Poemas neste tema
Alma
Charles Bukowski
Sapatos
sapatos no armário como lírios de Páscoa,
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
1 238
Charles Bukowski
Algo Pra Valer, Uma Boa Mulher
ficam sempre escrevendo sobre os touros, os toureiros,
aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando às 3 da manhã;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a máquina de escrever como uma máquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estão morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol está preto como tinta, isto é tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a máquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
às vezes eu fico empolgado não sei por quê
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete...
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cão,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhã.
aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando às 3 da manhã;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a máquina de escrever como uma máquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estão morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol está preto como tinta, isto é tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a máquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
às vezes eu fico empolgado não sei por quê
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete...
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cão,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhã.
965
Charles Bukowski
Apenas Uma Noite
a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
1 016
Charles Bukowski
Se Foi
foi embora como as damas de antigamente
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
1 287
Charles Bukowski
Um Dia Vou Escrever Uma Cartilha Para Santos Aleijados Mas Enquanto Isso...
enquanto a Bomba repousa lá nas mãos de uma
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.
não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?
de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.
não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?
de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
1 231
Charles Bukowski
Nossa Risada É Silenciada Pelo Sofrimento Deles
enquanto a criança atravessa a rua enquanto mergulhadores de águas profundas
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
690
Charles Bukowski
De Um Cão Velho Em Seu Porre
ah, meu amigo, é terrível, pior
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
1 049
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 161
Charles Bukowski
Amigos Em Meio À Escuridão
eu me lembro de passar fome num
quartinho numa cidade estranha
cortinas baixadas, ouvindo
música clássica
eu era jovem eu era tão jovem que doía como uma faca
por dentro
porque não havia alternativa exceto ficar escondido pelo maior
tempo possível –
não por autopiedade mas com desalento sob minhas chances limitadas:
tentando me conectar.
os velhos compositores – Mozart, Bach, Beethoven,
Brahms eram os únicos que me diziam alguma coisa e
eles estavam mortos.
por fim, faminto e derrotado, precisei sair
às ruas e ser entrevistado para empregos
monótonos
de baixa remuneração
por homens estranhos atrás de mesas
homens sem olhos homens sem rostos
que pegavam as minhas horas
e as destruíam e
mijavam nelas.
agora eu trabalho para os editores os leitores os
críticos
mas ainda bato papo e bebo com
Mozart, Bach, Brahms e o
Bee
que amigões
que homens
às vezes tudo de que precisamos para poder continuar sozinhos
são os mortos
chocalhando as paredes
que nos encerram.
quartinho numa cidade estranha
cortinas baixadas, ouvindo
música clássica
eu era jovem eu era tão jovem que doía como uma faca
por dentro
porque não havia alternativa exceto ficar escondido pelo maior
tempo possível –
não por autopiedade mas com desalento sob minhas chances limitadas:
tentando me conectar.
os velhos compositores – Mozart, Bach, Beethoven,
Brahms eram os únicos que me diziam alguma coisa e
eles estavam mortos.
por fim, faminto e derrotado, precisei sair
às ruas e ser entrevistado para empregos
monótonos
de baixa remuneração
por homens estranhos atrás de mesas
homens sem olhos homens sem rostos
que pegavam as minhas horas
e as destruíam e
mijavam nelas.
agora eu trabalho para os editores os leitores os
críticos
mas ainda bato papo e bebo com
Mozart, Bach, Brahms e o
Bee
que amigões
que homens
às vezes tudo de que precisamos para poder continuar sozinhos
são os mortos
chocalhando as paredes
que nos encerram.
1 228
Charles Bukowski
Perto da Grandeza
em certa fase da minha vida
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.
depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.
eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.
e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.
meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro
e se conheceu
um
ou conheceu
ambos
então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.
depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.
eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.
e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.
meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro
e se conheceu
um
ou conheceu
ambos
então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
1 180
Charles Bukowski
A Última Dose
aqui vamos nós, mais uma vez, a última bebida, o último
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
1 266
Charles Bukowski
Sapatos
quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 224
Charles Bukowski
Sobre a Conferência da Pen
afaste um escritor de sua máquina de escrever
e tudo que sobra dele
é
a doença
que o fez se sentar
diante da máquina
no
começo.
*** Associação mundial de escritores. (N.T.)
e tudo que sobra dele
é
a doença
que o fez se sentar
diante da máquina
no
começo.
*** Associação mundial de escritores. (N.T.)
1 270
Charles Bukowski
O Falecimento de Um Grande Homem
ele era o único escritor vivo que conheci e verdadeiramente
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
1 055
Charles Bukowski
Prática
naquela vizinhança da depressão eu tinha dois amigões
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
1 025
Charles Bukowski
O Vinho da Eternidade
relendo um pouco do
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
1 377
Charles Bukowski
Começando Rápido
cada um de nós
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
1 188
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #2
quando éramos meninos
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
1 353
Charles Bukowski
Hein?
na
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
1 242
Charles Bukowski
Café
eu estava tomando café no
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
1 229
Charles Bukowski
Vamos Fazer Um Acordo
em conjunção com
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
1 272
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 132
Charles Bukowski
Glenn Miller
muito tempo atrás
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
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