Poemas neste tema
Alma
Charles Bukowski
História Final
meu deus, lá está ele bêbado de novo
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
1 271
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 158
Charles Bukowski
Eu E Meu Amigão
eu ainda consigo nos ver
juntos
naquele tempo
sentados na margem do rio
enchendo
a cara de
vinho
e brincando com o
poema
sabendo que era
totalmente inútil
mas algo para
fazer
durante
a espera
os imperadores
com seus assustados
semblantes de argila
nos observam enquanto
bebemos
Li Po estraçalha seus
poemas
põe fogo
neles
e os lança flutuando rio
abaixo.
“o que você
fez?”, eu
pergunto.
Li passa a
garrafa: “eles
vão terminar
não importa o que
aconteça...”
eu bebo para saudar seu
conhecimento
passo a garrafa
de volta
sento firme sobre meus
poemas
que eu
enfiei virilha
adentro
ajudo Li a queimar
mais algumas de suas
poesias
elas flutuam bem
rio
abaixo
iluminando a
noite
como deveriam fazer
as boas palavras.
juntos
naquele tempo
sentados na margem do rio
enchendo
a cara de
vinho
e brincando com o
poema
sabendo que era
totalmente inútil
mas algo para
fazer
durante
a espera
os imperadores
com seus assustados
semblantes de argila
nos observam enquanto
bebemos
Li Po estraçalha seus
poemas
põe fogo
neles
e os lança flutuando rio
abaixo.
“o que você
fez?”, eu
pergunto.
Li passa a
garrafa: “eles
vão terminar
não importa o que
aconteça...”
eu bebo para saudar seu
conhecimento
passo a garrafa
de volta
sento firme sobre meus
poemas
que eu
enfiei virilha
adentro
ajudo Li a queimar
mais algumas de suas
poesias
elas flutuam bem
rio
abaixo
iluminando a
noite
como deveriam fazer
as boas palavras.
1 242
Charles Bukowski
Aos Interessados:
se você se casar acham que você está
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
909
Charles Bukowski
Canção
Julio apareceu com seu violão e cantou sua
canção mais recente.
Julio era famoso, ele escrevia canções e também
publicava livros com pequenos desenhos e
poemas.
eles eram muito
bons.
Julio cantou uma canção sobre seu mais recente caso
amoroso.
ele cantou que
o começo foi maravilhoso
e o final foi
horroroso.
não foram essas as palavras exatamente
mas era o que as palavras queriam
dizer.
Julio terminou de
cantar.
então ele disse “eu ainda gosto
dela, não consigo tirá-la da minha
cabeça”.
“o que vou fazer?”, Julio
perguntou.
“beba”, Henry disse,
servindo a bebida.
Julio apenas olhou para seu
copo:
“o que será que ela está fazendo
agora?”
“provavelmente está no meio de uma cópula
oral”, Henry
sugeriu.
Julio colocou o violão de volta no
estojo e
foi até a
porta.
Henry acompanhou Julio até o carro que
estava estacionado na
entrada da garagem.
era uma bela noite
enluarada.
enquanto Julio ligava o motor e
dava ré na entrada
Henry lhe acenou um
adeus.
então ele entrou
se
sentou.
ele terminou a bebida intocada
de Julio
e então
ligou
para ela.
“ele acabou de sair daqui”, Henry disse
a ela, “ele está muito
mal...”
“você precisa me desculpar”,
ela disse, “mas estou ocupada neste
momento.”
ela
desligou.
e Henry serviu bebida em seu
próprio copo
enquanto lá fora os grilos cantavam
sua própria
canção.
canção mais recente.
Julio era famoso, ele escrevia canções e também
publicava livros com pequenos desenhos e
poemas.
eles eram muito
bons.
Julio cantou uma canção sobre seu mais recente caso
amoroso.
ele cantou que
o começo foi maravilhoso
e o final foi
horroroso.
não foram essas as palavras exatamente
mas era o que as palavras queriam
dizer.
Julio terminou de
cantar.
então ele disse “eu ainda gosto
dela, não consigo tirá-la da minha
cabeça”.
“o que vou fazer?”, Julio
perguntou.
“beba”, Henry disse,
servindo a bebida.
Julio apenas olhou para seu
copo:
“o que será que ela está fazendo
agora?”
“provavelmente está no meio de uma cópula
oral”, Henry
sugeriu.
Julio colocou o violão de volta no
estojo e
foi até a
porta.
Henry acompanhou Julio até o carro que
estava estacionado na
entrada da garagem.
era uma bela noite
enluarada.
enquanto Julio ligava o motor e
dava ré na entrada
Henry lhe acenou um
adeus.
então ele entrou
se
sentou.
ele terminou a bebida intocada
de Julio
e então
ligou
para ela.
“ele acabou de sair daqui”, Henry disse
a ela, “ele está muito
mal...”
“você precisa me desculpar”,
ela disse, “mas estou ocupada neste
momento.”
ela
desligou.
e Henry serviu bebida em seu
próprio copo
enquanto lá fora os grilos cantavam
sua própria
canção.
1 118
Charles Bukowski
A Passada
Norman e eu, ambos aos 19, passeando pelas ruas da
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens
Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”
1939
depois de ter ouvido
Stravinsky
não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.
agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã
bêbado
ainda grande
não
tão jovem.
Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.
não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens
Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”
1939
depois de ter ouvido
Stravinsky
não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.
agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã
bêbado
ainda grande
não
tão jovem.
Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.
não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
1 096
Charles Bukowski
Aceito...
talvez eu esteja ficando louco, não tem problema
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
1 176
Charles Bukowski
Zero
sentado aqui olhando o ponteiro de segundos do TIMEX dar voltas e mais
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
1 233
Charles Bukowski
Juntos
EI, berrei de longe para ela
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
1 384
Charles Bukowski
O Melhor da Raça
não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
1 453
Charles Bukowski
Maus Momentos No Hotel da 3Rd Com a Vermont
Alabam era um ladrão sorrateiro e ele entrou no meu
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.
seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!
ele apenas me derrubou
outra vez.
quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!
ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.
finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.
foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.
então desci e bati na porta
dele.
bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!
o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou
fiquei ali parado observando
o cara.
e falei, me desculpa,
Alabam.
então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.
éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.
naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.
ainda me restava uma garrafa de
porto.
saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.
falei, que tal um trago,
Rebelde?
ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.
seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!
ele apenas me derrubou
outra vez.
quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!
ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.
finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.
foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.
então desci e bati na porta
dele.
bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!
o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou
fiquei ali parado observando
o cara.
e falei, me desculpa,
Alabam.
então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.
éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.
naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.
ainda me restava uma garrafa de
porto.
saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.
falei, que tal um trago,
Rebelde?
ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
1 150
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 134
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
822
Charles Bukowski
Meu Primeiro Caso Com Aquela Mulher Mais Velha
quando penso agora
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
1 588
Charles Bukowski
Os Dias Gloriosos
os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
995
Charles Bukowski
Bestas Saltando Ao Longo do Tempo –
Van Gogh escrevendo ao irmão pedindo tintas
Hemingway testando sua espingarda
Céline falindo como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs matando a esposa com uma arma
Mailer esfaqueando a dele
a impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remo
Dostoiévski enfileirado num muro para ser fuzilado
Crane pulando de um barco na voragem da hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelos soldados espanhóis
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton tomando veneno de rato
Shakespeare um plagiador
Beethoven com a corneta de surdez enfiada na cabeça
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche totalmente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
esse respirar
pra dentro e pra fora
pra fora e pra dentro
esses marginais
esses covardes
esses campeões
esses loucos cães da glória
movendo um tantinho de luz rumo a
nós
impossivelmente.
Hemingway testando sua espingarda
Céline falindo como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs matando a esposa com uma arma
Mailer esfaqueando a dele
a impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remo
Dostoiévski enfileirado num muro para ser fuzilado
Crane pulando de um barco na voragem da hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelos soldados espanhóis
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton tomando veneno de rato
Shakespeare um plagiador
Beethoven com a corneta de surdez enfiada na cabeça
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche totalmente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
esse respirar
pra dentro e pra fora
pra fora e pra dentro
esses marginais
esses covardes
esses campeões
esses loucos cães da glória
movendo um tantinho de luz rumo a
nós
impossivelmente.
1 282
Charles Bukowski
Educação
naquela pequena mesa com tinteiro embutido
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
1 366
Charles Bukowski
Ai Disse a Vaca À Cerca Que Ligava
, esperneiam esses bebês idiotas,
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
1 000
Charles Bukowski
Parabéns, Chinaski
conforme me aproximo dos 70
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
1 104
Charles Bukowski
Fissura
“não posso mais viver com você”,
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
1 582
Charles Bukowski
Dando Um Jeito
nesta manhã fumegante Hades bate palma com suas mãos de Herpes e
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
1 455
Charles Bukowski
Bem, É Assim Que É...
às vezes quando tudo parece estar no
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
1 151
Charles Bukowski
Todos Os Meus Amigos
Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
1 050
Charles Bukowski
Meu Truque do Desaparecimento
quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
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