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Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Notícia de morte

Visita a W.C.W. circa 1957, os poetas Kerouac Corso Orlovsky no sofá do living room indagavam palavra sábias, William enfermo apontou pela janela acortinada da Main Street, “Há muitos bastardos lá fora!”.

Andando de noite na estrada de asfalto
do campus ao lado do Instrutor Alemão com Óculos
W. C. Williams está morto disse ele com sotaque
sob as árvores em Benares; Eu parei perguntei
Williams está morto? Entusiástico e de olhos abertos
sob a Big Dipper. Parado no Pórtico
do bangalô Anexo da International House
insetos zumbindo em volta da luz elétrica
lendo o obituário Médico no Time.
“out among the sparrows behind the shutters”
Williams está na Big Dipper. Ele não está morto
pois as muitas páginas de palavras emoção em arranjo
com suas entonações fremem as bocas de crianças humildes
tornam-se sutis mesmo em Bengala. Assim
há uma vida movendo-se para fora de suas páginas; Blake
também “vivo” através de suas experienciadas máquinas.
Foram suas últimas palavras qualquer coisa de Negro lá fora
no quarto acarpetado da casa de madeira
em Rutherford? Me pergunto o que ele disse,
ou teria qualquer coisa restado nos reinos do discurso
após o ataque & a freme-cérebro ruína entrarem
em seus pensamentos? Se eu rezar por sua alma no Bardo Thodol
ele poderá ouvir a inesperada vibração de estrangeira piedade.
Quietamente desconhecido por três semanas; agora eu vi Passaic
e Ganges, um, consentindo sua devoção,
porque ele percorreu a margem de aço & rezou
para uma Deusa no rio, que ele somente inventou,
uma outra Ganga-Ma. Montando no velho
ferruginoso submarino Holland no andar térreo
do Paterson Museum ao invés de um crocodilo celestial.
Lamentai, Ó Vós, Anjos da Esquerda! que o poeta
das ruas agora é um esqueleto sob o pavimento
e não há outra velha alma tão doce e humilde
e queixo feminino e ele-olhos pode ver vocês
O que vocês queriam estar entre os bastardos lá fora.

Benares, 20 de março de 1963.
346
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Quem Dominará O Universo?

Uma amarga fria noite de inverno
conspiradores nas mesas do café
                discutindo prisões místicas
A Revolução na América
        já começou não bombas, mas greves
                 assentamentos no topo de submarinos
        em calçadas próximas à Prefeitura —
Quantas famílias controlam os Estados?
        Ignorem o Governo,
                 enviem seu protesto para Clint Murchison.
Os Índios venceram a causa com o Juiz McFate
                                Peiote seguro no Arizona —
         Em meu quarto um junky enjoado
                                         treme no 7° dia
                                Choroso, renascido ao Inverno
Che Guevara tem pau grande
                                         as bolas de Castro são rosa —
O Fantasma de John F. Dulles paira
                                 sobre a América feito linho sujo
         posto sobre o rubro ocaso invernal,
         Fumos de Gás Inconsciente
                                 emanam de seu cadáver
                  & hipnotizam os intelectuais Egípcios —
Ele range os dentes em horror & cruza seus
                                  fêmures sobre o crânio
          Sopra poeira de seu cu
                   suas mãos estão cheias de bactéria
                                   O verme está em seu olho —
           Ele está declarando contrarrevoluções no Mundo-verme,
                    meu gato vomitou-o na útima
                                                        Quinta.
& Forrestal voou de sua janela feito uma Águia —
América está gastando dinheiro para destituir o Homem
                                    Quem são os dominadores da terra?

 
New York, 6 de janeiro de 1961.
560
Allen Ginsberg

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Fragmento 1956

Agora, para a vinda do poema, que eu seja digno dele
& cante santamente o pathos natural da alma humana,
a pele nua e original sob nossos sonhos
& roupagens do pensamento, a própria identidade perfeita
radiante de paixões e rostos intelectuais
Quem carrega as linhas, a dolorosa contorção
enrugada sobre os olhos, o corpo todo
respirando e sensível entre flores e prédios
de olhos abertos, autoconsciente, trêmulo de amor -
Alma que eu tenho, que Jack tem, Húncke tem,
Bill tem, Joan tinha e ainda tem na minha lembrança,
que o vagabundo tem nos seus trapos, o louco em sua roupa preta.
Almas idênticas umas às outras, assim como parado na
esquina há dez anos atrás eu olhei Jack
e lhe disse que éramos a mesma pessoa - olha
nos meus olhos e fala com você mesmo, isso me torna o
amante de todo mundo, Hal meu contra sua vontade,
eu já tinha sua alma no meu corpo quando
ele olhava zangado -junto ao lampião da 8? Avenida e 27ª
Rua em 1947 - eu acabara de voltar da África
com um vislumbre da visão que na verdade
viria para mim no seu tempo assim como viria para todos -Jack
o pior assassino, Alien o maior covarde
com uma faixa de amor amarelo atravessando
os meus poemas, uma bicha da cidade, Joe Army gritando
de aflição na prisão de Dannemora em 1945,
quebrando os brancos nós dos seus dedos nas grades
seu triste companheiro parvo de cela levando porradas dos guardas
um assoalho de ferro por baixo, Gregory chorando em Tombs
Joan com olheiras sob os olhos de benzedrina
escutando a paranóia pela parede,
Huncke de Chicago sonhando nas Arcadas
do infernal Pokerino de luz azul na pele de Times Square,
o pálido rosto aos berros de Bill King na janela do metrô
debatendo-se no minuto final do vão da morte para voltar,
o próprio Morphy, arqui-suicida, esvaindo-se em sangue
no Passaic, trágico e perplexo nas suas
últimas lágrimas, atingindo a morte naquele instante
humano, intelectual, barbudo, quem mais
seria ele nesse momento a não ser ele mesmo?
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Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Um supermercado na Califórnia

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
1 799
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Europa! Europa!

Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol

Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede

Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra

a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol

Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios

Paris, 1958
1 645
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

O Automóvel Verde

Se eu tivesse um Automóvel Verde
iria procurar meu velho companheiro
na sua casa no oceano ocidental.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!

Tocaria minha busina na sua máscula porta,
lá dentro sua mulher e três
crianças espreguiçando-se nuas
no assoalho da sala.

Ele viria correndo para fora
até meu carro cheio de heróica cerveja
e pularia gritando ao volante
pois ele é o maior volante.

Peregrinaríamos até a mais alta montanha
das nossas antigas visões das Montanhas Rochosas
rindo nos braços um do outro,
nosso deleite acima das mais altas Rochosas.

e depois da antiga agonia, bêbados de anos novos,
lançando-nos até o nevado horizonte
arrebentando o pára-lama com bop original
de carro envenenado na montanha

sacudiríamos a nevoenta rodovia
onde anjos de angústia
cambaleiam entre as árvores
e berram diante do motor.

Arderíamos a noite toda entre os pinheiros do pico
visíveis de Denver na escuridão do verão,
clarão nada natural da floresta
clareando o topo da montanha:

infância adolescência idade & eternidade
se abririam como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor,

pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes
dentro do relógio do mundo,

somos capazes, assim como os mágicos
chineses, de confundir os imortais
com nossa intelectualidade
escondida na neblina,

no Automóvel Verde
que eu inventei
imaginei e visualizei
nas estradas do mundo

mais real que o motor
numa pista do deserto
mais puro que Greyhound e
mais rápido que o jato físico.

Denver! Denver! voltaremos
roncando pelo gramado do edifício City &County
que recebe a pura chama esmeralda
raiando no rasto do nosso carro.

Desta vez compraremos a cidade!
Descontei um grande cheque no caixa do meu crânio
para abrir uma miraculosa universidade do corpo
no teto da estação rodoviária.

Porém primeiro percorreremos os pontos do centro da cidade
bilhares barracos botequins de jazz cadeia
prostíbulos da rua Folsom
até os mais escuros becos de Larimer

prestando homenagem ao pai de Denver
perdido nos trilhos da ferrovia,
estupor de vinho e silêncio
reverenciando os cortiços das suas décadas,

nós o saudaremos e à sua santificada maleta
de escuro moscatel, beberemos e
quebraremos as doces garrafas
em Diesels demonstrando nossa fidelidade.

E depois seguiremos guiando bêbados pelas avenidas
por onde marcharam exércitos e por onde ainda desfilam
cambaleando sob o invisível
pendão da Realidade —

trombando pelas ruas
no automóvel do nosso destino
dividiremos um cigarro de arcanjo
e adivinharemos o futuro um do outro:

famas de sobrenatural iluminação,
desolados e chuvosos vãos no tempo,
a grande arte aprendida na desolação
e nossa separação “beat” seis décadas depois. . .

e numa encruzilhada de asfalto
nos tratamos mais uma vez com
principesca gentileza, lembrando
famosas conversas mortas de outras cidades.

O pára-brisas cheio de lágrimas,
a chuva que molha nosso peito nu,
e juntos nos ajoelhamos na escuridão
no meio do tráfego noturno do paraíso

agora renovando o solitário juramento
que fizemos um para o outro
certa vez no Texas:
não posso inscrevê-lo aqui. . .
Quantas noites de Sábado
teremos deixado bêbadas com esta lenda?
Como fará a jovem Denver para carpir
seu olvidado anjo sexual?

Quantos garotos baterão no piano negro
imitando os excessos de um santo da terra?
Ou garotas que cederão ao desejo sob seu espectro
nos colégios da noite melancólica?

Quando tivermos o tempo todo na Eternidade
na tênue luz de rádio deste poema
sentaremos atrás das sombras esquecidas
ouvintes do jazz perdido de todos os Sábados.

Neal, agora seremos heróis reais
numa guerra entre nossos caralhos e o tempo:
vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco antes de
morrer.

Dormindo sós ou acompanhados
por garota ou garoto ou sonho,
não me faltará o amor e a você a saciedade:
todos os homens caem, nossos pais caíram antes,

mas ressuscitaremos essa carne perdida,
nada mais que o trabalho de um momento da mente:
um monumento fora do tempo para o amor
na imaginação:

um mausoléu construído por nossos próprios corpos
consumidos pelo poema invisível -
tremeremos em Denver e resistiremos
mesmo que o sangue e rugas ceguem nossos olhos.

Assim, este Automóvel Verde,
eu o dou para você em fuga
um presente, um presente
da minha imaginação.

Continuaremos guiando
pelas Rochosas
continuaremos guiando
por toda a noite até a aurora,

até voltar à sua ferrovia, a Southern Pacific
sua casa e seus filhos
e seu destino de perna quebrada
você guiando de volta pela planície

o amanhecer: e eu de volta
às minhas visões, meu escritório
e apartamento no leste
retomarei a Nova York.

NY 1953
1 398
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Iluminação de Sather Gate

Por que nego o maná para os outros?
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.

1956
1 003
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Uivo

“Soltem as fechaduras das portas!
Soltem também as portas dos seus batentes!”

Dedicado a Jack Kerouac, novo Buda da prosa americana, que borrifou inteligência em onze livros escritos na metade deste número de anos (1951-1956) – On the Road, Visions of Neal, Dr. Sax, Springtime Mary, The Subterraneans, San Francisco Blues, Some of the Dharma, Book of Dreams, Wake Up, Mexico City Blues e Visions of Gerard –, criando uma prosódia bop espontânea e uma literatura clássica original. Várias frases e o título de Uivo são tirados dele.
William Seward Burroughs, autor de Naked Lunch, uma novela sem fim que deixará todo mundo louco.
Neal Cassady, autor de The First Third, uma autobiografia (1949) que iluminou Buda.
Todos esses livros estão publicados no Céu.


Uivo
para Carl Solomon


I
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o
Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos polos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários,
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão, que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adónis de Denver –
prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam até as agências de desemprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Hudson à luz azul de holofote antiaéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht
& tortillas sonhando com o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por
todos os dias da década seguinte,
que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanela em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,
que se jogaram da Ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown, nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô,
saltaram no imundo rio Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30
na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia do Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis, que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tânger para os garotos ou Pacífico Sul para a locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o túmulo, que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue & amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue, mergulhando logo a seguir na catatonia, voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e
lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia-noite dos domínios de mausoléu druídico do amor, o
sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –
Ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo –
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em
sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.


II
Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias!
Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!
Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus
jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz
escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! tesouros de esqueletos! capitais cegas! indústrias demoníacas! nações espectrais!
invencíveis hospícios! caralhos de granito! bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas levantando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!
Visões! profecias! alucinações! milagres! êxtases! descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! adorações! iluminações! religiões! o carregamento todo de bosta sensitiva!
Desabamentos! sobre o rio! saltos e crucifixões! descendo a correnteza!
Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! jogados nos
rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! o olhar selvagem! os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! rumo à solidão!
acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima!


III
Carl Solomon! Eu estou com você em Rockland
onde você está mais louco do que eu
Eu estou com você em Rockland
onde você deve sentir-se muito estranho
Eu estou com você em Rockland
onde você imita a sombra da minha mãe
Eu estou com você em Rockland
onde você assassinou suas doze secretárias
Eu estou com você em Rockland
onde você ri deste humor invisível
Eu estou com você em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma abominável máquina de escrever
Eu estou com você em Rockland
onde seu estado se tomou muito grave e é noticiado pelo rádio
Eu estou com você em Rockland
onde as faculdades do crânio não aguentam mais os vermes dos sentidos
Eu estou com você em Rockland
onde você bebe o chá dos seios das solteironas de Utica
Eu estou com você em Rockland
onde você bolina os corpos das suas enfermeiras as hárpias do Bronx
Eu estou com você em Rockland
onde você grita dentro de uma camisa de força que está perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo
Eu estou com você em Rockland
onde você martela o piano catatônico a alma é inocente e imortal e nunca poderia morrer impiamente num hospício armado,
Eu estou com você em Rockland
onde com mais cinquenta eletrochoques sua alma nunca mais
retornará a seu corpo de volta da sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio
Eu estou com você em Rockland
onde você acusa seus médicos de loucura e prepara a revolução socialista hebraica contra o Gólgota nacional e fascista
Eu estou com você em Rockland
onde você rasga os céus de Long Island e faz surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano
Eu estou com você em Rockland
onde há mais vinte e cinco mil camaradas loucos todos juntos cantando os versos finais da Internacional
Eu estou com você em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos sob nossas cobertas os Estados Unidos que tossem a noite toda e não nos deixam dormir
Eu estou com você em Rockland
onde despertamos eletrocutados do coma pelos nossos próprios aeroplanos da mente roncando sobre o telhado eles vieram jogar bombas angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora Ó choque de misericórdia
salpicado de estrelas a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres
Eu estou com você em Rockland
nos meus sonhos você caminha gotejante de volta de uma viagem marítima pela grande rodovia que atravessa a América em lágrimas até a porta do meu chalé dentro da Noite Ocidental
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Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Sutra do girassol

Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
1 089
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Peço-lhe que volte

Esta noite fiquei ligado na janela do meu apartamento
sentado às 3 da manhã
olhando incandescentes tochas azuis
embaixo a rua amplamente iluminada
densas sombras assomando no asfalto recém-colocado
—assim como os rabinos medievais da semana passada
andando penosamente no escuro
lixo cruamente virado —bastões
& latas
e senhoras cansadas sentadas nos latões
de lixo espanhol —no calor mortal
- faz um mês
os hidrantes de incêndio tiveram um vazamento
hoje às 3 da tarde o sol numa neblina —
agora tudo escuro lá fora, um gato silencioso
atravessa a rua —eu mio
e ele olha para cima e passa por
uma pilha de entulho no caminho
até o brilhante latão dourado de lixo
(fósforo na noite
e fedor do beco)
( ou então do lixo nas portas)
—Acho que a América é um caos
A polícia atravanca as ruas com sua ansiedade
A viatura guincha & pára
Hoje uma mulher, 20 anos, bateu no irmão
que brincava com seus tijolos infantis
brincava com um enorme rochedo —
“Não faça isso agora! a polícia! a polícia!”
E não havia polícia lá —
Olho por cima do meu ombro —
Um monte de lixo do outro lado.

Gás lacrimogêneo! Dinamite! Bigodes!
Deixarei crescer a barba e carregarei adoráveis
bombas,
destruirei o mundo, me infiltrarei entre
as fendas da morte
E transformarei o universo —Ha! Tenho o segredo, carrego
salames subversivos na
minha pasta amarrotada
“Alho, pobreza, um testamento para o céu,”
um estranho sonho na minha carne:
Nuvens radiantes, eu ouvi a voz de Deus no
meu sono, ou de Blake acordado, ou minha
própria ou
o sonho de uma rotisseria de vacas mugindo
e porcos grunhindo —
O golpe de uma facada
um dedo decepado no meu cérebro —
umas poucas mortes que eu conheço —
Oh, irmãos na Láurea
Será o mundo real?
Será a Coroa de Louros
uma piada ou uma coroa de espinhos? —
Depressa, passa
pelo cu
Lá vou eu
Vem Pavor
—a rua lá fora,
eu espreitando Nova York
O caminhão negro passa roncando &
vibrando fundo —
Que
tai
se
os
mundos
fossem
uma
série
de degraus
Que
tal
se
os
degraus
se encontrassem
de novo
na
Margem
—Deixando-nos voar como pássaros para dentro do Tempo
—olhos e faróis de carros —
A retração do vazio
dentro da Nebulosa
Essas Galáxias cruzam-se como roldanas & elas passam
como gás
Que florestas nascem.

15 de setembro, 1959
912
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Meu triste Eu

Certas vezes quando meus olhos estão vermelhos
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...

Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —

Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido

NY, 1958
729