Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
Achei o Gosto do Troço Pior do Que de Costume
eu costumava beber com Jane
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
1 192
Charles Bukowski
Os Dias Gloriosos
os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
991
Charles Bukowski
O Homem do Terno Marrom
porra, ele era pequeno
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
1 072
Charles Bukowski
Ovo Desestrelado
NADA. sentados num café tomando café da manhã. NADA. a garçonete,
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
1 141
Charles Bukowski
Tempestade Para Os Vivos E Para Os Mortos
você não me pega, a chuva está entrando pela
porta e estou na frente do computador enquanto
ouço Rachmaninov no rádio,
a chuva entrando de lado pela porta,
pancadas dela e sopro fumaça de charuto nela e
sorrio.
depois da porta tem uma sacadinha e há
uma cadeira lá.
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas vão
mal aqui.
(caramba está caindo água agora!
ótimo! ensopando meu assento de madeira
lá fora!
as árvores balançam na chuva e os
fios telefônicos.)
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas
vão mal
e bebo cerveja lá fora,
olho os carros da noite na autoestrada,
também noto quantas luzes são necessárias
numa cidade, tantas.
e fico lá sentado e penso, bem, pode
ser um momento estagnado
mas pelo menos você não está morando na rua.
você não está nem no cemitério ainda.
ânimo, garotão, você já superou
coisa pior...
beba sua cerveja.
mas hoje estou aqui,
e Rachmaninov ainda toca para mim.
quando eu era jovem em São
Francisco, ou razoavelmente jovem, eu era
um pouco mentalmente desequilibrado, achava
que era um grande artista e passava fome por
isso.
estou querendo dizer é que Rachmaninov ainda
estava vivo na época
e de algum modo eu poupara dinheiro
suficiente para ir vê-lo tocar no
auditório.
só que quando cheguei lá
anunciaram que ele estava doente
e que um substituto iria
tocar no lugar dele.
fiquei com raiva.
não deveria ter ficado pois dentro
de uma semana ele estava
morto.
mas ele está tocando para mim agora.
uma de suas próprias composições,
e se saindo muito bem.
com a chuva batendo nesta sala,
agora um vento de temporal escancara
totalmente a porta.
papéis voam pela sala.
há uma batida na porta,
a porta atrás de mim.
ela se abre.
minha esposa entra.
“é um furacão!”, ela diz,
“um furacão de gelo, você vai morrer
congelado!”
“não, não”, digo a ela, “estou bem!”
ela toca os meus braços,
eles estão quentes.
ela fica me encarando.
às vezes ela se pergunta.
eu também.
agora estou sozinho.
Rachmaninov terminou
e a chuva
parou.
e o vento.
agora sinto frio.
eu me levanto e visto um roupão de banho.
sou um velho escritor.
uma conta de telefone olha para mim
de ponta-cabeça.
a festa acabou.
San Pedro, 1993,
no Senhor do nosso
Ano.
sentado aqui.
porta e estou na frente do computador enquanto
ouço Rachmaninov no rádio,
a chuva entrando de lado pela porta,
pancadas dela e sopro fumaça de charuto nela e
sorrio.
depois da porta tem uma sacadinha e há
uma cadeira lá.
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas vão
mal aqui.
(caramba está caindo água agora!
ótimo! ensopando meu assento de madeira
lá fora!
as árvores balançam na chuva e os
fios telefônicos.)
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas
vão mal
e bebo cerveja lá fora,
olho os carros da noite na autoestrada,
também noto quantas luzes são necessárias
numa cidade, tantas.
e fico lá sentado e penso, bem, pode
ser um momento estagnado
mas pelo menos você não está morando na rua.
você não está nem no cemitério ainda.
ânimo, garotão, você já superou
coisa pior...
beba sua cerveja.
mas hoje estou aqui,
e Rachmaninov ainda toca para mim.
quando eu era jovem em São
Francisco, ou razoavelmente jovem, eu era
um pouco mentalmente desequilibrado, achava
que era um grande artista e passava fome por
isso.
estou querendo dizer é que Rachmaninov ainda
estava vivo na época
e de algum modo eu poupara dinheiro
suficiente para ir vê-lo tocar no
auditório.
só que quando cheguei lá
anunciaram que ele estava doente
e que um substituto iria
tocar no lugar dele.
fiquei com raiva.
não deveria ter ficado pois dentro
de uma semana ele estava
morto.
mas ele está tocando para mim agora.
uma de suas próprias composições,
e se saindo muito bem.
com a chuva batendo nesta sala,
agora um vento de temporal escancara
totalmente a porta.
papéis voam pela sala.
há uma batida na porta,
a porta atrás de mim.
ela se abre.
minha esposa entra.
“é um furacão!”, ela diz,
“um furacão de gelo, você vai morrer
congelado!”
“não, não”, digo a ela, “estou bem!”
ela toca os meus braços,
eles estão quentes.
ela fica me encarando.
às vezes ela se pergunta.
eu também.
agora estou sozinho.
Rachmaninov terminou
e a chuva
parou.
e o vento.
agora sinto frio.
eu me levanto e visto um roupão de banho.
sou um velho escritor.
uma conta de telefone olha para mim
de ponta-cabeça.
a festa acabou.
San Pedro, 1993,
no Senhor do nosso
Ano.
sentado aqui.
1 164
Charles Bukowski
Mercedes Vermelha
naturalmente, nós todos caímos em
baixo-astral, é uma questão de
desequilíbrio químico
e uma existência
que, por vezes,
parece impossibilitar
qualquer chance real de
felicidade.
eu estava num baixo-astral
quando um ricaço escroto
acompanhado de sua inexpressiva
namoradinha
numa Mercedes vermelha
cortou
a minha frente
no estacionamento do hipódromo.
o estalo lampejou
no meu íntimo:
vou arrancar o filho da puta
de seu carro e
arrebentar a
cara dele!
segui o sujeito
até os manobristas
estacionei atrás
e saltei do meu
carro
corri até a
porta dele
e puxei.
estava
trancada.
as
janelas estavam
levantadas.
eu bati na janela
do lado
dele:
“abre! eu vou
arrebentar a sua
cara!”
ele ficou sentado
olhando reto
em frente.
a mulher dele fazia
o mesmo.
eles não me
olhavam.
ele era 30 anos
mais novo,
mas eu sabia que podia
encarar,
ele era molenga
e mimado.
eu bati na janela
com meu
punho:
“sai daí, seu merda,
ou eu começo a
quebrar
o vidro!”
ele acenou de leve a cabeça
para sua
mulher.
eu a vi estender
o braço
abrir o
porta-luvas
e passar para ele o
.32
eu o vi segurar a arma
junto ao assento
e soltar a
trava de segurança.
fui andando
em direção ao
clube, o programa
parecia uma
beleza
naquele
dia.
tudo que eu precisava fazer
era
estar lá.
baixo-astral, é uma questão de
desequilíbrio químico
e uma existência
que, por vezes,
parece impossibilitar
qualquer chance real de
felicidade.
eu estava num baixo-astral
quando um ricaço escroto
acompanhado de sua inexpressiva
namoradinha
numa Mercedes vermelha
cortou
a minha frente
no estacionamento do hipódromo.
o estalo lampejou
no meu íntimo:
vou arrancar o filho da puta
de seu carro e
arrebentar a
cara dele!
segui o sujeito
até os manobristas
estacionei atrás
e saltei do meu
carro
corri até a
porta dele
e puxei.
estava
trancada.
as
janelas estavam
levantadas.
eu bati na janela
do lado
dele:
“abre! eu vou
arrebentar a sua
cara!”
ele ficou sentado
olhando reto
em frente.
a mulher dele fazia
o mesmo.
eles não me
olhavam.
ele era 30 anos
mais novo,
mas eu sabia que podia
encarar,
ele era molenga
e mimado.
eu bati na janela
com meu
punho:
“sai daí, seu merda,
ou eu começo a
quebrar
o vidro!”
ele acenou de leve a cabeça
para sua
mulher.
eu a vi estender
o braço
abrir o
porta-luvas
e passar para ele o
.32
eu o vi segurar a arma
junto ao assento
e soltar a
trava de segurança.
fui andando
em direção ao
clube, o programa
parecia uma
beleza
naquele
dia.
tudo que eu precisava fazer
era
estar lá.
1 382
Charles Bukowski
Diversão
veja bem, ela disse, estirada na cama, eu não quero nada
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
1 201
Charles Bukowski
Exame de Direção
motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 298
Charles Bukowski
Ele Atacou Os Moinhos de Vento, Sim
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
969
Charles Bukowski
Janeiro
aqui
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
1 068
Charles Bukowski
Paz E Amor
nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 098
Charles Bukowski
Estar Aqui
quando chega o pior, não há nada a se
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
999
Charles Bukowski
O Mundo Dos Manobristas
depois de ter meu carro arrombado duas vezes
no hipódromo –
você sabe como é: sua porta está
arrombada quando você
chega
e dentro não há nada além de
grandes buracos vazios onde antes
havia o equipamento, nada além dos
fios
enrolados...
então me decidi pelo estacionamento
com manobristas
sentindo que seria mais barato
no longo
prazo...
e a primeira coisa que notei
no meu primeiro dia de estacionamento
com manobristas
foi que pelo preço
extra
eles serviam uma
conversinha
“ei, amigão, como você arranjou
um carro desses? você não tem cara
de muito inteligente... você deve ter
herdado uma grana do seu
pai...”
“você adivinhou”, eu disse ao
manobrista.
no dia seguinte outro manobrista
me disse “escuta, posso te arranjar
uma caixa barata de vinho e tem uma
garota aleijada no motel do outro lado do
hipódromo que faz o melhor boquete desde
Cleópatra...”
o manobrista seguinte disse “ei, cara de cu,
como é que vai?”
eu observava e percebia que os
manobristas tratavam os outros clientes com
civilidade padrão.
então
um dia
não quiseram me dar
recibo para o meu
carro.
“como vou provar que esse
carro é
meu?”
“você vai ter que
nos convencer...”
quando saí naquela
tarde
lá estava o meu carro
estacionado numa
saída junto à
cerca viva, não precisei
esperar como os
outros
e eu sempre escutava
alguma
historinha:
“ei, cara, minha esposa tentou
cometer suicídio...”
“eu acho
compreensível...”
dia após dia
diferentes histórias de
diferentes
manobristas:
“eu amo a minha esposa mas tenho uma
namorada e eu como ela que nem
louco... quer dizer, um dia tudo que eu vou ficar
fazendo é queimar uma fumacinha azul, então que
merda?”
“Frank”, eu disse a ele, “como você estica a sua
jogada é problema seu...”
e
tipo digamos
quarta passada houve uma estranha
ocorrência:
lá está o manobrista-chefe
e ele tem uns fones de ouvido e
microfone
que usava pra passar os carros dos
clientes
para os motoristas das picapes
distantes
e ele colocou os fones de ouvido
na minha cabeça e ali estava
o microfone
e ele me disse
“o Frank quer uma palavra
sua...”
e eu o vi lá adiante
operando a picape
branca
e falei no
microfone:
“Frank, bebê, tudo é
morte!”
e o escutei responder pelos
fones de ouvido:
“isso-aí porra!”
ele acenou e então precisou
pisar fundo no freio
e quase acertou um
Caddy 86 azul
foi nas corridas do Hollywood Park
verão de 1986
e os manobristas que estacionaram o
detonado BMW 1979 do
velho com os faróis de neblina
arrancados
e as pequenas cores da
bandeira alemã
canto esquerdo
janela traseira
entrei nessa máquina e rodei
pra longe de lá, os séculos ainda
avançando rumo ao escuro
para sempre e
para sempre
e rodei para o leste pelo Century
entrei na Harbor Freeway
ao sul
há muito mais coisa envolvida nas apostas
em cavalos do que pagar ou rasgar
recibos.
no hipódromo –
você sabe como é: sua porta está
arrombada quando você
chega
e dentro não há nada além de
grandes buracos vazios onde antes
havia o equipamento, nada além dos
fios
enrolados...
então me decidi pelo estacionamento
com manobristas
sentindo que seria mais barato
no longo
prazo...
e a primeira coisa que notei
no meu primeiro dia de estacionamento
com manobristas
foi que pelo preço
extra
eles serviam uma
conversinha
“ei, amigão, como você arranjou
um carro desses? você não tem cara
de muito inteligente... você deve ter
herdado uma grana do seu
pai...”
“você adivinhou”, eu disse ao
manobrista.
no dia seguinte outro manobrista
me disse “escuta, posso te arranjar
uma caixa barata de vinho e tem uma
garota aleijada no motel do outro lado do
hipódromo que faz o melhor boquete desde
Cleópatra...”
o manobrista seguinte disse “ei, cara de cu,
como é que vai?”
eu observava e percebia que os
manobristas tratavam os outros clientes com
civilidade padrão.
então
um dia
não quiseram me dar
recibo para o meu
carro.
“como vou provar que esse
carro é
meu?”
“você vai ter que
nos convencer...”
quando saí naquela
tarde
lá estava o meu carro
estacionado numa
saída junto à
cerca viva, não precisei
esperar como os
outros
e eu sempre escutava
alguma
historinha:
“ei, cara, minha esposa tentou
cometer suicídio...”
“eu acho
compreensível...”
dia após dia
diferentes histórias de
diferentes
manobristas:
“eu amo a minha esposa mas tenho uma
namorada e eu como ela que nem
louco... quer dizer, um dia tudo que eu vou ficar
fazendo é queimar uma fumacinha azul, então que
merda?”
“Frank”, eu disse a ele, “como você estica a sua
jogada é problema seu...”
e
tipo digamos
quarta passada houve uma estranha
ocorrência:
lá está o manobrista-chefe
e ele tem uns fones de ouvido e
microfone
que usava pra passar os carros dos
clientes
para os motoristas das picapes
distantes
e ele colocou os fones de ouvido
na minha cabeça e ali estava
o microfone
e ele me disse
“o Frank quer uma palavra
sua...”
e eu o vi lá adiante
operando a picape
branca
e falei no
microfone:
“Frank, bebê, tudo é
morte!”
e o escutei responder pelos
fones de ouvido:
“isso-aí porra!”
ele acenou e então precisou
pisar fundo no freio
e quase acertou um
Caddy 86 azul
foi nas corridas do Hollywood Park
verão de 1986
e os manobristas que estacionaram o
detonado BMW 1979 do
velho com os faróis de neblina
arrancados
e as pequenas cores da
bandeira alemã
canto esquerdo
janela traseira
entrei nessa máquina e rodei
pra longe de lá, os séculos ainda
avançando rumo ao escuro
para sempre e
para sempre
e rodei para o leste pelo Century
entrei na Harbor Freeway
ao sul
há muito mais coisa envolvida nas apostas
em cavalos do que pagar ou rasgar
recibos.
1 024
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 132
Charles Bukowski
Um Longo Dia Quente No Hipódromo
o dia todo lá no hipódromo queimando no sol
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.
eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”
sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.
ele seguia falando da quarta esposa...
a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.
“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”
“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”
ele começou de novo com a quarta esposa.
“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”
o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.
“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.
“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”
ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.
“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”
“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.
“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”
a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.
desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.
eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte
a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.
pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.
andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.
eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”
sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.
ele seguia falando da quarta esposa...
a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.
“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”
“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”
ele começou de novo com a quarta esposa.
“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”
o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.
“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.
“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”
ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.
“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”
“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.
“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”
a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.
desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.
eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte
a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.
pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.
andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
1 100
Charles Bukowski
Porq Tud Se Sgota
abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 050
Charles Bukowski
Meus Novos Pais
(para o sr. e a sra. P.C.)
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
965
Charles Bukowski
E As Triviais Vidas da Realeza Nunca Me Empolgaram Tampouco...
nunca me importei de ficar molhado, várias vezes eu entrava em
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.
mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”
“seu sapato esquerdo está desamarrado...”
“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”
“seu carro precisa de uma lavagem...”
quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.
os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.
mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”
“seu sapato esquerdo está desamarrado...”
“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”
“seu carro precisa de uma lavagem...”
quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.
os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
1 088
Charles Bukowski
As Cartas de John Steinbeck
sonhei que eu estava congelando e quando acordei e descobri
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.
você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.
o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”
eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.
aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.
se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.
perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.
você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.
o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”
eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.
aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.
se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.
perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
1 221
Charles Bukowski
Queimando Na Água, Afogando-Se Na Chama
pessoas copiadas em carbono
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
973
Charles Bukowski
Zangão
a sabedoria do
zangão rastejando
na asa do
jarro d’água é
enorme com o
sol entrando pela
janela da co-
zinha eu penso de novo
no assassinato de
César e dentro da
pia há três
copos d’água sujos.
a campainha toca
e eu me mantenho deter-
minado a não aten-
der.
zangão rastejando
na asa do
jarro d’água é
enorme com o
sol entrando pela
janela da co-
zinha eu penso de novo
no assassinato de
César e dentro da
pia há três
copos d’água sujos.
a campainha toca
e eu me mantenho deter-
minado a não aten-
der.
967
Charles Bukowski
Bob Dylan
esses dois jovens
no pátio do outro lado da rua
eles ouvem Bob Dylan
o dia todo e a noite toda
no aparelho de som
eles ligam aquele aparelho
no máximo volume possível
e é um ótimo
aparelho
a vizinhança toda
ganha Bob Dylan
de graça
e para mim é ainda mais grátis
porque moro no pátio
logo em frente
ganho Dylan quando cago
ganho Dylan quando trepo
e no momento em que tento
dormir.
às vezes os vejo
lá fora na calçada
bem jovens e arrumadinhos
indo comprar comida e
papel higiênico
eles formam um dos casais mais
adoráveis da
vizinhança.
no pátio do outro lado da rua
eles ouvem Bob Dylan
o dia todo e a noite toda
no aparelho de som
eles ligam aquele aparelho
no máximo volume possível
e é um ótimo
aparelho
a vizinhança toda
ganha Bob Dylan
de graça
e para mim é ainda mais grátis
porque moro no pátio
logo em frente
ganho Dylan quando cago
ganho Dylan quando trepo
e no momento em que tento
dormir.
às vezes os vejo
lá fora na calçada
bem jovens e arrumadinhos
indo comprar comida e
papel higiênico
eles formam um dos casais mais
adoráveis da
vizinhança.
1 202
Charles Bukowski
Poema Para Dante
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
1 505
Charles Bukowski
Um Poema de Milhões
nós morávamos num hotel perto de um
terreno baldio
onde alguém estava cultivando um
jardim
que incluía uns longos
talos de milho
e nós saímos do bar da esquina
às duas da manhã
e começamos a caminhar
na direção de casa
e quando chegamos ao terreno
baldio ela disse “eu quero uns
milhos!”
e eu fui atrás dela e
falei “merda, esse troço
não tá maduro ainda...”
“sim, tá sim... eu preciso
comer uns milhos...”
estávamos sempre famintos e
ela começou a rasgar
umas espigas de milho e
metê-las dentro da bolsa
e pela gola da blusa e
eu corri os olhos pela rua e
vi a viatura se aproximando
e falei “é a polícia,
corre!”
eles vinham de luz vermelha acesa
e nós corremos rumo ao nosso
apartamento, descemos pela
entrada da frente...
“parem ou eu atiro!”
e descemos a escada até
o elevador do subsolo
que calhou de estar nos esperando
e fechamos as portas e
apertamos o botão #4
enquanto eles ficavam lá
pressionando botões. nós
saímos e deixamos as portas
do elevador abertas, corremos para o
nosso apartamento, entramos, trancamos a porta
e ficamos sentados no escuro
escutando e bebendo vinho
barato. ouvimos os caras lá fora
perambulando. eles afinal
desistiram mas deixamos as luzes
desligadas e ela ferveu as espigas de
milho, ficamos no escuro por
muito tempo escutando as espigas
de milho ferverem e bebendo o
vinho barato. tiramos o milho
da água e tentamos comê-lo. ainda não
estava desenvolvido, nós mordiscávamos
assassinatos, abortos da
natureza.
“eu falei que essa merda não tava no ponto”,
eu disse.
“tá no ponto”, ela disse, “pelo amor
de Deus, come!”
“já tentei”, eu disse, “Deus Nosso Senhor sabe
como tentei...”
“fique feliz de ter esse milho”, ela disse,
“fique feliz de me ter também.”
“o milho tá verde”, eu disse, “verde que nem
as lagartas em abril...”
“ele tá bom, bom, esse milho tá bom”,
ela disse
e começou a jogar espigas em mim.
eu joguei as espigas de volta.
terminamos o vinho e fomos dormir.
de manhã quando acordamos havia
umas minúsculas espiguinhas de milho por tudo
no tapete, no sofá e nas cadeiras.
“de onde veio essa porcaria?”, ela perguntou.
“o Gigante Verde da lata de ervilha”, falei, “cagou pra nós
um tonel cheio.”
“nesse mundo”, ela disse, “uma garota nunca
sabe o que vai ver quando
acordar.”
“algo duro”, eu respondi, “é melhor
do que nada.”
ela se levantou e tomou banho e eu me
virei e voltei a dormir.
terreno baldio
onde alguém estava cultivando um
jardim
que incluía uns longos
talos de milho
e nós saímos do bar da esquina
às duas da manhã
e começamos a caminhar
na direção de casa
e quando chegamos ao terreno
baldio ela disse “eu quero uns
milhos!”
e eu fui atrás dela e
falei “merda, esse troço
não tá maduro ainda...”
“sim, tá sim... eu preciso
comer uns milhos...”
estávamos sempre famintos e
ela começou a rasgar
umas espigas de milho e
metê-las dentro da bolsa
e pela gola da blusa e
eu corri os olhos pela rua e
vi a viatura se aproximando
e falei “é a polícia,
corre!”
eles vinham de luz vermelha acesa
e nós corremos rumo ao nosso
apartamento, descemos pela
entrada da frente...
“parem ou eu atiro!”
e descemos a escada até
o elevador do subsolo
que calhou de estar nos esperando
e fechamos as portas e
apertamos o botão #4
enquanto eles ficavam lá
pressionando botões. nós
saímos e deixamos as portas
do elevador abertas, corremos para o
nosso apartamento, entramos, trancamos a porta
e ficamos sentados no escuro
escutando e bebendo vinho
barato. ouvimos os caras lá fora
perambulando. eles afinal
desistiram mas deixamos as luzes
desligadas e ela ferveu as espigas de
milho, ficamos no escuro por
muito tempo escutando as espigas
de milho ferverem e bebendo o
vinho barato. tiramos o milho
da água e tentamos comê-lo. ainda não
estava desenvolvido, nós mordiscávamos
assassinatos, abortos da
natureza.
“eu falei que essa merda não tava no ponto”,
eu disse.
“tá no ponto”, ela disse, “pelo amor
de Deus, come!”
“já tentei”, eu disse, “Deus Nosso Senhor sabe
como tentei...”
“fique feliz de ter esse milho”, ela disse,
“fique feliz de me ter também.”
“o milho tá verde”, eu disse, “verde que nem
as lagartas em abril...”
“ele tá bom, bom, esse milho tá bom”,
ela disse
e começou a jogar espigas em mim.
eu joguei as espigas de volta.
terminamos o vinho e fomos dormir.
de manhã quando acordamos havia
umas minúsculas espiguinhas de milho por tudo
no tapete, no sofá e nas cadeiras.
“de onde veio essa porcaria?”, ela perguntou.
“o Gigante Verde da lata de ervilha”, falei, “cagou pra nós
um tonel cheio.”
“nesse mundo”, ela disse, “uma garota nunca
sabe o que vai ver quando
acordar.”
“algo duro”, eu respondi, “é melhor
do que nada.”
ela se levantou e tomou banho e eu me
virei e voltei a dormir.
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