Poemas neste tema
Corpo
Isabel Mendes Ferreira
emagrecer o movimento
emagrecer o movimento que enche de surpresa as mãos cheias. de fascínios e desígnios. desenhar um caos ao mesmo tempo dócil e desamparado. encostar a porta ao espelho das águas. silenciar a tua mão no meu peito e depois lançar um pássaro de ópio à terra. não querer voltar a ser outro porto. perder todas as chaves. e deixar o riso ladrar como animal. fome de folhas. feroz fulgor dos contrários.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
538
Fernando Guerreiro
[poema sem título]
O corpo sobe e desce
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
818
Ana Marques Gastão
Chá vermelho-ferro
Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
662
José Mário Rodrigues
A SOLIDÃO E SEU CORPO
Toda solidão tem o seu corpo
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
699
Herberto Helder
3B
O dia, esse bojo de linfa, uma vertigem de hélio — arcaicamente
como pretexto para luzirem
cortejos: animais, bárbaros crânios de ouro;
um branco suspiro extenua as gargantas dos áruns;
pálpebras no granito despedem-se do mundo. Quando
começam os sítios
íngremes. Porque a treva aproveita
a madurez para onde
se debruça a paisagem. E fique a púrpura
nos dedos, só
por deslizarem. O objecto ao meio é o vaso
em que trabalham. A noite coloca um degrau,
até que do invisível
— reservatórios de linfa e gás entenebreçam.
Os longos mesteres da argila: órgão macio e baixo.
O espasmo que o faz rodar, a beleza
que o transforma num crânio
astral: — Vaso
dolorosamente fechado sobre a fulguração da massa
de átomos. Embriaga-se à volta
do buraco exasperado. O papel redemoinhando às lunações
das unhas. Brilha, escurece. Depois é cor de sangue: o sorvo,
e o sôfrego
movimento externo.
como pretexto para luzirem
cortejos: animais, bárbaros crânios de ouro;
um branco suspiro extenua as gargantas dos áruns;
pálpebras no granito despedem-se do mundo. Quando
começam os sítios
íngremes. Porque a treva aproveita
a madurez para onde
se debruça a paisagem. E fique a púrpura
nos dedos, só
por deslizarem. O objecto ao meio é o vaso
em que trabalham. A noite coloca um degrau,
até que do invisível
— reservatórios de linfa e gás entenebreçam.
Os longos mesteres da argila: órgão macio e baixo.
O espasmo que o faz rodar, a beleza
que o transforma num crânio
astral: — Vaso
dolorosamente fechado sobre a fulguração da massa
de átomos. Embriaga-se à volta
do buraco exasperado. O papel redemoinhando às lunações
das unhas. Brilha, escurece. Depois é cor de sangue: o sorvo,
e o sôfrego
movimento externo.
1 229
Herberto Helder
1D
Engoli
água. Profundamente: — a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.
água. Profundamente: — a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.
1 123
Herberto Helder
2E
Toquei num flanco súbito.
A mão que dolorosamente extraíra
rosas de mármore
dos sítios difíceis. Essa mão agora
nos trabalhos da alma: o flanco acordado, o abismo
da palavra. Resplandecia.
Levantava a pálpebra de jóia instantânea.
Das brancas ramas desentranha a corola
compacta, intrínseca, propagada
na árvore. Flanco e mão. E o nome que os ilumina
arboreamente.
A mão que dolorosamente extraíra
rosas de mármore
dos sítios difíceis. Essa mão agora
nos trabalhos da alma: o flanco acordado, o abismo
da palavra. Resplandecia.
Levantava a pálpebra de jóia instantânea.
Das brancas ramas desentranha a corola
compacta, intrínseca, propagada
na árvore. Flanco e mão. E o nome que os ilumina
arboreamente.
1 202
Herberto Helder
5
Dançam segundo o ouro quer dizer fazem da fieira de estrelas africar
uma oficiação dos fogos. Trouxeram-nas para as paredes da caverna,
empurram-nas, uma
ignição floral, arqueadas, amarelo,
espigam nos abismos.
Eles dão luz com os braços e as pernas até que o vento tudo
sopra nessa lição até que
o irradiante os gestos magnificam
as formas do ar no ouro: a seara astronómica.
Primeiro como pessoas depois são animais que o sangue ata na garga
O mundo é numeroso.
O corpo, a dança devora-o vivo.
Alguém remoto sabia de outra escola disse:
este movimento no chão responde em labaredas.
Mas eles traziam à pedra a obra alumiada. Isto mantém em baixo
os organismos, coisas, cadeias
dos elementos.
Quando alguém abre o ar quando entra sideralmente a árvore a luz
consome-a folha a folha. Eles arrastam
em vagas paus queimados desde a medula
estrelas desde a medula eles
entalharam
na árvore
o seu nome vibrante a seiva enche o nome todo
que nome? estrelas é um nome
quem dança é um nome largo
o cordão de células pintado nos recessos,
a terra é o nome que a seiva irriga até aos nós profundos.
Como quem trança fibras — coração fechado
nas palavras, máquina, dentro. Então os espaços dança
a dança ininterruptos, a pedra cardiacamente escrita.
Os dedos tocam, atravessam-na.
Isto electrifica-se isto é um poder que vem
não das câmaras do sangue apenas mas
de uma aliança. Os corpos movem as estrelas.
Essa árvore das chamas essa
constelação inoxidável circundada pelo vento.
Eles brilham entre as folhas que brilham. O mundo — e
colocam pés e mãos, brilha. Colocam os raios das coisas, arrancam
à massa compacta a risca limpa.
Oh cingir tudo, uma
a uma as matérias com as estrelas sísmicas e
— o ar dentro das faúlhas
— as faúlhas dentro da pedra: manchas de tanto amarelo repetido.
Alguém disse: outro
verbo, outra vida, outra floração que as mãos ao rodeá-la
acendessem.
A dança ensina ao alto a astronomia —
uma oficiação dos fogos. Trouxeram-nas para as paredes da caverna,
empurram-nas, uma
ignição floral, arqueadas, amarelo,
espigam nos abismos.
Eles dão luz com os braços e as pernas até que o vento tudo
sopra nessa lição até que
o irradiante os gestos magnificam
as formas do ar no ouro: a seara astronómica.
Primeiro como pessoas depois são animais que o sangue ata na garga
O mundo é numeroso.
O corpo, a dança devora-o vivo.
Alguém remoto sabia de outra escola disse:
este movimento no chão responde em labaredas.
Mas eles traziam à pedra a obra alumiada. Isto mantém em baixo
os organismos, coisas, cadeias
dos elementos.
Quando alguém abre o ar quando entra sideralmente a árvore a luz
consome-a folha a folha. Eles arrastam
em vagas paus queimados desde a medula
estrelas desde a medula eles
entalharam
na árvore
o seu nome vibrante a seiva enche o nome todo
que nome? estrelas é um nome
quem dança é um nome largo
o cordão de células pintado nos recessos,
a terra é o nome que a seiva irriga até aos nós profundos.
Como quem trança fibras — coração fechado
nas palavras, máquina, dentro. Então os espaços dança
a dança ininterruptos, a pedra cardiacamente escrita.
Os dedos tocam, atravessam-na.
Isto electrifica-se isto é um poder que vem
não das câmaras do sangue apenas mas
de uma aliança. Os corpos movem as estrelas.
Essa árvore das chamas essa
constelação inoxidável circundada pelo vento.
Eles brilham entre as folhas que brilham. O mundo — e
colocam pés e mãos, brilha. Colocam os raios das coisas, arrancam
à massa compacta a risca limpa.
Oh cingir tudo, uma
a uma as matérias com as estrelas sísmicas e
— o ar dentro das faúlhas
— as faúlhas dentro da pedra: manchas de tanto amarelo repetido.
Alguém disse: outro
verbo, outra vida, outra floração que as mãos ao rodeá-la
acendessem.
A dança ensina ao alto a astronomia —
1 080
Herberto Helder
(Walpurgisnacht)
Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria
dos astros: raia a laceração sangrenta,
estancada entre o sexo
e a garganta. Eu nunca
durmo,
com a ferida do meu próprio sono.
Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta
da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela
selvagem implantada
no meio da carne, como no fundo da noite
o buraco forte
do sangue. Aveia que me corta de ponta a ponta,
que arrasta todo o escuro do mundo
para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas
se alumiassem.
Mas nunca durmo entre os meus braços
pulsando
como grandes carótidas
que alimentem a beleza e rapidez do rosto sobre
músculos fechados.
Enquanto o sol rompe as membranas
dos espelhos: não danço, não
durmo, não respiro mais que a terra esquartejada pelas chamas
lunares.
Não trabalho tanto como no verão o sangue
sob o pêlo
baixo
dos animais, a elegância violenta,
o alimento.
Há dias em que as mãos se movimentam por si,
mal tocando nas fendas
o tremor hirsuto de um cometa cravado desde as costas
aos lençóis. Nunca sei
onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra
separa
a barragem da luz que suporta a terra.
— Agora, a fundura de uma
lavoura aérea, o fôlego, uma pedra com o meu tamanho
coberto
de poros, ou tendões a ligar
arquipélagos límpidos
na penumbra. Estes,
os obscuros fulcros da loucura.
Alguém devia tocar-me para sentir que estou vivo,
que sou
uma estaca atravessada pelo sangue, e dela rebentam
por exemplo: áscuas. Isto é uma fábrica de demência:
palavras
onde se manobra a púrpura, onde
o aroma que mata ascende de jardins construídos
levemente
na escuridão. E uma imagem fecha
tudo o que se fecha: quartos,
dias sobre si mesmos, as frutas redondas por força
da doçura interna. Quando as vozes
ferozes se desengolfam, a terra
move-se como um músculo encharcado entre a boca
e o coração que não dorme
nunca. — E todas as minhas vísceras são
inocentes.
dos astros: raia a laceração sangrenta,
estancada entre o sexo
e a garganta. Eu nunca
durmo,
com a ferida do meu próprio sono.
Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta
da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela
selvagem implantada
no meio da carne, como no fundo da noite
o buraco forte
do sangue. Aveia que me corta de ponta a ponta,
que arrasta todo o escuro do mundo
para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas
se alumiassem.
Mas nunca durmo entre os meus braços
pulsando
como grandes carótidas
que alimentem a beleza e rapidez do rosto sobre
músculos fechados.
Enquanto o sol rompe as membranas
dos espelhos: não danço, não
durmo, não respiro mais que a terra esquartejada pelas chamas
lunares.
Não trabalho tanto como no verão o sangue
sob o pêlo
baixo
dos animais, a elegância violenta,
o alimento.
Há dias em que as mãos se movimentam por si,
mal tocando nas fendas
o tremor hirsuto de um cometa cravado desde as costas
aos lençóis. Nunca sei
onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra
separa
a barragem da luz que suporta a terra.
— Agora, a fundura de uma
lavoura aérea, o fôlego, uma pedra com o meu tamanho
coberto
de poros, ou tendões a ligar
arquipélagos límpidos
na penumbra. Estes,
os obscuros fulcros da loucura.
Alguém devia tocar-me para sentir que estou vivo,
que sou
uma estaca atravessada pelo sangue, e dela rebentam
por exemplo: áscuas. Isto é uma fábrica de demência:
palavras
onde se manobra a púrpura, onde
o aroma que mata ascende de jardins construídos
levemente
na escuridão. E uma imagem fecha
tudo o que se fecha: quartos,
dias sobre si mesmos, as frutas redondas por força
da doçura interna. Quando as vozes
ferozes se desengolfam, a terra
move-se como um músculo encharcado entre a boca
e o coração que não dorme
nunca. — E todas as minhas vísceras são
inocentes.
1 053
Herberto Helder
4E
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.
1 115
Herberto Helder
2D
Transbordas toda em sangue e nome, por motivos
de lua — os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
— de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
— como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.
de lua — os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
— de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
— como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.
571
Herberto Helder
(Vox)
O que está escrito no mundo está escrito de lado
a lado do corpo — e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem —
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem — uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando — a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à púrpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada — e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos intestinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal —
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta — e levanto a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
— porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa — ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas — o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga — esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora —
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
— a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial — tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando o dia é muito perto, uma estrela comprida
— as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um cometa desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras —
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo —
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
a lado do corpo — e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem —
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem — uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando — a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à púrpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada — e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos intestinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal —
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta — e levanto a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
— porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa — ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas — o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga — esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora —
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
— a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial — tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando o dia é muito perto, uma estrela comprida
— as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um cometa desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras —
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo —
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
1 236
Herberto Helder
(A Morte Própria)
E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.
1978.
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.
1978.
1 533
Herberto Helder
3K
De todos os sítios do parque uma vibração ataca
a estátua que sobe o dia
inclinado, que entra no escuro com os olhos brancos.
O ar ilumina-lhe a boca.
Com dedos de ouro brusco a noite fecha-lhe
os músculos. Mas abrem-nos um fluxo de seiva,
uma temperatura de química
radiosa. Porque é no centro dessa massa
territorial
que o sangue estremece e desabrocha
entre pedra e aura.
—Alenta estátua carregando a sua estrela até se atrasar
noutras pupilas deslumbradas.
a estátua que sobe o dia
inclinado, que entra no escuro com os olhos brancos.
O ar ilumina-lhe a boca.
Com dedos de ouro brusco a noite fecha-lhe
os músculos. Mas abrem-nos um fluxo de seiva,
uma temperatura de química
radiosa. Porque é no centro dessa massa
territorial
que o sangue estremece e desabrocha
entre pedra e aura.
—Alenta estátua carregando a sua estrela até se atrasar
noutras pupilas deslumbradas.
610
Herberto Helder
4M
Entre varais de sal, no fundo, onde se fica cego.
O coração é uma bolha,
a boca é uma bolha de oxigénio rude.
E brilha o corpo inteiro na espuma esbracejada
de um espelho. Nadador louco, vertical,
sôfrego,
só abre os olhos no abismo. Só quando fica
cego, entre varais de sal, no fundo.
Quando é uma bolha, ele todo, luzindo dos pulmões à cabeça
bêbeda. Ou entre as natações
que mão a mão tecem no bloco frígido as corolas
velocíssimas. É uma arte da síncope,
arborescente, uma tão íngreme
arte de cegar frente às pálpebras das ostras.
E os olhos defrontam as pupilas
hipnóticas, difíceis. Essa arte de lunação
das pérolas. Uma arte de olhar revolta, abrupta,
mergulhadamente.
De cegar quem as olha.
O coração é uma bolha,
a boca é uma bolha de oxigénio rude.
E brilha o corpo inteiro na espuma esbracejada
de um espelho. Nadador louco, vertical,
sôfrego,
só abre os olhos no abismo. Só quando fica
cego, entre varais de sal, no fundo.
Quando é uma bolha, ele todo, luzindo dos pulmões à cabeça
bêbeda. Ou entre as natações
que mão a mão tecem no bloco frígido as corolas
velocíssimas. É uma arte da síncope,
arborescente, uma tão íngreme
arte de cegar frente às pálpebras das ostras.
E os olhos defrontam as pupilas
hipnóticas, difíceis. Essa arte de lunação
das pérolas. Uma arte de olhar revolta, abrupta,
mergulhadamente.
De cegar quem as olha.
1 068
Herberto Helder
3G
Bate na madeira vermelha,
bate numa pedra com o buraco aberto à exaltação
da lua, bate onde
espumejam as ribeiras que atravessam
as embocaduras
siderais. E a madeira
levanta-se, chameja a pedra astrológica, cerra-se
a água nos cântaros de lava.
A altas atmosferas bate nas estâncias negras.
E eu durmo com o sangue luzindo na boca.
O ritmo lunar muda-me os sonhos.
O rosto queima-se.
Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
Aferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
inocência da terra.
bate numa pedra com o buraco aberto à exaltação
da lua, bate onde
espumejam as ribeiras que atravessam
as embocaduras
siderais. E a madeira
levanta-se, chameja a pedra astrológica, cerra-se
a água nos cântaros de lava.
A altas atmosferas bate nas estâncias negras.
E eu durmo com o sangue luzindo na boca.
O ritmo lunar muda-me os sonhos.
O rosto queima-se.
Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
Aferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
inocência da terra.
1 110
Herberto Helder
3F
Insectos nucleares, cor de púrpura, mortais, saídos reluzindo
de sob uma pedra onde
de que alucinação. Entrando no sono. Devoram uma zona rude e
incandescente
não sei se da cabeça.
Uma razão da melancolia, louca
de sangue. Devoram misteriosamente artérias, neurônios, células
deste aparelho de terror e pensamento
onde se apoia a estrela
talhada. E ficam sulfurosos
da substância do sonho. Leves quando arrancam
uma rosa de entre as meninges. Mas as moléculas das imagens
fazem-nos ferozes,
radioactivos.
Minam-me o pesadelo, saem ruivos, ébrios de um ouro
insalubre. E o mundo inteiro cede
ao peso que trazem à membrana entre as coisas
simples e o pavor das coisas
que crepitam.
Estátuas irrompendo da terra, que tumulto absorvem?
Os cabelos resplandecem.
Os símbolos que celebram dão à pedra uma tensão, um
desenvolvimento, uma aura.
Em cada uma delas eu abraço uma estrela.
Abraço-a ponta a ponta das mãos
numa só massa transpirada.
Arrebata-me, calcina-me.
O chão é a potência astronómica.
No escuro do ar rebentam floras. A carne única
vibra como uma vara
de baixo
para cima.
de sob uma pedra onde
de que alucinação. Entrando no sono. Devoram uma zona rude e
incandescente
não sei se da cabeça.
Uma razão da melancolia, louca
de sangue. Devoram misteriosamente artérias, neurônios, células
deste aparelho de terror e pensamento
onde se apoia a estrela
talhada. E ficam sulfurosos
da substância do sonho. Leves quando arrancam
uma rosa de entre as meninges. Mas as moléculas das imagens
fazem-nos ferozes,
radioactivos.
Minam-me o pesadelo, saem ruivos, ébrios de um ouro
insalubre. E o mundo inteiro cede
ao peso que trazem à membrana entre as coisas
simples e o pavor das coisas
que crepitam.
Estátuas irrompendo da terra, que tumulto absorvem?
Os cabelos resplandecem.
Os símbolos que celebram dão à pedra uma tensão, um
desenvolvimento, uma aura.
Em cada uma delas eu abraço uma estrela.
Abraço-a ponta a ponta das mãos
numa só massa transpirada.
Arrebata-me, calcina-me.
O chão é a potência astronómica.
No escuro do ar rebentam floras. A carne única
vibra como uma vara
de baixo
para cima.
576
Herberto Helder
3
Se abro os braços e rodo a toda a volta da luz. Se
a melodia. Se o copo freme na minha boca.
Se o vidro queima.
Se uma chaga.
Uma estrela que me calcina onde sou misterioso,
parado, leve.
Que a linha então com a agonia tão alto transcreve a música.
Porque são os filhos vivos da minha água
vibrante, do meu fôlego, mão a mão dos raios
de quando adormeço. Fibras que latejam
ao arrancarem-se. Com que varejo
trançadas em paus varejo
a árvore astral defronte com as bagas no escuro.
Áureos galhos onde friso as consoantes do canto abalado. Se o canto
perde o ouro.
Não perde o canto munificente o arrepio o baptismo
filho a filho
crispados com um cordão negro. Glóbulos
brilham pelas palavras dentro.
Esse tecido em sangue e incandescência que um hausto enche
filhos — a frase escrita em mim
amargamente às vezes
um tubo de flúor estua e fulgura na substância púrpura
onde se geram os filhos pulsando sem anéis nos dedos —
a melodia. Se o copo freme na minha boca.
Se o vidro queima.
Se uma chaga.
Uma estrela que me calcina onde sou misterioso,
parado, leve.
Que a linha então com a agonia tão alto transcreve a música.
Porque são os filhos vivos da minha água
vibrante, do meu fôlego, mão a mão dos raios
de quando adormeço. Fibras que latejam
ao arrancarem-se. Com que varejo
trançadas em paus varejo
a árvore astral defronte com as bagas no escuro.
Áureos galhos onde friso as consoantes do canto abalado. Se o canto
perde o ouro.
Não perde o canto munificente o arrepio o baptismo
filho a filho
crispados com um cordão negro. Glóbulos
brilham pelas palavras dentro.
Esse tecido em sangue e incandescência que um hausto enche
filhos — a frase escrita em mim
amargamente às vezes
um tubo de flúor estua e fulgura na substância púrpura
onde se geram os filhos pulsando sem anéis nos dedos —
564
Herberto Helder
4P
Mergulhador na radiografia de brancura escarpada.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona
do corpo e da onda.
A morte confundida fora e dentro.
Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona
do corpo e da onda.
A morte confundida fora e dentro.
Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.
572
Herberto Helder
4B
Aguas espasmódicas, luas repetidas nas águas.
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exaltadas. E o mundo, o espelho que as luas acordam e de onde
transbordam as águas, sou eu que o contemplo,
é ele que me contempla,
ou trocamo-nos? Vivemos pelo poder
das imagens. Pelo sangue e a inocência
e o ríspido esplendor e a crispação fundida e a matéria
ÚLTIMA CIÊNCIA 407
cardíaca e mútua.
— De nome em nome passam por mim os sopros.
Paisagem caiada, sangue até ao ramo das vértebras:
habitações concêntricas
de insónias, luzes, vozes, trevas, bebedeiras
— interiores,
nupciais,
atmosféricas.
Se Deus me toca no fundo da palavra.
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exaltadas. E o mundo, o espelho que as luas acordam e de onde
transbordam as águas, sou eu que o contemplo,
é ele que me contempla,
ou trocamo-nos? Vivemos pelo poder
das imagens. Pelo sangue e a inocência
e o ríspido esplendor e a crispação fundida e a matéria
ÚLTIMA CIÊNCIA 407
cardíaca e mútua.
— De nome em nome passam por mim os sopros.
Paisagem caiada, sangue até ao ramo das vértebras:
habitações concêntricas
de insónias, luzes, vozes, trevas, bebedeiras
— interiores,
nupciais,
atmosféricas.
Se Deus me toca no fundo da palavra.
1 212
Herberto Helder
2C
Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem
do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço e braço
ao coração sacudido. Eu — perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
para o meio. Quando este saco de sangue rodava
defronte da abertura
prodigiosa.
do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço e braço
ao coração sacudido. Eu — perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
para o meio. Quando este saco de sangue rodava
defronte da abertura
prodigiosa.
1 077
Herberto Helder
3C
Leões de pedra à porta de jardins alerta
— blocos zoológicos, laterais, devorados
por líquenes. Vem-lhes — de gotas, botânicas
vidradas, insectos,
o vento que os embriaga, as coisas plurais
da terra — esse
fluxo e refluxo de potência cega.
Se lhes toco nos flancos, ou nas jubas, ou entre
as patas dianteiras,
sinto dos dedos ao coração a tenebrosa
pancada do sangue.
— Guardo no meu segredo aquele segredo
central,
inseparável.
— blocos zoológicos, laterais, devorados
por líquenes. Vem-lhes — de gotas, botânicas
vidradas, insectos,
o vento que os embriaga, as coisas plurais
da terra — esse
fluxo e refluxo de potência cega.
Se lhes toco nos flancos, ou nas jubas, ou entre
as patas dianteiras,
sinto dos dedos ao coração a tenebrosa
pancada do sangue.
— Guardo no meu segredo aquele segredo
central,
inseparável.
1 030
Herberto Helder
6
Ele disse que
quando
lhe tocava nas zonas quentes a luz do vento abria as searas profundas
encapelava o ouro, os corredores do ar
através das palavras — perguntou:
porquê? O sangue bate mão na mão, perguntou se aquilo era tocar em tudo
disse: toco num objecto ele brilha
objectos que se crispam perguntou se os objectos eram espasmos
do espaço. Disse, os corpos são varas de ouro plantadas.
A seiva rutila nelas. Tocava, abalava organismos, elementos
límpidos, varas vivas.
O ar sem fundo erguia-se de dentro dos sítios. Disse:
o génio ininterrupto de multiplicares
o teu espaço luminoso — e
cada vara brilha de si mesma e da outra vara próxima.
Em que recessos te queimo, virgens, em que
inexplicáveis redes de imagens
buracos
de vento nas searas eriçadas varas com força?
Tu de onde o ar se levanta
se te afastas do teu nome até seres inominável quando toco
o teu nome se
te aproximas com o nome que tu és, essa abundância.
Ele disse: o remoinho da estrela na sua clareira.
Porque se fundem com os dedos as matérias selvagens, ah
como refulge o bocado de carne, que chegue
devagar à boca, refulja
ela também aquela que devora.
Células terríveis, como vibram, células das coisas que trazes
à sua pulsação. O mover
dos dedos move o mundo, disse que era o nexo oculto na arte
de cada coisa.
A leveza da mão desequilibra a chama, a atmosfera dá-lhe
tanta potência. Se te
toco, disse. Se
te devasto no recôndito empunhando as unhas contra a cabeça
coroada quando te deslocas a fôlego
e peso, as translações radiais de ti a mim. Toda
a electricidade
corre pelas fibras dos substantivos, acende-os, trança-os, transforma-os
numa
constelação vergada. Tu
transformas-te — alargas os braços apanhando a claridade onde
os longos arcos
reflexos:
o garfo na boca, a labareda cortada na testa, os laços de carne sob o vestido
com uma cor olhada instantânea.
Disse que a mão compõe a sintaxe de botões luzindo que
quando lhe tocava
o nome do mundo crescia tanto —
quando
lhe tocava nas zonas quentes a luz do vento abria as searas profundas
encapelava o ouro, os corredores do ar
através das palavras — perguntou:
porquê? O sangue bate mão na mão, perguntou se aquilo era tocar em tudo
disse: toco num objecto ele brilha
objectos que se crispam perguntou se os objectos eram espasmos
do espaço. Disse, os corpos são varas de ouro plantadas.
A seiva rutila nelas. Tocava, abalava organismos, elementos
límpidos, varas vivas.
O ar sem fundo erguia-se de dentro dos sítios. Disse:
o génio ininterrupto de multiplicares
o teu espaço luminoso — e
cada vara brilha de si mesma e da outra vara próxima.
Em que recessos te queimo, virgens, em que
inexplicáveis redes de imagens
buracos
de vento nas searas eriçadas varas com força?
Tu de onde o ar se levanta
se te afastas do teu nome até seres inominável quando toco
o teu nome se
te aproximas com o nome que tu és, essa abundância.
Ele disse: o remoinho da estrela na sua clareira.
Porque se fundem com os dedos as matérias selvagens, ah
como refulge o bocado de carne, que chegue
devagar à boca, refulja
ela também aquela que devora.
Células terríveis, como vibram, células das coisas que trazes
à sua pulsação. O mover
dos dedos move o mundo, disse que era o nexo oculto na arte
de cada coisa.
A leveza da mão desequilibra a chama, a atmosfera dá-lhe
tanta potência. Se te
toco, disse. Se
te devasto no recôndito empunhando as unhas contra a cabeça
coroada quando te deslocas a fôlego
e peso, as translações radiais de ti a mim. Toda
a electricidade
corre pelas fibras dos substantivos, acende-os, trança-os, transforma-os
numa
constelação vergada. Tu
transformas-te — alargas os braços apanhando a claridade onde
os longos arcos
reflexos:
o garfo na boca, a labareda cortada na testa, os laços de carne sob o vestido
com uma cor olhada instantânea.
Disse que a mão compõe a sintaxe de botões luzindo que
quando lhe tocava
o nome do mundo crescia tanto —
1 210
Herberto Helder
(É Uma Dedicatória)
Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.
— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.
— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
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