Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Martha Medeiros
ele tinha acabado de dobrar a esquina
ele tinha acabado de dobrar a esquina
quando entrou numa livraria
eu estava saindo de uma loja de discos
onde havia escutado Schubert
ele escolhia um dicionário de rimas
mas estava incerto do que queria
eu parei diante da vitrine
mas estava incerta do que via
ele comprou o dicionário
quando o céu escureceu
eu entrei na livraria
quando a chuva começou
foi então que aconteceu
quando entrou numa livraria
eu estava saindo de uma loja de discos
onde havia escutado Schubert
ele escolhia um dicionário de rimas
mas estava incerto do que queria
eu parei diante da vitrine
mas estava incerta do que via
ele comprou o dicionário
quando o céu escureceu
eu entrei na livraria
quando a chuva começou
foi então que aconteceu
959
Martha Medeiros
porto alegre surpreende
porto alegre surpreende
vez em quando um lindo menino
vez por outra um fog londrino
vez em quando um lindo menino
vez por outra um fog londrino
1 107
Martha Medeiros
se eu quisesse
se eu quisesse
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade
andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria às vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distribuiria beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro
faria tudo isso
se eu quisesse mesmo
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade
andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria às vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distribuiria beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro
faria tudo isso
se eu quisesse mesmo
1 027
Martha Medeiros
vou andando devagar
vou andando devagar
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
1 064
Martha Medeiros
Miró me viu
Miró me viu
gostou
recomendou Pueblo Español
artificial
ao Bairro Gótico preferi
Gaudí
no El Corte Inglês
comprei bobagens
do museu Picasso
El Viejo Guitarrista me contempla
que nome lindo
Barcelona
gostou
recomendou Pueblo Español
artificial
ao Bairro Gótico preferi
Gaudí
no El Corte Inglês
comprei bobagens
do museu Picasso
El Viejo Guitarrista me contempla
que nome lindo
Barcelona
888
Martha Medeiros
minha cidade
minha cidade
ontem mesmo eu a vi
tem castelos, rainhas e sapos
paetês e farrapos
bares luares quintanas
tem poeta aos milhares
mulheres mundanas
pontes piratas patrões
serestas, violões
tem casas, sobrados, chalés
mansões, chaminés
tem Zés, tem dessas manias
tchês, escocês, nacional
marias, meu deus, como tem
umidade, esta cidade
insiste em estar dentro da lei
mas ela mesma se entrega
ontem mesmo eu a vi
pegando a free-way
ontem mesmo eu a vi
tem castelos, rainhas e sapos
paetês e farrapos
bares luares quintanas
tem poeta aos milhares
mulheres mundanas
pontes piratas patrões
serestas, violões
tem casas, sobrados, chalés
mansões, chaminés
tem Zés, tem dessas manias
tchês, escocês, nacional
marias, meu deus, como tem
umidade, esta cidade
insiste em estar dentro da lei
mas ela mesma se entrega
ontem mesmo eu a vi
pegando a free-way
1 181
Martha Medeiros
way out
way out
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
1 008
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Cidade Dos Outros
Túnica de tortura era a cidade
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
1 253
Sophia de Mello Breyner Andresen
D. António Ferreira Gomes Bispo do Porto
Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
1 030
Sophia de Mello Breyner Andresen
Alentejo
A pequena povoação as pedras
Da calçada
Os muros brancos — a ponta do telhado
Se revira como a mão da bailarina
Chinesa —
A loja de barros: tigelas e cestos empilhados
Cheira a palha e a barro
Aroma de hortelã cheiro a vinho entornado
Junto ao sol excessivo a penumbra fina
Da calçada
Os muros brancos — a ponta do telhado
Se revira como a mão da bailarina
Chinesa —
A loja de barros: tigelas e cestos empilhados
Cheira a palha e a barro
Aroma de hortelã cheiro a vinho entornado
Junto ao sol excessivo a penumbra fina
1 419
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã de Julho
Na praça barão de Quintela
Nesta enevoada manhã de Julho
Onde cai às vezes chuva leve e fina
Entre montras sardinheiras e as esquinas
Tudo parece um desenho animado:
Pessoas passam — jovens ágeis matutinas
Movidas como por gratuito jogo
Em idílicas harmonias citadinas
Julho de 1994
Nesta enevoada manhã de Julho
Onde cai às vezes chuva leve e fina
Entre montras sardinheiras e as esquinas
Tudo parece um desenho animado:
Pessoas passam — jovens ágeis matutinas
Movidas como por gratuito jogo
Em idílicas harmonias citadinas
Julho de 1994
918
Sophia de Mello Breyner Andresen
Veneza
(Prólogo de uma peça de teatro)
Esta história aconteceu
Num país chamado Itália
Na cidade de Veneza
Que é sobre água construída
E noite e dia se mira
Sobre a água reflectida
Suas ruas são canais
Onde sempre gondoleiros
Vão guiando barcas negras
Em Veneza tudo é belo
Tudo rebrilha e cintila
Há quatro cavalos gregos
Sobre o frontão de S. Marcos
E a ponte do Rialto
Desenha aéreo o seu arco
Em Veneza tudo existe
Pois é senhora do mar
Dos quatro cantos do mundo
Os navios carregados
Desembarcam no seu cais
Sedas tapetes brocados
Pérolas rubis corais
Colares anéis e pulseiras
E perfumes orientais
Cidade é de mercadores
E também de apaixonados
Sempre perdidos de amores
E cada dia ali chegam
Persas judeus e romanos
Franceses e florentinos
Artistas e bailarinos
E ladrões e cavaleiros
Aqui só há uma sombra
As prisões da Signoria
E os esbirros do doge
Que espiam a noite e o dia
De resto em Veneza há só
Dança canções fantasia
Cada ano aqui se tecem
Histórias tão variadas
Que às vezes até parecem
Aventuras inventadas
Por isso aqui sempre digo
Que Veneza é como aquela
Cidade de Alexandria
Onde há sol à meia-noite
E há lua ao meio-dia**
** Os últimos 3 versos são da tradição popular.
Esta história aconteceu
Num país chamado Itália
Na cidade de Veneza
Que é sobre água construída
E noite e dia se mira
Sobre a água reflectida
Suas ruas são canais
Onde sempre gondoleiros
Vão guiando barcas negras
Em Veneza tudo é belo
Tudo rebrilha e cintila
Há quatro cavalos gregos
Sobre o frontão de S. Marcos
E a ponte do Rialto
Desenha aéreo o seu arco
Em Veneza tudo existe
Pois é senhora do mar
Dos quatro cantos do mundo
Os navios carregados
Desembarcam no seu cais
Sedas tapetes brocados
Pérolas rubis corais
Colares anéis e pulseiras
E perfumes orientais
Cidade é de mercadores
E também de apaixonados
Sempre perdidos de amores
E cada dia ali chegam
Persas judeus e romanos
Franceses e florentinos
Artistas e bailarinos
E ladrões e cavaleiros
Aqui só há uma sombra
As prisões da Signoria
E os esbirros do doge
Que espiam a noite e o dia
De resto em Veneza há só
Dança canções fantasia
Cada ano aqui se tecem
Histórias tão variadas
Que às vezes até parecem
Aventuras inventadas
Por isso aqui sempre digo
Que Veneza é como aquela
Cidade de Alexandria
Onde há sol à meia-noite
E há lua ao meio-dia**
** Os últimos 3 versos são da tradição popular.
1 427
Sophia de Mello Breyner Andresen
Turistas No Museu
Parecem acabrunhados
Estarrecidos lêem na parede o número dos séculos
O seu olhar fica baço
Com as estátuas — como por engano —
Às vezes se cruzam
(Onde o antigo cismar demorado da viagem?)
Cá fora tiram fotografias muito depressa
Como quem se desobriga daquilo tudo
Caminham em rebanho como os animais
Estarrecidos lêem na parede o número dos séculos
O seu olhar fica baço
Com as estátuas — como por engano —
Às vezes se cruzam
(Onde o antigo cismar demorado da viagem?)
Cá fora tiram fotografias muito depressa
Como quem se desobriga daquilo tudo
Caminham em rebanho como os animais
869
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tejo
Aqui e além em Lisboa — quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada
Julho de 1994
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada
Julho de 1994
1 626
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xv. Inversa Navegação
Inversa navegação
Tédio já sem Tejo
Cinzento hostil dos quartos
Ruas desoladas
Verso a verso
Lisboa anti-pátria da vida
1978
Tédio já sem Tejo
Cinzento hostil dos quartos
Ruas desoladas
Verso a verso
Lisboa anti-pátria da vida
1978
1 198
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ix. Cidades E Ciladas
Cidades e ciladas
Mas também
O pasmo de tão grande arquitectura
As sedas os perfumes a doçura
Das vozes e dos gestos
Os grandes pátios da noite e sua flor
De pânico e sossego
1982
Mas também
O pasmo de tão grande arquitectura
As sedas os perfumes a doçura
Das vozes e dos gestos
Os grandes pátios da noite e sua flor
De pânico e sossego
1982
1 164
Sophia de Mello Breyner Andresen
Despedida
Na estação na tarde o fumo
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais
As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais
As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
2 014
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pátios
Pelos dias quadrados corre a brisa
Que nos seus corredores nunca se engana
Que nos seus corredores nunca se engana
1 114
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade Suja, Restos de Vozes E Ruídos
Rua triste à luz do candeeiro
Que nem a própria noite resgatou.
Que nem a própria noite resgatou.
1 200
Adélia Prado
Feira de São Tanaz
Os peixes me olham
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
1 056
Adélia Prado
Nossa Senhora Dos Prazeres
No que se pode chamar de rua,
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
739
Adélia Prado
Rua do Comércio
Quase fora da loja a balconista
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
1 261
Adélia Prado
A Diva
Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
2 850
Adélia Prado
Aqui, Tão Longe
Neste bairro pobre todos têm um real
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
1 183