Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Carlos Drummond de Andrade
A Separação Das Casas
Os deste lado brigaram
com os do lado de lá.
Não foi briga de xingar,
não foi rixa de bater
nem de sacar o revólver.
É briga de não falar
e de cerrar a janela
devagar e sem ranger,
se passa alguém do outro lado.
Briga de não conhecer
quem antes se conhecia,
se estimava, se tratava
com a maior civilidade,
quem antes se convidava
pra festa de batizado
e primeira comunhão,
casamento, aniversário
ou pra simples assustado,
a quem, se acaso surgisse
gente demais no jantar,
emprestado se pedia
meia dúzia de cadeiras
e meia dúzia de copos,
e que também recorria
com toda sem-cerimônia
à vizinhança amistosa
em noite de dor na perna
e de farmácia fechada
com vistas ao milagroso
vidrinho de Pronto Alívio
ou em outro qualquer aperto
que costuma suceder
nos lares mais bem providos.
Troca-troca se fazia
de doces, frutas, temperos,
receitas de forno e bilro,
mimos de mil qualidades
no vai e volta de cestas,
terrinas e tabuleiros.
Crianças das duas casas
unidas num só brinquedo
de chicotinho queimado,
carniça, gata-parida
e manja, roda, cantigas
lusamente brasileiras,
ou melhor, universais.
Té se faz de mentirinha
casamento de meninos
que talvez se torne um dia
matrimônio de verdade
em gorda concentração
de fortunas e de afetos.
(O mundo, calmo, autoriza
esperar dez, quinze anos.)
Eis de súbito alterado
o panorama gentil
de tão grata convivência.
Não se tira mais chapéu
nem mais se exibem risonhos
dentes de cordialidade,
já se finge não haver,
dos dois lados desta rua,
ninguém morando por perto.
Há um vazio de cem léguas
na estreiteza das calçadas.
Pequenos brinquem no quarto,
o velocípede novo
rode da sala à cozinha,
muito embora atropelando
grandes de todo respeito,
e quem fizer um aceno
para vulto de outro lado
entra feio na chinela
de ramagem verde hostil.
No grupo escolar, cuidado:
ninguém vá se misturar.
Que foi que houve, que não
houve, se nada sabemos?
Quem por acaso decifra
o que pode haver no ar
ou na cabeça dos grandes
reticentes, sigilosos?
Do lado de lá não sabem;
do lado de cá, também.
Não se filtra explicação.
Cala a boca! é a resposta
a quem demais especule.
E todo o mundo virou
cofre estranho de mistério
exemplarmente fechado
a mãos, olhares, perguntas…
Mas a velha cozinheira,
peça antiga da família,
que tudo sabe e resmunga
seu misto de língua longe
e de estalar de panela,
cospe de lado e define:
— Candonga, gente. Candonga.
com os do lado de lá.
Não foi briga de xingar,
não foi rixa de bater
nem de sacar o revólver.
É briga de não falar
e de cerrar a janela
devagar e sem ranger,
se passa alguém do outro lado.
Briga de não conhecer
quem antes se conhecia,
se estimava, se tratava
com a maior civilidade,
quem antes se convidava
pra festa de batizado
e primeira comunhão,
casamento, aniversário
ou pra simples assustado,
a quem, se acaso surgisse
gente demais no jantar,
emprestado se pedia
meia dúzia de cadeiras
e meia dúzia de copos,
e que também recorria
com toda sem-cerimônia
à vizinhança amistosa
em noite de dor na perna
e de farmácia fechada
com vistas ao milagroso
vidrinho de Pronto Alívio
ou em outro qualquer aperto
que costuma suceder
nos lares mais bem providos.
Troca-troca se fazia
de doces, frutas, temperos,
receitas de forno e bilro,
mimos de mil qualidades
no vai e volta de cestas,
terrinas e tabuleiros.
Crianças das duas casas
unidas num só brinquedo
de chicotinho queimado,
carniça, gata-parida
e manja, roda, cantigas
lusamente brasileiras,
ou melhor, universais.
Té se faz de mentirinha
casamento de meninos
que talvez se torne um dia
matrimônio de verdade
em gorda concentração
de fortunas e de afetos.
(O mundo, calmo, autoriza
esperar dez, quinze anos.)
Eis de súbito alterado
o panorama gentil
de tão grata convivência.
Não se tira mais chapéu
nem mais se exibem risonhos
dentes de cordialidade,
já se finge não haver,
dos dois lados desta rua,
ninguém morando por perto.
Há um vazio de cem léguas
na estreiteza das calçadas.
Pequenos brinquem no quarto,
o velocípede novo
rode da sala à cozinha,
muito embora atropelando
grandes de todo respeito,
e quem fizer um aceno
para vulto de outro lado
entra feio na chinela
de ramagem verde hostil.
No grupo escolar, cuidado:
ninguém vá se misturar.
Que foi que houve, que não
houve, se nada sabemos?
Quem por acaso decifra
o que pode haver no ar
ou na cabeça dos grandes
reticentes, sigilosos?
Do lado de lá não sabem;
do lado de cá, também.
Não se filtra explicação.
Cala a boca! é a resposta
a quem demais especule.
E todo o mundo virou
cofre estranho de mistério
exemplarmente fechado
a mãos, olhares, perguntas…
Mas a velha cozinheira,
peça antiga da família,
que tudo sabe e resmunga
seu misto de língua longe
e de estalar de panela,
cospe de lado e define:
— Candonga, gente. Candonga.
1 008
Carlos Drummond de Andrade
Ruas
Por que ruas tão largas?
Por que ruas tão retas?
Meu passo torto
foi regulado pelos becos tortos
de onde venho.
Não sei andar na vastidão simétrica
implacável.
Cidade grande é isso?
Cidades são passagens sinuosas
de esconde-esconde
em que as casas aparecem-desaparecem
quando bem entendem
e todo mundo acha normal.
Aqui tudo é exposto
evidente
cintilante. Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado.
Por que ruas tão retas?
Meu passo torto
foi regulado pelos becos tortos
de onde venho.
Não sei andar na vastidão simétrica
implacável.
Cidade grande é isso?
Cidades são passagens sinuosas
de esconde-esconde
em que as casas aparecem-desaparecem
quando bem entendem
e todo mundo acha normal.
Aqui tudo é exposto
evidente
cintilante. Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado.
2 992
Carlos Drummond de Andrade
Noticiário Vivo
A servente da escola mora no Campestre,
longe, sai de casa sem café.
Desce a ladeira, vai parando,
assuntando o que se passa na Rua de Santana
e em toda parte.
Última estação: aqui em casa.
Toma café reforçado, conta
o que há ou não há ou pode haver
sob as telhas escuras da cidade.
Conta naturalmente, sem malícia,
jornal falado das nove horas.
E ao serviço, antes que toque
a sineta irrevogável de Mestre Emílio.
Ficamos sabendo de tudo de todos.
Ficarão sabendo tudo de nós,
amanhã, de manhã,
na Rua de Santana e em qualquer parte?
longe, sai de casa sem café.
Desce a ladeira, vai parando,
assuntando o que se passa na Rua de Santana
e em toda parte.
Última estação: aqui em casa.
Toma café reforçado, conta
o que há ou não há ou pode haver
sob as telhas escuras da cidade.
Conta naturalmente, sem malícia,
jornal falado das nove horas.
E ao serviço, antes que toque
a sineta irrevogável de Mestre Emílio.
Ficamos sabendo de tudo de todos.
Ficarão sabendo tudo de nós,
amanhã, de manhã,
na Rua de Santana e em qualquer parte?
1 017
Carlos Drummond de Andrade
O Original E a Cópia
No dia infindável,
no centenário banco de farmácia,
discutem passarinho
como se fosse polícia municipal.
Carece discutir alguma coisa,
senão o tempo vira mármore
gelado
e todas as pessoas viram mármore
roído, desbotado; de jazigo.
Discute-se a vária cor do sabiá,
o voo particular do sabiá,
o canto divino do sabiá,
superior à flauta de Lilingue.
Protesta Lilingue,
retira-se, flautista indignado.
Silêncio de sem-jeito.
Seu Paulinho Apóstolo rompe o mal-estar:
— De todos os sabiás da redondeza
(e abrange, mãos em concha, o orbe terráqueo),
desde o coleira ao laranjeira,
o que eu destaco pela melodia,
que é dom de Deus, sei lá, de anjos cantores,
é o sabiacica.
Todos se erguem, estupefatos:
— Mas não é sabiá! É papagaio!
Só imita sabiá, o porcaria!
Seu Paulinho Apóstolo sorri
de tamanha besteira:
— Bobagem de vocês, o sabiá
é que vive imitando sabiacica.
no centenário banco de farmácia,
discutem passarinho
como se fosse polícia municipal.
Carece discutir alguma coisa,
senão o tempo vira mármore
gelado
e todas as pessoas viram mármore
roído, desbotado; de jazigo.
Discute-se a vária cor do sabiá,
o voo particular do sabiá,
o canto divino do sabiá,
superior à flauta de Lilingue.
Protesta Lilingue,
retira-se, flautista indignado.
Silêncio de sem-jeito.
Seu Paulinho Apóstolo rompe o mal-estar:
— De todos os sabiás da redondeza
(e abrange, mãos em concha, o orbe terráqueo),
desde o coleira ao laranjeira,
o que eu destaco pela melodia,
que é dom de Deus, sei lá, de anjos cantores,
é o sabiacica.
Todos se erguem, estupefatos:
— Mas não é sabiá! É papagaio!
Só imita sabiá, o porcaria!
Seu Paulinho Apóstolo sorri
de tamanha besteira:
— Bobagem de vocês, o sabiá
é que vive imitando sabiacica.
1 139
Carlos Drummond de Andrade
Os Velhos
Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
1 767
Carlos Drummond de Andrade
O Melhor Dos Tempos
Bailes bailes bailes
em nossa belle époque.
Em casa de João Torres
há saraus constantes.
Na de Chico Cândido,
na de Emílio Novais,
na de Zé Carvalho,
a valsa espirala
suas curvas lentas.
Sempre a serenata
prateia o silêncio
dos casarões altivos.
A flauta flautíssima
de Mário Terceiro
faz terremotos líricos.
Vavá, Clínton, Astolfo,
mais Totoque e Lilingue
rogam suavemente
que Stela abra a janela
e abrigue corações
transidos de frio,
desfeitos em música.
Quem ousa, noturno,
furtar jabuticabas
em quintais caninos,
é para deixá-las,
votivas,
no peitoril das deusas
de boa família,
anonimamente.
Já de madrugada
os meigos ladrões
e magos cantores
lá vão degustar
os pastéis de queijo
de João Bicudo,
o licor discutível
de Zé Pereira.
Manhã rósea, passa
o batalhão infantil
(Minervino comanda)
e bate continência
às gentis moçoilas.
Tudo é mimo, graça.
Belle époque é fato
da história mineira.
em nossa belle époque.
Em casa de João Torres
há saraus constantes.
Na de Chico Cândido,
na de Emílio Novais,
na de Zé Carvalho,
a valsa espirala
suas curvas lentas.
Sempre a serenata
prateia o silêncio
dos casarões altivos.
A flauta flautíssima
de Mário Terceiro
faz terremotos líricos.
Vavá, Clínton, Astolfo,
mais Totoque e Lilingue
rogam suavemente
que Stela abra a janela
e abrigue corações
transidos de frio,
desfeitos em música.
Quem ousa, noturno,
furtar jabuticabas
em quintais caninos,
é para deixá-las,
votivas,
no peitoril das deusas
de boa família,
anonimamente.
Já de madrugada
os meigos ladrões
e magos cantores
lá vão degustar
os pastéis de queijo
de João Bicudo,
o licor discutível
de Zé Pereira.
Manhã rósea, passa
o batalhão infantil
(Minervino comanda)
e bate continência
às gentis moçoilas.
Tudo é mimo, graça.
Belle époque é fato
da história mineira.
578
Carlos Drummond de Andrade
Primeira Eleição
Marechal Hermes
e Rui Barbosa
lá vêm guerreando
pela montanha.
Olha a trovoada!
A pena, a espada,
qual perde, ganha?
E na sacada
o brado rouco,
o retintim,
a espora, a hora
do boletim.
Toda a cidade
se apaixonando.
Mas das mulheres
o voto, quando?
Menino vota
no faz de conta.
Ruísta, hermista,
sangue na crista!
Somos de Rui
os vexilários.
Já tudo rui
entre os contrários.
O formidando
som da vitória:
ao município
tamanha glória.
Doces projetos,
altos propósitos,
sonhos urbanos,
ideais humanos.
Rui vencedor.
Viva o Brasil
… de Hermes na posse.
Tosse? Bromil.
e Rui Barbosa
lá vêm guerreando
pela montanha.
Olha a trovoada!
A pena, a espada,
qual perde, ganha?
E na sacada
o brado rouco,
o retintim,
a espora, a hora
do boletim.
Toda a cidade
se apaixonando.
Mas das mulheres
o voto, quando?
Menino vota
no faz de conta.
Ruísta, hermista,
sangue na crista!
Somos de Rui
os vexilários.
Já tudo rui
entre os contrários.
O formidando
som da vitória:
ao município
tamanha glória.
Doces projetos,
altos propósitos,
sonhos urbanos,
ideais humanos.
Rui vencedor.
Viva o Brasil
… de Hermes na posse.
Tosse? Bromil.
767
Carlos Drummond de Andrade
O Doutor Ausente
Nosso delegado
não é de prender.
Prefere, sossegado,
ler.
Clássicos latinos,
velhos portugueses.
A vida ficou sendo
estante.
Entre Virgílio e Fernão Lopes
a garrafa clara
cheia vazia cheia
contém o mundo retificado.
Nosso delegado
nasceu para outros fins
ausentes do viável.
Não escuta o cabo
dizer que na Rua de Baixo
acontece o diabo.
A estante, a garrafa semioculta,
a cavalgada dos possíveis impossíveis.
Matou! Roubou! Defloramento…
Deixa pra lá.
Deixa bem pra lá de Ovídio,
enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira
lhe afaga os bigodes desenganados.
O delegado não prende.
O delegado está preso
à estante repetida, à sempre garrafa,
ao colo, à coleira
de Elzirardente consolatória.
não é de prender.
Prefere, sossegado,
ler.
Clássicos latinos,
velhos portugueses.
A vida ficou sendo
estante.
Entre Virgílio e Fernão Lopes
a garrafa clara
cheia vazia cheia
contém o mundo retificado.
Nosso delegado
nasceu para outros fins
ausentes do viável.
Não escuta o cabo
dizer que na Rua de Baixo
acontece o diabo.
A estante, a garrafa semioculta,
a cavalgada dos possíveis impossíveis.
Matou! Roubou! Defloramento…
Deixa pra lá.
Deixa bem pra lá de Ovídio,
enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira
lhe afaga os bigodes desenganados.
O delegado não prende.
O delegado está preso
à estante repetida, à sempre garrafa,
ao colo, à coleira
de Elzirardente consolatória.
1 092
Carlos Drummond de Andrade
Aula de Francês
Cette Hélène qui trouble et l’Europe et l’Asie,
mas o professor é distraído,
não vê que a classe inteira se aliena
das severas belezas de Racine.
Cochicham, trocam bilhetes e risadas.
Este desenha a eterna moça nua
que em algum país existe, e nunca viu.
Outro some debaixo da carteira.
Os bárbaros. Será que vale a pena
ofertar o sublime a estes selvagens?
O Professor Arduíno Bolivar
fecha a cara, abre o livro.
Ele não os despreza. Ama-os até.
Podem fazer o que quiserem.
Ele navega só, em mar antigo,
a doce navegação de estar sozinho.
Tine a campainha.
Acabou a viagem, no fragor
de carteiras e pés.
O professor regressa ao rígido
sistema métrico decimal das ruas de Belo Horizonte.
mas o professor é distraído,
não vê que a classe inteira se aliena
das severas belezas de Racine.
Cochicham, trocam bilhetes e risadas.
Este desenha a eterna moça nua
que em algum país existe, e nunca viu.
Outro some debaixo da carteira.
Os bárbaros. Será que vale a pena
ofertar o sublime a estes selvagens?
O Professor Arduíno Bolivar
fecha a cara, abre o livro.
Ele não os despreza. Ama-os até.
Podem fazer o que quiserem.
Ele navega só, em mar antigo,
a doce navegação de estar sozinho.
Tine a campainha.
Acabou a viagem, no fragor
de carteiras e pés.
O professor regressa ao rígido
sistema métrico decimal das ruas de Belo Horizonte.
1 048
Carlos Drummond de Andrade
O Visitante Inábil
Café coado na hora,
adoçado a rapadura bem escura,
deve ser servido na tigela
de flores de três cores,
flores pegando fogo, de tão quente
deve ser o café pra ser café
oferecível.
Queimo os dedos, viram cacos
as cores das três flores,
molho a calça, queimo a perna,
me envergonho:
Este café tem plenas condições
de ser bebido com prazer e continência,
e não correspondi à etiqueta
de beber café pelando em casa alheia.
adoçado a rapadura bem escura,
deve ser servido na tigela
de flores de três cores,
flores pegando fogo, de tão quente
deve ser o café pra ser café
oferecível.
Queimo os dedos, viram cacos
as cores das três flores,
molho a calça, queimo a perna,
me envergonho:
Este café tem plenas condições
de ser bebido com prazer e continência,
e não correspondi à etiqueta
de beber café pelando em casa alheia.
1 200
Carlos Drummond de Andrade
A Moça Ferrada
Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para a reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para a reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
1 290
Carlos Drummond de Andrade
A Norma E o Domingo
Comportei-me mal,
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
1 551
Carlos Drummond de Andrade
O Doce
A boca aberta para o doce
já prelibando a gostosura,
e o doce cai no chão de areia, droga!
Olha em redor. Os outros viram.
Logo aquele doce cobiçado
a semana inteira, e pago do seu bolso!
Irá deixá-lo ali, só porque os outros
estão presentes, vigilantes?
A mão se inclina, pega o doce, limpa-o
de toda areia e mácula do chão.
“Se fosse em casa eu não pegava não,
mas aqui no colégio, que mal faz?”
já prelibando a gostosura,
e o doce cai no chão de areia, droga!
Olha em redor. Os outros viram.
Logo aquele doce cobiçado
a semana inteira, e pago do seu bolso!
Irá deixá-lo ali, só porque os outros
estão presentes, vigilantes?
A mão se inclina, pega o doce, limpa-o
de toda areia e mácula do chão.
“Se fosse em casa eu não pegava não,
mas aqui no colégio, que mal faz?”
2 511
Carlos Drummond de Andrade
Aniversário de João Pupini
Já vou dormir, não vou dormir.
No silente Caminho Novo,
sete tiros da carabina.
Eu nada escuto do meu quarto.
Ninguém escuta, de tão longe.
Mas adivinho sete tiros
estampados na noite fria.
É João Pupini festejando
seu natalício italiano,
atirando contra as estrelas
o chumbo gaio de estar vivo.
É João Pupini ameaçando
o sono azul do município,
o equilíbrio e a paz do mundo.
Já se eriça, irado, o bigode
marcial de Guilherme 2o.
O czar, o king George, Francisco
José e mais altas potências
protestam contra o despropósito
de João Pupini fazer anos
declarando guerra mundial.
O delegado de polícia,
sentinela internacional,
convoca seu destacamento:
“Eia, sus, ao Caminho Novo,
a prender o guerreiro doido,
que além de ser mau elemento
vota sempre na oposição”.
Sua casa logo arrombada
a coronha, facão e ombro,
João Pupini dá o sumiço
pelos fundos de treva e brejo,
embolado mais a família,
pois lutar contra a Força Pública,
nem o ousara Napoleão.
Mas é preso nos vãos atalhos
em que zaranza atarantado,
e recolhido à enxovia
o formidando atirador.
Nem Deus te salva, João Pupini!
(fico cismando, no sem sono
de carabina, junho e noite.)
Solitário, incomunicável,
Pupini diz: “Vou suplicar
à autoridade justiciosa
o direito de fazer anos
e jovialmente celebrá-lo”.
Mas retrucam-lhe: “Assine e sele
petição na forma da lei”.
Onde papel, no úmido escuro
do xadrez todo enxadrezado
de feros ferros e ferrolhos?
Onde estampilha, Deus do céu,
se só uma barata sela,
no chão da cela, madrugada,
a prova de estar acordada?
Sem requerer, como provar
que, entre mil mortos e feridos
pela arma-fúria de Pupini,
estão todos salvos, tranquilos?
Como explicar ao Presidente,
a Hermes, Pinheiro, Jangote,
que ninguém fez mal a ninguém?
Tiro de noite é novidade
na cidade sem distração
e noite por demais comprida?
O rádio está por inventar,
a televisão, nem se fala.
Quem tem fogo vai despejá-lo
na horta gelada, por que não?
Ainda há dias, rente ao quartel,
no rancho insone do Thiers,
tiros sem alvo pipocaram,
ninguém foi preso, até foi bom
ouvir alguém vencer o tédio
detonando a salva nervosa
que infundia vida ao mar morto.
Mas João Pupini, suspeitado
(suspeita, não: certeza plena)
de sorrir para os perdedores
da eleição presidencial;
João ruísta, João subversivo,
João celebrar seu nascimento
a poder de bala, o bandido?
Lá dorme João no chão sem lã.
Estou sentindo: a poucos passos
da cadeia ali bem em frente,
e dormirá tempos e luas,
se ruístas alvoroçados
não soltarem pelas quebradas
o latino grito: Habeas corpus.
(Que só mais tarde entenderei.
Por enquanto, perto de mim,
algo se passa, impercebido,
como sempre se passam coisas
no deserto Caminho Novo
ou
neste menino peito ansioso.)
No silente Caminho Novo,
sete tiros da carabina.
Eu nada escuto do meu quarto.
Ninguém escuta, de tão longe.
Mas adivinho sete tiros
estampados na noite fria.
É João Pupini festejando
seu natalício italiano,
atirando contra as estrelas
o chumbo gaio de estar vivo.
É João Pupini ameaçando
o sono azul do município,
o equilíbrio e a paz do mundo.
Já se eriça, irado, o bigode
marcial de Guilherme 2o.
O czar, o king George, Francisco
José e mais altas potências
protestam contra o despropósito
de João Pupini fazer anos
declarando guerra mundial.
O delegado de polícia,
sentinela internacional,
convoca seu destacamento:
“Eia, sus, ao Caminho Novo,
a prender o guerreiro doido,
que além de ser mau elemento
vota sempre na oposição”.
Sua casa logo arrombada
a coronha, facão e ombro,
João Pupini dá o sumiço
pelos fundos de treva e brejo,
embolado mais a família,
pois lutar contra a Força Pública,
nem o ousara Napoleão.
Mas é preso nos vãos atalhos
em que zaranza atarantado,
e recolhido à enxovia
o formidando atirador.
Nem Deus te salva, João Pupini!
(fico cismando, no sem sono
de carabina, junho e noite.)
Solitário, incomunicável,
Pupini diz: “Vou suplicar
à autoridade justiciosa
o direito de fazer anos
e jovialmente celebrá-lo”.
Mas retrucam-lhe: “Assine e sele
petição na forma da lei”.
Onde papel, no úmido escuro
do xadrez todo enxadrezado
de feros ferros e ferrolhos?
Onde estampilha, Deus do céu,
se só uma barata sela,
no chão da cela, madrugada,
a prova de estar acordada?
Sem requerer, como provar
que, entre mil mortos e feridos
pela arma-fúria de Pupini,
estão todos salvos, tranquilos?
Como explicar ao Presidente,
a Hermes, Pinheiro, Jangote,
que ninguém fez mal a ninguém?
Tiro de noite é novidade
na cidade sem distração
e noite por demais comprida?
O rádio está por inventar,
a televisão, nem se fala.
Quem tem fogo vai despejá-lo
na horta gelada, por que não?
Ainda há dias, rente ao quartel,
no rancho insone do Thiers,
tiros sem alvo pipocaram,
ninguém foi preso, até foi bom
ouvir alguém vencer o tédio
detonando a salva nervosa
que infundia vida ao mar morto.
Mas João Pupini, suspeitado
(suspeita, não: certeza plena)
de sorrir para os perdedores
da eleição presidencial;
João ruísta, João subversivo,
João celebrar seu nascimento
a poder de bala, o bandido?
Lá dorme João no chão sem lã.
Estou sentindo: a poucos passos
da cadeia ali bem em frente,
e dormirá tempos e luas,
se ruístas alvoroçados
não soltarem pelas quebradas
o latino grito: Habeas corpus.
(Que só mais tarde entenderei.
Por enquanto, perto de mim,
algo se passa, impercebido,
como sempre se passam coisas
no deserto Caminho Novo
ou
neste menino peito ansioso.)
639
Carlos Drummond de Andrade
Doido
O doido passeia
pela cidade sua loucura mansa.
É reconhecido seu direito
à loucura. Sua profissão.
Entra e come onde quer. Há níqueis
reservados para ele em toda casa.
Torna-se o doido municipal,
respeitável como o juiz, o coletor,
os negociantes, o vigário.
O doido é sagrado. Mas, se endoida
de jogar pedra, vai preso no cubículo
mais tétrico e lodoso da cadeia.
pela cidade sua loucura mansa.
É reconhecido seu direito
à loucura. Sua profissão.
Entra e come onde quer. Há níqueis
reservados para ele em toda casa.
Torna-se o doido municipal,
respeitável como o juiz, o coletor,
os negociantes, o vigário.
O doido é sagrado. Mas, se endoida
de jogar pedra, vai preso no cubículo
mais tétrico e lodoso da cadeia.
1 738
Carlos Drummond de Andrade
Os Charadistas
Passam a vida lenta decifrando
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
593
Carlos Drummond de Andrade
Poder do Perfume
Popular, a água florida.
O seu nome-roseira
já é flor e trescala
só de o ouvirmos na sala.
A excelsa brilhantina
em potes de Paris
embalsama noivados
no sofá dos sobrados.
Jiqui, perfume nobre,
há de estar bem à vista
entre jarro e bacia
da rural burguesia.
As botas onde o estrume
deixa visível marca,
em chegando à cidade,
cedem à amenidade
que os moços fazendeiros
sabem criar em volta
de um sólido namoro
de perfumes em coro.
Qual mais recendente
a sândalo e jasmim,
ele e ela, abraçados
em cheiros conjugados,
sem se tocarem (nada
autoriza a licença
do beijo corporal)
praticam sem detença
— ai! — o sexo aromal.
O seu nome-roseira
já é flor e trescala
só de o ouvirmos na sala.
A excelsa brilhantina
em potes de Paris
embalsama noivados
no sofá dos sobrados.
Jiqui, perfume nobre,
há de estar bem à vista
entre jarro e bacia
da rural burguesia.
As botas onde o estrume
deixa visível marca,
em chegando à cidade,
cedem à amenidade
que os moços fazendeiros
sabem criar em volta
de um sólido namoro
de perfumes em coro.
Qual mais recendente
a sândalo e jasmim,
ele e ela, abraçados
em cheiros conjugados,
sem se tocarem (nada
autoriza a licença
do beijo corporal)
praticam sem detença
— ai! — o sexo aromal.
681
Carlos Drummond de Andrade
Velhaco
Zico Tanajura está um pavão de orgulho
no dólmã de brim cáqui.
Vendeu sua terra sem plantação,
sem criação, aguada, benfeitoria,
terra só de ferro, aridez
que o verde não consola.
E não vendeu a qualquer um:
vendeu a Mr. Jones,
distinto representante de Mr. Hays Hammond,
embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque.
Zico Tanajura passou a manta em Suas Excelências.
De alegria,
vai até fazer a barba no domingo.
no dólmã de brim cáqui.
Vendeu sua terra sem plantação,
sem criação, aguada, benfeitoria,
terra só de ferro, aridez
que o verde não consola.
E não vendeu a qualquer um:
vendeu a Mr. Jones,
distinto representante de Mr. Hays Hammond,
embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque.
Zico Tanajura passou a manta em Suas Excelências.
De alegria,
vai até fazer a barba no domingo.
1 199
Carlos Drummond de Andrade
Império Mineiro
Vêm da “corte”, vêm “de baixo”
as casimiras mais finas
as sedas mais celestinas
as requintadas botinas
de primeira comunhão
as porcelanas-da-China
os relógios musicais
os espelhos venezianos
os lustres, os castiçais
as banheiras esmaltadas
as delícias enlatadas
os biscoitos coloridos
as esdrúxulas bebidas
de rótulos ilegíveis
chocolates divinais
quadriláteros de doce
cristalizado irisado
vêm revistas e jornais
os rondós parnasianos
as orações magistrais
do senador Rui Barbosa
vêm mulheres fulminantes
em reluzentes postais
com vestidos transparentes
muito acima do soalho
e do sonho dos meninos
vêm cometas e vêm mágicas
de berliques e berloques
vêm senhores de bigode
lourenço, fala de estranja,
fazendo chover na serra
o chuvisco de dinheiro
em troca apenas de terra
já farta de dar feijão
vem “de baixo”, vem do Rio
toda a civilização
destinada especialmente
a nossa vila e parentes
e nossa mor importância.
Bem que o Rio é nosso escravo.
Somos senhores do mundo
por via de importação.
as casimiras mais finas
as sedas mais celestinas
as requintadas botinas
de primeira comunhão
as porcelanas-da-China
os relógios musicais
os espelhos venezianos
os lustres, os castiçais
as banheiras esmaltadas
as delícias enlatadas
os biscoitos coloridos
as esdrúxulas bebidas
de rótulos ilegíveis
chocolates divinais
quadriláteros de doce
cristalizado irisado
vêm revistas e jornais
os rondós parnasianos
as orações magistrais
do senador Rui Barbosa
vêm mulheres fulminantes
em reluzentes postais
com vestidos transparentes
muito acima do soalho
e do sonho dos meninos
vêm cometas e vêm mágicas
de berliques e berloques
vêm senhores de bigode
lourenço, fala de estranja,
fazendo chover na serra
o chuvisco de dinheiro
em troca apenas de terra
já farta de dar feijão
vem “de baixo”, vem do Rio
toda a civilização
destinada especialmente
a nossa vila e parentes
e nossa mor importância.
Bem que o Rio é nosso escravo.
Somos senhores do mundo
por via de importação.
1 373
Carlos Drummond de Andrade
Proibições
Não galope sem razão,
nem faça galopar animais soltos
no calmo perímetro urbano.
Não faça, oh não faça
gritaria a desoras
salvo por motivo justificado.
Não invente batuque ou cateretê
que infernize o sono do vizinho.
Não cante ou reze alto, noite alta,
ao velar seu defunto.
Não escale muro de cemitério.
Não suba nas árvores das aleias e nos monumentos
funerários.
Não lave nem estenda roupa branca
entre os túmulos.
nem faça galopar animais soltos
no calmo perímetro urbano.
Não faça, oh não faça
gritaria a desoras
salvo por motivo justificado.
Não invente batuque ou cateretê
que infernize o sono do vizinho.
Não cante ou reze alto, noite alta,
ao velar seu defunto.
Não escale muro de cemitério.
Não suba nas árvores das aleias e nos monumentos
funerários.
Não lave nem estenda roupa branca
entre os túmulos.
1 133
Carlos Drummond de Andrade
Ei, Bexiga!
Os chocolates em túnica de prata,
justa, recendem. A hortelã
das balas pincela um frio verdoendo
na boca.
Tudo vem de longe, de São Paulo,
para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.
E um homem desses vai morrer de varíola?
A Idade-média enrola a cidade
em cobertor de pânico.
Sete dias se fecham as portas
se acendem velas
sem leite sem pão sem saúde pública
joelhos em terra exortam a sagrada ira
a poupar os que não são italianos e fundaram
este chão de Deus sem bexigas.
Pereça, coitado, Seu Foscarini,
mas as velhas famílias se salvem.
Levam Seu Foscarini para o lazareto,
que não é lazareto, é um casebre desbeiçado
no campo onde a cobra pasta
vírgulas de tédio.
Nunca mais chocolates, licorinos
caramelos, magia de São Paulo?
Rezo por Seu Foscarini,
que milagrosamente se salva
e fecha a confeitaria.
justa, recendem. A hortelã
das balas pincela um frio verdoendo
na boca.
Tudo vem de longe, de São Paulo,
para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.
E um homem desses vai morrer de varíola?
A Idade-média enrola a cidade
em cobertor de pânico.
Sete dias se fecham as portas
se acendem velas
sem leite sem pão sem saúde pública
joelhos em terra exortam a sagrada ira
a poupar os que não são italianos e fundaram
este chão de Deus sem bexigas.
Pereça, coitado, Seu Foscarini,
mas as velhas famílias se salvem.
Levam Seu Foscarini para o lazareto,
que não é lazareto, é um casebre desbeiçado
no campo onde a cobra pasta
vírgulas de tédio.
Nunca mais chocolates, licorinos
caramelos, magia de São Paulo?
Rezo por Seu Foscarini,
que milagrosamente se salva
e fecha a confeitaria.
1 105
Carlos Drummond de Andrade
Imprensa
Nossos jornais sorriem para a vida.
Trescalam doçura nos cabeçalhos:
A Primavera. O Jasmim.
Mas surgem humoristas no jardim:
O Tira-Prosa.
E pasquineiros violentíssimos:
O Raio.
O Raio irrompe antes da missa de domingo
por baixo de todas as portas.
E sidera. A manhã
ia ser de porcelana-rosa, ficou
paisagem de cacos
e dores revoltadas.
Onde estão Artur e Teófilo,
onde está Francisco Guilherme?
Estes fundaram a grande imprensa
na rua pequena.
The Times de Londres?
Le Temps de Paris?
O Tempo da vila pobre,
onde só havia tempo, não havia notícias,
morreu de falta de assunto.
Trescalam doçura nos cabeçalhos:
A Primavera. O Jasmim.
Mas surgem humoristas no jardim:
O Tira-Prosa.
E pasquineiros violentíssimos:
O Raio.
O Raio irrompe antes da missa de domingo
por baixo de todas as portas.
E sidera. A manhã
ia ser de porcelana-rosa, ficou
paisagem de cacos
e dores revoltadas.
Onde estão Artur e Teófilo,
onde está Francisco Guilherme?
Estes fundaram a grande imprensa
na rua pequena.
The Times de Londres?
Le Temps de Paris?
O Tempo da vila pobre,
onde só havia tempo, não havia notícias,
morreu de falta de assunto.
1 166
Carlos Drummond de Andrade
Sina
Nesta mínima cidade
os moços são disputados
para ofício de marido.
Não há rapaz que não tenha
uma, duas, vinte noivas
bordando no pensamento
um enxoval de desejos,
outro enxoval de esperanças.
Depois de muito bordar
e de esperar na janela
maridos de vai-com-o-vento,
as moças, murchando o luar,
já traçam, de mãos paradas,
sobre roxas almofadas,
hirtas grades de convento.
os moços são disputados
para ofício de marido.
Não há rapaz que não tenha
uma, duas, vinte noivas
bordando no pensamento
um enxoval de desejos,
outro enxoval de esperanças.
Depois de muito bordar
e de esperar na janela
maridos de vai-com-o-vento,
as moças, murchando o luar,
já traçam, de mãos paradas,
sobre roxas almofadas,
hirtas grades de convento.
1 091
Carlos Drummond de Andrade
Sino
O sino Elias não soa
por qualquer um,
mas, quando soa, reboa
como nenhum.
Com seu nome de profeta,
sua voz de eternidade,
o sino Elias transmite
as grandes falas de Deus
ao povo desta cidade,
as faltas que os outros sinos
nem sonham interpretar.
Coitados, de tão mofinos,
quando soa a voz de Elias,
têm ordem de se calar.
Têm ordem de se calar,
e toda a cidade, muda,
é som profundo no ar,
um som que liga o passado
ao futuro, ao mais que o tempo,
e no entardecer escuro
abre um clarão.
Já não somos prisioneiros
de um emprego, de uma região.
Precipitadas no espaço,
ao sopro do sino Elias,
nossa vida, nossa morte,
nossa raiz mais trançada,
nossa poeira mais fina,
esperança descarnada,
se dispersam no universo.
Chega, Elias, é demais.
por qualquer um,
mas, quando soa, reboa
como nenhum.
Com seu nome de profeta,
sua voz de eternidade,
o sino Elias transmite
as grandes falas de Deus
ao povo desta cidade,
as faltas que os outros sinos
nem sonham interpretar.
Coitados, de tão mofinos,
quando soa a voz de Elias,
têm ordem de se calar.
Têm ordem de se calar,
e toda a cidade, muda,
é som profundo no ar,
um som que liga o passado
ao futuro, ao mais que o tempo,
e no entardecer escuro
abre um clarão.
Já não somos prisioneiros
de um emprego, de uma região.
Precipitadas no espaço,
ao sopro do sino Elias,
nossa vida, nossa morte,
nossa raiz mais trançada,
nossa poeira mais fina,
esperança descarnada,
se dispersam no universo.
Chega, Elias, é demais.
1 235