Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Hélio Pellegrino
Heraclito, o Obscuro
A pedra se move menos que a planta.
A planta se move menos que o réptil, movendo-se sobre a
pedra.
O réptil se move menos que o leopardo, na espessura da
floresta.
O leopardo se move menos que o homem, faminto de
mundo e espaço.
Todo ser, ao mover-se, exprime o seu desassossego: arco
tendido na direção do vir-a-ser.
A pedra tem mais sossego que a planta.
A planta tem mais repouso que o réptil.
O réptil é mais sonolento que o leopardo.
O homem, este é pura insônia — trabalho futuro, vôo e flecha.
A planta se move menos que o réptil, movendo-se sobre a
pedra.
O réptil se move menos que o leopardo, na espessura da
floresta.
O leopardo se move menos que o homem, faminto de
mundo e espaço.
Todo ser, ao mover-se, exprime o seu desassossego: arco
tendido na direção do vir-a-ser.
A pedra tem mais sossego que a planta.
A planta tem mais repouso que o réptil.
O réptil é mais sonolento que o leopardo.
O homem, este é pura insônia — trabalho futuro, vôo e flecha.
1 530
Hildeberto Abreu Magalhães
Vice-Verso
I
Não canso nunca de dizer (a mim mesmo!)
que a tua sanidade é a medida
da minha loucura e vice-versa,
que vice eu o sofrimento teu, sentindo
alegria? E meu verso transparente
opaculasse tua com versa? Não meço,
não me despeço, porque prefiro ficar.
Não aqui, vem comigo, voar longe do abrigo,
rimar perante abismos transponíveis:
perante deve ser per, antes mesmo de
chegar a algum lugar, que não aqui.
Não agora, deixa pra agora o amor e o vagar,
deixa ficar solto que mais preso sentiu.
O agora eu não vi passar,
foi-se já? O vice-momento.
Antes já era quase, quase ninguém sabe...
Continuo sentindo o coração bater, e
como os primatas, tenho ânsia de voz
em minha boca amarga, sabe-me o enjôo
do grito entranhado; eu sinto, sinto
muito; não me é dado saber antes do
que eu estou sentindo, saber só depois
de agora, do vice-verso.
Do tempo congelado na imagem, do âmbito
pouco convencional do estado primordial,
do drama banal do instante completa-
mente perdido.
Ai! de mim que me é dado sentir antes
de saber, depois,
que sentir é, que ver foi,
que toco sempre em estar com tigo.
II
Desprezo-me por ti, não me magoes, pois
já magôo-me, não sofras por uma unha
quebrada na junta da porta (ai!), não
temas a tua morte, sê forte; se morrer
antes é pior, quero o pior para mim.
Por quê querer manter a dormência?
Antes um prazer manso, que dor é
sinal de acidente e eu nasci pra ser
cientista, e um cientista hedônico, de
ver a humanidade sem reflexão e
chorar vertiginosamente, se esconder
embaixo da cama.
Eis! Há um enigma para cada cabeça
de Medusa que Perseu corta, há vá-
rios de espelhos refletem imagens:
Eis! os segredos dos enigmas revelados!
Será que um Deus merece julgamento?
Antes tarde que nunca? Adam-eterno
quer as profundidades vertiginosas
do ser, ou prefere a superfície
da posse? Será que eu nunca senti
tanto medo quanto
agora?
Medo, medo, necessitamos urgentes
deixar ao medo seu pequeno fardo,
seu descuido exagerado; agora! do it.
Tempo congelado, frio, congela e resseca,
ressaca e temporal: virá o sol,
o rei do degelo, conterá o ritmo
das águas em sua luz, trará!
Não canso nunca de dizer (a mim mesmo!)
que a tua sanidade é a medida
da minha loucura e vice-versa,
que vice eu o sofrimento teu, sentindo
alegria? E meu verso transparente
opaculasse tua com versa? Não meço,
não me despeço, porque prefiro ficar.
Não aqui, vem comigo, voar longe do abrigo,
rimar perante abismos transponíveis:
perante deve ser per, antes mesmo de
chegar a algum lugar, que não aqui.
Não agora, deixa pra agora o amor e o vagar,
deixa ficar solto que mais preso sentiu.
O agora eu não vi passar,
foi-se já? O vice-momento.
Antes já era quase, quase ninguém sabe...
Continuo sentindo o coração bater, e
como os primatas, tenho ânsia de voz
em minha boca amarga, sabe-me o enjôo
do grito entranhado; eu sinto, sinto
muito; não me é dado saber antes do
que eu estou sentindo, saber só depois
de agora, do vice-verso.
Do tempo congelado na imagem, do âmbito
pouco convencional do estado primordial,
do drama banal do instante completa-
mente perdido.
Ai! de mim que me é dado sentir antes
de saber, depois,
que sentir é, que ver foi,
que toco sempre em estar com tigo.
II
Desprezo-me por ti, não me magoes, pois
já magôo-me, não sofras por uma unha
quebrada na junta da porta (ai!), não
temas a tua morte, sê forte; se morrer
antes é pior, quero o pior para mim.
Por quê querer manter a dormência?
Antes um prazer manso, que dor é
sinal de acidente e eu nasci pra ser
cientista, e um cientista hedônico, de
ver a humanidade sem reflexão e
chorar vertiginosamente, se esconder
embaixo da cama.
Eis! Há um enigma para cada cabeça
de Medusa que Perseu corta, há vá-
rios de espelhos refletem imagens:
Eis! os segredos dos enigmas revelados!
Será que um Deus merece julgamento?
Antes tarde que nunca? Adam-eterno
quer as profundidades vertiginosas
do ser, ou prefere a superfície
da posse? Será que eu nunca senti
tanto medo quanto
agora?
Medo, medo, necessitamos urgentes
deixar ao medo seu pequeno fardo,
seu descuido exagerado; agora! do it.
Tempo congelado, frio, congela e resseca,
ressaca e temporal: virá o sol,
o rei do degelo, conterá o ritmo
das águas em sua luz, trará!
1 041
Helena Parente Cunha
Geometria
paralela ao espelho
avanço
nos pontos
e nas linhas
que me traçam
as côncavas mãos
onde
me elipso
no riso horizontal
meu rosto
vertical ao
pranto
avanço
nos pontos
e nas linhas
que me traçam
as côncavas mãos
onde
me elipso
no riso horizontal
meu rosto
vertical ao
pranto
1 316
Hildeberto Abreu Magalhães
Falas a Dioniso en Crise
I
Páginas não riscadas, muros não pichados,
paredes sorvidas em tintas unicores,
paisagem verde encostada na parede,
número nove paredes pintadas por
crianças multicoloridas que se
extravasam à parede e tecem-lhe
veias disformes e lamentando
o pouco sangue que lhes percorre
e como desejariam voar e tolher
ao espírito o vento mais alto.
Crianças choram, paredes choram,
lágrimas desusadas fecundam
óvulos dissolvendo-se evaporando-se
à temperatura da superfície e
enervando a eletricidade dos dedos;
escuta: dispara a seta e atingirás
o alvo. O que se pensa não se
determina. Termina tua estada
com glória e boa companhia.
Ecoam belos risos e os vejo
debocharem e persuadirem-se...
II
Deixe tocar tua mão... Apega-me
o teu calor. E agora que estou
agonizando, verto-me em frio
e luz opaca, rapto-te da memória,
desmancho-me e desmancho-te
em éter de outrora e agora
ficar acordado, agora permanecer
e ser longe de ti, éter comum!
Deixar-te é enfim um máximo de
beleza: agora és bela como os cegos
a vissem pela primeira vez: és tu
e não-eu és a mim e a ti juntos.
Ainda és e eu não sou mais que
isso: eu e tu. Despeço-me antes
que despedace-me a visão que
elegi como última: a que eu
realmente não sei...
III
O que pertubaria a tua consciência,
nesta tarde, neste minuto vesperal,
nesta canção, o que te pertuba?
Serão lembranças a te perturbar,
a afastar de ti a felicidade,
será o passado tão pesado que
não possa ser posto de lado
para o presente, tua memória
te esfalecendo a felicidade?
De que vale a vida, cheia de símbolos diversos,
se quem vale a vida é cheio de símbolo-fixo?
Expõe o passado à sua podridão e
à sua morte e verás como foge.
Paraste de pensá-lo e já escutas!
A música harmônica do vazio pe-
netra em ti para esvair-se e
repenetrar a tua energia nos
cúmulos e cônscios onipresentes.
IV
Se um dia precisar de proteção
contra o frio, já tenho o tapete,
que comprei no Seixas. Deus
me fez assim, Dioniso, procuro
sempre me converter, prezo fazer
acima de tudo e todo ter ou
saber. Prefiro a autenticidade
no homem e admiro nele sua
loucura lúcida e sua louca lucidez.
Sabe lá como não se faz o quê
constituir-se como não é ou é,
sendo assim ou não sendo assado.
Se precisar um dia de algo e não terei,
terei de fazer e tornar para fazer e ser depois,
se for a mídia que a compre e a tenha enclausurada.
Ninguém necessita minha proteção,
visto que cada um pode se proteger
sozinho; até eu não quero exércitos.
Se comprares algo, terás feito nas mãos.
Terás uma imagem nova para idolatrares...
V
Definitivamente eu sou um mutante;
não posso conter em mim o Adão que
compraz-se ver sua humanidade reinar,
quebrando degraus, saudando novas vias,
ao mesmo tempo que ruge a tradição
e amamos a tradição mais que tudo
ao esfumaçá-la e tornar-lhe nova
tradição que não susterá sequer um
grande ser que se movimenta, que
soluça por todo o Bem consumado
por si e por Tao, por mim e
por ti. Reina homem, mas conhece teus
estragos miserentos! Não podes manchar
tua humanidade com tão vil chaga!
Espera a embriaguez benévola, pacífico-guerreira.
A estupidez da desordem organizada.
A ens-vitae torna-se, o homem
torna-se, cada célula faz-se e
somos construídos para construir,
destruindo as velhas tábuas,
simbolizar o movimento, o moto-
-contínuo, Dioniso.
VI
Sinta-me: levemente esvoaço o tempo ao teu redor;
neste instante não me vês, mas estarei aí a roçar
tua pele e beijar teus cabelos, estarei agora
planejando uma visão desvirtualmente divina, tuas
mãos praguejam moscas impertinentes e me acaricias,
sem o saber, o vento que te rodeia é meu.
Oh! Diana, que mataste Actéon por ter visto tua beleza,
o que não farias se soubesses que tens um vigilante
cósmico, uma sentinela de tua respiração ofegante.
É the best part of the trip, the very best; ser
"companhia incesta amabilíssima elétrica ácida salutar"
é a viagem, movimento, a melhor parte...
Se olho o céu, se olho mesmo o céu, sol ou noite,
realmente não te vejo, mas vejo-te ao meu lado,
não na lua, teu maior espelho celeste, Deus;
vejo-te aqui como eu concentrado em ti e
cheirando tua pele, nessa carícia que ma faz
um vento que rodeia minha amada, Deusa.
Toque-me, veja-o ao vento que esvoaça teu ins,
éter-me-ei para sentir saudades do que não vi,
furtar-me-ão os sentidos, atolar-nos-ão no
racionalismo-idealismo, mas nunca a memória terá
sido importante, ¿nunca verei de novo o novo?
Ésse, essa letra sibilante, sss, como o ser
"novo atuante tórrido actus purus Adam filho".
VII
Talvez não seja sincero; pensar em ti tão cedo pode ser
uma deslavada coreografia da minha mente, que te deseja
próxima, que me permite acordá-la de madrugada, e
dentro do teu sonho dizer que te amo. Não,
não pode ser sincera, esta vontade que, rasgando
o peito imberbe, sangra-o facilmente à distância,
de te tornar companhia hodierna e na tua pre-
sença devo permanecer escutando o estrondo dos
vulcões sob sua pele, devo permanecer calado,
nessa extrema angústia que quer me levar por
baixo de tuas roupas, quer colar-me à tua pele.
Estás longe, perdida e vaga lembrança, cada vez mais
longe. Mas! como fazes, se não te esfumaças em
minha vã memória? Não consigo te matar-em-mim?
Não te amo sinceramente, estás longe, eu invento
uma doença que me matiamorte, sangro indiscreta-
mente, mas! como faço para esfumaçar-te em minha
vã memória? E se não estiveres só aí? E se dominas
algo em mim, algo que não pode ser chamado vão?
Estou com tendências à repressão neste território...
Mas pensar em ti tão cedo só poderia terminar confundindo
a mim e acordando o vizinho, para escutar-te a música.
O fato não foge à tendência tradicional de sonhar
a noiva antes do casamento, ou querer mais das
bebidas bacantes ou do néctar divino ou apenas lembrar que
há pouco nasceu o sol, já ontem choveu, há muito não
quero tanta solidão, me dói pensar-te e não tocar,
por isso farei-te a estátua; desejo adorá-la, enquanto estás longe.
VIII
Ah! criança selvagem brilhando no meio-dia nuestra vida.
Rasgarias meu coração, adoçarias minhas entranhas e
sacrificarias-me a algum Deus cruel sangüentino.
Emprestarias minh´alma como virtude ao Deus solar,
meu inimigo humano, meu pólo destruidor, meu degelo,
a morte dos meus amigos e amigas, varão coloquial.
Eu posso ver do vão pórtico teu fulgor, usurpo a ti
a energia que movimenta o vento e o círculo;
¿podes ser maior? Do tamanho de um pé, podes
insignificantizar-me? Podes deixar teu fulgor, Deus?
Um sempre-pronto, o semi-pronto-círculo, proto-Deus.
Gravita sobre mim, chegas-me à necessidade, sabes-me.
Teu sopro me acorda, teu vento quente me cerca e
desalmado arranca as epidermes, leva-as de mim, o
que não me possui, livra-me do frio, tirando-me.
Teu corpo suado liberta o meu, teu trabalho duro,
meu corpo semeado em tuas entranhas, os frutos
Páginas não riscadas, muros não pichados,
paredes sorvidas em tintas unicores,
paisagem verde encostada na parede,
número nove paredes pintadas por
crianças multicoloridas que se
extravasam à parede e tecem-lhe
veias disformes e lamentando
o pouco sangue que lhes percorre
e como desejariam voar e tolher
ao espírito o vento mais alto.
Crianças choram, paredes choram,
lágrimas desusadas fecundam
óvulos dissolvendo-se evaporando-se
à temperatura da superfície e
enervando a eletricidade dos dedos;
escuta: dispara a seta e atingirás
o alvo. O que se pensa não se
determina. Termina tua estada
com glória e boa companhia.
Ecoam belos risos e os vejo
debocharem e persuadirem-se...
II
Deixe tocar tua mão... Apega-me
o teu calor. E agora que estou
agonizando, verto-me em frio
e luz opaca, rapto-te da memória,
desmancho-me e desmancho-te
em éter de outrora e agora
ficar acordado, agora permanecer
e ser longe de ti, éter comum!
Deixar-te é enfim um máximo de
beleza: agora és bela como os cegos
a vissem pela primeira vez: és tu
e não-eu és a mim e a ti juntos.
Ainda és e eu não sou mais que
isso: eu e tu. Despeço-me antes
que despedace-me a visão que
elegi como última: a que eu
realmente não sei...
III
O que pertubaria a tua consciência,
nesta tarde, neste minuto vesperal,
nesta canção, o que te pertuba?
Serão lembranças a te perturbar,
a afastar de ti a felicidade,
será o passado tão pesado que
não possa ser posto de lado
para o presente, tua memória
te esfalecendo a felicidade?
De que vale a vida, cheia de símbolos diversos,
se quem vale a vida é cheio de símbolo-fixo?
Expõe o passado à sua podridão e
à sua morte e verás como foge.
Paraste de pensá-lo e já escutas!
A música harmônica do vazio pe-
netra em ti para esvair-se e
repenetrar a tua energia nos
cúmulos e cônscios onipresentes.
IV
Se um dia precisar de proteção
contra o frio, já tenho o tapete,
que comprei no Seixas. Deus
me fez assim, Dioniso, procuro
sempre me converter, prezo fazer
acima de tudo e todo ter ou
saber. Prefiro a autenticidade
no homem e admiro nele sua
loucura lúcida e sua louca lucidez.
Sabe lá como não se faz o quê
constituir-se como não é ou é,
sendo assim ou não sendo assado.
Se precisar um dia de algo e não terei,
terei de fazer e tornar para fazer e ser depois,
se for a mídia que a compre e a tenha enclausurada.
Ninguém necessita minha proteção,
visto que cada um pode se proteger
sozinho; até eu não quero exércitos.
Se comprares algo, terás feito nas mãos.
Terás uma imagem nova para idolatrares...
V
Definitivamente eu sou um mutante;
não posso conter em mim o Adão que
compraz-se ver sua humanidade reinar,
quebrando degraus, saudando novas vias,
ao mesmo tempo que ruge a tradição
e amamos a tradição mais que tudo
ao esfumaçá-la e tornar-lhe nova
tradição que não susterá sequer um
grande ser que se movimenta, que
soluça por todo o Bem consumado
por si e por Tao, por mim e
por ti. Reina homem, mas conhece teus
estragos miserentos! Não podes manchar
tua humanidade com tão vil chaga!
Espera a embriaguez benévola, pacífico-guerreira.
A estupidez da desordem organizada.
A ens-vitae torna-se, o homem
torna-se, cada célula faz-se e
somos construídos para construir,
destruindo as velhas tábuas,
simbolizar o movimento, o moto-
-contínuo, Dioniso.
VI
Sinta-me: levemente esvoaço o tempo ao teu redor;
neste instante não me vês, mas estarei aí a roçar
tua pele e beijar teus cabelos, estarei agora
planejando uma visão desvirtualmente divina, tuas
mãos praguejam moscas impertinentes e me acaricias,
sem o saber, o vento que te rodeia é meu.
Oh! Diana, que mataste Actéon por ter visto tua beleza,
o que não farias se soubesses que tens um vigilante
cósmico, uma sentinela de tua respiração ofegante.
É the best part of the trip, the very best; ser
"companhia incesta amabilíssima elétrica ácida salutar"
é a viagem, movimento, a melhor parte...
Se olho o céu, se olho mesmo o céu, sol ou noite,
realmente não te vejo, mas vejo-te ao meu lado,
não na lua, teu maior espelho celeste, Deus;
vejo-te aqui como eu concentrado em ti e
cheirando tua pele, nessa carícia que ma faz
um vento que rodeia minha amada, Deusa.
Toque-me, veja-o ao vento que esvoaça teu ins,
éter-me-ei para sentir saudades do que não vi,
furtar-me-ão os sentidos, atolar-nos-ão no
racionalismo-idealismo, mas nunca a memória terá
sido importante, ¿nunca verei de novo o novo?
Ésse, essa letra sibilante, sss, como o ser
"novo atuante tórrido actus purus Adam filho".
VII
Talvez não seja sincero; pensar em ti tão cedo pode ser
uma deslavada coreografia da minha mente, que te deseja
próxima, que me permite acordá-la de madrugada, e
dentro do teu sonho dizer que te amo. Não,
não pode ser sincera, esta vontade que, rasgando
o peito imberbe, sangra-o facilmente à distância,
de te tornar companhia hodierna e na tua pre-
sença devo permanecer escutando o estrondo dos
vulcões sob sua pele, devo permanecer calado,
nessa extrema angústia que quer me levar por
baixo de tuas roupas, quer colar-me à tua pele.
Estás longe, perdida e vaga lembrança, cada vez mais
longe. Mas! como fazes, se não te esfumaças em
minha vã memória? Não consigo te matar-em-mim?
Não te amo sinceramente, estás longe, eu invento
uma doença que me matiamorte, sangro indiscreta-
mente, mas! como faço para esfumaçar-te em minha
vã memória? E se não estiveres só aí? E se dominas
algo em mim, algo que não pode ser chamado vão?
Estou com tendências à repressão neste território...
Mas pensar em ti tão cedo só poderia terminar confundindo
a mim e acordando o vizinho, para escutar-te a música.
O fato não foge à tendência tradicional de sonhar
a noiva antes do casamento, ou querer mais das
bebidas bacantes ou do néctar divino ou apenas lembrar que
há pouco nasceu o sol, já ontem choveu, há muito não
quero tanta solidão, me dói pensar-te e não tocar,
por isso farei-te a estátua; desejo adorá-la, enquanto estás longe.
VIII
Ah! criança selvagem brilhando no meio-dia nuestra vida.
Rasgarias meu coração, adoçarias minhas entranhas e
sacrificarias-me a algum Deus cruel sangüentino.
Emprestarias minh´alma como virtude ao Deus solar,
meu inimigo humano, meu pólo destruidor, meu degelo,
a morte dos meus amigos e amigas, varão coloquial.
Eu posso ver do vão pórtico teu fulgor, usurpo a ti
a energia que movimenta o vento e o círculo;
¿podes ser maior? Do tamanho de um pé, podes
insignificantizar-me? Podes deixar teu fulgor, Deus?
Um sempre-pronto, o semi-pronto-círculo, proto-Deus.
Gravita sobre mim, chegas-me à necessidade, sabes-me.
Teu sopro me acorda, teu vento quente me cerca e
desalmado arranca as epidermes, leva-as de mim, o
que não me possui, livra-me do frio, tirando-me.
Teu corpo suado liberta o meu, teu trabalho duro,
meu corpo semeado em tuas entranhas, os frutos
994
Helena Parente Cunha
Quem
quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
1 080
Georgeocohama
O Jardim de Caminhos que se Bifurcam
A Caetano Veloso
A tarde era íntima, infinita.
Pareceu-me incrível que esse dia
sem premonições ou símbolos
fosse o de minha morte implacável.
Depois refleti
que todas as coisas nos acontecem;
precisamente,
precisamente agora.
Séculos de séculos
e apenas no presente ocorrem os fatos;
inumeráveis homens no ar,
na terra e mar,
e tudo o que realmente sucede,
sucede a mim.
Não é em vão que sou
bisneto daquele Tui Pen,
que foi governador de Yunan
e que renunciou ao poder temporal
aos prazeres da opressão,
da justiça,
do numeroso leito,
dos banquetes e ainda da erudição
e enclausurou-se
no Pavilhão da Límpida Solidão
para escrever um romance
que fosse ainda mais populoso
que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto
em que todos os homens se perdessem.
Um labirinto de marfim,
inviolado e perfeito,
no cume de uma montanha.
Um labirinto mínimo,
disfarçado por arrozais
ou debaixo d’água.
Um labirinto de símboos,
infinito,
não já de quiosques oitavados
e de caminhos que voltam,
mas sim de rios e províncias e reinos.
Um labirinto de labirintos,
um sinuoso labirinto crescente
— um invisível labirinto de tempo —
que abarcasse o passado, o presente e o
futuro.
Os vários futuros, não todos,
o jardim de caminhos que se bifurcam.
A tarde era íntima, infinita.
A tarde era íntima, infinita.
Pareceu-me incrível que esse dia
sem premonições ou símbolos
fosse o de minha morte implacável.
Depois refleti
que todas as coisas nos acontecem;
precisamente,
precisamente agora.
Séculos de séculos
e apenas no presente ocorrem os fatos;
inumeráveis homens no ar,
na terra e mar,
e tudo o que realmente sucede,
sucede a mim.
Não é em vão que sou
bisneto daquele Tui Pen,
que foi governador de Yunan
e que renunciou ao poder temporal
aos prazeres da opressão,
da justiça,
do numeroso leito,
dos banquetes e ainda da erudição
e enclausurou-se
no Pavilhão da Límpida Solidão
para escrever um romance
que fosse ainda mais populoso
que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto
em que todos os homens se perdessem.
Um labirinto de marfim,
inviolado e perfeito,
no cume de uma montanha.
Um labirinto mínimo,
disfarçado por arrozais
ou debaixo d’água.
Um labirinto de símboos,
infinito,
não já de quiosques oitavados
e de caminhos que voltam,
mas sim de rios e províncias e reinos.
Um labirinto de labirintos,
um sinuoso labirinto crescente
— um invisível labirinto de tempo —
que abarcasse o passado, o presente e o
futuro.
Os vários futuros, não todos,
o jardim de caminhos que se bifurcam.
A tarde era íntima, infinita.
930
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 078
Ana Garrett
Quem se esconde
Quem se esconde em meus
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
856
Francisco Carvalho
Tríptipo
I
tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia
a fome de palavras
a sede de volúpia
a sentença lavrada
na poeira dos arquivos:
tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.
II
o olho da serpente
passeia na treva
o seu fulgor breve
lambe o odor da presa
entre folhas mortas
mastiga as horas
e uma ceia de besouros.
III
somos apanhados
numa teia de mitos
nada sabemos da alma
e do logaritmo binário
entre conchas e búzios
baionetas e obuses
a esfinge nos espreita
nos decifra e devora.
tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia
a fome de palavras
a sede de volúpia
a sentença lavrada
na poeira dos arquivos:
tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.
II
o olho da serpente
passeia na treva
o seu fulgor breve
lambe o odor da presa
entre folhas mortas
mastiga as horas
e uma ceia de besouros.
III
somos apanhados
numa teia de mitos
nada sabemos da alma
e do logaritmo binário
entre conchas e búzios
baionetas e obuses
a esfinge nos espreita
nos decifra e devora.
1 015
Francisco Carvalho
Poema para Escrever no Asfalto
Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
1 094
Frederico Barbosa
Como quem lê
Virar a chave,como quem lê uma página:abrir por dentro,libertar-se sendo.Como quem se envolve na personagem,lento.
Descobrir o além do sonho,o impensado, o certo,o mais que imaginado.O que os olhos buscam cobrirno sonho.
Ver em você, minha cara,minha cara interpretada:metade minha, metade clara.
Poema em espanhol
Descobrir o além do sonho,o impensado, o certo,o mais que imaginado.O que os olhos buscam cobrirno sonho.
Ver em você, minha cara,minha cara interpretada:metade minha, metade clara.
Poema em espanhol
1 392
Florisvaldo Mattos
Dezembro
Menino ainda, costumava
romper o cristal da manhã
e do macio horizonte
cavalgar o aromado pêlo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.
Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.
Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio,
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.
Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fímbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastro de sangue nas ladeiras
"Um cavalo cortado ao meio", me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.
Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando,
do afã diário aos búzios vesperais,
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!
Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias
— águas de aboio insopitado e lento.
Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.
Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.
romper o cristal da manhã
e do macio horizonte
cavalgar o aromado pêlo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.
Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.
Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio,
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.
Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fímbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastro de sangue nas ladeiras
"Um cavalo cortado ao meio", me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.
Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando,
do afã diário aos búzios vesperais,
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!
Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias
— águas de aboio insopitado e lento.
Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.
Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.
996
Francisco José Rodrigues
Primavera Interior
O tempo que aí vai não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Se outono e inverno passam, velhos, lá por fora,
Aqui dentro em minha alma habita a primavera.
Estou sempre a sorrir enquanto os outros choram
E estou sempre a chorar quando riem dos outros.
Assim, o tempo fora não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Mas quando é primavera lá fora, também
Se torna primavera cá dentro em minha alma,
Pois que dentro em minha alma a primavera habita,
Embora que nem sempre possa despontar
O seu perene verde, pois que os maus olhados
Queimariam vigores que me minha alma existem.
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Se outono e inverno passam, velhos, lá por fora,
Aqui dentro em minha alma habita a primavera.
Estou sempre a sorrir enquanto os outros choram
E estou sempre a chorar quando riem dos outros.
Assim, o tempo fora não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Mas quando é primavera lá fora, também
Se torna primavera cá dentro em minha alma,
Pois que dentro em minha alma a primavera habita,
Embora que nem sempre possa despontar
O seu perene verde, pois que os maus olhados
Queimariam vigores que me minha alma existem.
876
Fernando José dos Santos Oliveira
Porque será que não sou o que quero?
Porque será que não sou o que quero?
Porque será que não sou o que quero e não consigo mostrar o que sou?
Permito que ouçam, no máximo, barulhos de um apartamento vizinho.
Quero dar mais e não con-
sigo e sigo recebendo - mais e mais.
Quero ser sério e não con-
sigo e sigo disfarçando.
Quero falar - olhos nos olhos - e não con-
sigo e sigo escrevendo.
Quero aceitar as frases feitas e não con-
sigo e sigo duvidando.
Quero ter ânimo para mudar o mundo e não con-
sigo e sigo obedecendo.
Quero não perder o chão e não con-
sigo e sigo tropeçando.
Quero ser importante e não con-
sigo e sigo me importando.
Quero ter coragem e não con-
sigo e sigo me escondendo.
Quero ser digno e não con-
sigo e sigo me indignando.
Quero viver e não con-
sigo e sigo me matando.
Quero ficar à toa e não con-
sigo e sigo me esforçando.
Quero produzir e não con-
sigo e sigo consumindo.
Quero ser um pouquinho só da sua beleza e não con-
sigo e sigo, boquiaberto, admirando.
Quero me libertar e não con-
sigo e sigo Fernando.
Porque será que não sou o que quero e não consigo mostrar o que sou?
Permito que ouçam, no máximo, barulhos de um apartamento vizinho.
Quero dar mais e não con-
sigo e sigo recebendo - mais e mais.
Quero ser sério e não con-
sigo e sigo disfarçando.
Quero falar - olhos nos olhos - e não con-
sigo e sigo escrevendo.
Quero aceitar as frases feitas e não con-
sigo e sigo duvidando.
Quero ter ânimo para mudar o mundo e não con-
sigo e sigo obedecendo.
Quero não perder o chão e não con-
sigo e sigo tropeçando.
Quero ser importante e não con-
sigo e sigo me importando.
Quero ter coragem e não con-
sigo e sigo me escondendo.
Quero ser digno e não con-
sigo e sigo me indignando.
Quero viver e não con-
sigo e sigo me matando.
Quero ficar à toa e não con-
sigo e sigo me esforçando.
Quero produzir e não con-
sigo e sigo consumindo.
Quero ser um pouquinho só da sua beleza e não con-
sigo e sigo, boquiaberto, admirando.
Quero me libertar e não con-
sigo e sigo Fernando.
936
António Ferreira
Carta
Fez força ao meu intento a doce e branda
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
1 907
Flávio Sátiro Fernandes
Toilette
1. Quem garante
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
908
Flávio Sátiro Fernandes
A paz não está tão longe
Inúteis as conferências de paz,
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
833
Fernando José dos Santos Oliveira
Sou alguém comum
Sou alguém comum
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
1 001
Moacyr Felix
Auto-Retrato
Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
1 604
Everaldo Ygor
Pensar o Próprio Pensamento
Pensar o próprio pensamento
Manejar a intuição
Comum é nossa fome
Complexa é nossa liberdade
Estão fixando a vista entre si
Mas não fitaram-se com ternura
Estão apenas
Fingindo sentimentos que não possuem
Já estamos em tempo
De discursar o pensamento
De resgatar a Coragem
Oculta na imaginação
Vamos transformar
O que chama de utopia
Na verdadeira força do sonho
Manejar a intuição
Comum é nossa fome
Complexa é nossa liberdade
Estão fixando a vista entre si
Mas não fitaram-se com ternura
Estão apenas
Fingindo sentimentos que não possuem
Já estamos em tempo
De discursar o pensamento
De resgatar a Coragem
Oculta na imaginação
Vamos transformar
O que chama de utopia
Na verdadeira força do sonho
827
Fábio Afonso de Almeida
Minutos
Espaços Vivenciados amesquinham
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.
Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.
Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.
919
Fernanda Benevides
Flagrante
Eu não tinha este ar preocupado.
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
939
Fernando Batinga de Mendonça
Soneto
para Carlos Cunha
vi planícies ampliadas
e formas verdes, completas
— nas estradas já traçadas
não mais cor, facões trafegam.
vi enxadas, dinamites
vi balões, os exilados
vi azul das explosões
ouvi céus encarcerados
vi silêncio decomposto
que não sendo lentamente,
mas que é em plano oposto.
vi das coisas se faltando:
o de fora, perfeição
o de dentro, se buscando.
vi planícies ampliadas
e formas verdes, completas
— nas estradas já traçadas
não mais cor, facões trafegam.
vi enxadas, dinamites
vi balões, os exilados
vi azul das explosões
ouvi céus encarcerados
vi silêncio decomposto
que não sendo lentamente,
mas que é em plano oposto.
vi das coisas se faltando:
o de fora, perfeição
o de dentro, se buscando.
992