as noites com um sorriso
de angústia.

Aqui nesta cripta está o relento,
branco e mole, criado
na escuridão e no silêncio. Branco e sem olhos.
Branco e mole, onde
se ouve o lento trabalho
das aranhas no fundo.
— Sentiste
o teu pensamento avançar
no silêncio?
mais um passo
Sentiste-o avançar no silêncio?
Dentro de cada ser ressurgem os mortos.
A noite com outras noites em cima.
Há como um assassinato de que
se não ouvem
os gritos.
O sol negro.
Lepra.
As canduras.

Só a água fala nos buracos.

Estamos como sons, peixes
repercutidos. O homem rói dentro do homem,
criam-se
olhos que vêem na obscuridade.
Deitamos flor pelo lado de dentro.
— Os túmulos
estão gastos de um lado pelos passos
dos vivos, e do outro
pelo esforço dos mortos.
Moram de um lado o espanto, a lentidão, a paciência,
a ferocidade.
Aqui agora a escuridão é viva.
De pé, de ferro, olhos brancos, verde.
Irrompe para o lado de fora.
— Está viva.

Ouço o ruído calamitoso das águas.

São muitas vozes.
Os mortos estonteados
têm medo de nascerem belos.
A noite
é de aparato.
Atrás disto andam enxurradas
de sóis e de pedras, e outras figuras tremendas
atrás das palavras. Fica de pé
o espanto, e os mortos mais vivos
do que quando estavam vivos.

Sob o fluido
eléctrico, todo o ano as árvores se desentranham
em flor. Pegou-lhes sonho também, é um
desbarato, uma
profusão que as devora. A alma
é exterior, envolve
e impregna o corpo. Na pedra recalcada
e concentrada, os grandes fluidos
desgrenhados. Na árvore, a alma da árvore.
Na pedra, a alma da pedra.

Ouves o grito dos mortos?
E preciso
abalar os túmulos, desenterrar os mortos.
Através da pedra destas fisionomias, transparecem
outras fisionomias.
Os mortos, os mortos.
Usam a cabeça como quem usa um resplendor.
De pé na voragem,
pergunto,
perguntas,
perguntam.
E nesse momento de paixão, todas
as forças se concentram, e ponho o pé
no mistério.

Estalaram os botões dos salgueiros.
Um bafo húmido-lilás turba e perturba.
A primavera toca mais fundo na loucura, revolve
os vivos e os mortos.
— Todos deitam flor.

Cai o inverno dentro da primavera,
engrandece-a: tudo se entreabre em vertigem
azul.
Os mortos andam.
Vagueia a floresta apodrecida e avança
desenraizada
para mim.
Uma inocência atroz,
uma tristeza irreflectida
põe a mão e molha, deforma tudo, destinge sonho.

O que estava por baixo está agora por cima.
A flor esbraseada das noites sobre noites
de concentração, com o sítio
imóvel, as labaredas do sítio imóvel.

Tudo está ligado e é conduzido
por uma mão enorme.
As bocas falam
por muitas bocas.
— Ouves o grito dos mortos?
A um grito em baixo corresponde logo
um grito em cima.
Os seres
extraordinários
que ainda não tinham entrado no mundo.

Um arranco na profundidade, põe-se
a caminho outro panorama.
Esta luta
entre o inferno e o sonho revestiu-se
de cimento e de grandeza.
Sustentada num único pilar, a noite —
poça azul, ouro gelado —
tem os cabelos em pé.
O pavor entrou em plena primavera.
Cachorros, agachados de terror, sustentam
uma arcatura de luz intolerável.

É o sonho em marcha, a que não ouço
os passos, uma gota de tinta como uma gota
de leite.
Delicadeza, abundância, tinta
entornada.
A cerejeira é uma aparição,
a febre devora as macieiras, todas
as árvores se consomem de sonho.
São construções vivas, fixadas no silêncio,
suspensas na luz.
Ah, cinematografar
a morte de uma flor, uma tábua atónita,
um nome transfigurado.
— Ouves
o grito dos mortos?

Gomo se as palavras
gesticulassem para dentro, como uma primavera
escorre morte.
Agora meto-me medo.
Dois castiçais de prata foram a minha vida.
As aranhas envelhecem,
as sombras caminham,
dessa pata monstruosa escorre sempre ternura.

A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
Apenas
o som devagar de uma borboleta, um exagero
minúsculo, medo, uma névoa sensível, uma
mulher, o que vale um pássaro.
Apenas
as velhas, uma roda de aranhas na cabeça
— até que adormecem comum sorriso
cândido.
— Quem grita?

Atravessei viva o inferno — diz uma árvore
entontecida, tão viva
que a confundo com a morte.
E uma inteligência
exterior.
Sou os mortos — diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu.
E o diálogo dos dias e das noites,
entre as fazendas petrificadas e os grandes
desmoronamentos das estrelas.
Mais braços na monstruosa árvore do sonho,
cores ininterruptas, colunatas
absortas, pórticos
imaginários, a sombra da sombra.

Também eu atravessei o inferno.
Chegava
a ouvir o contacto das aranhas devorando-se
no fundo. O meu horrível pensamento só a custo
continha o tumulto dos mortos.
Pergunto,
perguntas, perguntam.
Oh, palavras não,
porque tudo está vivo: o assombro, o esplendor,
o êxtase,
o crime.
As figuras
são figuras de delírio, deitam raízes
tremendas, atentas,
raízes eléctricas.

Ah, uma catástrofe que engrandeça,
o prestígio da peste, a fascinação das coisas
mais altas.
Os mortos, uma enxurrada
de cores rudimentares, o colérico
crime dos mortos.
E o grito dos mortos libertos.

Imóveis, magnéticas — as sedas amarelas.
Acordou toda a peste nas florestas
intangíveis.
Os astros mudam de cor
de queda em queda.
É preciso
criar palavras, sons, palavras vivas,
obscuras, terríveis.
— Ouves o grito dos mortos?

É preciso matar os mortos,
outra vez,
os mortos.


1966.
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