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Poemas neste tema

Alma

Herberto Helder

Herberto Helder

Cinco Poemas Esquimós

Levanto-me da cama com gestos
semelhantes aos golpes de asa
de um corvo rápido.
Levanto-me
para saudar o dia.
Uá, uá!
Minha face afasta-se das trevas da noite
e olha para a aurora
que se abre.

O grande fluxo do oceano põe-me em movimento,
faz-me flutuar.
Flutuo como a alga à superfície das águas.
E a abóbada celeste abala-me e o ar violento
abala o meu espírito
e atira-me sobre a poeira.
E eu tremo de alegria.

Os mortos que sobem ao céu
por degraus sobem ao céu,
por velhos degraus já gastos.
Todos os mortos que sobem ao céu
por degraus gastos,
gastos ao contrário,
gastos por dentro,
sobem ao céu.

Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
— Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!

I
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
O invocador te chama.
Vem, e purifica esta terra.
Espírito do ar, vem,
vem depressa.

Levanto-me:
é no meio dos espíritos que eu me levanto.
Os invocadores me protegem,
conduzem-me por entre os espíritos.

Criança, criança, grande criança,
levanta-te e vem,
grande criança, pequena criança,
aparece entre nós.

II
Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem e
procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.

Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.

Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.

E um espírito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
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Herberto Helder

Herberto Helder

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Doces criaturas de mãos levantadas, ferozes cabeleiras, centrifugas
pelos olhos para
se deslumbrarem com
a iluminação, entretecidas, membros
com membros, nos confins. Se lhes dão voz, se uma
fala nos círculos. “Mestres,”. Mas pode alguém ser mestre
aqui, de onde
se ofuscam, cândidos animais transmudando-se?
“Eu sou o manancial nos hortos inocentes.”
Nenhum mestre, porque se eles
se tocam
— um ao outro desabrocham: a pancada no amarelo
ou no branco enflora o mundo. “Mas eu não me conheço
sem a força que me passa, toda
em imagem
destravada ao jubileu das memórias; batem-lhe no rosto
os galhos de sal, e ele toca-me — e
abre — e
tranca. Tranca-me numa pedraria
vibrante. Para que eu me revele em mim. E me sele nas palavras com
veias.
Alvoroço a madeira sonora com a fria loucura da música.
As dedadas amasso o bloco a dois reluzindo pela cicatriz que o cose
do cóccix ao occípite. Chamo
até aos extremos do nome, ele é o nome nas respirações
cantadas. Mestres,”.
Os mestres viram como estremecera ao afundar-se na água
negra, quando ela
era água metida pela noite dentro. E viram-nos
depois sob as varas
salgadas: lavradas
armas que se encostam ao mundo,
altas armas abrasadas contra o mundo nocturno.
“Tornei mortal o cantor na sua cana cantora.
Deus olha-o na cara, e ele sonha-me; Deus enlaça-o, rutila; Deus
e os seus mamíferos, em mim, canto,
biografia rítmica. Mestres,”.
Que não há mestres, esses eram donos dos latifúndios bravios onde
se planta
o sal. Mas estes, no seu canto pequeno,
crispavam-se
entre braços e umbigos, entre sexos
e bocas. Tinham a sua coroa talhada na polpa
de um diamante. Uma coroa
cravada na carne da cabeça. Quem é o arco ou a flecha,
quem se retesa, quem
mata? Porque tanto a flauta como a sua melodia. Tanto
a mão como a sua escrita. Tanto uma
onda de escarlate
cruel
no espelho devassado para baixo e para cima. Arrebata-os
o demoníaco. São os indígenas do ouro.
Um é a cana, outro é o som.
O som destroça a cana.
“Mestres,”.
Cada um é a sua arma, cada um é o lanho da sua arma à altura
da garganta cortada. A voz
de um no outro, a entoação amarga —


1989
954
Herberto Helder

Herberto Helder

7

Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
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Herberto Helder

Herberto Helder

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Podem mexer dentro da cabeça com a música porque um acerbo
clamor porque
dão a volta ao lençol em sangue:
torcem-me. Mas
eu digo — amo-te para erguer de ti a tua música para
entoar-te. Beleza, a força, oh
a enflorada, a primitiva, chaga entre, risca
dolorosa, o cabelo.
E se passam pelos lados duas, arvoradas: uma
lua maior que o teu espelho outra
— clarão em que te queimavas selada viva, ó
pedraria.
De repente o superlativo, o visível pelas faúlhas porque:
eras a convidada do espaço, eras uma árvore
de pérolas se dormias. E eu vergastava-te:
branqueava o chão com tuas frutas pequenas, branqueava as mãos,
branqueava-me das mãos à voz para acordar de mim
a ti com torso
fundido. Torso e canto
armado. A oblíqua visita das coisas, aquela
murmuração de mundo quando se toca
com um braço a parte dos fogos, com o outro braço a parte
dos sopros que desarrumam a frase das coisas
e arrumam
coisa a coisa o estilo onde estás escrita.
Ouvir no escuro a entoação, ficar rodeada
por sangue e nome, pelo abalo
da pessoa que outra teia de sangue tece com seu fervor cantando.
O seu furor. O medo de que os dedos se não afinem na ferida do sono
mas se afundem pelas unhas
até à leveza. E a descerrem. E a desentranhem nas suas florações
vermelhas, nos orifícios de cal
que fervem. Onde há um empréstimo de luzes movo pelas redes
sombrias as respirações de um canto aluado a duas
vozes convulsas —
uma arrebatada aos precipícios e outra
nos quartos bruxuleando entre cadeira e mesa com a mão de ouro
calcinado em cima.
Lençol de sangue, diz. Diz: torcem-me. E eu aumento na operação
de sono e som em que ela
me transtorna. Pulmões aos nós, gangrenado na boca,
a têmpera do canto
macio. Tão caldeado o canto que nos transmuda em mundo
áureo —
985
Herberto Helder

Herberto Helder

9

Uma razão e as suas palavras, não sou leve não tenho
o dom de um paraíso de avenças rutilando
ao frio. Estou defronte na malha arterial da minha roupa rosto
dedada a dedada.
E o sangue nos alvéolos, unhas sexo pêlo.
Tenho dentes de mármore que crescem se falo ou cômo tenho os
dentes
arrefecidos à comemoração da água.
Tu és a mulher profundamente visitada. Dedo
contra dedo. Para que passe
o pneuma:
poder, inocência, morte.
Os sítios nunca param: fileiras de objectos astrais
uns acima dos outros.
Queria chamar a água intensa para cercar-te com uma faixa,
que te fizesses a ti mesma por essa intensidade da água.
Que Deus é súbito diante
quando é mamífera a criatura incandescente, quando é
sangrenta. Exemplo do mundo:
flauta tocada por quem sabe que génio de música.
Porque a razão é ter um galho nos dedos e que,
pelo calor dos dedos, o galho
floresça. Bater com ele no cabelo até ficar iluminado bater
na blusa para a brancura subir no torso:
desentranhar-te as reservas de aura.
E se o galho te roça pela cara, ver como se faz tão cara acima.
E que o espaço se torne visível à volta de galho e mão e cara
sobressaltada. Queria abrir-te a cabeça pela estria dulcíssima do sono
arrancar a estrela hídrica. Em carne
pensadora começar por garganta e língua a razão e as suas
palavras com os raios
em torno. Para que fiquem abertas as entradas: um
ao outro nos levávamos. Nadando nos espelhos sustendo
o fôlego unindo
pelas ramagens as cicatrizes do tórax.
E avançar fundidos num só corpo de canto.
Porque do ouro extraído às cavernas apuro um fio
fecho-te o rosto no fio puro.
Com uma trama pode urdir-se a máscara
moldar o tronco de duas pessoas numa estrela única
podem-se fazer com ouro do abismo
os membros que tem uma estrela para andar até à porta. Um nó de dois
laçado à mão, abrasadora.
Toda a enxameação de nadadores profundos
meu amor do reino animal amor
o inferno —
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Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas do Velho Testamento - Saltério

SALMOS 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139
(Segundo montagem de Jean Grosjean)

Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.

Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.

Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!

E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.

Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!

Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!

De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.

Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?

Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?

Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.

Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.

Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.

Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.

Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.

A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?

Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.

— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?

Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?

Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.

Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!

Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!

Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.

Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.

Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.

Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.

Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.

Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.

Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.

Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - Vi

É a colina na colina, colina
das colinas frias.
Colina devagar por ela acima, brotando
sobre a raiz da colina. Oh fria raiz deitada
na pedra sinistra fria da raiz
da colina. Na húmida
treva pedra vazia, na alegria
abstracta dos fogos, das águas oh sombrias.
Colina profunda, colina de
colina muda. Mexendo nos fogos,
nas águas extremas vazias, nas massas
nocturnas unas — respirando.
Batendo os leves pêlos nas gotas frias
das águas,
e as pesadas estrelas nas veias sombrias.
Colina acocorada na raiz ríspida
da colina, feroz por ela abaixo, ladeada
pelas paredes direitas da melancolia. É
a colina na colina. Depois para cima, colina
das colinas amargas estremes.
De alegria para cima, na audácia das brutas
assimetrias. Colina de pé
sobre as visões, as culpas,
os crimes — batendo os pés unidos na boca
aberta das mães sinistras e vazias. Colina
na colina nas colinas das ilusões
quentes, duras, puras, sombrias. Colina
em baixo e para cima.
É a colina em cima com árvores redondas,
vivas, rápidas e oh frias.
Arvorezinhas da colina, vazias.
##RETRATÍSSIMO OU NARRAÇÃO DE UM HOMEM DEPOIS DE MAIO
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.

Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e ardente
perto perto.
Por/cima, nuvens de cinza revoltada.
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.

Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquimpura contínua — mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia. Que os poderes oh confundia.

Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urda do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.

Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.

Não tem amor senão do amor.
E um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.

Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca — ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma.
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
Nele tudo ousa.

Vai morrer imensamente (ass)assinado.
1961-62.
1 107
Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Quarto Poema

Eu durmo, mas o meu coração vela.
Ouço baterem à porta.

— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»

— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»

Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.

Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.

Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.

— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.

Coro das raparigas de Jerusalém

Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?

O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.

As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.

Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.

E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.

Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.

Coro das raparigas de Jerusalém

Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?

O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
1 179
Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - I

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.

O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o álcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.

Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo
da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tãp
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.

Alguém se debruça para gritar e ouvir em meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim — a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.

Alguém se procura dentro de meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.

Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.
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