Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
Nossa Risada É Silenciada Pelo Sofrimento Deles
enquanto a criança atravessa a rua enquanto mergulhadores de águas profundas
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
685
Charles Bukowski
Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido
quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
877
Charles Bukowski
Além do Ponto
de algum modo ele havia me localizado de novo – ele estava no telefone – falando
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
957
Charles Bukowski
A Morte de Uma Esplêndida Vizinhança
havia um lugar perto da Western Ave.
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.
aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.
entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.
depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.
quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.
aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.
entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.
depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.
quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
1 041
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #1
nós estávamos ali de pé
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
1 012
Charles Bukowski
Jon Edgar Webb
eu tive uma fase de poema lírico lá em New Orleans, martelando
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
1 159
Charles Bukowski
Tentando Chegar a Tempo
novo jóquei recém-chegado do Arizona
não conhece esta cidade
mas seu agente conseguiu pra ele uma montaria
na primeira corrida
do último sábado
e o jóquei pegou a
autoestrada
no mesmo dia do jogo
de futebol
entre U.S.C. e U.C.L.A.
e ficou preso
numa das duas pistas especiais
o que o levou para o Rose Bowl
e não ao
hipódromo.
ele foi obrigado a dirigir o caminho todo
até o estacionamento
do jogo de futebol
até que pudesse dar
meia-volta.
na hora em que chegou ao hipódromo
a primeira corrida
tinha terminado.
outro jóquei havia vencido com sua
montaria.
hoje por lá
notei no programa que o
novo jóquei do Arizona
tinha uma boa montaria na
sexta.
aí o cavalo foi tirado da corrida
em cima da hora.
às vezes dar a largada
no momento grandioso
é equivalente a
tentar obter uma ereção
num tornado
e mesmo que você consiga
ninguém tem tempo
para perceber.
não conhece esta cidade
mas seu agente conseguiu pra ele uma montaria
na primeira corrida
do último sábado
e o jóquei pegou a
autoestrada
no mesmo dia do jogo
de futebol
entre U.S.C. e U.C.L.A.
e ficou preso
numa das duas pistas especiais
o que o levou para o Rose Bowl
e não ao
hipódromo.
ele foi obrigado a dirigir o caminho todo
até o estacionamento
do jogo de futebol
até que pudesse dar
meia-volta.
na hora em que chegou ao hipódromo
a primeira corrida
tinha terminado.
outro jóquei havia vencido com sua
montaria.
hoje por lá
notei no programa que o
novo jóquei do Arizona
tinha uma boa montaria na
sexta.
aí o cavalo foi tirado da corrida
em cima da hora.
às vezes dar a largada
no momento grandioso
é equivalente a
tentar obter uma ereção
num tornado
e mesmo que você consiga
ninguém tem tempo
para perceber.
974
Charles Bukowski
Anotação Fracionária
as flores estão queimando
as rochas estão derretendo
a porta está presa dentro da minha cabeça
faz trinta e oito graus em Hollywood
e o mensageiro tropeça
deixando cair a última mensagem num
buraco na terra
com 640 quilômetros de profundidade.
os filmes estão piores do que nunca
e os livros mortos de homens mortos são leituras mortas.
os ratos brancos correm na esteira.
os bares fedem em escuridão pantanosa
enquanto os solitários não satisfazem os solitários.
não existe clareza.
não era pra existir desde o começo.
o sol está diminuindo, dizem.
esperem pra ver.
o molho late feito um cão.
se eu tivesse uma avó
minha avó poderia surrar a sua
avó.
queda livre.
sujeira livre.
qualquer merda custa dinheiro.
dê uma olhada nos anúncios de venda...
agora todo mundo está cantando ao mesmo tempo
vozes terríveis
saídas de gargantas rasgadas.
horas de treino.
é quase totalmente desperdício.
o arrependimento é principalmente causado por não termos
feito nada.
a mente late feito um cão.
passe o molho.
esse é o arranjo no longo caminho rumo ao
esquecimento.
data da próxima leitura do medidor:
20 DE JUNHO.
e eu me sinto bem.
as rochas estão derretendo
a porta está presa dentro da minha cabeça
faz trinta e oito graus em Hollywood
e o mensageiro tropeça
deixando cair a última mensagem num
buraco na terra
com 640 quilômetros de profundidade.
os filmes estão piores do que nunca
e os livros mortos de homens mortos são leituras mortas.
os ratos brancos correm na esteira.
os bares fedem em escuridão pantanosa
enquanto os solitários não satisfazem os solitários.
não existe clareza.
não era pra existir desde o começo.
o sol está diminuindo, dizem.
esperem pra ver.
o molho late feito um cão.
se eu tivesse uma avó
minha avó poderia surrar a sua
avó.
queda livre.
sujeira livre.
qualquer merda custa dinheiro.
dê uma olhada nos anúncios de venda...
agora todo mundo está cantando ao mesmo tempo
vozes terríveis
saídas de gargantas rasgadas.
horas de treino.
é quase totalmente desperdício.
o arrependimento é principalmente causado por não termos
feito nada.
a mente late feito um cão.
passe o molho.
esse é o arranjo no longo caminho rumo ao
esquecimento.
data da próxima leitura do medidor:
20 DE JUNHO.
e eu me sinto bem.
1 127
Charles Bukowski
Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato
ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
1 395
Charles Bukowski
Seguidores
o telefone tocou à 1:30 da manhã
e era um homem de Denver:
“Chinaski, você tem seguidores em
Denver...”
“é?”
“é, eu tenho uma revista e quero uns
poemas seus...”
“VAI SE FODER, CHINASKI!”, ouvi uma voz
no fundo...
“pelo visto você tem um amigo aí”,
eu disse.
“é”, ele respondeu, “pois então, eu quero
seis poemas...”
“O CHINASKI É UMA PORCARIA! O CHINASKI É UM BABACA!”,
ouvi a outra
voz.
“vocês andaram bebendo?”,
eu perguntei.
“e daí?”, ele respondeu. “você bebe.”
“é verdade...”
“O CHINASKI É UM IMBECIL!”
então
o editor da revista me deu o
endereço e eu o anotei no verso
de um envelope.
“manda uns poemas pra gente agora...”
“vou ver o que posso fazer...”
“O CHINASKI SÓ ESCREVE MERDA!”
“tchau”, eu disse.
“tchau”, disse o
editor.
eu desliguei.
há certamente uma grande quantidade de pessoas
solitárias sem muito o que fazer com
suas noites.
e era um homem de Denver:
“Chinaski, você tem seguidores em
Denver...”
“é?”
“é, eu tenho uma revista e quero uns
poemas seus...”
“VAI SE FODER, CHINASKI!”, ouvi uma voz
no fundo...
“pelo visto você tem um amigo aí”,
eu disse.
“é”, ele respondeu, “pois então, eu quero
seis poemas...”
“O CHINASKI É UMA PORCARIA! O CHINASKI É UM BABACA!”,
ouvi a outra
voz.
“vocês andaram bebendo?”,
eu perguntei.
“e daí?”, ele respondeu. “você bebe.”
“é verdade...”
“O CHINASKI É UM IMBECIL!”
então
o editor da revista me deu o
endereço e eu o anotei no verso
de um envelope.
“manda uns poemas pra gente agora...”
“vou ver o que posso fazer...”
“O CHINASKI SÓ ESCREVE MERDA!”
“tchau”, eu disse.
“tchau”, disse o
editor.
eu desliguei.
há certamente uma grande quantidade de pessoas
solitárias sem muito o que fazer com
suas noites.
1 113
Charles Bukowski
Café
eu estava tomando café no
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
1 224
Charles Bukowski
Ajudar Os Mais Velhos
eu estava parado na fila do banco hoje
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
1 136
Charles Bukowski
A Vida Estradeira
um idiota ficou me fechando e por fim consegui passar por ele, e na
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
1 117
Charles Bukowski
A Louca Verdade
o doido de traje vermelho
vinha andando pela rua
conversando sozinho
quando um maioral num carro
esportivo
dobrou numa travessa
bem na frente do doido
que berrou “EI, MIJO DE CÃO!
MERDA DE PORCO! VOCÊ TEM AMENDOINS NO LUGAR DOS
MIOLOS?”
o maioral freou seu carro
esportivo, deu ré até o doido,
parou,
disse: “O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE,
AMIGÃO?’”
“eu disse ‘É MELHOR
DAR NO PÉ ENQUANTO PODE,
BABACA!”
o maioral estava acompanhado de sua
namorada no carro e começou a
abrir a porta.
“É MELHOR VOCÊ NÃO SAIR DESSE
CARRO, MIOLO DE AMENDOIM!”
a porta se fechou e o carro esportivo
se foi
rugindo.
o doido de traje vermelho então
continuou andando pela
rua.
“NÃO TEM NADA EM LUGAR NENHUM”,
ele disse, “E A CADA SEGUNDO TÁ
FICANDO MENOS DO QUE
NADA!”
foi um grande dia
lá na 7th Street logo depois da
Weymouth
Drive.
vinha andando pela rua
conversando sozinho
quando um maioral num carro
esportivo
dobrou numa travessa
bem na frente do doido
que berrou “EI, MIJO DE CÃO!
MERDA DE PORCO! VOCÊ TEM AMENDOINS NO LUGAR DOS
MIOLOS?”
o maioral freou seu carro
esportivo, deu ré até o doido,
parou,
disse: “O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE,
AMIGÃO?’”
“eu disse ‘É MELHOR
DAR NO PÉ ENQUANTO PODE,
BABACA!”
o maioral estava acompanhado de sua
namorada no carro e começou a
abrir a porta.
“É MELHOR VOCÊ NÃO SAIR DESSE
CARRO, MIOLO DE AMENDOIM!”
a porta se fechou e o carro esportivo
se foi
rugindo.
o doido de traje vermelho então
continuou andando pela
rua.
“NÃO TEM NADA EM LUGAR NENHUM”,
ele disse, “E A CADA SEGUNDO TÁ
FICANDO MENOS DO QUE
NADA!”
foi um grande dia
lá na 7th Street logo depois da
Weymouth
Drive.
1 205
Charles Bukowski
Meu Truque do Desaparecimento
quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
1 069
Charles Bukowski
Tempos Difíceis
quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
1 311
Charles Bukowski
A Lâmina
não havia estacionamento perto da agência dos correios onde
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
1 142
Charles Bukowski
Juntos
EI, berrei de longe para ela
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
1 379
Charles Bukowski
Caixa Postal 11946, Fresno, Calif. 93776
voltei de carro do hipódromo depois de perder $50.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
1 050
Charles Bukowski
O Jogador
eu tinha 40 pela vitória do cavalo 6
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
1 132
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 128
Charles Bukowski
Alegre Parri
os cafés em Paris são bem como você imagina
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
1 107
Charles Bukowski
O Furúnculo
eu estava me dando bem com as garotas na linha de montagem na
Nabisco, eu tinha pouco antes arrebentado a cara do valentão da
empresa
no meu horário de almoço,
as coisas estavam indo bem, eu era de outra
cidade, o estranho que raramente conversava com
alguém, eu era o personagem misterioso, eu era o
fodão,
quase todas aquelas mocinhas tinham interesse
por mim
e os caras não sabiam
que diabos.
aí certa manhã eu acordei no meu
quarto
com um vasto furúnculo num lado da
minha cabeça (bochecha direita)
e
a desgraça tinha quase o tamanho de uma
bola de golfe.
eu devia ter tirado licença médica
mas
não tive o bom senso e
fui trabalhar
mesmo assim.
aquilo fez a diferença: os olhos das mulheres
evitavam os meus, e os caras
já não se comportavam com temor
e eu me senti derrotado pelo
destino.
o furúnculo permaneceu
por
2 dias
3 dias
4 dias.
no quinto dia o capataz me entregou
meus documentos: “estamos cortando pessoal, você
já era”.
isso foi uma hora antes
do almoço.
eu fui até o meu armário, abri,
tirei meu avental e meu quepe
joguei os dois ali dentro
junto com a
chave e saí
caminhando
uma caminhada verdadeiramente horrível
até a rua
onde me virei
para trás e olhei o prédio
com a sensação de que eles haviam
descoberto
algo
medonhamente indecente
a meu respeito.
Nabisco, eu tinha pouco antes arrebentado a cara do valentão da
empresa
no meu horário de almoço,
as coisas estavam indo bem, eu era de outra
cidade, o estranho que raramente conversava com
alguém, eu era o personagem misterioso, eu era o
fodão,
quase todas aquelas mocinhas tinham interesse
por mim
e os caras não sabiam
que diabos.
aí certa manhã eu acordei no meu
quarto
com um vasto furúnculo num lado da
minha cabeça (bochecha direita)
e
a desgraça tinha quase o tamanho de uma
bola de golfe.
eu devia ter tirado licença médica
mas
não tive o bom senso e
fui trabalhar
mesmo assim.
aquilo fez a diferença: os olhos das mulheres
evitavam os meus, e os caras
já não se comportavam com temor
e eu me senti derrotado pelo
destino.
o furúnculo permaneceu
por
2 dias
3 dias
4 dias.
no quinto dia o capataz me entregou
meus documentos: “estamos cortando pessoal, você
já era”.
isso foi uma hora antes
do almoço.
eu fui até o meu armário, abri,
tirei meu avental e meu quepe
joguei os dois ali dentro
junto com a
chave e saí
caminhando
uma caminhada verdadeiramente horrível
até a rua
onde me virei
para trás e olhei o prédio
com a sensação de que eles haviam
descoberto
algo
medonhamente indecente
a meu respeito.
1 230
Charles Bukowski
Meu Amigo, o Atendente do Estacionamento
– ele é um dândi
– bigodinho preto
– geralmente sugando um charuto
ele costuma se debruçar para dentro dos carros enquanto
efetua negócios
na primeira vez em que o vi, ele disse
“ei! cê vai dar uma
matada?”
“talvez”, eu respondi.
na vez seguinte foi:
“ei, Pé de mesa! o que é que tá
rolando?”
“quase nada”, eu disse a
ele.
na vez seguinte minha namorada estava comigo
e ele apenas
sorriu.
na vez seguinte eu estava
sozinho.
“ei”, ele perguntou, “cadê a
jovenzinha?”
“deixei em casa...”
“Papo furado! aposto que ela te
largou!”
e na vez seguinte
ele realmente se debruçou para dentro do carro:
“como é que pode um cara como você dirigir
uma BMW? aposto que você herdou o seu
dinheiro, você não ganhou esse carro com o seu
cérebro!”
“como você adivinhou?”, eu
respondi.
isso foi algumas semanas atrás.
não tenho visto meu amigo nos últimos tempos.
um sujeito como aquele, provavelmente ele apenas avançou
para algo
melhor.
– bigodinho preto
– geralmente sugando um charuto
ele costuma se debruçar para dentro dos carros enquanto
efetua negócios
na primeira vez em que o vi, ele disse
“ei! cê vai dar uma
matada?”
“talvez”, eu respondi.
na vez seguinte foi:
“ei, Pé de mesa! o que é que tá
rolando?”
“quase nada”, eu disse a
ele.
na vez seguinte minha namorada estava comigo
e ele apenas
sorriu.
na vez seguinte eu estava
sozinho.
“ei”, ele perguntou, “cadê a
jovenzinha?”
“deixei em casa...”
“Papo furado! aposto que ela te
largou!”
e na vez seguinte
ele realmente se debruçou para dentro do carro:
“como é que pode um cara como você dirigir
uma BMW? aposto que você herdou o seu
dinheiro, você não ganhou esse carro com o seu
cérebro!”
“como você adivinhou?”, eu
respondi.
isso foi algumas semanas atrás.
não tenho visto meu amigo nos últimos tempos.
um sujeito como aquele, provavelmente ele apenas avançou
para algo
melhor.
1 087