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Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canção do Fico

Minha cidade do Rio,
meu castelo de água e sol,
a dois meses de mudança
dos dirigentes de prol;

minha terra de nascença
terceira, pois foi aqui,
em êxtase, alumbramento,
que o mar e seus mundos vi;

minha fluida sesmaria
de léguas de cisma errante,
meu anel verde, meu cravo
solferino, mel do instante;

saci oculto nos morros,
mapa aberto à luz das praias,
códice de piada e gíria,
coxas libertas de saias;

favelas portinarescas
onde o samba se arredonda,
e claustro beneditino,
sal de batismo na onda;

cinemeiro Rio, atlético,
flamengo ou vasco, porosa
urna plena do noivado
de uísque com manga-rosa;

meu terreiro de São Jorge,
meu parlamento das ruas,
andaraís, méiers, gáveas,
sob a unção de oitenta luas;

Cristo em névoa corcovádica,
bondinho do Pão de Açúcar
e pescarias na barra
— louca rima — da Tíjúcar (!);

Rio de ontem: Rui Barbosa,
na Rua de São Clemente,
mantendo acesa a candeia,
ciceronianamente;

Dr. Campos Porto, no horto
botânico, em meio a palmas
imperiais, que ao crepúsculo
são aves minerais, calmas;

minha igrejinha do Outeiro,
que Rodrigo zela tanto,
e entre cujos azulejos
esvoaça o Espírito Santo;

meus livros velhos nos “sebos”,
meu chafariz do Lagarto,
e esse tostão de paisagem
da janela de meu quarto;

e a tarde, imensa, pairando:
lá longe o Dedo de Deus;
calor, e sorriso, e brisa
que alisa os cuidados meus;

cidade que tantos bens
deste a todos, e tão pouco,
em gratidão e carinho,
agora te dão em troco;

malvestida, mal comida,
descalça, “dependurada”,
e conservando no rosto,
como cristais de orvalhada,

não sei que beleza infante,
gosto de viver, e graça:
pouco importa que te levem
o que, no fundo, é fumaça.

Rio antigo, Rio eterno,
Rio-oceano, Rio amigo,
o Governo vai-se? Vá-se!
Tu ficarás, e eu contigo.
21/02/1960
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Que o Bairro Peixoto

O que o Bairro Peixoto
sabe de nós, e esqueceu!

Rua Anita Garibaldi
e Rua Siqueira Campos.
(Francisco Braga,
Décio Vilares,
nos espiando,
fingem que não?)

O calçadão na penumbra
andança que vai e volta
voltivai
a derivar para o túnel
em busca do hímen?
Volta:
banco de praça. Bambus.
Bambuzal de brisa em ais.

O bardo e a garota amavam-se
nas guerras da Dependência.
Seria brinco de amor
ou era somente brinco.

5 de Julho (fronteira
do reino escuro)
à face
de casas desprevenidas
jogávamos nos jardins
e nas caixas de correio
volumes indesculpáveis

de alheias dedicatórias
pedacinhos.

Se salta o cachorro? Credo.
Saltam quinhentos mastins.
Ganem a traça
de amor sem regulamento.
Prende mata esfola queima.
Viu? É dentro de mim, é dentro
do bardo que estão ganindo.

Bobeira de bobo besta.
Passa de nove mil horas,
urge voltar ao sacrário
de virgem.
Só mais um tiquinho. Não.
Sou eu, rei sábio, que ordeno.
Ri. Rimos de mim. Ficamos.

Dedos entrelaçados
e desejos geminados
no parque tão pueril.
Praça Edmundo, olá,
Bittencourt de berros brabos.
Se acaso nos visse aos beijos
babados, reincidentes,
protestava no jornal?

Menina mais sem juízo
rindo riso sem motivo
no jogo de diminutivos,
sabe o que estamos fazendo?
Amor.
Não é nada disso. Apenas
primícias cálidas. Calo-me.


Viajar nos seios. Embaixo.
Por trás.
Se vou mais longe, quem vai
me segurar?
Se fico por aqui mesmo,
quem vem
me resserenar?

Passo vinte anos depois
no mesmo Bairro Peixoto.
Ele que a tudo assistia,
nada lembra, no sol posto,
deste episódio canhoto.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Verão

Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Relatório

Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dominicália

Boa ideia essas “ruas de recreio”
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
860
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Epístola

E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
992
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Busto

Mário Melo, Mário Melo,
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto

espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?

Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.

Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.

Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,

e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.

Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.

Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.

Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui

e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.

Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.

Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?

Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?

Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.

Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas

morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.

A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale

como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.

Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;

pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,

não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?

Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,

e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ao Sol da Praia

Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.

O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.

O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,

filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.

O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,

aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).

Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.

Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.

E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.

Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.

(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta

e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.

Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.

É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.

Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 394
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Libertação

Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.

Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.

Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.

Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.

O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.

JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.

Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!

Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.

À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas

(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.

Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.

Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.

Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?

Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.

Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.

Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.

Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.

Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.

Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)

Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
838
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destino: Brasília

Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.

Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.

Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.

Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.

Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.

Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.

Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.

Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.

Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.

Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?

Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.

Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?

Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.

Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.

É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…

Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.

Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,

Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.

Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.

E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.

Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 583
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Balanço de Agosto

Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.

Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.

O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.

Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.

Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.

Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.

Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.

Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.

Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove

sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.

Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?

Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.

E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.

Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Abrilmente

Abril, rosa e gazel em nome de il:
dá-nos tempo melhor que o mês de março.
Torna o Rio mais doce, meigo abril,
chega de lama e de calor esparso.

Prorrogar esta coisa é tão atroz
como o que vem tramando o Antônio Horácio:
prorrogar os mandatos… Ai de nós,
e que virá depois de tal prefácio?

Vem o fim deles mesmos, prorrogados,
autoeleitos, em autos reluzentes,
enquanto que o eleitor — os tristes gados —
vai no calcante e sonha um Tiradentes.

O cai-não-cai das casas vê se evitas,
que já ficou difícil de morar
entre zonas seguras e interditas,
e garantia, mesmo, só no mar.

De mim não peço muito: alguns instantes
em que eu possa ficar lendo, enlevado,
as nuvens de Ipanema, tal como antes
a Madona de Cedro, de Callado.

Traze um pouco de fé ao bom Negrão,
alcaide nosso um tanto já blasé,
que se queixa de um ano todo “não”.
Dureza — ensina — escreve-se com dê.

(Dê duro nas mazelas, feche a cara,
pouse na chapeleira o seu Gelot
e faça reflorir na Guanabara
a esperança que há muito se apagou.)

Eleição em São Paulo? Está-se vendo
o que, presságio escuro, pinta no ar.
Todo acionista cobra dividendo:
a rima de Ademar é João Goulart.

Quero telefonar, mas a tarifa
(a meu Anjo da Guarda) não dá jeito.
Cismo, no Posto 6, uma outra rifa
da nossa igreja. Prêmio: um bom prefeito.

Mas, salve, morador de Barbacena!
Numa cooperativa telefônica,
ele faz o serviço, e a voz amena
inda me traz assunto para crônica.

Imaginar não custa: o bom exemplo,
como caxumba, pega; e aqui no Rio,
água, transporte, lixo — o que contemplo
é de desvanecer cá o titio.

Tudo limpo, ordenado, satisfeito…
Houve revolução, pelo Brasil?
Não (sorrio daqui ao meu prefeito):
este é dia primeiro. E o mês, abril.
31/03/1957
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Rostos Imóveis

A Otto Maria Carpeaux

Pai morto, namorada morta.
Tia morta, irmão nascido morto.
Primos mortos, amigo morto.
Avô morto, mãe morta
(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).
Conhecidos mortos, professora morta.

Inimigo morto.

Noiva morta, amigas mortas.
Chefe de trem morto, passageiro morto.
Irreconhecível corpo morto: será homem? bicho?
Cão morto, passarinho morto.
Roseira morta, laranjeiras mortas.
Ar morto, enseada morta.
Esperança, paciência, olhos, sono, mover de mão: mortos.

Homem morto. Luzes acesas.
Trabalha à noite, como se fora vivo.

Bom dia! Está mais forte (como se fora vivo).

Morto sem notícia, morto secreto.
Sabe imitar fome, e como finge amor.

E como insiste em andar, e como anda bem.
Podia cortar casas, entra pela porta.

Sua mão pálida diz adeus à Rússia.
O tempo nele entra e sai sem conta.

Os mortos passam rápidos, já não há pegá-los.
Mal um se despede, outro te cutuca.

Acordei e vi a cidade:
eram mortos mecânicos,
eram casas de mortos,
ondas desfalecidas,
peito exausto cheirando a lírios,
pés amarrados.
Dormi e fui à cidade:
toda se queimava,
estalar de bambus,
boca seca, logo crispada.
Sonhei e volto à cidade.
Mas já não era a cidade.
Estavam todos mortos, o corregedor-geral verificava etiquetas nos cadáveres.
O próprio corregedor morrera há anos, mas sua mão continuava implacável.
O mau cheiro zumbia em tudo.

Desta varanda sem parapeito contemplo os dois crepúsculos.
Contemplo minha vida fugindo a passo de lobo, quero detê-la, serei mordido?
Olho meus pés, como cresceram, moscas entre eles circulam.
Olho tudo e faço a conta, nada sobrou, estou pobre, pobre, pobre,
mas não posso entrar na roda,
não posso ficar sozinho,
a todos beijarei na testa,
flores úmidas esparzirei,
depois... não há depois nem antes.
Frio há por todos os lados,
e um frio central, mais branco ainda.

Mais frio ainda...
Uma brancura que paga bem nossas antigas cóleras e amargos...
Sentir-me tão claro entre vós, beijar-vos e nenhuma poeira em boca ou rosto.
Paz de finas árvores,
de montes fragílimos lá embaixo, de ribeiras tímidas, de gestos que já não podem mais irritar,
doce paz sem olhos, no escuro, no ar.
Doce paz em mim,
em minha família que veio de brumas sem corte de sol
e por estradas subterrâneas regressa às suas ilhas,
na minha rua, no meu tempo — afinal — conciliado,
na minha cidade natal, no meu quarto alugado,
na minha vida, na vida de todos, na suave e profunda morte de mim e de todos.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Estampas de Vila Rica

I
CARMO

Não calques o jardim
nem assustes o pássaro.
Um e outro pertencem
aos mortos do Carmo.
Não bebas a esta fonte
nem toques nos altares.
Todas estas são prenda?
dos mortos do Carmo.
Quer nos azulejos
ou no ouro da talha,
olha: o que está vivo
são mortos do Carmo.
II
SÃO FRANCISO D ASIS

Senhor, não mereço isto.
Não creio em vós para vos amar.
Trouxestes-me a São Francisco
e me fazeis vosso escravo.
Não entrarei, senhor, no templo,
seu frontispício me basta.
Vossas flores e querubins
são matéria de muito amar.
Dai-me, senhor, a só beleza
destes ornatos. E não a alma.
Pressente-se dor de homem,
paralela à das cinco chagas.
Mas entro e, senhor, me perco
na rósea nave triunfal.
Por que tanto baixar o céu?
por que esta nova cilada?
Senhor, os púlpitos mudos
entretanto me sorriem.
Mais que vossa igreja, esta
sabe a voz de me embalar.
Perdão, senhor, por não amar-vos.
III
MERCÊS DE CIMA
Pequena prostituta em frente a Mercês de Cima
Dádiva de corpo na tarde cristã.
Anjos caídos da portada
- nenhum Aleijadinho para recolhê-los.

IV
HOTEL TOFFOLO
E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.

Como se a cidade não nos servisse o seu pão
de nuvens.

Não, hoteleiro, nosso repasto é interior,
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.
V
MUSEU DA INCONFIDÊNCIA
São palavras no chão
e memória nos autos.
As casas inda restam,
os amores, mais não.

E restam poucas roupas,
sobrepeliz de pároco,
a vara de um juiz,
anjos, púrpuras, ecos.

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Macia flor de olvido,
sem aroma governas
o tempo ingovernável.
Muros pranteiam. Só.

Toda história é remorso.
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