Poemas neste tema
Céu, Estrelas e Universo
Fernando Pessoa
OH, SOLITARY STAR
Oh, solitary star, that with bright ray
Lookst from the bosom of envolving night,
Loveliest that none contests thy spaceful way
Now when with rivals is the sky not dight.
Vouch safe on me to keep thy tiny stare
Blinking at night as if in sleepy joy,
Or as the sleepy eyes of some young fair
Who chides their closing to her thought's warm toy.
That there are other stars I well do know
And others that may shine more bright and true;
And yet I wish them not, for one doth so
Outwit decision and attention sue.
And if from this thou can no lesson learn.
Much hast thou spurned that Goodness may not spurn
Lookst from the bosom of envolving night,
Loveliest that none contests thy spaceful way
Now when with rivals is the sky not dight.
Vouch safe on me to keep thy tiny stare
Blinking at night as if in sleepy joy,
Or as the sleepy eyes of some young fair
Who chides their closing to her thought's warm toy.
That there are other stars I well do know
And others that may shine more bright and true;
And yet I wish them not, for one doth so
Outwit decision and attention sue.
And if from this thou can no lesson learn.
Much hast thou spurned that Goodness may not spurn
1 539
Fernando Pessoa
Out of a great nebula of Night and Storm
Out of a great nebula of Night and Storm
Borne upon a great void within our Space,
My soul was formed and stares God in the face
Out of that silence where there is no Form.
The empty carcase of Place
The silent ecstasy of Hours,
Life, like abandoned flowers,
Thought, like a forlorn grace.
Borne upon a great void within our Space,
My soul was formed and stares God in the face
Out of that silence where there is no Form.
The empty carcase of Place
The silent ecstasy of Hours,
Life, like abandoned flowers,
Thought, like a forlorn grace.
1 307
Fernando Pessoa
I have outwatched the Lesser Wain, and seen
I have outwatched the Lesser Wain, and seen
The remnant stars grow pale; but the used night
Has to the thought that used it sterile been,
Nor lost that use by pressure of delight.
My fixed, impatient thought no reason read;
What I scarce read my unthought thought made stray;
My soul between the living and the dead
Was a blown vapour, without place or way.
What the morn brought or took I cannot tell,
That had no use to bring or use to find.
All night I lay under the barren spell.
The day cannot dispel what the void wind
Ruinous built in the shorn night: its glow
Can but the night's made desert brightly show.
The remnant stars grow pale; but the used night
Has to the thought that used it sterile been,
Nor lost that use by pressure of delight.
My fixed, impatient thought no reason read;
What I scarce read my unthought thought made stray;
My soul between the living and the dead
Was a blown vapour, without place or way.
What the morn brought or took I cannot tell,
That had no use to bring or use to find.
All night I lay under the barren spell.
The day cannot dispel what the void wind
Ruinous built in the shorn night: its glow
Can but the night's made desert brightly show.
1 408
Fernando Pessoa
O melodioso sistema do Universo,
O melodioso sistema do Universo,
O grande festival pagão de haver o sol e a lua
E a titânica dança das estações
E o ritmo plácido das eclípticas
Mandando tudo estar calado.
E atender apenas ao brilho exterior do universo.
O grande festival pagão de haver o sol e a lua
E a titânica dança das estações
E o ritmo plácido das eclípticas
Mandando tudo estar calado.
E atender apenas ao brilho exterior do universo.
1 520
Fernando Pessoa
Desperto de sonhar-te
Desperto de sonhar-te
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.
Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.
Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.
Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.
Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
1 390
Fernando Pessoa
Não fales alto que isto aqui é vida —
Não fales alto que isto aqui é vida —
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas...
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me faz carne os ossos...
Somos todos aquilo...
Bamboleamos, moscas, com asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas...
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me faz carne os ossos...
Somos todos aquilo...
Bamboleamos, moscas, com asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.
1 472
Fernando Pessoa
Hé-lá que eu vou chamar
Hé-lá que eu vou chamar
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções,
Todos os feitios de todos pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algaravia metafísica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo,
(...)
Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo,
Fúria do moderno concretado em mim,
Espasmo translúcido de ser,
Flor de agirem os outros,
Festa porque há a Vida,
Loucura porque não há vida bastante em um p'ra ser todos
Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia.
Ah, tu que cantaste tudo, deixaste tudo por cantar.
Quem pode vibrar mais que o seu corpo em seu corpo,
Quem tem mais sensações que as sensações por ter?
Quem é bastante quando nada basta?
Quem fica completo quando um só [vinco?] de erva
Fica com a raiz fora do seu coração?
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções,
Todos os feitios de todos pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algaravia metafísica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo,
(...)
Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo,
Fúria do moderno concretado em mim,
Espasmo translúcido de ser,
Flor de agirem os outros,
Festa porque há a Vida,
Loucura porque não há vida bastante em um p'ra ser todos
Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia.
Ah, tu que cantaste tudo, deixaste tudo por cantar.
Quem pode vibrar mais que o seu corpo em seu corpo,
Quem tem mais sensações que as sensações por ter?
Quem é bastante quando nada basta?
Quem fica completo quando um só [vinco?] de erva
Fica com a raiz fora do seu coração?
1 020
Fernando Pessoa
Chove fogo — ouro de barulho estruge...
Chove fogo — ouro de barulho estruge...
"Hela-hohô-ô (ô)...
Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá...
[...]
ESPAÇO...
Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde...
Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Vêm do fundo do mundo confuso
Vêm do abismo do espaço nocturno...
À pressa, negros, rápidos, de repente surdem...
Súbito outra vez tremem...
Oscilam no ruído que tem rasto no escuro...
Inúmera cavalgada... Quem?
Vem apertada nos passos confusos
Vem apertada nos ruídos dispersos,
Vem aclamada nos ruídos mudos
Vem apertada nos ruídos confusos,
Vem apertada, vem apertada, vem apertada
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...
Helahôhô...
"Hela-hohô-ô (ô)...
Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá...
[...]
ESPAÇO...
Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde...
Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Vêm do fundo do mundo confuso
Vêm do abismo do espaço nocturno...
À pressa, negros, rápidos, de repente surdem...
Súbito outra vez tremem...
Oscilam no ruído que tem rasto no escuro...
Inúmera cavalgada... Quem?
Vem apertada nos passos confusos
Vem apertada nos ruídos dispersos,
Vem aclamada nos ruídos mudos
Vem apertada nos ruídos confusos,
Vem apertada, vem apertada, vem apertada
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...
Helahôhô...
859
Fernando Pessoa
No meu verso canto comboios
No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores,
Mas no meu verso, por mais que o ice, ha só ritmos e ideias,
Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,
Não há a realidade da pedra mais nula da rua,
Da pedra que por acaso ninguém olha ao pisar
Mas que pode ser olhada, pegada na mão, pisada,
E os meus versos são como ideias que podem não ser compreendidas.
O que eu quero não é cantar o ferro: é o ferro.
O que eu penso é dar só a vida do aço — e não o aço —
O que me enfurece em todas as emoções da inteligência
É não trocar o meu ritmo que imita a água cantante
Pelo frescor real da água tocando-me nas mãos,
Pelo som visível do rio onde posso entrar e molhar-me,
Que pode deixar o meu fato a escorrer,
Onde me posso afogar, se quiser,
Que tem a divindade natural de estar ali sem literatura.
Merda! Mil vezes merda para tudo o que eu não posso fazer.
Que tudo, Walt — [...] ? — que é tudo, tudo, tudo?
Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus
Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne
E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito!
Para ter estrelas reais dentro do meu pensamento-ser
Nomes-números nos confins da minha emoção-a-Terra.
Mas no meu verso, por mais que o ice, ha só ritmos e ideias,
Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,
Não há a realidade da pedra mais nula da rua,
Da pedra que por acaso ninguém olha ao pisar
Mas que pode ser olhada, pegada na mão, pisada,
E os meus versos são como ideias que podem não ser compreendidas.
O que eu quero não é cantar o ferro: é o ferro.
O que eu penso é dar só a vida do aço — e não o aço —
O que me enfurece em todas as emoções da inteligência
É não trocar o meu ritmo que imita a água cantante
Pelo frescor real da água tocando-me nas mãos,
Pelo som visível do rio onde posso entrar e molhar-me,
Que pode deixar o meu fato a escorrer,
Onde me posso afogar, se quiser,
Que tem a divindade natural de estar ali sem literatura.
Merda! Mil vezes merda para tudo o que eu não posso fazer.
Que tudo, Walt — [...] ? — que é tudo, tudo, tudo?
Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus
Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne
E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito!
Para ter estrelas reais dentro do meu pensamento-ser
Nomes-números nos confins da minha emoção-a-Terra.
1 117
Fernando Pessoa
II - PASSOU
II
PASSOU
Passou, fora de Quando,
De Porquê, e de Passando...,
Turbilhão de Ignorado,
Sem ter turbilhonado...,
Vasto por fora do Vasto
Sem ser, que a si se assombra...,
O universo é o seu rasto...
Deus é a sua sombra.
PASSOU
Passou, fora de Quando,
De Porquê, e de Passando...,
Turbilhão de Ignorado,
Sem ter turbilhonado...,
Vasto por fora do Vasto
Sem ser, que a si se assombra...,
O universo é o seu rasto...
Deus é a sua sombra.
1 434
Fernando Pessoa
A DAY OF SUN
I love the things that children love
Yet with a comprehension deep
That lifts my pining soul above
Those in which life as yet doth sleep.
All things that simple are and bright,
Unnoticed unto keen‑worn wit,
With a child's natural delight
That makes me proudly weep at it.
I love the sun with personal glee,
The air as if I could embrace
Its wideness with my soul and be
A drunkard by expense of gaze.
I love the heavens with a joy
That makes me wonder at my soul,
It is a pleasure nought can cloy,
A thrilling I cannot control.
So stretched out here let me lie
Before the sun that soaks me up,
And let me gloriously die
Drinking too deep of living's cup;
Be swallowed of the sun and spread
Over the infinite expanse,
Dissolved, like a drop of dew dead
Lost in a super‑normal trance;
Lost in impersonal consciousness
And mingling in all life become
A selfless part of Force and Stress
And have a universal home;
And in a strange way undefined
Lose in the one and living Whole
The limit that I call my mind,
The bounded thing I call my soul.
Yet with a comprehension deep
That lifts my pining soul above
Those in which life as yet doth sleep.
All things that simple are and bright,
Unnoticed unto keen‑worn wit,
With a child's natural delight
That makes me proudly weep at it.
I love the sun with personal glee,
The air as if I could embrace
Its wideness with my soul and be
A drunkard by expense of gaze.
I love the heavens with a joy
That makes me wonder at my soul,
It is a pleasure nought can cloy,
A thrilling I cannot control.
So stretched out here let me lie
Before the sun that soaks me up,
And let me gloriously die
Drinking too deep of living's cup;
Be swallowed of the sun and spread
Over the infinite expanse,
Dissolved, like a drop of dew dead
Lost in a super‑normal trance;
Lost in impersonal consciousness
And mingling in all life become
A selfless part of Force and Stress
And have a universal home;
And in a strange way undefined
Lose in the one and living Whole
The limit that I call my mind,
The bounded thing I call my soul.
1 739
Fernando Pessoa
O dia esta a intentar raiar. As estrelas cosmopolitas
O dia esta a intentar raiar. As estrelas cosmopolitas
Fecham-se para nada no céu [solene?]
Numa grande premeditação de raiar o dia
O céu empalidece no oriente...
É quase azul negro o escuro claro onde estão semeadas as estrelas.
Ergo a cabeça da orgia dos astros.
Raça contraditória do abismo.
Começamos a esfinges.
Fecham-se para nada no céu [solene?]
Numa grande premeditação de raiar o dia
O céu empalidece no oriente...
É quase azul negro o escuro claro onde estão semeadas as estrelas.
Ergo a cabeça da orgia dos astros.
Raça contraditória do abismo.
Começamos a esfinges.
1 366
Fernando Pessoa
A noite desce, o calor soçobra um pouco.
A noite desce, o calor soçobra um pouco.
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação do sentido secundário chamado a vista,
A vista por onde me separo das coisas,
E m'aproximo das estrelas e de coisas distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-se.
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação do sentido secundário chamado a vista,
A vista por onde me separo das coisas,
E m'aproximo das estrelas e de coisas distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-se.
1 443
Fernando Pessoa
SUB UMBRA
As when the moon which on a wide deep stream
Makes every wavelet glint with silver light,
By some black cloud, a shadow of the night
ls but awhile obscured, yet still gleam
The waves in darkness, to no falling beam,
And please in shade with the obscure delight
Of a profounder motion, stilly dight
With softened silver, like a thing of dream;
So may for e'er my song its force retain,
And though a cloud o'ercast my weary mind
Let that but fill the glitter of my strain
With staider sweetness, showing to mankind
That though beneath a cloud I can sustain
My wonted song, to hope and bliss not blind.
Makes every wavelet glint with silver light,
By some black cloud, a shadow of the night
ls but awhile obscured, yet still gleam
The waves in darkness, to no falling beam,
And please in shade with the obscure delight
Of a profounder motion, stilly dight
With softened silver, like a thing of dream;
So may for e'er my song its force retain,
And though a cloud o'ercast my weary mind
Let that but fill the glitter of my strain
With staider sweetness, showing to mankind
That though beneath a cloud I can sustain
My wonted song, to hope and bliss not blind.
1 530
Fernando Pessoa
THE DEATH OF THE TITAN
EPICUREAN
From night's great womb with pain the horrid morn hao broke,
Far o'er the throbbing earth the clattering thunders roar,
The Titan wakes at last, his front begrimed with gore,
His brutal gasp abrupt uproots the rugged oak.
In mortal throes he raves, and with his stertorous croak
The birds are struck, the streams with terror dried, the shore
Caves into sea, mounts break down to their horrid core,
The tottering crags are rent, is rent the cloud’s gray cloak.
The lightning shrinks, the seas in roaring clangor splash,
The giant sways and now, with sudden thunderous crash,
Falls, and the throned stars from glittering seats are torn.
He fell; the startl'd earth, with frantic fury stung,
Split, burst, and broke; the air with rankling curses rung
But in the sky the sun still smiled as in scorn.
From night's great womb with pain the horrid morn hao broke,
Far o'er the throbbing earth the clattering thunders roar,
The Titan wakes at last, his front begrimed with gore,
His brutal gasp abrupt uproots the rugged oak.
In mortal throes he raves, and with his stertorous croak
The birds are struck, the streams with terror dried, the shore
Caves into sea, mounts break down to their horrid core,
The tottering crags are rent, is rent the cloud’s gray cloak.
The lightning shrinks, the seas in roaring clangor splash,
The giant sways and now, with sudden thunderous crash,
Falls, and the throned stars from glittering seats are torn.
He fell; the startl'd earth, with frantic fury stung,
Split, burst, and broke; the air with rankling curses rung
But in the sky the sun still smiled as in scorn.
1 487
Fernando Pessoa
FAUSTO: - Não descreio de Deus, passei p'ra além...
Não descreio de Deus, passei p'ra além...
Um dia, meditando
Uma ideia espontânea e horrorosa
Como um vulto supremo sem ter vulto,
Surgiu no fundo do meu pensamento...
Como a noite corporizada, e o medo
Vestindo-a, e (...)
Apareceu-me Deus em esqueleto...
Tudo despira do seu corpo ideal
Não de infinito só, de inatingível,
Mas mesmo de mais do que inatingível.
Até ao fundo do seu ser abstracto
O meu ser despi, e eu vi o (...)
Esqueleto (...) do Mistério...
O informe tomou forma dentro em mim...
Ah inda hoje, se relembro, sinto
Como um medo no longe, um pavor negro
Não em mim, mas em todo o Universo,
Um arrepio pelas estrelas fora
E um grande horror arrepanhando os céus
Como à humana pele que tem medo...
(treme)
— Isso é um pensamento...
FAUSTO:
Se eu pensei
Isto, se isto me foi possível
É crível que a verdade seja
Mais profunda que o meu pensamento.
Como pensei eu cousas mais profundas
Do que a verdade em si?
Apareceu-me o Universo íntimo
Do misterioso avesso... E eu vi, (...)
O outro lado das cousas, não das cousas
Aparentes apenas, mas o outro
Lado até do Essencial, do Inaparente,
Do além-divino e do Divino em Deus...
Tinha a forma, sensível aos meus olhos
Do espírito, dum imenso céu estrelado.
Mas eu, com nítida visão de dentro,
Via que era infinito, como se visse
Em corpo e forma (...) [...]
E sob o meu olhar apavorado
Vi o nosso sistema do universo
Mais perto... A ideia abstracta e nua,
A vida extrema e última de nós.
O Ser, o ser abstracto e (...)
Era um sol — sol de (...) e seguia
Como da circunferência para o centro
(Não como nós que vemos sempre — e em sonho
É o mesmo (do centro sempre p'ra o espaço,
Real ou suposto nessa circunferência) —
Eu vi, e cada sol e seu sistema
Ia em outros sóis e outros sistemas
Na órbita de sóis mais interiores
(O centro de cuja circunferência
Eu via em infinito para dentro,
Não para fora como infinito mesmo)
E o nosso mundo como um deus nele
Era um mero satélite
De um sol do só primeiro sistema
Raiando a ideia sobre o seu mundo.
Infinito interior ao interior!
Pavorosa agonia do Profundo!
Vacuidade e realidade negra
De tudo!
Um dia, meditando
Uma ideia espontânea e horrorosa
Como um vulto supremo sem ter vulto,
Surgiu no fundo do meu pensamento...
Como a noite corporizada, e o medo
Vestindo-a, e (...)
Apareceu-me Deus em esqueleto...
Tudo despira do seu corpo ideal
Não de infinito só, de inatingível,
Mas mesmo de mais do que inatingível.
Até ao fundo do seu ser abstracto
O meu ser despi, e eu vi o (...)
Esqueleto (...) do Mistério...
O informe tomou forma dentro em mim...
Ah inda hoje, se relembro, sinto
Como um medo no longe, um pavor negro
Não em mim, mas em todo o Universo,
Um arrepio pelas estrelas fora
E um grande horror arrepanhando os céus
Como à humana pele que tem medo...
(treme)
— Isso é um pensamento...
FAUSTO:
Se eu pensei
Isto, se isto me foi possível
É crível que a verdade seja
Mais profunda que o meu pensamento.
Como pensei eu cousas mais profundas
Do que a verdade em si?
Apareceu-me o Universo íntimo
Do misterioso avesso... E eu vi, (...)
O outro lado das cousas, não das cousas
Aparentes apenas, mas o outro
Lado até do Essencial, do Inaparente,
Do além-divino e do Divino em Deus...
Tinha a forma, sensível aos meus olhos
Do espírito, dum imenso céu estrelado.
Mas eu, com nítida visão de dentro,
Via que era infinito, como se visse
Em corpo e forma (...) [...]
E sob o meu olhar apavorado
Vi o nosso sistema do universo
Mais perto... A ideia abstracta e nua,
A vida extrema e última de nós.
O Ser, o ser abstracto e (...)
Era um sol — sol de (...) e seguia
Como da circunferência para o centro
(Não como nós que vemos sempre — e em sonho
É o mesmo (do centro sempre p'ra o espaço,
Real ou suposto nessa circunferência) —
Eu vi, e cada sol e seu sistema
Ia em outros sóis e outros sistemas
Na órbita de sóis mais interiores
(O centro de cuja circunferência
Eu via em infinito para dentro,
Não para fora como infinito mesmo)
E o nosso mundo como um deus nele
Era um mero satélite
De um sol do só primeiro sistema
Raiando a ideia sobre o seu mundo.
Infinito interior ao interior!
Pavorosa agonia do Profundo!
Vacuidade e realidade negra
De tudo!
1 311
Fernando Pessoa
Segundo: ANTÓNIO VIEIRA
O céu estrela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
2 485
Florbela Espanca
Há nos teus olhos
Há nos teus olhos de dominador,
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.
Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!
Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!
Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.
Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!
Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!
Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
1 815
Florbela Espanca
Noites da Minha Terra
Anda o luar espalhando fios de prata
Pelos campos fora... Lírios a flux
Lança o azul do céu... e a terra grata
Transforma em mil perfumes toda a luz!
As estrelas cadentes vão ’spalhando
Lírios brancos também... agora a terra
Parece noiva linda, que sonhando
Caminha pro altar, além na serra...
É meia-noite agora. Tudo quieto
Na noite branda, dorme... Entreaberto
Vai esfolhando o lírio do luar
As alvas folhas, que cobrindo o céu,
E todo o mar e toda a terra, um véu
Branco, de noiva, lembra a palpitar!...
Pelos campos fora... Lírios a flux
Lança o azul do céu... e a terra grata
Transforma em mil perfumes toda a luz!
As estrelas cadentes vão ’spalhando
Lírios brancos também... agora a terra
Parece noiva linda, que sonhando
Caminha pro altar, além na serra...
É meia-noite agora. Tudo quieto
Na noite branda, dorme... Entreaberto
Vai esfolhando o lírio do luar
As alvas folhas, que cobrindo o céu,
E todo o mar e toda a terra, um véu
Branco, de noiva, lembra a palpitar!...
1 935
Florbela Espanca
Quem fez ao sapo o leito carmesim
Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar braços para os alcançar?!...
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar braços para os alcançar?!...
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Florbela Espanca
A Um Moribundo
Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...
A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono...
O que há depois? Depois?... O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?
Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!...
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...
A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono...
O que há depois? Depois?... O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?
Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!...
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Hans Arp
Textículos do pássaro
1-
ai eis que faleceu nosso grande josé
quem há-de carregar os brasões nas tranças quem
........há-de girar o moedor do grão-café
quem há-de apascentar a idílica anta
nos mares ele confundia as barcas com a palavrícula
........parapluie e ao vento ele chamava de apicultor
ai ai ai faleceu nosso grande josé são balalão
........faleceu josé
os peixes de palha estapeiam-se nos sinos à pronúncia
........de seu nome por isso sigo sussurrando josé
........josé josé
por que foste virar uma constelação ou uma corrente
........d´água num redemoinho quente ou tetas
........de luz negra ou telhas transparentes no
........tambor gemente dos corpos rochosos
agora secam-se-nos dos crânios às solas e as
........fadas encontram-se já semi-carbonizadas
........em meio às fogueiras
2-
........agora trovejam detrás do sol
os boliches negros e nao há quem dê corda à bússola
........e às rodas das carriolas
quem há-de comer com a ratazana à solitária mesa
........quem há-de caçar o diabo quando ele tentar
........seduzir os cavalos quem há-de explicar o
........monograma nas galáxias
seu busto há-de enfeitar a lareira de todos os
........nobres homens da verdade mas isto não
........serve de consolo ou cocaína a uma caveira oca
3-
sobre as cancelas d´água agitaram os acrobatas
........suas bandeirolas como demonstra a figura 5
os aventureiros com barbas postiças e cascos
........diamantinos subiram nevascamente ao pódio
........por meio de embalonadas peles de baleia
o grande leão fantasmático harun al rashid dito
........harung al radi bocejou três vezes e exibiu
........seus dentes enegrecidos de fumante
as cascavéis mercerizadas desenovelaram-se de suas
........rocas capinaram sua soja e trancafiaram-na
........em pedras
da bainha da morte surgiram os olhos das estrelas jovens
após chicotear as bochechas do sol dançaram os
........cascos das mulas na bocarra da garrafa
os mortos caíram feito flocos das torres de couro
quantos esqueletos giraram as rodas dos portões
ao terceiro cantar da cachoeira fugiu-lhe à parede
o sangue da cara e a matriz de atrizes
........estilhaçou-se
das profundezas escalaram os armários e espalharam
........suas âncoras
finalmente o mar desafiou a impotência das bússolas
os anjos brilhantes giraram em seus anzóis amargos
as corujas vidradas regurgitaram a morte de bico
........em bico
os pássaros penduraram suas caudas de vidro como
........cachoeiras das rochas
as sitiantes carregaram nos cabelos sóis empalhados
........encendiados às sitiantes permitiu-se abandonar
........suas bonecas de plástico apenas em suas
........tireóides em seus batons-botox em sua
........cidadezinha jerusalém
4-
a donzela cerimoniosamente bombeia nuvens
........em sacolas de pedra e couro
gigandastes silenciosos espiralam pardais
........estridentes no azul
as torres de areia entopem-se de bonecas de pano
as eclusas represam hipocampos esferas e moinhos
as barcas chama-se joão e maria e flutuam adiante
........sem noção
o dragão carrega a insígnia cuca-gula e é guiado
........manso pela coleira
às cidades amputa-se os pés
aos campanários dá-se pista de dança apenas em porões
por isso escapamos da obrigação de limpar as
........garras cornetas birutas
5-
apesar da lua pendurar-se feito espelho face a face
........dói-me o anjo no olho
à mesa as germinações vêm-me ao encontro e você
........lateja nas plantas para que suas flores espirrem
os leões terminam diante de seus departamentos de
........trânsito com jarras cheias de diamantes
........entre as garras
os guias carregam aventais de madeira
os pássaros carregam sapatilhas de madeira
os pássaros estão cheios de ecos
ovos tobogãam-se infindáveis de seus minúsculos miocárdios
seus bicos carregam o mastro celeste
suas solas pousam em chamas saltitantes
o granizo em grãos parte-se e invoca o senhordeus
a roca do céu naufraga por isso pisam com seus cascos
........sobre cereais negros
em janeiro neva grafite no pelo das cabras
em fevereiro mostra-se o avestruz de luz-giz
........e estrelas brancas
em março acasala-se o arcancho e o tijolo e besouro
........besuntam-se avante
e as estrelas gangorram-se em seus anéis
e as flores de recepção ruflam em suas correntilhas
e as princesas cantam em suas chaleiras
quem há-de perseguir com mini-dedos e pára-quedas
........o vento da manhã
1 289
Yu Xuanji
Deixando-se levar
Nenhum laço me prende; sempre livre,
vou sem destino, leve entre as paragens
Nuvens se abrem entre lua e rio,
amarras frouxas, barco em pleno mar
No Templo Liang,1tanger o alaúde,
no pavilhão recita-se o poema
Ter por abrigo as grutas de bambus
e nas veredas, pedras companheiras
Preciosos são o pardal, a andorinha
São ar a prata e o ouro, seus castelos
A primavera oferta verde o vinho,2
à noite a lua aquieta-se à janela
O passo estanca à fonte transparente
e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo
Na cama, ébria, os livros me rodeiam
Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me
vou sem destino, leve entre as paragens
Nuvens se abrem entre lua e rio,
amarras frouxas, barco em pleno mar
No Templo Liang,1tanger o alaúde,
no pavilhão recita-se o poema
Ter por abrigo as grutas de bambus
e nas veredas, pedras companheiras
Preciosos são o pardal, a andorinha
São ar a prata e o ouro, seus castelos
A primavera oferta verde o vinho,2
à noite a lua aquieta-se à janela
O passo estanca à fonte transparente
e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo
Na cama, ébria, os livros me rodeiam
Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me
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Luís Miguel Nava
O corpo espacejado
Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.
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