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Alma

Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Terceiro Poema

Quem é que sobe do deserto como uma coluna de fumo,
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?

Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.

o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.

— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.

Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.

Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.

No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.

— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.

Como és bela bela, minha amada, e pura.

Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.

Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.

Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.

Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.

Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Canção Escocesa

«Porque escorre o sangue pela tua espada,
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>

«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»

«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»

«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»

«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»

«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
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Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - Iii

As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
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Herberto Helder

Herberto Helder

1.

A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou
na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça recolhendo-a
de um lado e descrevendo-a de outro lado num sulco
vibrante “parecia um meteoro”
como se fosse muito simples e então a cabeça desaparecia “a lua”
a ferver a grande velocidade pelo céu dentro
“um buraco”
via-se apenas a intensidade “estávamos com medo pois aquilo
assemelhava-se a uma revelação” e foi quando ele apanhou a cabeça
outra vez
e era agora uma cabeça furiosa
“cheia de peso” dizia-se “a luz agarra qualquer coisa”
oh sim: “com toda a violência”
pensai num bocado de carne despedaçado entre as mandíbulas
de um tigre: e depois deixou cair esse rosto sustentado atrás
pela bela caixa craniana com aquele rastro de cometa
“que é isto?” perguntou-se — e pusemo-nos todos a pensar bastante
“havia ali um senso arcaico da paixão”
talvez uma coisa tão remota e bárbara como: o fausto:
o pavor:
a caça: “é um movimento uma forma” disse ele
“é preciso voltar ao princípio”
e então começámos a usar os olhos com a ferocidade das objectivas
sem truques capturando tudo selvaticamente
e havia por vezes a vertente das espáduas desalojadas
um caudal sumptuoso
cortado “era tão estranho!” pela ligeireza dos dedos abertos
delicado pentagrama a duas alturas
“uma estrela refractada” para falar do que se viu
na projecção do filme e então podia-se adiar tudo menos aquela ideia
de que “não digo beleza” de que uma força
impelia tudo e a rapidez criava formas
linhas de translação feixes
de desenvolvimento ao longo das paisagens redondas como
abismos
recorria-se ainda a imagens para devolver essa cabeça
ao fulgor da sua precipitação contra os olhos
a queda “como oxigénio a arder” e a fuga
e a correria em que voltava para subir e rodar
de um modo que dizíamos: “indomavelmente”
porque vistas assim as coisas eram de uma fatalidade total
e a irrevogável maneira que tinham de ser livres
soltas
impunes
— na sua firmeza: “inocentes” — isso fazia medo
e havia em nós “um estilo de ver” que nos arrastava
implacavelmente para a loucura e a alegria
“porque era preciso destruir tudo” sim “de extremo a extremo”
para encontrar “o centro” onde o calcanhar gira
e roda o corpo todo
o sítio talvez onde se formam as massas dos espelhos
de que saltam fortemente “os astros os rostos”
e não haver “exemplo” mas apenas uma forma rudimentar
desfechada
contra tudo aqui escavando achado o veio
a limpidez primeiramente: aquilo: a cabeça móvel apanhada
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Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - I

Uma noite encontrei uma pedra
oh pedra pedra!
verde ou azul, de lado, como se estivesse morta.
Encontrei a noite como uma pedra inclinada
sobre o meu corpo
puro, profundo como um sino.
Vi que havia em mim um pensamento
inocente, uma pedra
quando se entra na noite pelo lado onde
há menos gente.
Ou era um sino de um futuro
maior silêncio, tão
grande silêncio para se habitar só em gestos.

Aí eu poderia erguer-me na ponta
dos pés e ficar para sempre: chama
que a noite viesse alimentar com sua
própria matéria que se queima. Noite —
— lenha para nossa leveza humana. Encontrei
uma coisa caída, talvez madura, um pouco
metida pela terra dentro.
Alguma coisa dessas coisas da imobilidade, objecto
executado pelo sono,
onde eu passava os dedos apavorados e doces.

Som ou degrau que eu beijaria,
elevando-se da terra, não como uma árvore
ou uma mulher
desenvolvida em sua atmosfera de doçura
e dolorosa exaltação. Alguma coisa
subida de raízes mais milagrosas, que se não
exprimia com a brevidade
subtil de folhas, ou a quente agudeza de dedos espalhados.
Algo não levantado inteiramente da obscuridade
de uma vida sepulta,
e não jacente por sobre o qual milhares de estrelas
rolassem as asas de gelo.
Uma coisa numa existência demorada entre
o êxtase e a força sombria
das estações.

Encontrei uma pedra pedra
que não era uma colina com o mês de março em volta.
Nem era a boca materna aberta
debaixo dos rios lisos.
Uma coisa para se encostar a cabeça, oh não
para morrer. Para alguém subir
e de onde não era possível gritar. Uma pedra
sem folhas, um sino
sem pensamento. Encontrei algo que não andava
pelos montes nem seria atravessado
por uma flecha. E não sangrava.
Que não se ouvia se cantava. Talvez fosse fria
ou vivesse abrasada sobre a ilusão.

Era verde na noite quando se vem de longe,
ou azul, ou verde pelo milagre
que não existe. Ou então
era clara de certas flores que se dobram.
Ou então era alta, ou esmagada, ou degolada,
no meio de um silêncio global.
Encontrei em mim essa clareira desarrumada na seiva,
como se um poço distante ressoasse,
ou como
se os dias se fossem aproximando da minha idade
triunfante,
e eu me calasse e movesse o rosto aberto
pela luz para a abstracta violência
da solidão.

Encontrei
um animal adormecido, uma flor hipnotizada,
uma viola ferozmente taciturna.
Era amarela só se eu levantasse a cabeça, ou era
tão escura na infância grande.
Encontrei uma verde pedra cravada no mundo
das pessoas, à entrada da candura,
tão admirável pelo azul da terra dentro.
Uma coisa incompreendida no instante
de morrer para a frente.

Encontrei ondas e ondas contra mim, como se eu fosse
um homem morto entre palavras.
Campos de cevada inspirados no fogo que batiam
nas costas das minhas mãos,
aldeias inteiras cantando sua pureza
quase louca. Encontrei depois o lugar
onde deitar a cabeça e não ser mais ninguém
que se saiba. Uma pedra
pedra seca, uma vida entre muitos dons.
Com as raizes de quem divaga.
Uma pedra sem som como quem se move
sobre os alimentos.

Encontrei como quem arrasta para a noite
um símbolo pesado e ardente.
Ou a ideia
da morte mais leve que o coração sem nada
do amor.
Se me perguntam, digo: encontrei
a lua, o sol.
Somente o meu silêncio pensa.

— Se era uma pedra, um sino. Uma vida verdadeira.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Em Silêncio Descobri Essa Cidade No Mapa

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.
750
Herberto Helder

Herberto Helder

Como o Centro da Frase É o Silêncio

Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos —
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza —
temos de entrar na zoologia fabulosa com um talento bastante fabuloso
pois também somos a vítima da nossa vítima —
e ofereço à perscrutação apenas uma frase com buracos
assinalando uma cabeça escritora
assim era — dizia a própria cabeça — um queijo suíço
a fermentar como arcturus fermenta na treva celeste
e apura os volumes e a qualidade dos volumes
da luz —
desde que a atenção criou nas coisas o seu movimento
as formas ficaram sob a ameaça do seu mesmo
movimento —
o mais extraordinário dos nomes sempre esbarrou
consigo mesmo
com o poder extraordinário de ser dito —
qualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez
é lenta — basta olhar para a paisagem da escrita já antes
quando começa a abater-se pelo seu peso e o espírito
da sua culpa —
porque uma frase trabalha na sua culpa como a paisagem
trabalha na sua estação —
o merecimento a ver quem a ele chega primeiro
ao buraco do coração—ver ou ser visto —
ao buraco que transpira no meio do ouro —
se é ele o ouro ou se o ouro está em volta tremendo
como um nó vivo implantado em cheio na madeira —
e a única meditação moderna é sobre o nó
absorvendo a madeira toda — uma espécie de precipitação
convulsa da matéria para o seu abismo próprio —
e sobre a tábua despida incorporando cada nó que fica
a palpitar com a força no tecido inteiro
da tábua
e lançando na tábua a sua energia mergulhada
de nó —
porque em toda a palavra está o silêncio dessa palavra
e cada silêncio fulgura no centro da ameaça
da sua palavra —
como um buraco dentro de um buraco no ouro dentro do ouro

e

cumpre também falar do desafio do espectáculo — o teatro
dentro do teatro —
o travesti shakespeareano na dupla zona da forma e da inclinação
para o sentido enigmático —
a rapariga vestida de rapaz interpretando a função oblíqua de rapariga
perante o rapaz vestido de rapariga interpretando
a misteriosa verdade corporal de rapaz —
o que se pede à cena é apenas o delírio de uma coisa exacta
através das armadilhas —
porque a vertigem é um acesso às últimas possibilidades
de equilíbrio,
entre a verdade que é outra e a outra verdade que é
uma verdade de uma nova verdade continuamente —
outra regra do espectáculo é inventar
a forma seguinte do enigma de modo a que a frase visível
fique junto ao rapto —
empurrar o rosto para as trevas —ou retirar da dança
os pés e ficar à luz uma espécie de imobilidade —
o brilho do rosto já sem o rosto mas com toda a energia
e todo o impulso de um rosto ser o rosto teatral —
porque também a máscara era a abolição de uma falsa liberdade
do rosto —
e então não era o rosto que estava mas
a eternidade de um teorema —
a abdicação das formas que morrem de si mesmas —
um salto para o centro —
e as presenças muitas brancas enchem a cena
apenas de brancura
central implantada cega na paragem do tempo —
perder o nexo que liga as coisas porque há só uma coisa
dada por indícios —
uma centelha um sopro um vestígio um apelo uma voz —
que a metáfora seja atendida como alusão à metáfora
da metáfora
como cada coisa é a metáfora de cada coisa —
e o sistema dos símbolos se represente como o símbolo
possível de um sistema
de símbolos do símbolo que é o mundo —
o mundo apenas como a nossa paixão posta diante de si —
a paixão da paixão —
nenhuma frase é dona de si mesma —
e então o teatro que apresenta a frase não é dono de nada
mas só do recurso
de ganhar uma regra e recusar a regra ganha —
assim como a voz abdica no silêncio e o silêncio
abdica na voz para dizer apenas que é uma forma de silêncio —
um génio animal inexplicável como uma queda no escuro —
enquanto as vozes são cada vez mais astrológicas e loucas —
e desaparecemos no silêncio levando com uma grande
leveza a queimadura inteira na cabeça


1974-
672
Herberto Helder

Herberto Helder

4

Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.

Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.

Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.

Nunca durmo.

Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.

Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
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