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Corpo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Estamos À Sombra de Uma Grande Folha Verde

Estamos à sombra de uma grande folha verde.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.

como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.

A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas. Que vegetal suavidade há nesse olhar de um mocho liberto da incandescente noite dos seus olhos, liberto da densa noite animal, da negrura cósmica, todo ele restituído à cálida pureza de uma verde claridade diurna arrancada às trevas brilhantes do olhar profundo e vazio. Há nesta doce e tranquila claridade verde a ligeira ondulação de certas superfícies de água cuja imobilidade não anula o ténue fluir da corrente que a conduz. É a densidade mansa da espessura materna, o sol verde coado pelo fundo e vindo à tona como uma larga e lisa folha de água.

A circulante fronteira
entre a terra e a água
entre o verde e a treva
entre a raiz e a flor
entre a noite e a luz
entre as veias e o espaço.

Habitamos a espessura do fundo obscuro da floresta-mar, mas somos ao mesmo tempo reconduzidos a um campo de claridade em que o informulado se metamorfoseou na límpida e fixa pureza de um olhar.
Habitamos a superfície, a verdadeira superfície, a verde pele de um corpo, um seio de terra e água onde a boca dos olhos e o olho da boca se dessedentam desde as raízes da sede, onde todos os poros do olhar se nutrem como pólipos que se distendessem até atingirem a aderência pura à lisa parede de água materna. Formas cumpridas como frutos fixos, compactos, límpidos, nutridos do radioso vigor de todo um percurso de seiva irradiando na amplitude mas cuja nítida generosidade evitou a dissipação mantendo a plenitude concêntrica no aberto movimento da irradiação.
No interior, na perfeita suavidade do interior aberto, visão no limite em que a imobilidade, ou a suspensão, dir-se-ia oferecer-nos a própria matéria do olhar, a libertação da visão em si mesma, essa delicadíssima flutuação de algas, anémonas, estrelas-do-mar, captação viva do movimento de uma subtilíssima percepção a um tempo musical e poética e todavia essencialmente pictórica. Tal percepção mantém a compacidade do objecto, o contorno, a luz e o sabor das suas formas, a sua densidade de coisa. Mas para além da fixidez e da retenção que poderiam congelar a vida das formas, para além dos respeitados limites objectivos que poderiam circunscrever-se à fria perfeição das linhas, existe este vigor verde, este maternal e puro saber da vida que vai encontrando as flexões, os ritmos e o pulsar da verdadeira terra original, de um mundo descoberto na sua pureza radiosa.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Espessura É Branca

A espessura da árvore
é branca

A casa repercute
os favos do silêncio

Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem

O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo

Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura

Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio

A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor

Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão

O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.

Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.

Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.

Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.

Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.

Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.

Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.

Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.

A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.

Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Horizontal Linguagem

Há demasiadas sombras sobre a pedra
aqui o sol é branco            o sol é branco
nenhum animal avança sobre o ramo
se nada vejo já e não verei é porque vejo
o desejo e a sombra         a sombra e o desejo

Ruptura ou inversão do objecto
do desejo        a sua cor é a do animal
na água         a água aqui no novo
espaço

A boca bebe sombra e água
bebe
sombra
e
água

Na página         o sol é branco
o sol
*
Estas pedras sem aranhas
são palavras
nuas
uma corrente límpida atravessa a página
uma árvore irrompe
nova edição de folhas
um sopro sobre os olhos sobre as pernas
a fenda negra e crespa sangra sobre a boca
sangue e cal
saliva sombra
*
Mutação de cores e música de lâmpadas

Em qualquer outra parte dir-se-ia um beijo
aqui é a trajectória da sombra branca

e de súbito vermelha num território de verdura ardente

Noutro país seria o mistério do crepúsculo
sobre um corpo inerme e verde
noutro país
mas aqui

Esplendor de um corpo penetração solar
mutação da lua em sol de língua em língua
livre caos na caverna limpidez nas trevas
e o que é a boca na boca a música do sol
e a densidade azul a aliança lisa
os nomes com os nomes lâminas lábios
fogo água argila sangue

Corrente de lâmpadas
brancas
os arcos
da água sobre as ancas destes deuses ou insectos
os números e as formigas doces as árvores das muralhas
a terra
e os seus ombros descobertos gotejantes
a tua garganta alta
as tuas pernas altas
o esplendor e a sombra do teu corpo
tudo se transforma no esplendor
da página
mutação rumor ou música
*
O corpo e a terra uniram-se num corpo
numa página
as pernas sobre as pernas eis o sol
o novo sol nos braços
e
nos dentes
eu como-te nas ervas
no silêncio da folhagem

E eu digo que tu és o meu silêncio
e bebo-te

Esta é a terra do corpo
e a cúpula do desejo com a sombra
e
uma espécie de música incerta o sussurro de um insecto

Que violência nova na muralha
do teu corpo
e nas palavras do teu corpo
incandescente

Entre os dentes da sombra
uma agonia verde um esplendor
o enigma da terra
o silêncio
*
Que terra ainda e sempre
a amplitude        Agora

ouvimos outras bocas entre as lâmpadas
latejantes
quem canta? Ninguém Alguém
Entre ouvir e não ouvir existe um sim
Se soubéssemos o que sabemos não saberíamos
A torre transformou-se numa planície vermelha
A caverna mudou-se num rio luminoso
*
Quando viveste
se é agora que vives
se é agora agora
que caminhas
no sol novo

A terra Aqui escrita uma vez mais Uma única vez
aqui a folhagem límpida
sobre a muralha
e o teu próprio corpo contra
é ainda uma muralha
contra a muralha verde e sombria, gotejante

Ouvimos agora a torrente do silêncio
ouvimos o silêncio e
os nomes
*
Ascendem brancas pernas bocas entre lâmpadas
altos seios
e o interior de um barco os sexos verdes
braços ou polvos estrelas animais redondos

Não dissemos amor mas aqui e agora
é um rio, um rio e não sabemos
o que sabemos: água ou fogo, água e fogo, sangue

Caminhamos Flutuamos Navegamos no fogo
da água
é o nosso sangue, o sangue de outros, o sangue
de ninguém
e onde termina
o que principia?

Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor
bocas vivas braços vivos olhos vivos
e mãos vivas
escrevem
como se fossem apenas
esta mão
sobre esta folha
o rio de fogo que não cessa
*
E eis que de novo a sombra cai
sobre a pedra
ou sobre a mão

Onde de novo a luz do sol

Recomeço o que nunca cessa
a outra mão
aquela
que descreve o que a outra escreve
e a surpresa nasce de um novo sol
jogo de sombras e reflexos pálpebras
dedos suaves sobre suaves sexos olhos
que são palavras e palavras que são olhos
dizem tudo o que não dizem, dizem,
inexplicável corrente em mutação constante,
espelho e muralha, luz e sombra,
entre a terra e a página, entre a treva e a música
animais animais são bocas que dizem bocas
e são formas de amor sofrimento e medo
atravessam écrans entre ofuscantes lâmpadas
esgueiram-se, fluidas, em rios e rios de espelhos
*
Por vezes as palavras quase se perdem quase
nem música nem treva,
mas uma mancha de cal
uma mão decepada
mas apenas um sombrio sussurro

Mas tudo podem ser e mesmo nada
e entre nada e nada
lançam ainda um arco
que pode ser de água ou de silêncio

Sangue
argila
fogo
ou terra

Incessantes entre o branco e o sangue
entre a terra e a página
elas recomeçam Chamo-lhes pedras
ou folhagem
e são surpresas de água ou fogo e sombra

E recomeçam E recomeçam
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