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Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Saudações Cosmipolitas

para o Struga Festival Golden Wreath Laureates & International Bards, 1986

Levante-se contra governos, contra Deus.
Mantenha-se irresponsável.
Diga somente o que sabemos e imaginamos.
Absolutos são coerções.
Mudança é absoluto.
Mente ordinária inclui percepções eternas.
Observe o que é vívido.
Noticie o que você noticia.
Apanhe-se em pleno pensar.
Vivência é auto-seleção.
Se não mostramos ninguém, somos livres para não escrever nada.
Lembrar o futuro.
Consulte somente a si mesmo.
Não beba a si mesmo até a morte.
Duas moléculas se chocando requerem um observador para virarem dados científicos.
O instrumento de medida determina a aparência do mundo dos fenômenos segundo Einstein.
O universo é subjetivo.
Walt Whitman celebrou a Persona.
Somos observadores, instrumentos de medida, olho, sujeito, Persona.
Universo é Persona.
Dentro do crânio é tão vasto quanto fora do crânio.
Mente é muito mais que espaço.
“Cada um em sua cama falava para si mesmo sozinho, sem fazer barulho.”
Primeira idéia, melhor idéia.
A mente é simétrica, a Arte é simétrica.
Máxima informação, mínimo número de sílabas.
Sintaxe condensada, o som é sólido.
Fragmentos intensos de idioma falado, melhor.
Consoantes em volta de vogais fazem sentido.
Saboreie as vogais, aprecie as consoantes.
A subjetividade é conhecida pelo que ela vê.
Os outros podem medir suas visões pelo que nós vemos.
O candor é o fim da paranóia.

Kral Majales
25 de junho de 1986
Boulder; Colorado
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Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sou menor do que minhas medidas

Não creio mesmo que ninguém tenha as medidas que eu busco; e, como teimo em alcançá-las, peco de pretensão.

É inútil procurar.

Vejo multidões acomodadas no erro. Ouço, a todo momento, confissões de mau caráter feitas num tom muito próximo da vaidade. Mulheres me enumeram, com orgulho, os homens que já possuíram. Os homens fazem o mesmo. Não sinto neles o menor anseio de pureza.

Vejo mulheres feias e gordas, sem amantes nem amores, armadas apenas de receitas domésticas e longos relatos de doenças. Vejo mulheres bonitas, bem-tratadas, lisas e lustrosas, sem uma prega, sem alças arrebentadas, sem manchas na pele, que traem o marido com o amante, o amante com outro, e os três consigo mesmas.

Vejo homens ficarem calvos e barrigudos em profissões de que não gostam, dormindo sonos tão pesados quanto eles mesmos ao lado de mulheres de que não gostam, educando, mal como foram educados, crianças das quais, no fundo, gostam muito pouco.

Vejo as pessoas falando mal das outras e se comportando pior. Vejo muita gente feia, esquecida do próprio corpo. Vejo todos reclamando e poucos tomando atitudes.

E não creio que eu, mais do que os outros, tenha o direito de ver estas coisas, de olhar o mundo como se não fizesse parte dele. Não há por que a arrogância me seja permitida; e ter pena é ser arrogante.

Tenho pena da senhora gorda sentada diante de mim no ônibus, com as pernas um pouco abertas, as coxas marcadas pelo vinco profundo das ligas. Tenho pena do senhor asmático, agasalhado em pleno verão, que, certamente, usa suéter desde garotinho. Tenho pena pelos óculos alheios, pelos encontros furtivos, pelas frustrações profissionais, pela falta de talento, pelos grandes talentos desperdiçados, pelas vidas sem perspectiva. Tenho pena de tanta gente que mente, que finge, que sorri fingido.

Mas não posso corrigir o mundo; não posso, sequer, corrigir a mim mesma.

Quereria não mentir nunca; não trair ninguém; oferecer pureza como nunca houve. E já não sei onde ficou minha pureza: se se perdeu nas mentiras, ou se a mataram com a primeira traição.
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Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Mescalina

Ginsberg apodrecendo, olhei-o nu no espelho hoje
reparei no velho crânio, estou ficando calvo
minha cabeça brilha na luz da cozinha sob o cabelo fino
como o crânio de algum monge nas velhas catacumbas iluminadas por
um guarda com a lanterna
seguido por um bando de turistas
assim a morte existe
meu gato mia e olha para dentro do armário
Boito canta esta noite na vitrola sua antiga canção de anjos
o busto de Antinoo na fotografia marrom ainda olhando a partir da minha parede
uma luz jorrada das delicadas mios de Deus manda uma pomba de madeira para a calma virgem
o universo de Beato Angelico
o gato ficou louco e mia arranhando o chão

o que acontecerá quando o gongo da morte golpear a cabeça de ginsberg apodrecendo
em que universo entrarei
morte morte morte morte morte o gato sossegou
estaremos algum dia livres —de Ginsberg apodrecendo
Então deixa apodrecer, graças a Deus que eu sei
graças a quem
graças a quem
Graças a Ti, Oh senhor além do meu olho
o caminho deve levar a algum lugar
o caminho
o caminho
pelo cemitério dos navios que apodrecem, pelas orgias de Angelico
Bip, emite um vagido de bebê e já se foi
talvez seja essa a resposta, não saberia a não ser tendo um filho
Sei lá, nunca tive um filho nunca terei do jeito como estou indo

Sim, eu devia ser bom, devia casar
saber como é
mas não agüento essas mulheres em volta de mim
cheiro de Naomi
bah, estou travado neste familiar ginsberg apodrecendo
nem agüento mais os garotos
não agüento
não agüento
e quem, na verdade, está a fim de tomar no cu
Mares imensos passam sobre
o fluir do tempo
e quem está a fim de ser famoso e dar autógrafos como um
astro de cinema?

Quero saber
eu quero eu quero ridículo saber saber O QUE ginsberg apodrecendo
eu quero saber o que vai acontecer depois que eu apodrecer
pois já estou apodrecendo
meu cabelo está caindo eu estou barrigudo eu estou cheio de sexo
meu cu se arrasta pelo universo eu sei demais
e não sei o suficiente
quero saber o que acontece depois que eu morrer
logo descobriremos
preciso mesmo saber agora?
adianta alguma coisa adianta adianta
morte morte morte morte morte
deus deus deus deus deus deus deus o Lone Ranger
o ritmo da máquina de escrever
O que posso fazer Céus socando a máquina de escrever
estou travado trocar o disco Gregory ah ótimo ele está fazendo justamente isso
e eu estou consciente demais de um milhão de ouvidos
neste momento orelhas miseráveis, fazendo qualquer negócio
fotografias demais nos jornais
amarelados apagados recortes de jornais
estou saindo do poema para uma bosta contemplativa

lixo da mente
lixo do mundo
o homem é meio lixo

todo o lixo no túmulo
O que poderá Williams estar pensando em Paterson, a morte tão nele
tão já tão já
Williams, o que é a morte?
Você agora se defronta com a grande questão a cada momento
ou você a esquece no café da manhã olhando para a cara do seu velho e feio amor
estará você preparado para renascer
para livrar-se deste mundo e entrar no céu
ou livrar-se, livrar-se e tudo acabado - e ver uma vida - toda a eternidade - passada
para o nada, um enigma proposto pela lua para a terra sem resposta
Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma glória para mim! Não para mim!
Não adianta escrever quando o espírito não conduz

N Y 1959
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Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

A resposta

Deus responde com minha condenação!
esta poesia apagada do lenho ardente
minhas mentiras respondidas pelo verme no meu ouvido
minha visão pela mão que cai sobre meus olhos para cobri-los
diante da visão do meu esqueleto
—meu anseio de ser Deus pela trêmula carne barbada do maxilar
que cobre meu crânio como a pele de um monstro
Estômago vomitando a videira da alma, cadáver no
assoalho de uma cabana de bambu, carne do corpo rastejando
rumo a seu pesadelo do destino que cresce no meu cérebro
0 barulho do estrondo da criação adorando seu Carrasco, o salto
dos pássaros para o Infinito, latidos como o som
do vômito no ar, sapos coaxando Morte nas árvores
eu sou um Serafim e não sei se vou para dentro do Vazio
eu sou um homem e não sei se vou para dentro da Morte —
Cristo Cristo pobre desesperançado
alçado à Cruz entre as Dimensões —
para ver o Sempre-Incognoscível!
um som de gongo morto treme por toda a minha carne e um
imenso Ser entra no meu
cérebro vindo do longe que vive para sempre
Nada mais além da Presença poderosa demais para registrar!
a Presença
na Morte, diante da qual estou indefeso
transforma-me de Alien em uma caveira
Velho Caolho dos sonhos dos quais não acordo a não ser morto
mãos puxadas para a escuridão por uma horrenda Mão
—cego contorcer-se do verme, cortado —o arado
é o próprio Deus
Que monstruoso baile da escuridão anterior ao universo
volta para visitar-me como um comando cego!
e possa eu apagar esta consciência, fugir de volta
para o amor de Nova York e o farei
Pobre lamentável Cristo com medo da predita Cruz, Imortal —
Fugir, mas não para sempre —a Presença virá, a hora
chegará, uma estranha verdade penetra o universo, a morte
mostra seu Ser como antes
e eu me desesperarei por ter esquecido! esquecido a volta ao meu destino,
para morrer disso —
O que é sagrado quando a Coisa é todo o universo?
rasteja em cada alma como um órgão de vampiro cantando
atrás das nuvens iluminadas pela lua —
pobre criatura vem agachada
sob as estrelas barbudas num campo negro no Peru
para depositar minha carga —morrerei de horror de morrer!
Nem diques nem pirâmides, mas a morte, e devemos nos preparar para essa
nudez, pobres ossos sugados até ressecarem por Sua longa boca
de formigas e vento, & nossas almas assassinadaspara preparar Sua Perfeição!
O momento chegou, Ele fez Sua vontade ser revelada para sempre
e nenhuma fuga para o velho Ser além das estrelas não irá
chegar ao mesmo escuro porto oscilante
de insuportável música
Nenhum refúgio no Eu, que está em chamas
nem no Mundo que também é Seu para ser
bombardeado & Devorado!
Reconhece Seu poder! Larga
minhas mãos —minha atemorizada caveira
— pois eu havia escolhido a auto-estima —
meus olhos, meu nariz, minha cara, meu caralho,
minha alma —e agora
o Destruidor sem cara!
Um bilhão de portas para o mesmo novo ser!
O universo vira-se pelo avesso para devorar-me!
e a poderosa irrupção de música sai para fora da porta desumana —

1960
972
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Transcrição de música de órgão

A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
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Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Ácido lisérgico

Ele é um monstro múltiplo de um milhão de olhos
ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,
perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Alien Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus
eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado

Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa

Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim Há . . . um Sim eu Sou . .. um Sim você É .. . um Nós

Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas
da Batalha na sua Múltipla Esclerose
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra

Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibet
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte

Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um 0 ou Aum
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias
contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante -
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre

e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o Inominável, o Irrespondível, o
Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pars a si mesma
freme na sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada qual de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar

E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozóides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer maneira
ele aparece de qualquer maneira no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra na sua cabeça
um riso de bebê na sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heróico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
elé me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária,

MANDALA

Deuses dançam nos seus próprios corpos
Novas flores abrem-se esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas elevam-se num hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!

SF, 2 de junho, 1959
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