Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
59. Consoladora (Como) Considerando Estrelas
59
Consoladora (como) considerando estrelas
imprevistas aqui a mão mantendo a mão
como parte inerente a outro corpo escrito
inversão não ou vida, inclusão no viver.
Perante um tu que não se evoca aqui
perante um tu que é desejo de
invocação e terra, negação do sangue,
ou inscrição do sangue na madeira negra.
Tudo o que consome o sabor da terra
será a consumação do culto desta terra
que não é jardim mas cujo espaço é o espaço
e um jardim que se ama: o jardim do espaço.
Consoladora (como) considerando estrelas
imprevistas aqui a mão mantendo a mão
como parte inerente a outro corpo escrito
inversão não ou vida, inclusão no viver.
Perante um tu que não se evoca aqui
perante um tu que é desejo de
invocação e terra, negação do sangue,
ou inscrição do sangue na madeira negra.
Tudo o que consome o sabor da terra
será a consumação do culto desta terra
que não é jardim mas cujo espaço é o espaço
e um jardim que se ama: o jardim do espaço.
980
António Ramos Rosa
85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra
85
Vagos sinais dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único
este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul
e
que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
Vagos sinais dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único
este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul
e
que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
528
António Ramos Rosa
56. Mancha da Perna Maternal
56
Mancha da perna maternal
robusta
no pomar secreto na recente vinda
do pai descendo um pouco tímido na água.
Dir-te-ei pela água sexual
do não crime de ver-te
pela vez absoluta do olhar negro
como se não fosses a pequena deusa que não és.
Não tímida não secreta mas pobre de água
olho de um joelho límpido
prosa da terra não sulcada ainda.
Mancha da perna maternal
robusta
no pomar secreto na recente vinda
do pai descendo um pouco tímido na água.
Dir-te-ei pela água sexual
do não crime de ver-te
pela vez absoluta do olhar negro
como se não fosses a pequena deusa que não és.
Não tímida não secreta mas pobre de água
olho de um joelho límpido
prosa da terra não sulcada ainda.
988
António Ramos Rosa
62. Não a Raiva Perspicaz E Ainda Ordenadora
62
Não a raiva perspicaz e ainda ordenadora
mas a perna límpida, mas a perna negra
será obsessão atravessando a página
até à periferia ou à margem de cada
verso ou linha do texto ou do poema
ou não poema. Tudo o que é poema,
inanição — a lâmpada da inanição existe
num bairro pobre a uma esquina visível.
Essa lâmpada é de um amarelo de larva
e revela toda a solidão inenarrável.
Ela é a lâmpada mais triste: o informulado existe.
Não a raiva perspicaz e ainda ordenadora
mas a perna límpida, mas a perna negra
será obsessão atravessando a página
até à periferia ou à margem de cada
verso ou linha do texto ou do poema
ou não poema. Tudo o que é poema,
inanição — a lâmpada da inanição existe
num bairro pobre a uma esquina visível.
Essa lâmpada é de um amarelo de larva
e revela toda a solidão inenarrável.
Ela é a lâmpada mais triste: o informulado existe.
1 040
António Ramos Rosa
53. Lâmina — Dirá, E Escrita
53
Lâmina — dirá, e escrita
da rapariga incerta em certa escrita
da mão suave suspensa sobre
um vazio límpido.
E qual seja a forma
e o aspecto da figura escrita
será o fruto carnal de uma impureza
igual ao corpo livre não escrito.
E qual e qual a folha
a abrir a folha
do corpo — lâmina suspensa
e todavia dita da figura incerta.
Lâmina — dirá, e escrita
da rapariga incerta em certa escrita
da mão suave suspensa sobre
um vazio límpido.
E qual seja a forma
e o aspecto da figura escrita
será o fruto carnal de uma impureza
igual ao corpo livre não escrito.
E qual e qual a folha
a abrir a folha
do corpo — lâmina suspensa
e todavia dita da figura incerta.
1 051
António Ramos Rosa
47. Trata-Se da Escrita E do Objecto, a Coisa
47
Trata-se da escrita e do objecto, a coisa
táctil ansiosa busca no amor da mesa
dom de incandescência a que se chama lâmpada
e contra a exuberância da tirania idêntica.
Ferida amorosa na obscuridade verde
folhagem na parede reflexos na lâmina
donde emerge o sem-sentido da quimera terrestre.
Ó eternidade efémera da palavra terra
mão da sombra e pedra e fogo impuro
bronze do seio istmo dos instantes.
Trata-se da escrita e do objecto, a coisa
táctil ansiosa busca no amor da mesa
dom de incandescência a que se chama lâmpada
e contra a exuberância da tirania idêntica.
Ferida amorosa na obscuridade verde
folhagem na parede reflexos na lâmina
donde emerge o sem-sentido da quimera terrestre.
Ó eternidade efémera da palavra terra
mão da sombra e pedra e fogo impuro
bronze do seio istmo dos instantes.
975
António Ramos Rosa
39. Esta É a Folha, E a Folha
39
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.
Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.
E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.
Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.
E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
592
António Ramos Rosa
2. a Perda da Pedra Inerte E Pobre
2
A perda da pedra inerte e pobre
e a exuberância do seio do corpo elástico
contrasta o negro e o rubro do viver a árvore
vermelha e negra musical secreta.
Contraste dos joelhos: no azul: no verde
e é ferida e não imagem que se beija
na selva do corpo em raiva rouca
tronco de beleza no não-instante instante.
Perda brusca descoberta límpida
das pernas em relevo viva água
da boca e dos seus dentes e das unhas
que rasgam os membros da matéria
nunca usada e não virgem e branca
elástico animal exuberante ardente
e grande e belo como o sol no seio.
A perda da pedra inerte e pobre
e a exuberância do seio do corpo elástico
contrasta o negro e o rubro do viver a árvore
vermelha e negra musical secreta.
Contraste dos joelhos: no azul: no verde
e é ferida e não imagem que se beija
na selva do corpo em raiva rouca
tronco de beleza no não-instante instante.
Perda brusca descoberta límpida
das pernas em relevo viva água
da boca e dos seus dentes e das unhas
que rasgam os membros da matéria
nunca usada e não virgem e branca
elástico animal exuberante ardente
e grande e belo como o sol no seio.
1 054
António Ramos Rosa
44. Permanecer Aqui (E Quando?)
44
Permanecer aqui (e quando?)
iniciará o quando que não se sabe
e adoraremos o sol do corpo breve.
No percurso ou no aspecto da sombra
abriremos um veio de felicidade límpida
e seremos os que não sabem e salvam
a brevidade do não viver sem sol.
Animais e barcos cintilações e sombras
pureza das pernas sem adornos nobres
pedra da permanência e do percurso límpido.
Permanecer aqui (e quando?)
iniciará o quando que não se sabe
e adoraremos o sol do corpo breve.
No percurso ou no aspecto da sombra
abriremos um veio de felicidade límpida
e seremos os que não sabem e salvam
a brevidade do não viver sem sol.
Animais e barcos cintilações e sombras
pureza das pernas sem adornos nobres
pedra da permanência e do percurso límpido.
917
António Ramos Rosa
16. Tecida a Paciência do Tecido
16
Tecida a paciência do tecido
se escrevo o tempo exíguo
e ela dança sem lâmpada sem véus.
Vermelha a lança a nascer da perna
volumosa e dura sem face
figura de alta árvore
e obscena sóbria sem folhagem.
Ela dupla na marcha sobre
a pedra e pedra bem de pedra
o taco do tacão negro
tornando a perna incorruptível
pedra branca.
Tecida a paciência do tecido
se escrevo o tempo exíguo
e ela dança sem lâmpada sem véus.
Vermelha a lança a nascer da perna
volumosa e dura sem face
figura de alta árvore
e obscena sóbria sem folhagem.
Ela dupla na marcha sobre
a pedra e pedra bem de pedra
o taco do tacão negro
tornando a perna incorruptível
pedra branca.
998
António Ramos Rosa
Os Primeiros Sinais Diferentes…
Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
1 380
António Ramos Rosa
23. Clamor do Sangue Respiração Montanha
23
Clamor do sangue respiração montanha
renascendo sobre os sabres luz do corpo
riso informulado do respirar da árvore.
E folha sobre folha ardência de outro corpo
e mais ardor de ser mais corpo sobre o corpo
vivacidade vermelha de inesgotável óleo.
Terra e sangue maravilha negra
de substância de entusiasmo e altitude
ilimitado corpo sobre o campo iluminado.
Clamor do sangue respiração montanha
renascendo sobre os sabres luz do corpo
riso informulado do respirar da árvore.
E folha sobre folha ardência de outro corpo
e mais ardor de ser mais corpo sobre o corpo
vivacidade vermelha de inesgotável óleo.
Terra e sangue maravilha negra
de substância de entusiasmo e altitude
ilimitado corpo sobre o campo iluminado.
1 170
António Ramos Rosa
As Musas
Donde estou vejo-a nua com os joelhos sustentando a lua. O céu como se fosse a sua enorme sombra multiplicada está cheio de estrelas: estrelas na sombra do seu corpo. É como se fosse universal. Há o campo que nos envolve inteiro, ora num abraço raso de planícies, ora num abraço curvo de montanhas. Ergue-se por fim e os seus passos ardentes encaminham-se para as nascentes dos rios gerando ininterruptamente as manhãs. As suas palavras são totais de sílabas translúcidas. Na sua pele dura há a força da conquista e da marcha.
*
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
*
É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
*
É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
*
Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
*
Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
*
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
*
É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
*
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
*
É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
*
É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
*
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
*
É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
*
É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
*
Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
*
Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
*
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
*
É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
*
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
*
É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
*
É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
1 244
António Ramos Rosa
22. a Pergunta da Mão Aberta
22
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.
Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.
Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.
Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.
Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
954
António Ramos Rosa
42. Depressa Antes De
42
Depressa antes de
talvez seja o acto de ser na folha
talvez o sangue ascenda à lâmpada da língua.
Quando (aqui: é o desejo) a folha
na limpeza do vento
descubra as brancas pernas altas da mulher
a alegria da nudez
do súbito do ser.
Depressa na lentidão do acto azul
por dentro do opaco na direcção partida
fora do círculo no aberto instante.
Depressa antes de
talvez seja o acto de ser na folha
talvez o sangue ascenda à lâmpada da língua.
Quando (aqui: é o desejo) a folha
na limpeza do vento
descubra as brancas pernas altas da mulher
a alegria da nudez
do súbito do ser.
Depressa na lentidão do acto azul
por dentro do opaco na direcção partida
fora do círculo no aberto instante.
953
António Ramos Rosa
34. a Que For Nua a Nua Nuvem
34
A que for nua a nua nuvem
branca e por ser pobre lâmpada
por amor de Sílvia e suas pernas altas
por amor dos seus pequenos pulsos.
Pela imagem da folha em ti aberta
pelos cabelos pelos ombros por estas sílabas
por todo o frágil fragmento Sílvia
tu serás incandescente como a silva ardente.
Por ti que nunca foste a alta
rapariga que tu foste por ti Sílvia
eu não escrevo as palavras florescentes
mas o túmulo pobre do amor ausente.
A que for nua a nua nuvem
branca e por ser pobre lâmpada
por amor de Sílvia e suas pernas altas
por amor dos seus pequenos pulsos.
Pela imagem da folha em ti aberta
pelos cabelos pelos ombros por estas sílabas
por todo o frágil fragmento Sílvia
tu serás incandescente como a silva ardente.
Por ti que nunca foste a alta
rapariga que tu foste por ti Sílvia
eu não escrevo as palavras florescentes
mas o túmulo pobre do amor ausente.
1 109
António Ramos Rosa
14. Este (Aqui Formulado) Sobre Os Cílios
14
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.
Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.
Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.
Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.
Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
1 058
António Ramos Rosa
1. o Grito Que Não Chama, a Chama Verde
1
O grito que não chama, a chama verde
submersa ou não, é a não-leitura
do corpo calado que o poema lê.
E o silêncio, o silêncio do grito
é sempre outro, além, nos muros, sobre a sebe
nunca a serpente ou serpentina mas
o grito na neve, o grito sob a neve.
Quem pára sobre a nuvem sobre a boca
dá o sinal do grito se aqui o grito
não clama o clamor mas incendeia
a não-leitura — leitura das trevas verdes
em que a boca sobrenada sobre nada
grita o silêncio do grito o grito do silêncio.
O grito que não chama, a chama verde
submersa ou não, é a não-leitura
do corpo calado que o poema lê.
E o silêncio, o silêncio do grito
é sempre outro, além, nos muros, sobre a sebe
nunca a serpente ou serpentina mas
o grito na neve, o grito sob a neve.
Quem pára sobre a nuvem sobre a boca
dá o sinal do grito se aqui o grito
não clama o clamor mas incendeia
a não-leitura — leitura das trevas verdes
em que a boca sobrenada sobre nada
grita o silêncio do grito o grito do silêncio.
1 163
António Ramos Rosa
43. Definição do Dia Pela Palavra do Corpo
43
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
1 071
António Ramos Rosa
7. Amor da Imagem Ferida Aberta
7
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.
Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.
Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.
Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.
Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
1 152
António Ramos Rosa
27. Aspecto de — Ou Circunstância Simples
27
Aspecto de — ou circunstância simples
do pobre membro inútil de tão pobre
que ninguém diz a terra e o muro de cinza
que ninguém fala do membro pobre e nu.
A não verdade e a verdade, a dupla
vulva longa e querida impenetrável
despe o membro da terra/adoração
do simples sol pequeno mas palpável.
O nascimento é isto: o isto
de nenhuma fala, escrita na
parede corrompida e curta
onde está o membro, o sol pequeno.
Aspecto de — ou circunstância simples
do pobre membro inútil de tão pobre
que ninguém diz a terra e o muro de cinza
que ninguém fala do membro pobre e nu.
A não verdade e a verdade, a dupla
vulva longa e querida impenetrável
despe o membro da terra/adoração
do simples sol pequeno mas palpável.
O nascimento é isto: o isto
de nenhuma fala, escrita na
parede corrompida e curta
onde está o membro, o sol pequeno.
975
António Ramos Rosa
36. Imagem (Não Ardente Aqui) da Figura
36
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
1 059
António Ramos Rosa
8. E Boca Ou Acidente de Palavra
8
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
1 079
António Ramos Rosa
4. Não Será o Anjo do Losango Azul
4
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
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