Poemas neste tema
Alma
Affonso Romano de Sant'Anna
Ninfa
Diz um crítico
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
1 069
Affonso Romano de Sant'Anna
Com Dante
Neste Castelo de Gargonza
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
1 271
Affonso Romano de Sant'Anna
Viva Fera
Não me canso de estudar a morte.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
1 072
Affonso Romano de Sant'Anna
Entendimento
Estou cada vez mais entendendo a eternidade
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
1 116
Affonso Romano de Sant'Anna
Palavras E Paisagens
Há certas palavras pelas quais passo frequentemente
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
1 131
Affonso Romano de Sant'Anna
Certaldo
Um lagarto passeia sobre os muros medievais da cidadela
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
958
Affonso Romano de Sant'Anna
Da Janela do Hospital
Para Pedro Henrique Paiva
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
1 188
Affonso Romano de Sant'Anna
Epifania Num Bar de Aix
Sempre pensei, seria assim a maturidade:
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
1 089
Affonso Romano de Sant'Anna
Morte No Jardim
Ondulando anéis rubros e negros, a cobra
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
1 195
Affonso Romano de Sant'Anna
Dilema
Sempre que volto de viagem
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
1 144
Affonso Romano de Sant'Anna
Flores Sem Nome
Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.
1 146
Affonso Romano de Sant'Anna
Primavera Em Aix
“Martim caiu em área sagrada” – Clarice Lispector
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
1 083
Affonso Romano de Sant'Anna
Concerto de Dvorák
Soava na tela aquele concerto de celo de Dvorák:
eu via as imagens da orquestra
e as mãos e o rosto do possesso Misha Misky abraçado ao instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a espera, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
eu via as imagens da orquestra
e as mãos e o rosto do possesso Misha Misky abraçado ao instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a espera, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
778
Affonso Romano de Sant'Anna
Para Onde?
Quando começar a me desintegrar
para onde escorrerão meus belos sentimentos
e as sensações palpáveis do meu corpo?
Para onde escorrerá
o conteúdo desta forma,
este aqui e este agora?
Haverá sobrante essência
do corpo que dessora?
Por quanto tempo ficarei pairando
no céu da sala, nas antologias e conversas,
numa indefinível aura literária
enquanto a carne se desfaz na urna funerária?
para onde escorrerão meus belos sentimentos
e as sensações palpáveis do meu corpo?
Para onde escorrerá
o conteúdo desta forma,
este aqui e este agora?
Haverá sobrante essência
do corpo que dessora?
Por quanto tempo ficarei pairando
no céu da sala, nas antologias e conversas,
numa indefinível aura literária
enquanto a carne se desfaz na urna funerária?
1 250
Affonso Romano de Sant'Anna
Entrega
Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
644
Affonso Romano de Sant'Anna
Morte do Vizinho
Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
1 144
Affonso Romano de Sant'Anna
Música Nas Cinzas
Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
1 132
Affonso Romano de Sant'Anna
Amor E Ódio
Amor, te odeio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
1 342
Pablo Neruda
Manhã - XVI
Amo o pedaço de terra que tu és,
porque das campinas planetárias
outra estrela não tenho. Tu repetes
a multiplicação do universo.
Teus amplos olhos são a luz que tenho
das constelações derrotadas,
tua pele palpita como os caminhos
que percorre na chuva o meteoro.
De tanta lua foram para mim teus quadris,
de todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
de tanta luz ardente como mel na sombra
teu coração queimado por longos raios rubros,
e assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
pequena e planetária, pomba e geografia.
porque das campinas planetárias
outra estrela não tenho. Tu repetes
a multiplicação do universo.
Teus amplos olhos são a luz que tenho
das constelações derrotadas,
tua pele palpita como os caminhos
que percorre na chuva o meteoro.
De tanta lua foram para mim teus quadris,
de todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
de tanta luz ardente como mel na sombra
teu coração queimado por longos raios rubros,
e assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
pequena e planetária, pomba e geografia.
1 271
Affonso Romano de Sant'Anna
Analfabético
Nunca direi a palavra completa
Pois entre Alfa e Ômega
sou Beta.
Nunca direi a verdade absoluta
pois o que exponho
não é sequer vitória,
mas uma parte da luta.
Pois entre Alfa e Ômega
sou Beta.
Nunca direi a verdade absoluta
pois o que exponho
não é sequer vitória,
mas uma parte da luta.
1 158
Affonso Romano de Sant'Anna
Preparação
olhava a tarde sem compromisso.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
1 109
Affonso Romano de Sant'Anna
Unhas No Papel
Às vezes, as unhas dos pés, em devaneio,
e as da mão, silente, corto,
entre um poema e outro de permeio.
Corto unhas quando escrevo,
corto inconsciente
e aflito corto.
Quando me ergo da mesa
deixo no chão vestígios
do que podei.
E no papel,
a ilusão que semeei.
e as da mão, silente, corto,
entre um poema e outro de permeio.
Corto unhas quando escrevo,
corto inconsciente
e aflito corto.
Quando me ergo da mesa
deixo no chão vestígios
do que podei.
E no papel,
a ilusão que semeei.
1 092
Pablo Neruda
Solo de Sal
(De repente o dia rápido se transformou em tristeza
e assim a barcarola que crescia cantando
se cala e permanece a voz sem movimento.)
Sabereis que naquela região que cruzava com medo
crispava a noite os ruídos secretos, a sombra selvática,
e eu me arrastava com os ônibus no misterioso universo:
Ásia negra, treva do bosque, cinza sagrada,
e minha juventude trêmula com asas de mosca
saltando daqui para lá pelos reinos escuros.
De repente se imobilizaram as rodas, desceram os
desconhecidos
e ali fiquei, ocidental, na solidão da selva:
ali sem sair daquele carro perdido na noite,
com vinte anos de idade esperando a morte, refugiado em meu idioma.
De repente um tambor na selva, uma tocha, um rumor da rota,
e aqueles que predestinei como meus assassinos
bailavam ali, sob o peso da escuridão da selva,
para entreter o viajante perdido em remotas regiões.
Assim quando tantos presságios levavam ao final de
minha vida,
os altos tambores, as tranças floridas, os cintilantes tornozelos
dançavam sorrindo e cantando para um estrangeiro.
Canto-te este conto, amor meu, porque o ensino
do homem se cumpre apesar do estranho atavio
e ali se fundaram em mim os princípios da alba,
ali despertou minha razão à fraternidade dos homens.
Foi no Vietnã, no Vietnã no ano de mil novecentos e vinte e oito.
Quarenta anos depois da música de meus companheiros
chegou o gás assassino queimando os pés e a música,
queimando o silêncio ritual da natureza
incendiando o amor e matando a paz das crianças.
Maldição ao atroz invasor! Diz agora o tambor reunindo
o pequeno país no nó de sua resistência.
Amor meu, cantei para ti os transcursos de mar e de dia,
e foi sonolenta a lua de minha barcarola na água
porque o dispôs o sistema de minha simetria
e o beijo incitante da primavera marinha.
Disse-te: levar pelo mundo da viagem teus olhos amados!
A rosa que em meu coração estabelece seu povo fragrante!
E, disse, dou-te além disso a lembrança de pícaros e heróis,
o trovão do mundo acompanha com seu poderio meus beijos,
e assim foi a barca barqueira deslizando em minha barcarola.
Mas anos impuros, o sangue do homem distante
recai na espuma, nos mancha na onda, salpica a lua: são nossos,
são nossas dores aquelas distantes dores
e a resistência dos destruídos é parte concreta de minha alma.
Talvez esta guerra se irá como aquelas que nos compartiram,
deixando-nos mortos, matando-nos com os que mataram
mas a desonra deste tempo toca-nos a fronte com dedos queimados
e quem apagará o inflexível que teve o sangue inocente?
Amor meu, ao longo da costa longa
de uma pétala à outra a terra constrói o aroma
e já o estandarte da primavera proclama
nossa eternidade não por breve menos lacerante.
Se nunca a nave em seu império regressa com dedos intactos,
se a barcarola seguia seu rumo no trovão marinho
e se tua cintura dourada verteu sua beleza em minhas mãos
aqui submetemos neste regresso do mar, o destino,
e sem mais exame cumprimos com a labareda.
Quem ouve a essência secreta da sucessão,
da sucessiva estação que nos enche de sol ou de pranto?
Escolhe a terra calada uma folha, a ramificada póstuma
e cai na altura amarela como o testemunho de um advento.
O homem trepou em seus motores, se fizeram terríveis
as obras de arte, os quadros de chumbo, as tristes estátuas enfileiradas,
os livros que se dedicaram a falsificar o relâmpago,
os grandes negócios se fizeram com manchas de sangue no barro dos arrozais,
e da esperança de muitos ficou um esqueleto imprevisto:
o fim deste século pagava no céu o que nos devia,
e enquanto chegava à lua e deixava cair ferramentas de ouro,
não soubemos nós, os filhos do lento crepúsculo,
se se descobria outra forma de morte ou se tínhamos um novo planeta.
De minha parte e tua parte, cumprimos, compartilhamos esperanças e invernos
e fomos feridos não só pelos inimigos mortais
mas por mortais amigos (e isto pareceu mais amargo),
porém não me parece mais doce meu pão ou meu livro entretanto:
agregamos vivendo a cifra que falta à dor
e seguimos amando o amor e com nossa conduta direta
enterramos os mentirosos e vivemos com os verdadeiros.
Amor meu, a noite chegou galopando sobre as extensões do mundo.
Amor meu, a noite apaga o signo do mar e a nave resvala e repousa.
Amor meu, a noite acendeu seu instituto estrelado.
No vazio do homem adormecido a mulher navegou desvelada
e desceram os dois no sonho pelos rios que levam ao pranto
e cresceram de novo entre os animais escuros e os trens carregados de sombra
até que não chegaram a ser senão pálidas pedras noturnas.
É a hora, amor meu, de apartar esta rosa sombria,
cerrar as estrelas, enterrar a cinza na terra:
e na insurreição da luz, despertar com os que despertaram
ou seguir no sonho alcançando a outra margem do mar que não tem outra margem.
e assim a barcarola que crescia cantando
se cala e permanece a voz sem movimento.)
Sabereis que naquela região que cruzava com medo
crispava a noite os ruídos secretos, a sombra selvática,
e eu me arrastava com os ônibus no misterioso universo:
Ásia negra, treva do bosque, cinza sagrada,
e minha juventude trêmula com asas de mosca
saltando daqui para lá pelos reinos escuros.
De repente se imobilizaram as rodas, desceram os
desconhecidos
e ali fiquei, ocidental, na solidão da selva:
ali sem sair daquele carro perdido na noite,
com vinte anos de idade esperando a morte, refugiado em meu idioma.
De repente um tambor na selva, uma tocha, um rumor da rota,
e aqueles que predestinei como meus assassinos
bailavam ali, sob o peso da escuridão da selva,
para entreter o viajante perdido em remotas regiões.
Assim quando tantos presságios levavam ao final de
minha vida,
os altos tambores, as tranças floridas, os cintilantes tornozelos
dançavam sorrindo e cantando para um estrangeiro.
Canto-te este conto, amor meu, porque o ensino
do homem se cumpre apesar do estranho atavio
e ali se fundaram em mim os princípios da alba,
ali despertou minha razão à fraternidade dos homens.
Foi no Vietnã, no Vietnã no ano de mil novecentos e vinte e oito.
Quarenta anos depois da música de meus companheiros
chegou o gás assassino queimando os pés e a música,
queimando o silêncio ritual da natureza
incendiando o amor e matando a paz das crianças.
Maldição ao atroz invasor! Diz agora o tambor reunindo
o pequeno país no nó de sua resistência.
Amor meu, cantei para ti os transcursos de mar e de dia,
e foi sonolenta a lua de minha barcarola na água
porque o dispôs o sistema de minha simetria
e o beijo incitante da primavera marinha.
Disse-te: levar pelo mundo da viagem teus olhos amados!
A rosa que em meu coração estabelece seu povo fragrante!
E, disse, dou-te além disso a lembrança de pícaros e heróis,
o trovão do mundo acompanha com seu poderio meus beijos,
e assim foi a barca barqueira deslizando em minha barcarola.
Mas anos impuros, o sangue do homem distante
recai na espuma, nos mancha na onda, salpica a lua: são nossos,
são nossas dores aquelas distantes dores
e a resistência dos destruídos é parte concreta de minha alma.
Talvez esta guerra se irá como aquelas que nos compartiram,
deixando-nos mortos, matando-nos com os que mataram
mas a desonra deste tempo toca-nos a fronte com dedos queimados
e quem apagará o inflexível que teve o sangue inocente?
Amor meu, ao longo da costa longa
de uma pétala à outra a terra constrói o aroma
e já o estandarte da primavera proclama
nossa eternidade não por breve menos lacerante.
Se nunca a nave em seu império regressa com dedos intactos,
se a barcarola seguia seu rumo no trovão marinho
e se tua cintura dourada verteu sua beleza em minhas mãos
aqui submetemos neste regresso do mar, o destino,
e sem mais exame cumprimos com a labareda.
Quem ouve a essência secreta da sucessão,
da sucessiva estação que nos enche de sol ou de pranto?
Escolhe a terra calada uma folha, a ramificada póstuma
e cai na altura amarela como o testemunho de um advento.
O homem trepou em seus motores, se fizeram terríveis
as obras de arte, os quadros de chumbo, as tristes estátuas enfileiradas,
os livros que se dedicaram a falsificar o relâmpago,
os grandes negócios se fizeram com manchas de sangue no barro dos arrozais,
e da esperança de muitos ficou um esqueleto imprevisto:
o fim deste século pagava no céu o que nos devia,
e enquanto chegava à lua e deixava cair ferramentas de ouro,
não soubemos nós, os filhos do lento crepúsculo,
se se descobria outra forma de morte ou se tínhamos um novo planeta.
De minha parte e tua parte, cumprimos, compartilhamos esperanças e invernos
e fomos feridos não só pelos inimigos mortais
mas por mortais amigos (e isto pareceu mais amargo),
porém não me parece mais doce meu pão ou meu livro entretanto:
agregamos vivendo a cifra que falta à dor
e seguimos amando o amor e com nossa conduta direta
enterramos os mentirosos e vivemos com os verdadeiros.
Amor meu, a noite chegou galopando sobre as extensões do mundo.
Amor meu, a noite apaga o signo do mar e a nave resvala e repousa.
Amor meu, a noite acendeu seu instituto estrelado.
No vazio do homem adormecido a mulher navegou desvelada
e desceram os dois no sonho pelos rios que levam ao pranto
e cresceram de novo entre os animais escuros e os trens carregados de sombra
até que não chegaram a ser senão pálidas pedras noturnas.
É a hora, amor meu, de apartar esta rosa sombria,
cerrar as estrelas, enterrar a cinza na terra:
e na insurreição da luz, despertar com os que despertaram
ou seguir no sonho alcançando a outra margem do mar que não tem outra margem.
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