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Poemas neste tema

Corpo

Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

O Livro das Semelhanças

O modo como o seu nome dito muito baixo pode ser confundido com a palavra xícara
e como ele esquenta de dentro para fora
o modo como a palma das suas mãos se parece com porcelana trincada
o modo como ao levantar-se você lembra um grande felino
mas ao caminhar já não se parece com um animal mas com uma máquina rápida
e de costas sempre me lembra um navio partindo
embora de frente nunca pareça um navio chegando
o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra
que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas
o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra
que você acabou de inventar
o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva cartas
que deixamos de enviar produtos em liquidação frases escritas entre parênteses
papel de presente as toalhas que acabamos de usar e massa de pão
e, mais importante, o parentesco de tudo isso
com o modo como você chama o táxi por telefone
a camisa branca que você acabou de despir sempre me lembra um livro aberto ao sol
seus sapatos deixados na sala sempre me parecem ensaiar os primeiros passos de dança
numa versão musical para o cinema do seu livro preferido
o modo como no seu apartamento as coisas sempre parecem estar em casa
e você sempre parece estar de visita
e como você pede licença à penteadeira para chorar
o modo como as nossas conversas me lembram bilhetes interceptados cardápios de
restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes documentos comidos nas bordas
por filhotes de cão
o modo como os seus cabelos parecem as linhas de um livro lido por uma criança
que ainda não sabe ler
ou apenas desenhos que alguém por equívoco tomasse por escrita
o modo como os seus sonhos parecem os pensamentos de pessoas que sobreviveram
a um desastre de avião
parecem as lembranças de um ex-boxeador apaixonado
parecem os projetos de futuro de crianças muito pequenas
parecem os contos de fadas preferidos de ditadores sanguinários
os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de armar as primeiras viagens sem
os pais os países coloridos de vermelho no mapa-múndi pessoas que sempre esquecem
as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a disposição para usar a violência
o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém
a não ser talvez com certas coisas
similares a nada
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José Saramago

José Saramago

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Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará

Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento

Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham

Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos

Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres

Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra

Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega

Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores

Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas

Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo

Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se

Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar

Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas

Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados

Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular

E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
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José Saramago

José Saramago

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Os ordenadores utilizados pelo ocupante são alimentados a carne humana porque a electrónica não pode bastar a tudo

E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas

É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores

Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante

A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores

Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço

Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas

A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro

Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios

E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade

Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada

Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
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José Saramago

José Saramago

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Não admira que fosse preciso reaprender a linguagem simplificada da fome e do frio

E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha

Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis

Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais

Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam

Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas

E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria

Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres

Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se

Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito

E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias

Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim

Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo

Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
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