Poemas neste tema
Alma
Pablo Neruda
Manhã - X
Suave é a bela como se música e madeira,
ágata, telas, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erigido a fugitiva estátua.
Para a onda dirige seu contrário frescor.
O mar molha polidos pés copiados
à forma recém-trabalhada na areia
e é agora seu fogo feminino de rosa
uma borbulha só que o sol e o mar combatem.
Ai, que nada te toque senão o sal do frio!
Que nem o amor destrua a primavera intacta.
Formosa, revérbero da indelével espuma,
deixa que teus quadris imponham na água
uma medida nova de cisne ou de nenúfar
e navegue tua estátua pelo cristal eterno.
ágata, telas, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erigido a fugitiva estátua.
Para a onda dirige seu contrário frescor.
O mar molha polidos pés copiados
à forma recém-trabalhada na areia
e é agora seu fogo feminino de rosa
uma borbulha só que o sol e o mar combatem.
Ai, que nada te toque senão o sal do frio!
Que nem o amor destrua a primavera intacta.
Formosa, revérbero da indelével espuma,
deixa que teus quadris imponham na água
uma medida nova de cisne ou de nenúfar
e navegue tua estátua pelo cristal eterno.
945
Affonso Romano de Sant'Anna
O Músico de Auschwitz
Em Jerusalém
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
1 053
Pablo Neruda
Tarde - LXX
Talvez ferido vou sem ir sangrento
por algum dos raios de tua vida
e a meia selva me detém a água:
a chuva que tomba com seu céu.
Então toco o coração chovido:
ali sei que teus olhos penetraram
pela região extensa de minha pena
e um sussurro de sombra surge só:
Quem é? Quem é? Mas não teve nome
a folha ou a água escura que palpita
a meia selva, surda, no caminho,
e assim, amor meu, soube que fui ferido
e ninguém falava ali senão a sombra,
a noite errante, o beijo da chuva.
por algum dos raios de tua vida
e a meia selva me detém a água:
a chuva que tomba com seu céu.
Então toco o coração chovido:
ali sei que teus olhos penetraram
pela região extensa de minha pena
e um sussurro de sombra surge só:
Quem é? Quem é? Mas não teve nome
a folha ou a água escura que palpita
a meia selva, surda, no caminho,
e assim, amor meu, soube que fui ferido
e ninguém falava ali senão a sombra,
a noite errante, o beijo da chuva.
1 208
Pablo Neruda
Solo de Sol
Hoje, este momento, este hoje destapado, aqui fora,
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
2 252
Pablo Neruda
VI - As Pontes
Novas pontes de Praga, nascestes
na velha cidade, rosa e cinza,
para que o homem novo
passe o rio.
Mil anos gastaram os olhos
dos deuses de pedra
que da velha Ponte Carlos
viram ir e vir e não voltar
as velhas vidas,
de Malá Strana os pés que para Morávia
se dirigiram, os pesados
pés do tempo,
os pés do velho cemitério judeu
sob vinte capas de tempo e pó
passaram e dançaram sobre a ponte,
enquanto as águas cor de fumo
corriam do passado, para a pedra.
Moldava, pouco a pouco
te ias fazendo estátua,
estátua cinzenta de um rio que morria
com sua velha coroa de ferro na fronte,
mas de repente o vento
da história sacode
teus pés e teus joelhos,
e cantas, rio, e danças, e caminhas
com uma nova vida.
As usinas trabalhavam de outro modo.
O retrato esquecido
do povo nas janelas
sorri saudando,
e eis aqui agora
as novas pontes:
a claridade as enche,
sua retidão convida
e diz: “Povo, adiante,
para todos os anos que vêm,
para todas as terras do trigo,
para o tesouro negro da mina
repartido entre todos os homens”.
E passa o rio
sob as novas pontes
cantando com a história
palavras puras
que encherão a terra.
Não são pés invasores os que cruzam
as novas pontes, nem os terríveis carros
do ódio e da guerra:
são pés pequenos de meninos, firmes
passos de operário.
Sobre as novas pontes
passas, oh primavera,
com tua cesta de pão e teu vestido novo,
enquanto o homem, a água, o vento
amanhecem cantando.
na velha cidade, rosa e cinza,
para que o homem novo
passe o rio.
Mil anos gastaram os olhos
dos deuses de pedra
que da velha Ponte Carlos
viram ir e vir e não voltar
as velhas vidas,
de Malá Strana os pés que para Morávia
se dirigiram, os pesados
pés do tempo,
os pés do velho cemitério judeu
sob vinte capas de tempo e pó
passaram e dançaram sobre a ponte,
enquanto as águas cor de fumo
corriam do passado, para a pedra.
Moldava, pouco a pouco
te ias fazendo estátua,
estátua cinzenta de um rio que morria
com sua velha coroa de ferro na fronte,
mas de repente o vento
da história sacode
teus pés e teus joelhos,
e cantas, rio, e danças, e caminhas
com uma nova vida.
As usinas trabalhavam de outro modo.
O retrato esquecido
do povo nas janelas
sorri saudando,
e eis aqui agora
as novas pontes:
a claridade as enche,
sua retidão convida
e diz: “Povo, adiante,
para todos os anos que vêm,
para todas as terras do trigo,
para o tesouro negro da mina
repartido entre todos os homens”.
E passa o rio
sob as novas pontes
cantando com a história
palavras puras
que encherão a terra.
Não são pés invasores os que cruzam
as novas pontes, nem os terríveis carros
do ódio e da guerra:
são pés pequenos de meninos, firmes
passos de operário.
Sobre as novas pontes
passas, oh primavera,
com tua cesta de pão e teu vestido novo,
enquanto o homem, a água, o vento
amanhecem cantando.
1 246
Pablo Neruda
Iii - As Ruínas No Báltico
Gdansk, atormentado pela guerra,
rosa despedaçada,
como espectro entre espectros,
entre o cheiro marinho
e o alto céu branco,
andei entre tuas ruínas,
entre pedaços de prata alaranjada.
A névoa entrou comigo,
os vapores glaciais,
e errante
desenlacei as ruas
sem casas e sem homens.
Eu conheço a guerra
e esse rosto sem olhos e sem lábios,
essas janelas mortas
as conheço,
vi-as em Madri, em Berlim, em Varsóvia,
mas esta gótica nave
com sua cinza de tijolos vermelhos
junto ao mar, na porta
das antigas viagens,
esta figura mercantil de proa,
balandra verde dos mares frios,
com suas dilacerantes aberturas,
seus muros em munhões,
seu orgulho demolido,
me entraram na alma
com rajadas de neve, pó e fumo,
algo enceguecedor, desesperado.
A casa das agremiações
com seus sinais caídos,
os bancos em que o ouro tilintava
tombando na garganta da Europa,
os molhes vermelhos
onde um rio
de cereais trouxe
como uma onda terrestre
o olor do verão,
tudo era pó, montes
de matéria desfeita,
e o vento do Báltico férreo
voando no vazio.
Vi com meus olhos
pulular o rocio da onda
na ressurreição das carenas,
das proas bordadas
pelo homem recém-desenterrado.
Vislumbrei
como nascia um porto,
mas não das águas e as terras
lavadas e lustradas,
mas da catástrofe.
E eu te vi, titânica pomba,
branca e azul, marinha,
nascer e levantar-te
voando firme e forte
lá da destruição emaranhada
e da sangrenta solidão
do vento e as cinzas!
rosa despedaçada,
como espectro entre espectros,
entre o cheiro marinho
e o alto céu branco,
andei entre tuas ruínas,
entre pedaços de prata alaranjada.
A névoa entrou comigo,
os vapores glaciais,
e errante
desenlacei as ruas
sem casas e sem homens.
Eu conheço a guerra
e esse rosto sem olhos e sem lábios,
essas janelas mortas
as conheço,
vi-as em Madri, em Berlim, em Varsóvia,
mas esta gótica nave
com sua cinza de tijolos vermelhos
junto ao mar, na porta
das antigas viagens,
esta figura mercantil de proa,
balandra verde dos mares frios,
com suas dilacerantes aberturas,
seus muros em munhões,
seu orgulho demolido,
me entraram na alma
com rajadas de neve, pó e fumo,
algo enceguecedor, desesperado.
A casa das agremiações
com seus sinais caídos,
os bancos em que o ouro tilintava
tombando na garganta da Europa,
os molhes vermelhos
onde um rio
de cereais trouxe
como uma onda terrestre
o olor do verão,
tudo era pó, montes
de matéria desfeita,
e o vento do Báltico férreo
voando no vazio.
Vi com meus olhos
pulular o rocio da onda
na ressurreição das carenas,
das proas bordadas
pelo homem recém-desenterrado.
Vislumbrei
como nascia um porto,
mas não das águas e as terras
lavadas e lustradas,
mas da catástrofe.
E eu te vi, titânica pomba,
branca e azul, marinha,
nascer e levantar-te
voando firme e forte
lá da destruição emaranhada
e da sangrenta solidão
do vento e as cinzas!
1 005
Pablo Neruda
VII - Picasso
Em Villauris em cada casa
há um prisioneiro.
É o mesmo sempre.
É o fumo.
Às vezes o vigiam
pais de sobrancelhas brancas,
moças de cor de aveia.
Quando passas
notas que os guardiões
do fumo
adormeceram,
e pelos telhados, entre vasilhas quebradas,
uma conversa azul
entre o céu e o fumo.
Mas no lugar em que trabalha
em liberdade o fogo,
e o fumo é uma rosa de alcatrão
que tingiu de negro as paredes,
ali Picasso,
entre as linhas e o inferno,
com seu pão de barro,
cozendo-o,
polindo-o, rompendo-o
até que o barro se torne cintura,
pétala de sirena,
guitarra.de ouro úmido.
E então com um pincel o lambe,
e o oceano vem
ou a vindima.
O barro entrega seu cacho oculto
e por fim imobiliza sua anca calcárea.
Depois Picasso volta a sua oficina.
Os pequenos centauros que o esperam
crescem, galopam.
O silêncio nasceu
nos ubres
da cabra de ferro.
E outra vez Picasso em sua gruta
entra ou sai deixando
paredes arranhadas,
estalactites vermelhas
ou pisadas genitais.
E durante as horas que seguem
fala com o barbeiro.
há um prisioneiro.
É o mesmo sempre.
É o fumo.
Às vezes o vigiam
pais de sobrancelhas brancas,
moças de cor de aveia.
Quando passas
notas que os guardiões
do fumo
adormeceram,
e pelos telhados, entre vasilhas quebradas,
uma conversa azul
entre o céu e o fumo.
Mas no lugar em que trabalha
em liberdade o fogo,
e o fumo é uma rosa de alcatrão
que tingiu de negro as paredes,
ali Picasso,
entre as linhas e o inferno,
com seu pão de barro,
cozendo-o,
polindo-o, rompendo-o
até que o barro se torne cintura,
pétala de sirena,
guitarra.de ouro úmido.
E então com um pincel o lambe,
e o oceano vem
ou a vindima.
O barro entrega seu cacho oculto
e por fim imobiliza sua anca calcárea.
Depois Picasso volta a sua oficina.
Os pequenos centauros que o esperam
crescem, galopam.
O silêncio nasceu
nos ubres
da cabra de ferro.
E outra vez Picasso em sua gruta
entra ou sai deixando
paredes arranhadas,
estalactites vermelhas
ou pisadas genitais.
E durante as horas que seguem
fala com o barbeiro.
640
Pablo Neruda
Bosque
Hora verde, hora esplêndida! Voltei a dizer sim
ao pertencente silêncio, ao oxigênio verde,
à aveleira rota pelas chuvas de então,
ao pavilhão de orgulho que assume a araucária,
a mim mesmo, a meu canto cantado pelos pássaros.
Escutem, é o trino repetido, o cristal
que a puro céu clama, combate, modifica,
é um fio que a água, a flauta e a platina
mantêm no ar, de ramo em ramo puro,
é o jogo simétrico da terra que canta,
é a estrofe que cai como uma gota de água.
ao pertencente silêncio, ao oxigênio verde,
à aveleira rota pelas chuvas de então,
ao pavilhão de orgulho que assume a araucária,
a mim mesmo, a meu canto cantado pelos pássaros.
Escutem, é o trino repetido, o cristal
que a puro céu clama, combate, modifica,
é um fio que a água, a flauta e a platina
mantêm no ar, de ramo em ramo puro,
é o jogo simétrico da terra que canta,
é a estrofe que cai como uma gota de água.
1 092
Pablo Neruda
Noite - XC
Pensei morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas quando a morte vem tocar a porta
há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas quando a morte vem tocar a porta
há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.
1 142
Pablo Neruda
VI. O Sul do Planeta
(Meu povo recém despertava e os pobres louros
manchados de sangue e de chuva
jaziam nas estradas confusas da alba: minha pátria
envolta em roupagem de neve, como um monumento que ainda não inauguram,
dormia e sangrava sem voz, esperando.)
Mineral e marinha é minha pátria como uma figura de proa,
talhada pelas duras mãos de deuses terríveis,
na Araucânia a selva não tem outro idioma que os trovões verdes,
o Norte lunário te oferece sua fronte de areia sedenta,
o Sul a coroa da fumaça nascendo das cicatrizes vulcânicas,
e a Patagônia caminha agachada no vento
até que as estepes da Terra do Fogo elevaram a última estrela
e acendem com mãos imóveis o Polo Sul no céu.
manchados de sangue e de chuva
jaziam nas estradas confusas da alba: minha pátria
envolta em roupagem de neve, como um monumento que ainda não inauguram,
dormia e sangrava sem voz, esperando.)
Mineral e marinha é minha pátria como uma figura de proa,
talhada pelas duras mãos de deuses terríveis,
na Araucânia a selva não tem outro idioma que os trovões verdes,
o Norte lunário te oferece sua fronte de areia sedenta,
o Sul a coroa da fumaça nascendo das cicatrizes vulcânicas,
e a Patagônia caminha agachada no vento
até que as estepes da Terra do Fogo elevaram a última estrela
e acendem com mãos imóveis o Polo Sul no céu.
1 005
Pablo Neruda
Cada Dia Matilde
Hoje a ti: és longa
como o corpo do Chile,
e delicada como uma flor de anis,
e em cada rama guardas testemunho
de nossas indeléveis primaveras.
Que dia é hoje? Teu dia.
E amanhã é ontem,
não tem acontecido,
não se foi nenhum dia das tuas mãos,
guardas o sol, a terra, as violetas
em tua pequena sombra quando dormes.
E assim cada manhã
me presenteias a vida.
como o corpo do Chile,
e delicada como uma flor de anis,
e em cada rama guardas testemunho
de nossas indeléveis primaveras.
Que dia é hoje? Teu dia.
E amanhã é ontem,
não tem acontecido,
não se foi nenhum dia das tuas mãos,
guardas o sol, a terra, as violetas
em tua pequena sombra quando dormes.
E assim cada manhã
me presenteias a vida.
1 329
Pablo Neruda
XXII - A ilha
Amor, amor, oh separada minha
por tantas vezes mar como neve e distância,
mínima e misteriosa, rodeada
de eternidade, agradeço
não só teu olhar de donzela,
tua brancura oculta, rosa secreta, mas
o esplendor moral de teus estátuas,
a paz abandonada que me confiasse nas mãos:
o dia detido em tua garganta.
por tantas vezes mar como neve e distância,
mínima e misteriosa, rodeada
de eternidade, agradeço
não só teu olhar de donzela,
tua brancura oculta, rosa secreta, mas
o esplendor moral de teus estátuas,
a paz abandonada que me confiasse nas mãos:
o dia detido em tua garganta.
1 097
Pablo Neruda
Noite - LXXXIV
Uma vez mais, amor, a rede do dia extingue
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.
Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.
Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,
até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.
Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.
Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,
até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.
1 102
Pablo Neruda
V - Os Frutos
Doces oliveiras verdes de Frascati,
polidas como puros mamilos,
frescas como gotas de oceano,
reconcentrada, terrenal essência!
Da velha terra
sulcada e cantada,
renovados em cada primavera,
com a mesma argamassa
dos seres humanos,
com a mesma matéria
de nossa eternidade, perecíveis
e nascedores, repetidos
e novos, olivais
das secas terras da Itália,
do generoso ventre
que através da dor
continua parindo delícia.
Aquele dia a oliveira,
o vinho novo,
a canção de meu amigo,
meu amor à distância,
a terra umedecida,
tudo tão simples,
tão eterno
como o grão de trigo,
ali em Frascati
os muros perfurados
pela morte,
os olhos da guerra nas janelas,
mas a paz me recebia
com um sabor de azeite e vinho,
enquanto tudo era simples como o povo
que me entregava
seu tesouro verde:
as pequenas oliveiras,
frescor, sabor puro,
medida deliciosa,
mamilo do dia azul,
amor terrestre.
polidas como puros mamilos,
frescas como gotas de oceano,
reconcentrada, terrenal essência!
Da velha terra
sulcada e cantada,
renovados em cada primavera,
com a mesma argamassa
dos seres humanos,
com a mesma matéria
de nossa eternidade, perecíveis
e nascedores, repetidos
e novos, olivais
das secas terras da Itália,
do generoso ventre
que através da dor
continua parindo delícia.
Aquele dia a oliveira,
o vinho novo,
a canção de meu amigo,
meu amor à distância,
a terra umedecida,
tudo tão simples,
tão eterno
como o grão de trigo,
ali em Frascati
os muros perfurados
pela morte,
os olhos da guerra nas janelas,
mas a paz me recebia
com um sabor de azeite e vinho,
enquanto tudo era simples como o povo
que me entregava
seu tesouro verde:
as pequenas oliveiras,
frescor, sabor puro,
medida deliciosa,
mamilo do dia azul,
amor terrestre.
1 193
Pablo Neruda
Tarde - LXXVII
Hoje é hoje com o peso de todo o tempo ido,
com as asas de tudo o que será amanhã,
hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
e a composição de um novo dia.
À tua boca elevada à luz ou à lua
se acresceram as pétalas de um dia consumido,
e ontem vem trotando por sua rua sombria
para que recordemos teu rosto que morreu.
Hoje, ontem e amanhã se comem caminhando,
consumimos um dia como uma vaca ardente,
nosso gado espera com seus dias contados,
mas em teu coração pôs sua farinha o tempo,
meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
tu és o pão de cada dia para minha alma.
com as asas de tudo o que será amanhã,
hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
e a composição de um novo dia.
À tua boca elevada à luz ou à lua
se acresceram as pétalas de um dia consumido,
e ontem vem trotando por sua rua sombria
para que recordemos teu rosto que morreu.
Hoje, ontem e amanhã se comem caminhando,
consumimos um dia como uma vaca ardente,
nosso gado espera com seus dias contados,
mas em teu coração pôs sua farinha o tempo,
meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
tu és o pão de cada dia para minha alma.
1 171
Pablo Neruda
Santos Revisitado
I.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
872
Pablo Neruda
Os sinos da Rússia
Andando, movendo os pés sobre um amplo silêncio de neve
escuta-me agora, amor meu, um sucesso sem rumo:
estava deserta a estepe e o frio exibia suas duras alfaias,
a pele do planeta brilhava cobrindo as costas nuas da Rússia
e eu no crepúsculo imenso entre os esqueletos das bétulas,
andando, sentindo o espaço, pesando o pulsar das solidões.
Então saiu do silêncio a voz da noite terrestre,
uma voz, outra voz, ou o total das vozes do mundo:
era baixo e profundo o estímulo, era imenso o metal da sombra,
era lento o caudal da voz misteriosa do céu,
e subia na altura redonda aquele golpe de pedra celeste
e descia aquele rio de prata sombria caindo na sombra
e é assim como eu, caminhante, escutei os sinos da Rússia
desatarem entre o céu e a sombra o profundo estupor de seu canto.
Sinos, sinos do orbe infinito, distantes
na gravidade do inverno que oscila cravado no Polo
como um estandarte fustigado por esta brancura furiosa,
sinos de guerra cantando com rouco ademane no ar
os fatos, o sangue, a amarga derrota, as casas queimadas,
e logo a luz coroada pelas vitoriosas bandeiras.
Disse a esmo, à neve, ao fulgor, a mim mesmo, às ruas de barro com neve
a guerra se foi, levou nosso amor e os ossos queimados
cobriram a terra como uma safra de atrozes sementes
e ouvi os sinos remotos tangindo na luz submersa
como um espelho, como em uma cidade sepultada em um lago
e assim o campanário furioso guardou em seu tremendo tangido,
senão a vingança, a lembrança de todos os heróis ausentes.
De cada sino caía a folhagem do trovão e do canto
e aquele movimento de ferro sonoro voava à luz da lua nevada,
varria os bosques amargos que em um batalhão de esqueletos
erguiam as lanças imóveis do calafrio
e sobre a noite passou o sino arrastando como uma cascata
raízes e rezas, enterros e noivas, soldados e santos,
abelhas e lágrimas, colheitas, incêndios e recém-nascidos.
Da cabeça do Tzar e sua solitária coroa forjada na névoa
por medievais ferreiros, a fogo e a sangue,
voou uma esmeralda sangrenta do campanário
e como o gado na chuva o vapor e o cheiro dos servos rezando na igreja,
acompanhou a coroa de ouro no voo da badalada terrível.
Agora através destes roucos sinos divisa o relâmpago:
a revolução inflamando o rocio enlutado das bétulas;
a flor estalou estabelecendo uma grande multidão de pétalas vermelhas
e sobre a estepe adormecida cruzou um regimento de raios.
Ouçamos a aurora que sobe como uma papoula
e o canto comum dos novos sinos que anunciam o sol de Novembro.
Eu sou, companheira, o errante poeta que canta a festa do mundo,
o pão na mesa, a escola florida, a honra do mel, o som do vento silvestre,
celebro em meu canto a casa do homem e sua esposa, desejo
a felicidade crepitante no centro de todas as vidas
e tudo que acontece recolho como um sino e devolvo à vida
o grito e o canto dos campanários da primavera.
Às vezes perdoa se a badalada que cai de minha alma noturna
golpeia com mãos de sombra as portas do dia amarelo,
mas nos sinos há tempo e há canto selado que espera soltar suas pombas
para soltar a alegria como um leque mundial e sonoro.
Sinos de ontem e amanhã, profundas corolas do sonho do homem,
sinos da tempestade e do fogo, sinos do ódio e da guerra,
sinos do trigo e das reuniões rurais à beira do rio,
sinos nupciais, sinos de paz na terra,
choremos sinos, bailemos sinos
cantemos sinos pela eternidade do amor, pelo sol e a lua e o mar e a terra e o homem.
escuta-me agora, amor meu, um sucesso sem rumo:
estava deserta a estepe e o frio exibia suas duras alfaias,
a pele do planeta brilhava cobrindo as costas nuas da Rússia
e eu no crepúsculo imenso entre os esqueletos das bétulas,
andando, sentindo o espaço, pesando o pulsar das solidões.
Então saiu do silêncio a voz da noite terrestre,
uma voz, outra voz, ou o total das vozes do mundo:
era baixo e profundo o estímulo, era imenso o metal da sombra,
era lento o caudal da voz misteriosa do céu,
e subia na altura redonda aquele golpe de pedra celeste
e descia aquele rio de prata sombria caindo na sombra
e é assim como eu, caminhante, escutei os sinos da Rússia
desatarem entre o céu e a sombra o profundo estupor de seu canto.
Sinos, sinos do orbe infinito, distantes
na gravidade do inverno que oscila cravado no Polo
como um estandarte fustigado por esta brancura furiosa,
sinos de guerra cantando com rouco ademane no ar
os fatos, o sangue, a amarga derrota, as casas queimadas,
e logo a luz coroada pelas vitoriosas bandeiras.
Disse a esmo, à neve, ao fulgor, a mim mesmo, às ruas de barro com neve
a guerra se foi, levou nosso amor e os ossos queimados
cobriram a terra como uma safra de atrozes sementes
e ouvi os sinos remotos tangindo na luz submersa
como um espelho, como em uma cidade sepultada em um lago
e assim o campanário furioso guardou em seu tremendo tangido,
senão a vingança, a lembrança de todos os heróis ausentes.
De cada sino caía a folhagem do trovão e do canto
e aquele movimento de ferro sonoro voava à luz da lua nevada,
varria os bosques amargos que em um batalhão de esqueletos
erguiam as lanças imóveis do calafrio
e sobre a noite passou o sino arrastando como uma cascata
raízes e rezas, enterros e noivas, soldados e santos,
abelhas e lágrimas, colheitas, incêndios e recém-nascidos.
Da cabeça do Tzar e sua solitária coroa forjada na névoa
por medievais ferreiros, a fogo e a sangue,
voou uma esmeralda sangrenta do campanário
e como o gado na chuva o vapor e o cheiro dos servos rezando na igreja,
acompanhou a coroa de ouro no voo da badalada terrível.
Agora através destes roucos sinos divisa o relâmpago:
a revolução inflamando o rocio enlutado das bétulas;
a flor estalou estabelecendo uma grande multidão de pétalas vermelhas
e sobre a estepe adormecida cruzou um regimento de raios.
Ouçamos a aurora que sobe como uma papoula
e o canto comum dos novos sinos que anunciam o sol de Novembro.
Eu sou, companheira, o errante poeta que canta a festa do mundo,
o pão na mesa, a escola florida, a honra do mel, o som do vento silvestre,
celebro em meu canto a casa do homem e sua esposa, desejo
a felicidade crepitante no centro de todas as vidas
e tudo que acontece recolho como um sino e devolvo à vida
o grito e o canto dos campanários da primavera.
Às vezes perdoa se a badalada que cai de minha alma noturna
golpeia com mãos de sombra as portas do dia amarelo,
mas nos sinos há tempo e há canto selado que espera soltar suas pombas
para soltar a alegria como um leque mundial e sonoro.
Sinos de ontem e amanhã, profundas corolas do sonho do homem,
sinos da tempestade e do fogo, sinos do ódio e da guerra,
sinos do trigo e das reuniões rurais à beira do rio,
sinos nupciais, sinos de paz na terra,
choremos sinos, bailemos sinos
cantemos sinos pela eternidade do amor, pelo sol e a lua e o mar e a terra e o homem.
823
Pablo Neruda
II - o Desfile
Diante de Mao Tse-Tung
o povo desfilava.
Não eram aqueles
famintos e descalços
que desceram
as áridas gargantas,
que viveram em covas,
que comeram raízes,
e que quando baixaram
foram vento de aço,
vento de aço de Yennan e o Norte.
Hoje outros homens desfilavam,
sorridentes e seguros,
decididos e alegres,
pisando fortemente a terra libertada
da pátria mais larga.
E assim passou a jovem orgulhosa,
vestida de azul operário, e junto a seu sorriso,
como uma cascata de neve,
quarenta mil bocas têxteis,
as fábricas de seda que marcham e sorriem,
os novos construtores de motores,
os velhos artesãos do marfim,
andando, andando
diante de Mao,
toda reunida a China, grão a grão,
de férreos cereais,
e a seda escarlate palpitando no céu
como as pétalas enfim conjugadas
da rosa terrestre,
e o grande tambor pesava
diante de Mao,
e um trovão escuro
dele subia
saudando-o.
Era a voz antiga
da China, voz de coro,
voz de tempo enterrado,
a velha voz, os séculos
o saudavam.
E então como uma árvore
de flores repentinas
os meninos,
aos milhares,
saudaram, e assim
os novos frutos e a velha terra,
o tempo, o trigo,
as bandeiras do homem por fim reunidas,
ali estavam.
Ali estavam, e Mao sorria
porque lá das alturas
sedentas do Norte
nasceu este rio humano,
porque das cabeças
de moças
cortadas pelos norte-americanos
(ou por Chiang, seu lacaio),
nas praças,
nasceu esta vida enorme.
Porque do ensinamento do Partido,
em pequeninos livros mal impressos,
saiu esta lição para o mundo.
Sorria, pensando
nos ásperos anos
passados,
a terra cheia de estrangeiros, fome
nas humildes choças,
o Yang Tsé mostrando em seu lombo
os répteis de aço
encouraçados
dos imperialistas invasores,
a pátria saqueada
e hoje, agora,
limpa a terra,
a vasta China límpida,
e pisando o seu.
Respirando a pátria
desfilavam os homens
diante de Mao
e com sapatos novos
golpeavam a terra, desfilando,
enquanto o vento nas bandeiras vermelhas
brincava e no alto
Mao Tse-Tung sorria.
o povo desfilava.
Não eram aqueles
famintos e descalços
que desceram
as áridas gargantas,
que viveram em covas,
que comeram raízes,
e que quando baixaram
foram vento de aço,
vento de aço de Yennan e o Norte.
Hoje outros homens desfilavam,
sorridentes e seguros,
decididos e alegres,
pisando fortemente a terra libertada
da pátria mais larga.
E assim passou a jovem orgulhosa,
vestida de azul operário, e junto a seu sorriso,
como uma cascata de neve,
quarenta mil bocas têxteis,
as fábricas de seda que marcham e sorriem,
os novos construtores de motores,
os velhos artesãos do marfim,
andando, andando
diante de Mao,
toda reunida a China, grão a grão,
de férreos cereais,
e a seda escarlate palpitando no céu
como as pétalas enfim conjugadas
da rosa terrestre,
e o grande tambor pesava
diante de Mao,
e um trovão escuro
dele subia
saudando-o.
Era a voz antiga
da China, voz de coro,
voz de tempo enterrado,
a velha voz, os séculos
o saudavam.
E então como uma árvore
de flores repentinas
os meninos,
aos milhares,
saudaram, e assim
os novos frutos e a velha terra,
o tempo, o trigo,
as bandeiras do homem por fim reunidas,
ali estavam.
Ali estavam, e Mao sorria
porque lá das alturas
sedentas do Norte
nasceu este rio humano,
porque das cabeças
de moças
cortadas pelos norte-americanos
(ou por Chiang, seu lacaio),
nas praças,
nasceu esta vida enorme.
Porque do ensinamento do Partido,
em pequeninos livros mal impressos,
saiu esta lição para o mundo.
Sorria, pensando
nos ásperos anos
passados,
a terra cheia de estrangeiros, fome
nas humildes choças,
o Yang Tsé mostrando em seu lombo
os répteis de aço
encouraçados
dos imperialistas invasores,
a pátria saqueada
e hoje, agora,
limpa a terra,
a vasta China límpida,
e pisando o seu.
Respirando a pátria
desfilavam os homens
diante de Mao
e com sapatos novos
golpeavam a terra, desfilando,
enquanto o vento nas bandeiras vermelhas
brincava e no alto
Mao Tse-Tung sorria.
1 165
Pablo Neruda
Fala um transeunte das Américas chamado Chivilcoy
I.
Eu mudo de rumo, de emprego, de bar e de barco, de pelo
de renda e mulher, lancinante, de propósito não existo,
talvez sou mexibiano, argentuaio, bolívio,
caribião, panamante, colomvenechilenomalteco:
aprendi nos mercados a vender e comprar caminhando;
me inscrevi nos partidos díspares e mudei de camisa
impulsionado
pelas necessidades rituais que jogam à merda o crepúsculo
e confesso saber mais que todos sem ter aprendido:
o que ignoro não vale a pena, não se paga na praça, senhores.
Me acostumo a sapatos quebrados, gravatas surradas, cuidado,
quando menos pensarem levo um grande solitário em um dedo
e me engomam por dentro e por fora, me perfumam, me cuidam, me penteiam.
Casei-me na Nicarágua: perguntem vocês pelo general Allegado
que teve a honra de ser sogro de seu servidor, e mais tarde
na Colômbia fui esposo legítimo de uma Jaramillo Restrepo.
Se meus matrimônios terminam mudando de clima, não importa.
(Falando entre homens: Minha chola18 de tambo19: Algo sério na cama.)
Vendi manteiga e chancaca20 nos partos peruanos
e medicamentos de um povoado a outro da Patagônia:
vou envelhecendo nas más pensões sem dinheiro,
passando por rico,
e passando por pobre entre ricos, sem ter ganho nem
perdido nada.
II.
Da janela que me corresponde na vida
vejo o mesmo jardim poeirento de terra mesquinha
com cães errantes que urinam e ainda buscam a felicidade,
ou excrementícios e eróticos gatos que não se interessam por vidas alheias.
III.
Eu sou aquele homem rodado por tantos quilômetros e sem existência:
sou pedra em um rio que não tem nome no mapa,
sou o passageiro dos ônibus gastos de Oruro
e ainda que pertença às cervejarias de Montevidéu
na Boca andei vendendo guitarras do Chile
e sem passaporte entrava e saía pelas cordilheiras.
Suponho que todos os homens deixam bagagem;
eu vou deixar como herança o mesmo que o cão;
é o que levei entre as pernas: meus bens são esses.
IV.
Se desapareço apareço com outra visão: dá no mesmo.
Sou um herói imperecível não tenho começo nem fim
e minha moral consiste em um prato de peixe frito.
Eu mudo de rumo, de emprego, de bar e de barco, de pelo
de renda e mulher, lancinante, de propósito não existo,
talvez sou mexibiano, argentuaio, bolívio,
caribião, panamante, colomvenechilenomalteco:
aprendi nos mercados a vender e comprar caminhando;
me inscrevi nos partidos díspares e mudei de camisa
impulsionado
pelas necessidades rituais que jogam à merda o crepúsculo
e confesso saber mais que todos sem ter aprendido:
o que ignoro não vale a pena, não se paga na praça, senhores.
Me acostumo a sapatos quebrados, gravatas surradas, cuidado,
quando menos pensarem levo um grande solitário em um dedo
e me engomam por dentro e por fora, me perfumam, me cuidam, me penteiam.
Casei-me na Nicarágua: perguntem vocês pelo general Allegado
que teve a honra de ser sogro de seu servidor, e mais tarde
na Colômbia fui esposo legítimo de uma Jaramillo Restrepo.
Se meus matrimônios terminam mudando de clima, não importa.
(Falando entre homens: Minha chola18 de tambo19: Algo sério na cama.)
Vendi manteiga e chancaca20 nos partos peruanos
e medicamentos de um povoado a outro da Patagônia:
vou envelhecendo nas más pensões sem dinheiro,
passando por rico,
e passando por pobre entre ricos, sem ter ganho nem
perdido nada.
II.
Da janela que me corresponde na vida
vejo o mesmo jardim poeirento de terra mesquinha
com cães errantes que urinam e ainda buscam a felicidade,
ou excrementícios e eróticos gatos que não se interessam por vidas alheias.
III.
Eu sou aquele homem rodado por tantos quilômetros e sem existência:
sou pedra em um rio que não tem nome no mapa,
sou o passageiro dos ônibus gastos de Oruro
e ainda que pertença às cervejarias de Montevidéu
na Boca andei vendendo guitarras do Chile
e sem passaporte entrava e saía pelas cordilheiras.
Suponho que todos os homens deixam bagagem;
eu vou deixar como herança o mesmo que o cão;
é o que levei entre as pernas: meus bens são esses.
IV.
Se desapareço apareço com outra visão: dá no mesmo.
Sou um herói imperecível não tenho começo nem fim
e minha moral consiste em um prato de peixe frito.
554
Pablo Neruda
XII - A ilha
Austeros perfis de cratera lavrada,
narizes triangulares, rostos de duro mel,
silenciosos sinos cujo som
foi embora sem regresso para o mar,
mandíbulas, olhar
de sol imóvel, reino
da grande solidão, vestígios
verticais:
eu sou o novo, o escuro,
sou de novo o radiante:
vim talvez para reluzir,
quero o espaço ígneo
sem passado, o fulgor,
o oceano, a pedra e "o vento
para tocar e ver, para construir de novo,
para pedir de joelhos a castidade do sol,
para cavar com minhas pobres mãos sangrentas o destino.
narizes triangulares, rostos de duro mel,
silenciosos sinos cujo som
foi embora sem regresso para o mar,
mandíbulas, olhar
de sol imóvel, reino
da grande solidão, vestígios
verticais:
eu sou o novo, o escuro,
sou de novo o radiante:
vim talvez para reluzir,
quero o espaço ígneo
sem passado, o fulgor,
o oceano, a pedra e "o vento
para tocar e ver, para construir de novo,
para pedir de joelhos a castidade do sol,
para cavar com minhas pobres mãos sangrentas o destino.
1 038
Pablo Neruda
IX - Palavras À Europa
Eu, americano das terras pobres,
das metálicas mesetas,
onde o golpe do homem contra o homem
se reúne ao da terra sobre o homem.
Eu, americano errante,
órfão dos rios e dos
vulcões que me procriaram,
a vós, simples europeus
das ruas tortuosas,
humildes proprietários da paz e o azeite,
sábios tranquilos como o fumo,
eu vos digo: aqui vim
aprender de vós,
de uns e outros, de todos,
porque de que me serviria
a terra, para que se fizeram
o mar e os caminhos,
senão para ir olhando e aprendendo
de todos os seres um pouco.
Não me fecheis a porta
(como as portas negras, salpicadas de sangue
de minha materna Espanha).
Não me mostreis a gadanha inimiga
nem o esquadrão blindado,
nem as antigas forcas para o novo ateniense,
nas amplas vias gastas
pelo resplendor das uvas.
Não quero ver um soldadinho morto
com os olhos comidos.
Mostra-me de uma pátria a outra
o infinito fio da vida
cosendo o traje da primavera.
Mostra-me uma máquina pura,
azul de aço sob o grosso azeite,
lesta para avançar nos trigais.
Mostra-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento eletrizado.
Trazei água do Volga fecundo
à água do Arno dourado.
Trazei sementes brancas
da ressurreição da Polônia,
e de vossas vinhas levai
o doce fogo rubro
ao norte da neve!
Eu, americano, filho
das mais largas solidões do homem,
vim aprender a vida de vós
e não a morte, e não a morte!
Eu não cruzei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência selvagem
das prisões paraguaias,
para vir ver
junto aos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
vossas órbitas sem olhos e vosso sangue seco
nos caminhos.
Eu ao mel antigo e ao novo,
esplendor da vida, vim.
Eu a vossa paz e a vossas portas,
a vossas lâmpadas acesas,
a vossas bodas vim.
A vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
A vossas fábricas deslumbrantes
chego a trabalhar um momento
e a comer entre os trabalhadores.
Em vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na Hungria a bela,
em Copenhague me vereis,
em Leningrado, conversando
com o jovem Pushkin, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Eu sou a testemunha que vem
visitar vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhã cedo me vou.
Me está esperando em toda parte a primavera.
das metálicas mesetas,
onde o golpe do homem contra o homem
se reúne ao da terra sobre o homem.
Eu, americano errante,
órfão dos rios e dos
vulcões que me procriaram,
a vós, simples europeus
das ruas tortuosas,
humildes proprietários da paz e o azeite,
sábios tranquilos como o fumo,
eu vos digo: aqui vim
aprender de vós,
de uns e outros, de todos,
porque de que me serviria
a terra, para que se fizeram
o mar e os caminhos,
senão para ir olhando e aprendendo
de todos os seres um pouco.
Não me fecheis a porta
(como as portas negras, salpicadas de sangue
de minha materna Espanha).
Não me mostreis a gadanha inimiga
nem o esquadrão blindado,
nem as antigas forcas para o novo ateniense,
nas amplas vias gastas
pelo resplendor das uvas.
Não quero ver um soldadinho morto
com os olhos comidos.
Mostra-me de uma pátria a outra
o infinito fio da vida
cosendo o traje da primavera.
Mostra-me uma máquina pura,
azul de aço sob o grosso azeite,
lesta para avançar nos trigais.
Mostra-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento eletrizado.
Trazei água do Volga fecundo
à água do Arno dourado.
Trazei sementes brancas
da ressurreição da Polônia,
e de vossas vinhas levai
o doce fogo rubro
ao norte da neve!
Eu, americano, filho
das mais largas solidões do homem,
vim aprender a vida de vós
e não a morte, e não a morte!
Eu não cruzei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência selvagem
das prisões paraguaias,
para vir ver
junto aos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
vossas órbitas sem olhos e vosso sangue seco
nos caminhos.
Eu ao mel antigo e ao novo,
esplendor da vida, vim.
Eu a vossa paz e a vossas portas,
a vossas lâmpadas acesas,
a vossas bodas vim.
A vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
A vossas fábricas deslumbrantes
chego a trabalhar um momento
e a comer entre os trabalhadores.
Em vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na Hungria a bela,
em Copenhague me vereis,
em Leningrado, conversando
com o jovem Pushkin, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Eu sou a testemunha que vem
visitar vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhã cedo me vou.
Me está esperando em toda parte a primavera.
642
Pablo Neruda
Ramo
Um ramo de acácia, de mimosa,
fragrante sol do entorpecido inverno,
comprei na feira de Valparaiso
e segui com acácia e com aroma
até Ilha Negra.
Cruzamos a neve,
campos descarnados, espinheiras duras,
terras frias do Chile:
(sob o céu amorado
a estrada morta).
O mundo seria amargo
na viagem invernal, no sem-fim,
no desabitado crepúsculo,
senão me acompanhasse cada vez,
cada sempre,
a singeleza central
de um ramo amarelo.
fragrante sol do entorpecido inverno,
comprei na feira de Valparaiso
e segui com acácia e com aroma
até Ilha Negra.
Cruzamos a neve,
campos descarnados, espinheiras duras,
terras frias do Chile:
(sob o céu amorado
a estrada morta).
O mundo seria amargo
na viagem invernal, no sem-fim,
no desabitado crepúsculo,
senão me acompanhasse cada vez,
cada sempre,
a singeleza central
de um ramo amarelo.
880
Pablo Neruda
VIII - Ehrenburg
Quantos cães hirsutos,
focinhos de ponta brilhante,
rabos por trás de um móvel,
e logo mais pêlos,
mechas cinzentas, olhos
mais velhos que o mundo,
e uma mão
sobre o papel,
implantando a paz,
derrubando mitos,
vomitando fogo e silvando,
ou falando de simples amor
com a ternura
de um pobre padeiro.
É Ehrenburg.
É sua casa
em Moscou.
Ai quantas vezes,
fechado em sua casa,
pensei que não tinha paredes.
Ali entre quatro muros
o rio da vida,
o rio humano
entra e sai deixando
vidas, feitos, combates,
e o antigo Ehrenburg,
o jovem Ilya,
com este rio de terras e vidas
recolhe aqui e além
fragmentos, chispas,
ondas, beijos, chapéus,
e elabora
como um bruxo.
Tudo deita em seu forno,
de dia e de noite.
Dali saltam metais,
saltam espadas rubras,
grandes pães de fogo,
saltam vagas de ira,
bandeiras,
armas para dois séculos,
ferro para milhões,
e ele muito tranquilo,
hirsuto,
com suas mechas cinzentas,
fumando e cheio
de cinza.
De quando em quando
sai do forno
e quando julgas
que te vai fulminar,
o vês andando,
sorridente,
com as mais enrugadas calças do mundo:
vai plantar um jasmim
em sua casa de campo:
abre o vão,
mete as mãos,
como se fossem de seda
trata as raízes,
as enterra,
as rega,
e então com passinhos curtos,
com cinza, com barro, com folhas,
com jasmim, com história,
com todas as coisas do mundo
sobre os ombros,
afasta-se fumando.
Se queres saber algo de jasmins,
escreve-lhe uma carta.
focinhos de ponta brilhante,
rabos por trás de um móvel,
e logo mais pêlos,
mechas cinzentas, olhos
mais velhos que o mundo,
e uma mão
sobre o papel,
implantando a paz,
derrubando mitos,
vomitando fogo e silvando,
ou falando de simples amor
com a ternura
de um pobre padeiro.
É Ehrenburg.
É sua casa
em Moscou.
Ai quantas vezes,
fechado em sua casa,
pensei que não tinha paredes.
Ali entre quatro muros
o rio da vida,
o rio humano
entra e sai deixando
vidas, feitos, combates,
e o antigo Ehrenburg,
o jovem Ilya,
com este rio de terras e vidas
recolhe aqui e além
fragmentos, chispas,
ondas, beijos, chapéus,
e elabora
como um bruxo.
Tudo deita em seu forno,
de dia e de noite.
Dali saltam metais,
saltam espadas rubras,
grandes pães de fogo,
saltam vagas de ira,
bandeiras,
armas para dois séculos,
ferro para milhões,
e ele muito tranquilo,
hirsuto,
com suas mechas cinzentas,
fumando e cheio
de cinza.
De quando em quando
sai do forno
e quando julgas
que te vai fulminar,
o vês andando,
sorridente,
com as mais enrugadas calças do mundo:
vai plantar um jasmim
em sua casa de campo:
abre o vão,
mete as mãos,
como se fossem de seda
trata as raízes,
as enterra,
as rega,
e então com passinhos curtos,
com cinza, com barro, com folhas,
com jasmim, com história,
com todas as coisas do mundo
sobre os ombros,
afasta-se fumando.
Se queres saber algo de jasmins,
escreve-lhe uma carta.
1 131
Pablo Neruda
I - Eu Canto E Conto
Desde o estio báltico,
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.
Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.
Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
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