Lista de Poemas

Opus Zero

Eu sou o Grão-Istoaquilo
O rigoroso regimento
O oxigenoma Sine Qua Non
O anônimo 1%

O P.P.Tit. e dito cu
Culatra sem boca e buraco
O honorável talhercúleo
Capa nova em velho cardápio

Eu sou o pífio vitalício
O Sr. Dezembro em dúzia
O colecionável Filatelo
Em verniz vinil e fúcsia

O desabrochável semigual
O honoris causa Dr. Ômega
O brancomo berço d´ouro
O paparazzível Domine
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Textículos do pássaro


1-

ai eis que faleceu nosso grande josé
quem há-de carregar os brasões nas tranças quem
........há-de girar o moedor do grão-café
quem há-de apascentar a idílica anta
nos mares ele confundia as barcas com a palavrícula
........parapluie e ao vento ele chamava de apicultor
ai ai ai faleceu nosso grande josé são balalão
........faleceu josé
os peixes de palha estapeiam-se nos sinos à pronúncia
........de seu nome por isso sigo sussurrando josé
........josé josé
por que foste virar uma constelação ou uma corrente
........d´água num redemoinho quente ou tetas
........de luz negra ou telhas transparentes no
........tambor gemente dos corpos rochosos
agora secam-se-nos dos crânios às solas e as
........fadas encontram-se já semi-carbonizadas
........em meio às fogueiras

2-

........agora trovejam detrás do sol
os boliches negros e nao há quem dê corda à bússola
........e às rodas das carriolas
quem há-de comer com a ratazana à solitária mesa
........quem há-de caçar o diabo quando ele tentar
........seduzir os cavalos quem há-de explicar o
........monograma nas galáxias
seu busto há-de enfeitar a lareira de todos os
........nobres homens da verdade mas isto não
........serve de consolo ou cocaína a uma caveira oca

3-

sobre as cancelas d´água agitaram os acrobatas
........suas bandeirolas como demonstra a figura 5
os aventureiros com barbas postiças e cascos
........diamantinos subiram nevascamente ao pódio
........por meio de embalonadas peles de baleia
o grande leão fantasmático harun al rashid dito
........harung al radi bocejou três vezes e exibiu
........seus dentes enegrecidos de fumante
as cascavéis mercerizadas desenovelaram-se de suas
........rocas capinaram sua soja e trancafiaram-na
........em pedras
da bainha da morte surgiram os olhos das estrelas jovens
após chicotear as bochechas do sol dançaram os
........cascos das mulas na bocarra da garrafa
os mortos caíram feito flocos das torres de couro
quantos esqueletos giraram as rodas dos portões
ao terceiro cantar da cachoeira fugiu-lhe à parede
o sangue da cara e a matriz de atrizes
........estilhaçou-se
das profundezas escalaram os armários e espalharam
........suas âncoras
finalmente o mar desafiou a impotência das bússolas
os anjos brilhantes giraram em seus anzóis amargos
as corujas vidradas regurgitaram a morte de bico
........em bico
os pássaros penduraram suas caudas de vidro como
........cachoeiras das rochas
as sitiantes carregaram nos cabelos sóis empalhados
........encendiados às sitiantes permitiu-se abandonar
........suas bonecas de plástico apenas em suas
........tireóides em seus batons-botox em sua
........cidadezinha jerusalém

4-

a donzela cerimoniosamente bombeia nuvens
........em sacolas de pedra e couro
gigandastes silenciosos espiralam pardais
........estridentes no azul
as torres de areia entopem-se de bonecas de pano
as eclusas represam hipocampos esferas e moinhos
as barcas chama-se joão e maria e flutuam adiante
........sem noção
o dragão carrega a insígnia cuca-gula e é guiado
........manso pela coleira
às cidades amputa-se os pés
aos campanários dá-se pista de dança apenas em porões
por isso escapamos da obrigação de limpar as
........garras cornetas birutas

5-

apesar da lua pendurar-se feito espelho face a face
........dói-me o anjo no olho
à mesa as germinações vêm-me ao encontro e você
........lateja nas plantas para que suas flores espirrem
os leões terminam diante de seus departamentos de
........trânsito com jarras cheias de diamantes
........entre as garras
os guias carregam aventais de madeira

os pássaros carregam sapatilhas de madeira
os pássaros estão cheios de ecos
ovos tobogãam-se infindáveis de seus minúsculos miocárdios
seus bicos carregam o mastro celeste
suas solas pousam em chamas saltitantes
o granizo em grãos parte-se e invoca o senhordeus
a roca do céu naufraga por isso pisam com seus cascos
........sobre cereais negros
em janeiro neva grafite no pelo das cabras
em fevereiro mostra-se o avestruz de luz-giz
........e estrelas brancas
em março acasala-se o arcancho e o tijolo e besouro
........besuntam-se avante
e as estrelas gangorram-se em seus anéis
e as flores de recepção ruflam em suas correntilhas
e as princesas cantam em suas chaleiras
quem há-de perseguir com mini-dedos e pára-quedas
........o vento da manhã
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Identificação e contexto básico

Jean Arp (nascido Hans Peter Wilhelm Arp) foi um artista plástico, escultor e poeta franco-alemão, conhecido também pelo nome francês Jean Arp. Nasceu em Estrasburgo, Alsácia, que na época fazia parte do Império Alemão, e faleceu em Basel, Suíça. Sua nacionalidade era dupla, francesa e alemã, e ele escrevia em ambas as línguas, além de publicar em inglês. Arp viveu em um período de grandes turbulências históricas, incluindo a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, o que moldou significativamente seu percurso e sua visão artística e literária.

Infância e formação

Nascido em uma Alsácia de identidade cultural disputada entre França e Alemanha, Arp teve uma formação inicial marcada por essa dualidade. Estudou na Escola de Artes e Ofícios de Estrasburgo (1905-1907) e frequentou a Académie Julian em Paris. No início de sua carreira, foi influenciado por movimentos como o Simbolismo. Sua formação foi moldada pela experimentação e pela busca por novas formas de expressão, absorvendo as ideias de vanguarda que emergiam na Europa.

Percurso literário

O percurso literário de Arp esteve intrinsecamente ligado à sua produção artística. Ele começou a escrever poesia em paralelo com sua atividade plástica. Foi um dos fundadores do movimento Dada em Zurique, em 1916, onde sua poesia ganhou notoriedade por sua natureza experimental e lúdica. Mais tarde, envolveu-se com o Surrealismo, movimento para o qual contribuiu com sua abordagem anti-racional e intuitiva. Publicou diversos livros de poesia, frequentemente acompanhados de suas ilustrações ou colagens.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Arp é marcada pela experimentação radical com a linguagem. Ele frequentemente utilizava técnicas de colagem, combinando palavras e frases retiradas de diversas fontes, criando um efeito de ilogismo e surpresa. Seu estilo é caracterizado pela espontaneidade, pelo jogo de palavras, pela sonoridade e por uma aparente simplicidade que esconde profundas reflexões sobre a natureza da arte e da existência. Temas como o acaso, o sonho, a natureza e a busca pela liberdade criativa são recorrentes. Arp buscava desconstruir a linguagem convencional para alcançar uma expressão mais pura e instintiva, alinhada com os princípios do Dadaísmo e do Surrealismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Arp foi uma figura central nas vanguardas europeias do início do século XX. Sua participação no Dadaísmo em Zurique durante a Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, no Surrealismo em Paris, o colocou no epicentro das revolções artísticas e literárias da época. Ele conviveu e colaborou com artistas e escritores como Tristan Tzara, André Breton, Max Ernst, Sophie Taeuber-Arp e Marcel Duchamp. Sua obra reflete o espírito de ruptura e o questionamento das normas sociais e artísticas daquele período.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Jean Arp foi casado com a artista Sophie Taeuber-Arp, com quem manteve uma profunda colaboração artística e pessoal. Sua vida foi marcada pelas constantes mudanças de residência devido às guerras e à instabilidade política. Arp teve uma forte ligação com a natureza, que se refletiu em sua obra. Suas crenças filosóficas tendiam para um humanismo ligado à liberdade de expressão e à rejeição de dogmas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Arp alcançou um reconhecimento considerável em vida, tanto como artista plástico quanto como poeta. Suas obras foram expostas em galerias e museus importantes, e seus poemas foram publicados em revistas literárias e antologias de vanguarda. Ele é considerado um dos pioneiros da arte abstrata e uma figura chave no desenvolvimento do Dadaísmo e do Surrealismo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Arp foi influenciado pelo Simbolismo e pelas ideias de liberdade artística. Seu legado é imenso, especialmente na arte abstrata e na poesia surrealista. Ele influenciou gerações de artistas e poetas que buscaram a experimentação formal e a exploração do inconsciente. Sua abordagem à colagem e à abstração, tanto na plástica quanto na literatura, deixou uma marca indelével.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Arp é frequentemente interpretada como uma manifestação da liberdade do espírito criativo, uma tentativa de acessar o "inconsciente" antes que a razão o aprisione. As colagens de palavras podem ser vistas como uma metáfora para a fragmentação da realidade moderna ou para a própria natureza aleatória e surpreendente da existência. Sua obra desafia a análise puramente lógica, convidando a uma apreciação mais intuitiva e sensorial.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Arp tinha o hábito de criar suas colagens de palavras e poemas com base no acaso, muitas vezes deixando cair pedaços de papel e organizando-os conforme caíam. Ele acreditava que o acaso era uma forma de revelar verdades mais profundas. Sua ligação com o movimento Dada foi também um reflexo de sua rejeição à guerra e à racionalidade que a produziu.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jean Arp faleceu em 1966, aos 79 anos. Sua memória é celebrada através de suas numerosas obras de arte e de seus escritos poéticos, que continuam a ser estudados e admirados como marcos da vanguarda artística e literária do século XX.