Poemas neste tema
Alma
Pablo Neruda
Pássaros
Oh delgada cascata de música silvestre!
Oh borbulha lavrada pela água na luz!
Oh som metálico do céu transparente!
Oh círculo do mundo convertido em pureza!
Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!
Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.
Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!
O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.
Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!
Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.
Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.
Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.
Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
Oh borbulha lavrada pela água na luz!
Oh som metálico do céu transparente!
Oh círculo do mundo convertido em pureza!
Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!
Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.
Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!
O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.
Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!
Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.
Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.
Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.
Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
1 303
Affonso Romano de Sant'Anna
A Maravilha do Mundo
Quem disse
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
1 072
Affonso Romano de Sant'Anna
Viagens
Tantos lugares por conhecer
por exemplo, o deserto de Gobi,
as Galápagos,
e eu aqui disputando a cerca
com meus vizinhos,
eu aqui cochichando invejas, vaidades,
dependendo dos jornais.
Se eu fosse um sábio iria rumo ao Saara
ergueria a tenda em Machu Pichu
ou no Tibet.
Não. Um homem sábio
não é necessariamente um turista.
Retomo o meu pequeno grande romancista:
a verdade às vezes não habita os altos montes,
pode estar na rua Erê.
por exemplo, o deserto de Gobi,
as Galápagos,
e eu aqui disputando a cerca
com meus vizinhos,
eu aqui cochichando invejas, vaidades,
dependendo dos jornais.
Se eu fosse um sábio iria rumo ao Saara
ergueria a tenda em Machu Pichu
ou no Tibet.
Não. Um homem sábio
não é necessariamente um turista.
Retomo o meu pequeno grande romancista:
a verdade às vezes não habita os altos montes,
pode estar na rua Erê.
1 019
Pablo Neruda
Regresso
Ontem regressamos cortando o caminho da água, do ar e a neve
e ao aterrissar na palma, na mão do Chile,
vagamente inquietos da permanência em confins distantes,
abrumadamente adormecidos ainda no sonho do voo
sem tocar apenas nem reconhecendo a terra temível e amada,
veio a bondade com seu traje cinza e a imóvel grandeza que ninguém conhece
e tive à minha vista a estrela que te reconhece
e assim com valises que apenas tocavam os dedos dos aduaneiros,
rodeados por três automóveis de amigos amados,
entrei com Matilde na sala dos candelabros do mundo,
em minha pátria pequena que acende suas velas vulcânicas
entre o esplendor das neves intactas e o coro da água marinha.
Oh pátria, ao beijar tua cintura de vespa vulcânica,
ao erguer o olhar a teus cerros de pálpebras negras
e descer a beijar na areia do mar a andrajosa formosura
de teus pés maltratados que sobem e descem pelas
cordilheiras,
recebi de repente o cheiro da costa marinha
e quanta dor iracunda esmagou meus pequenos irmãos,
misérias que matam com mãos mais duras que os terremotos,
injustiça vertendo o sal na ferida, queimando a pedra da alma,
tudo isso voou desprendido na rajada do mar majestoso,
do único oceano, da rosa gigante que se abre e se fecha na orla
perfumando tua hirsuta beleza com seus movimentos azuis.
Aqui está o estilo, sem dúvida, vejamos, salta! Suponho,
coração de papel, que minha nave cruzaste bailando à moda,
à moda de andar, à moda de ver, e é verdade que olhamos
com os olhos cambiantes e abrimos a porta com chaves futuras,
mas aqui entre o matagal sacudido e a insólita névoa de Janeiro
chamuscada a relva, sedenta a lua, sem sol e sem ninguém a areia,
e o vaivém da onda que cava sua tumba infinita
e o cheiro extenso de sal soberano que se desenrola
como um episódio do frio, cantando com trovões,
aqui, onde encontro, pergunto, o conselho?
E é claro o leio na rajada, no rastro da ave queltehue7,
na rouca advertência do mar, na noite que conta e que soma,
e nas cicatrizes abertas dos rochedos
pelas quebraduras do gelo de antigas catástrofes.
A borrasca que acende a espuma coroando o zênite do marulho
me ensinou a limpar as escuras ferramentas de meu desvario,
me ensinou a estender e secar no vento a linhagem da minha profecia,
e nestas rugas de pedra, na rocha quebrada pela eternidade movediça,
achei um ninho recente de barro e de palha fragrante
como os ovos do mar e as asas da travessia.
De modo que um beijo sem nome com lábios de terra
ou um nome com lábios de sombra marinha ou mel da costa selvagem
ou os surdos sussurros que indicam ao mês de Setembro
que a primavera enterrada começa a arranhar com suas unhas o féretro
ou melhor o chuvoso chamado de um menino que tem meu rosto
e que encontro nas dunas, perdido, e que não reconheço,
tudo isto, agregando o barril das más ações que voltam e assustam,
ou o ramo de nardos inúteis que talvez apodreceu em uma porta
sem que aquela à que foi destinado tocasse ou beijasse seu aroma,
tudo isto é o livro, o manual de minha sabedoria;
e não posso aprender outras coisas porque chego da desventura
e já descarreguei tantos sacos da cor amaranto na chuva
que só me fica uma hora para fazer-me feliz; é cedo,
é cedo e é tarde, é cedo: amanhece com lua
e no sol da noite recolho as melhores espigas do céu.
e ao aterrissar na palma, na mão do Chile,
vagamente inquietos da permanência em confins distantes,
abrumadamente adormecidos ainda no sonho do voo
sem tocar apenas nem reconhecendo a terra temível e amada,
veio a bondade com seu traje cinza e a imóvel grandeza que ninguém conhece
e tive à minha vista a estrela que te reconhece
e assim com valises que apenas tocavam os dedos dos aduaneiros,
rodeados por três automóveis de amigos amados,
entrei com Matilde na sala dos candelabros do mundo,
em minha pátria pequena que acende suas velas vulcânicas
entre o esplendor das neves intactas e o coro da água marinha.
Oh pátria, ao beijar tua cintura de vespa vulcânica,
ao erguer o olhar a teus cerros de pálpebras negras
e descer a beijar na areia do mar a andrajosa formosura
de teus pés maltratados que sobem e descem pelas
cordilheiras,
recebi de repente o cheiro da costa marinha
e quanta dor iracunda esmagou meus pequenos irmãos,
misérias que matam com mãos mais duras que os terremotos,
injustiça vertendo o sal na ferida, queimando a pedra da alma,
tudo isso voou desprendido na rajada do mar majestoso,
do único oceano, da rosa gigante que se abre e se fecha na orla
perfumando tua hirsuta beleza com seus movimentos azuis.
Aqui está o estilo, sem dúvida, vejamos, salta! Suponho,
coração de papel, que minha nave cruzaste bailando à moda,
à moda de andar, à moda de ver, e é verdade que olhamos
com os olhos cambiantes e abrimos a porta com chaves futuras,
mas aqui entre o matagal sacudido e a insólita névoa de Janeiro
chamuscada a relva, sedenta a lua, sem sol e sem ninguém a areia,
e o vaivém da onda que cava sua tumba infinita
e o cheiro extenso de sal soberano que se desenrola
como um episódio do frio, cantando com trovões,
aqui, onde encontro, pergunto, o conselho?
E é claro o leio na rajada, no rastro da ave queltehue7,
na rouca advertência do mar, na noite que conta e que soma,
e nas cicatrizes abertas dos rochedos
pelas quebraduras do gelo de antigas catástrofes.
A borrasca que acende a espuma coroando o zênite do marulho
me ensinou a limpar as escuras ferramentas de meu desvario,
me ensinou a estender e secar no vento a linhagem da minha profecia,
e nestas rugas de pedra, na rocha quebrada pela eternidade movediça,
achei um ninho recente de barro e de palha fragrante
como os ovos do mar e as asas da travessia.
De modo que um beijo sem nome com lábios de terra
ou um nome com lábios de sombra marinha ou mel da costa selvagem
ou os surdos sussurros que indicam ao mês de Setembro
que a primavera enterrada começa a arranhar com suas unhas o féretro
ou melhor o chuvoso chamado de um menino que tem meu rosto
e que encontro nas dunas, perdido, e que não reconheço,
tudo isto, agregando o barril das más ações que voltam e assustam,
ou o ramo de nardos inúteis que talvez apodreceu em uma porta
sem que aquela à que foi destinado tocasse ou beijasse seu aroma,
tudo isto é o livro, o manual de minha sabedoria;
e não posso aprender outras coisas porque chego da desventura
e já descarreguei tantos sacos da cor amaranto na chuva
que só me fica uma hora para fazer-me feliz; é cedo,
é cedo e é tarde, é cedo: amanhece com lua
e no sol da noite recolho as melhores espigas do céu.
1 206
Pablo Neruda
III. A Nave
A nave é a rosa mais dura do mundo: floresce no sol
tempestuoso
e se abre no mar a corola de seus imponentes pistilos.
Assobiante é o vento nas pétalas,
a onda levanta a rosa nas torres da água
e o homem resolve o caminho fechado, cortando a grande esmeralda.
Minha pátria chamou o marinheiro: Olhai-o na proa do século!
Se o tempo não quis mover-se nos velhos relógios cansados
ele faz do tempo uma nave e dirige este século ao oceano,
ao amplo e sonoro Pacífico, semeado pelos arquipélagos,
onde uma espada de pedra delgada suspensa das cordilheiras
espera as mãos de Cochrane para combater as trevas.
Minha pátria é a espada de pedra das cordilheiras andinas.
Minha pátria é o mar oprimido que espera por Tomás Marinheiro.
tempestuoso
e se abre no mar a corola de seus imponentes pistilos.
Assobiante é o vento nas pétalas,
a onda levanta a rosa nas torres da água
e o homem resolve o caminho fechado, cortando a grande esmeralda.
Minha pátria chamou o marinheiro: Olhai-o na proa do século!
Se o tempo não quis mover-se nos velhos relógios cansados
ele faz do tempo uma nave e dirige este século ao oceano,
ao amplo e sonoro Pacífico, semeado pelos arquipélagos,
onde uma espada de pedra delgada suspensa das cordilheiras
espera as mãos de Cochrane para combater as trevas.
Minha pátria é a espada de pedra das cordilheiras andinas.
Minha pátria é o mar oprimido que espera por Tomás Marinheiro.
1 095
Affonso Romano de Sant'Anna
Amizades & Exílios
(Lembrando Ivan Otero)
Belo
vens caminhando pela praia.
De pronto, não te reconheço.
Tens os cabelos brancos
embora sejas belo e forte
como ontem
quando íamos ao colégio
e as colegas te amavam
e os colegas te invejavam
no teatro e nos esportes.
Trinta anos cortados de exílio
mulher, polícia e filhos. “Ah! o amor!
ah! o amor (nos confessamos)
nunca o entenderemos.”
Conferimos os fios de nossas brancas barbas
que derramam sabedoria
em ondas sobre a areia.
Não somos sequer dois sábios chineses
senão dois náufragos brasileiros
sobraçando destroços pessoais numa praia tropical.
Belo
vens caminhando pela praia.
De pronto, não te reconheço.
Tens os cabelos brancos
embora sejas belo e forte
como ontem
quando íamos ao colégio
e as colegas te amavam
e os colegas te invejavam
no teatro e nos esportes.
Trinta anos cortados de exílio
mulher, polícia e filhos. “Ah! o amor!
ah! o amor (nos confessamos)
nunca o entenderemos.”
Conferimos os fios de nossas brancas barbas
que derramam sabedoria
em ondas sobre a areia.
Não somos sequer dois sábios chineses
senão dois náufragos brasileiros
sobraçando destroços pessoais numa praia tropical.
1 065
Affonso Romano de Sant'Anna
A Paineira E a Favela
Para Sérgio Faraco
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
1 054
Pablo Neruda
Viajantes
Recordo a fina cinza celeste que se desprendia
caindo em teus olhos, cobrindo a veste celeste,
azul, extrazul azulado era o céu desnudo
e o ouro era azul nos seios sagrados com que Samarkanda
entornava suas taças azuis sobre tua cabeça
dando-te o prestígio de um vento enterrado que volta à vida
derramando presentes azuis e frutos de pompa celeste.
Eu escrevo a lembrança, o recente viajante, a perdida
homenagem
que minha alma traçou navegando as duras regiões
em que se encontraram os séculos mais velhos, cobertos de pó e de sangue,
com a irrigação florescente das energias:
tu sabes, amor, que pisamos a estepe recém-entregada ao cravo;
recém amassavam o pão os que ordenam que cantem as águas;
recém se deitavam ao lado do rio inventado por eles
e vimos chegar o aroma depois de mil anos de ausência.
Acordo na noite, acordas de noite, perdido na paz cinzenta
daquelas cidades que tombam a tarde com torres de ouro
e em cima cachos de mágicas cúpulas onde a turquesa
forjou um hemisfério secreto e sagrado de luz feminina
e tu no crepúsculo, perdida em meu sonho repetes
com dois cereais dourados o sonho do céu perdido.
O novo que traçam os homens, o riso do claro engenheiro
que deu-nos a provar o produto orgulhoso nascido na
estepe maldita
talvez esqueçamos tecendo no sonho a continuidade do silêncio
porque assim determina o viajante que aquela cinza sagrada,
as torres de guerra, o hotel dos deuses calados,
tudo aquilo que ouviu os galopes guerreiros, o grito
do agonizante enredado na cruz ou na roda,
tudo aquilo que o tempo acendeu com sua lâmpada e depois
tremeu no vazio e gastou a corrente infinita de outonos e luas
parece no sonho mais vivo que todos os vivos
e quando este ovo, este mel, este hectare de linho,
este assado de reses que pastam as novas pradarias,
este canto de amor kolkosiano na água que corre
parecem irreais, perdidos no meio do sol de Bukhara,
como se a terra sedenta, violada e nutritiva,
quisesse estender o mandato, e o punho vazio
de cúpulas, tumbas, mesquitas, e de seu esplendor angustiado.
caindo em teus olhos, cobrindo a veste celeste,
azul, extrazul azulado era o céu desnudo
e o ouro era azul nos seios sagrados com que Samarkanda
entornava suas taças azuis sobre tua cabeça
dando-te o prestígio de um vento enterrado que volta à vida
derramando presentes azuis e frutos de pompa celeste.
Eu escrevo a lembrança, o recente viajante, a perdida
homenagem
que minha alma traçou navegando as duras regiões
em que se encontraram os séculos mais velhos, cobertos de pó e de sangue,
com a irrigação florescente das energias:
tu sabes, amor, que pisamos a estepe recém-entregada ao cravo;
recém amassavam o pão os que ordenam que cantem as águas;
recém se deitavam ao lado do rio inventado por eles
e vimos chegar o aroma depois de mil anos de ausência.
Acordo na noite, acordas de noite, perdido na paz cinzenta
daquelas cidades que tombam a tarde com torres de ouro
e em cima cachos de mágicas cúpulas onde a turquesa
forjou um hemisfério secreto e sagrado de luz feminina
e tu no crepúsculo, perdida em meu sonho repetes
com dois cereais dourados o sonho do céu perdido.
O novo que traçam os homens, o riso do claro engenheiro
que deu-nos a provar o produto orgulhoso nascido na
estepe maldita
talvez esqueçamos tecendo no sonho a continuidade do silêncio
porque assim determina o viajante que aquela cinza sagrada,
as torres de guerra, o hotel dos deuses calados,
tudo aquilo que ouviu os galopes guerreiros, o grito
do agonizante enredado na cruz ou na roda,
tudo aquilo que o tempo acendeu com sua lâmpada e depois
tremeu no vazio e gastou a corrente infinita de outonos e luas
parece no sonho mais vivo que todos os vivos
e quando este ovo, este mel, este hectare de linho,
este assado de reses que pastam as novas pradarias,
este canto de amor kolkosiano na água que corre
parecem irreais, perdidos no meio do sol de Bukhara,
como se a terra sedenta, violada e nutritiva,
quisesse estender o mandato, e o punho vazio
de cúpulas, tumbas, mesquitas, e de seu esplendor angustiado.
596
Affonso Romano de Sant'Anna
Pedes Explicação
Pedes explicações, que não sei dar,
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
1 031
Affonso Romano de Sant'Anna
Biografia Alheia
Cada amigo que morre
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
1 157
Affonso Romano de Sant'Anna
Cena Na Lagoa
Movida por dez braços
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
1 024
Pablo Neruda
Pucatrihue
Em Pucatrihue vive
a voz, o sal, o ar.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue cresce
a tarde como quando
uma bandeira
nasce.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue um dia
perdeu-se e não voltou
da selva.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue creio
não sei por que nem quando
nasceram
minhas raízes.
Perdi-as pelo mundo,
ou as deixei esquecidas
em um hotel escuro,
carcomido, da Europa.
Busquei-as no entanto
e só achei as minas,
os velhos esqueletos
de mármore amarelo.
Ai, Délia, minhas raízes
estão em Pucatrihue.
Não sei por que, nem como,
nem desde quando, mas
estão em Pucatrihue.
Sim.
Em Pucatrihue.
a voz, o sal, o ar.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue cresce
a tarde como quando
uma bandeira
nasce.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue um dia
perdeu-se e não voltou
da selva.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue creio
não sei por que nem quando
nasceram
minhas raízes.
Perdi-as pelo mundo,
ou as deixei esquecidas
em um hotel escuro,
carcomido, da Europa.
Busquei-as no entanto
e só achei as minas,
os velhos esqueletos
de mármore amarelo.
Ai, Délia, minhas raízes
estão em Pucatrihue.
Não sei por que, nem como,
nem desde quando, mas
estão em Pucatrihue.
Sim.
Em Pucatrihue.
1 143
Pablo Neruda
Os invulneráveis
Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
1 032
Pablo Neruda
Solidões
Estava redonda a lua e estático o círculo negro
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.
Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?
E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.
E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.
Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?
E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.
E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
760
Affonso Romano de Sant'Anna
Presente Vivo
Viver
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
943
Pablo Neruda
Terremoto no Chile
O navio caminha na noite sem pés resvalando
na água sem fundo nem forma, na abóbada negra do mundo,
nas pobres cabinas o homem resolve suas mínimas normas,
a roupa, o relógio, o anel, os livros sangrentos que lê:
o amor escolheu seu esconderijo e a sombra entrelaça
um férreo relâmpago que cai frustrado no vazio
e em plena substância impassível resvala o navio
com um carregamento de pobres desnudos e mercadorias.
Ali, no começo da primavera marinha,
quando a ave assustada e faminta persegue a nave
e no sal aprazível do céu e da água aparece o aroma
do bosque da Europa, o cheiro da menta terrestre,
soubemos, amada, que o Chile sofria quebrado por um terremoto.
Deus meu, tocou o sino a língua do antepassado na minha boca,
outra vez, outra vez o cavalo iracundo pateia o planeta
e escolhe a pátria delgada, a beira do páramo andino
a terra que deu em sua angustura a uva celeste e o cobre absoluto
outra vez, outra vez a ferradura no rosto
da pobre família que nasce e padece outra vez o espanto e a greta,
o solo que separa os pés e divide o volume da alma
até fazê-la um lenço, um punhado de pó, um gemido.
Talvez és, Chile, a cauda do mundo, o cometa marinho
apenas colado ao assombro nevado da cordilheira
e o passo instantâneo de um átomo solto na veia magnética:
treme tua sombra de âmbar e tua geologia
como se o rechaço do Polo ao ímã de tuas vinhas azuis
fizesse o conflito, e tua essência, outra vez derramada,
outra vez deve unir sua desgraça e sua graça e nascer outra vez.
Pelos muros caídos, o pranto no triste hospital,
pelas ruas cobertas de escombros e medo,
pela mina que forma a sombra às doze do dia,
pela ave que voa sem árvore e o cachorro que uiva sem olhos,
pátria de água e de vinho, filha e mãe de minha alma,
deixa-me confundir-me contigo no vento e no pranto
e que o mesmo iracundo destino aniquile meu corpo e minha terra.
Oh sem par formosura do Norte deserto,
a areia infinita, os rastros metálicos dos meteoros,
a sombra cortando o desenho de sua geografia violeta
na clara paciência do dia vazio como uma basílica
na que estiveram sentadas as pedras caídas desde outro planeta:
a seu redor as colinas de colo irisado esperando e mais tarde
as estrelas mais frescas do mundo palpitam tão perto
que cheiram à sombra, a jasmim, à neve do céu.
Oh pampas desnudos, capítulos cruéis que só percorrem os olhos do ceibo2,
sem par é o nome do homem que cava na porta maldita
e rompe deixando suas mãos nos cemitérios
a crosta do astro escondido, nitrato, sulfato, bismuto,
e acima na neve deserta de cruzes a altura eriçada,
a entrega através de seu sangue o sangue maligno do cobre,
sem par é o nome do homem e modesto é seu suave costume,
se chama chileno, está acima e abaixo no fogo, no frio,
não tem outro nome e isso lhe basta, não tem sobrenome,
se chama também areal ou salitre ou quebranto
e somente se olhas suas mãos amargas saberás que é meu irmão.
Rosales, Ramírez, Machucas, Sotos, Aguileras,
Quevedos, Basoaltos, Urrutias, Ortegas, Navarros, Loyolas,
Sánchez, Pérez, Reyes, Tapias,
Conejeros, González, Martínez,
Cerdas, Montes, López, Aguirres, Morenos, Castillos,
Ampueros, Salinas, Bernales, Pintos, Navarretes,
Núñez, Carvajales, Carillos, Candias, Alegrías,
Parras, Rojas, Lagos, Jiménez, Azócares,
Oyarzunes, Arces, Sepúlvedas, Díaz,
Álvarez, Rodríguez, Zuñigas, Pereiras, Robles, Fuentes, Silvas,
nomes que são homens ou grãos de pólvora ou trigo,
estes são os nomes que assinam as páginas da primavera,
do vinho, do duro torrão, do carvão, do arado,
estes são os nomes de inverno, dos escritórios, dos
ministérios,
nomes de soldados, de agrários, de pobres e muitos, de
entrada cedo
e saída aberta na sombra sem glória e sem ouro:
a estes pertenço e agora na noite de alarma, tão longe
no meio do mar, na noite, os chamo e me chamo;
quem cai cai em mim, o ferido me fere, o que morre me
mata.
Oh pátria, formosura de pedras, tomates, peixes, cereais, abelhas, tonéis,
mulheres de doce cintura que inveja a lua minguante,
metais que formam teu claro esqueleto de espada,
aromas de assados de inverno com luz de guitarras noturnas,
perais carregados de mel cheiroso, cigarras, rumores
de estio repleto como os canastros das chacareiras,
oh amor de rocio do Chile em minha fronte, destrói este sonho de ira,
devolve-me intacta minha pátria pequena, infinita, calada, sonora e profunda!
Oh ramos do Sul quando o trem deixou para trás os limões
e segue para o Sul galopando e ofegando rolando para o Polo,
e passam os rios e entram os vulcões pelas janelinhas
e um cheiro de frio se estende como se a cor da terra
mudasse e minha infância
tomasse seu poncho molhado para percorrer os caminhosde agosto.
Recordo que a folha quebrada do peumo3 em minha boca cantou uma toada
e o cheiro do raulí4 enquanto chove se abriu como uma arca
e todos os sonhos do mundo são um arvoredo
por onde caminha a lembrança pisando as folhas.
Ai canta guitarra do Sul na chuva, no sol lancinante
que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes asas,
ai canta, racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
o inabarcável silêncio da primavera molhada,
e que tua canção me devolva a pátria em perigo:
que corram as cordas do canto no vento estrangeiro
porque meu sangue circula no meu canto se cantas,
se cantas, oh pátria terrível, no centro dos terremotos
porque assim necessitas de mim, ressurgida,
porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.
Não sei se morrestes e se morri: esperando sabê-lo te
canto este canto.
na água sem fundo nem forma, na abóbada negra do mundo,
nas pobres cabinas o homem resolve suas mínimas normas,
a roupa, o relógio, o anel, os livros sangrentos que lê:
o amor escolheu seu esconderijo e a sombra entrelaça
um férreo relâmpago que cai frustrado no vazio
e em plena substância impassível resvala o navio
com um carregamento de pobres desnudos e mercadorias.
Ali, no começo da primavera marinha,
quando a ave assustada e faminta persegue a nave
e no sal aprazível do céu e da água aparece o aroma
do bosque da Europa, o cheiro da menta terrestre,
soubemos, amada, que o Chile sofria quebrado por um terremoto.
Deus meu, tocou o sino a língua do antepassado na minha boca,
outra vez, outra vez o cavalo iracundo pateia o planeta
e escolhe a pátria delgada, a beira do páramo andino
a terra que deu em sua angustura a uva celeste e o cobre absoluto
outra vez, outra vez a ferradura no rosto
da pobre família que nasce e padece outra vez o espanto e a greta,
o solo que separa os pés e divide o volume da alma
até fazê-la um lenço, um punhado de pó, um gemido.
Talvez és, Chile, a cauda do mundo, o cometa marinho
apenas colado ao assombro nevado da cordilheira
e o passo instantâneo de um átomo solto na veia magnética:
treme tua sombra de âmbar e tua geologia
como se o rechaço do Polo ao ímã de tuas vinhas azuis
fizesse o conflito, e tua essência, outra vez derramada,
outra vez deve unir sua desgraça e sua graça e nascer outra vez.
Pelos muros caídos, o pranto no triste hospital,
pelas ruas cobertas de escombros e medo,
pela mina que forma a sombra às doze do dia,
pela ave que voa sem árvore e o cachorro que uiva sem olhos,
pátria de água e de vinho, filha e mãe de minha alma,
deixa-me confundir-me contigo no vento e no pranto
e que o mesmo iracundo destino aniquile meu corpo e minha terra.
Oh sem par formosura do Norte deserto,
a areia infinita, os rastros metálicos dos meteoros,
a sombra cortando o desenho de sua geografia violeta
na clara paciência do dia vazio como uma basílica
na que estiveram sentadas as pedras caídas desde outro planeta:
a seu redor as colinas de colo irisado esperando e mais tarde
as estrelas mais frescas do mundo palpitam tão perto
que cheiram à sombra, a jasmim, à neve do céu.
Oh pampas desnudos, capítulos cruéis que só percorrem os olhos do ceibo2,
sem par é o nome do homem que cava na porta maldita
e rompe deixando suas mãos nos cemitérios
a crosta do astro escondido, nitrato, sulfato, bismuto,
e acima na neve deserta de cruzes a altura eriçada,
a entrega através de seu sangue o sangue maligno do cobre,
sem par é o nome do homem e modesto é seu suave costume,
se chama chileno, está acima e abaixo no fogo, no frio,
não tem outro nome e isso lhe basta, não tem sobrenome,
se chama também areal ou salitre ou quebranto
e somente se olhas suas mãos amargas saberás que é meu irmão.
Rosales, Ramírez, Machucas, Sotos, Aguileras,
Quevedos, Basoaltos, Urrutias, Ortegas, Navarros, Loyolas,
Sánchez, Pérez, Reyes, Tapias,
Conejeros, González, Martínez,
Cerdas, Montes, López, Aguirres, Morenos, Castillos,
Ampueros, Salinas, Bernales, Pintos, Navarretes,
Núñez, Carvajales, Carillos, Candias, Alegrías,
Parras, Rojas, Lagos, Jiménez, Azócares,
Oyarzunes, Arces, Sepúlvedas, Díaz,
Álvarez, Rodríguez, Zuñigas, Pereiras, Robles, Fuentes, Silvas,
nomes que são homens ou grãos de pólvora ou trigo,
estes são os nomes que assinam as páginas da primavera,
do vinho, do duro torrão, do carvão, do arado,
estes são os nomes de inverno, dos escritórios, dos
ministérios,
nomes de soldados, de agrários, de pobres e muitos, de
entrada cedo
e saída aberta na sombra sem glória e sem ouro:
a estes pertenço e agora na noite de alarma, tão longe
no meio do mar, na noite, os chamo e me chamo;
quem cai cai em mim, o ferido me fere, o que morre me
mata.
Oh pátria, formosura de pedras, tomates, peixes, cereais, abelhas, tonéis,
mulheres de doce cintura que inveja a lua minguante,
metais que formam teu claro esqueleto de espada,
aromas de assados de inverno com luz de guitarras noturnas,
perais carregados de mel cheiroso, cigarras, rumores
de estio repleto como os canastros das chacareiras,
oh amor de rocio do Chile em minha fronte, destrói este sonho de ira,
devolve-me intacta minha pátria pequena, infinita, calada, sonora e profunda!
Oh ramos do Sul quando o trem deixou para trás os limões
e segue para o Sul galopando e ofegando rolando para o Polo,
e passam os rios e entram os vulcões pelas janelinhas
e um cheiro de frio se estende como se a cor da terra
mudasse e minha infância
tomasse seu poncho molhado para percorrer os caminhosde agosto.
Recordo que a folha quebrada do peumo3 em minha boca cantou uma toada
e o cheiro do raulí4 enquanto chove se abriu como uma arca
e todos os sonhos do mundo são um arvoredo
por onde caminha a lembrança pisando as folhas.
Ai canta guitarra do Sul na chuva, no sol lancinante
que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes asas,
ai canta, racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
o inabarcável silêncio da primavera molhada,
e que tua canção me devolva a pátria em perigo:
que corram as cordas do canto no vento estrangeiro
porque meu sangue circula no meu canto se cantas,
se cantas, oh pátria terrível, no centro dos terremotos
porque assim necessitas de mim, ressurgida,
porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.
Não sei se morrestes e se morri: esperando sabê-lo te
canto este canto.
1 144
Pablo Neruda
Estou longe
É minha a hora infinita da Patagônia,
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
1 134
Pablo Neruda
Manhã - XXV
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.
987
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 007
Affonso Romano de Sant'Anna
Um Operário E Seu Desejo
De minha janela vejo um operário que se masturba
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
1 037
Pablo Neruda
O Lago
(Fala o lago Rupanco
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)
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Affonso Romano de Sant'Anna
Enquete
– O que estás lendo?
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
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Affonso Romano de Sant'Anna
Tumba Celta
Há cinco mil anos,
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
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