Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
Seja o Que For Murmúrio Muro
Seja o que for Murmúrio muro
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
1 029
António Ramos Rosa
Vem de Noite É Um Murmúrio
Vem de noite é um murmúrio
na mão sobre a areia
Vem não um volume aceso
mas quem o lê na folha quem
o transforma
nos sinais que buscam a imagem
que a outra boca
muda
modela
no próprio corpo diverso e semelhante
à sua imagem
Vem com a lâmpada da terra
e o sabor às raízes e aos dentes no deserto
na aridez que inflama os seus sinais
na mão sobre a areia
Vem não um volume aceso
mas quem o lê na folha quem
o transforma
nos sinais que buscam a imagem
que a outra boca
muda
modela
no próprio corpo diverso e semelhante
à sua imagem
Vem com a lâmpada da terra
e o sabor às raízes e aos dentes no deserto
na aridez que inflama os seus sinais
1 000
António Ramos Rosa
Eis a Primeira Proposição Clara
Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
986
António Ramos Rosa
Quase Nada Ou Nada
Por quase nada ou nada
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
1 048
António Ramos Rosa
A Mulher Sem
Tu és a mulher agora sem a música
sem os espelhos e os cabelos
sem palavras como pálpebras ou espáduas
sem ombros
nua
mas sem ventre
sem púbis
sem sexo
extenuada na página deserta
derrubada como um grito
contra o muro
presa de um soluço na parede
rompendo como uma chama escura
em busca de outros nomes
que não lembrem a água
do teu corpo
que não vejam senão a cegueira
desse instante
branco
em que viste a outra face da distância
o abismo da outra face das palavras
sem os espelhos e os cabelos
sem palavras como pálpebras ou espáduas
sem ombros
nua
mas sem ventre
sem púbis
sem sexo
extenuada na página deserta
derrubada como um grito
contra o muro
presa de um soluço na parede
rompendo como uma chama escura
em busca de outros nomes
que não lembrem a água
do teu corpo
que não vejam senão a cegueira
desse instante
branco
em que viste a outra face da distância
o abismo da outra face das palavras
565
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
967
António Ramos Rosa
Corpo Solto Instantâneo…
Corpo solto instantâneo entre as árvores e o mar, margem de uma claridade de lâmina deserta, corpo devastado pela usura última, caminhando como na primeira página do deserto e já pressentindo e perdendo a primeira palavra do mar.
1 096
António Ramos Rosa
Quase Se Disse Quase
Quase se disse quase
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
1 075
António Ramos Rosa
Se Fosse o Espaço Ou o Corpo
Se fosse o espaço ou o corpo
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
529
António Ramos Rosa
Amamos Num Vislumbre Terra Suspensa
Amamos num vislumbre terra suspensa
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
1 029
António Ramos Rosa
Há Um Animal Que Ilumina o Caminho
Há um animal que ilumina o caminho
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
1 119
António Ramos Rosa
Braço Feliz Ardente
Braço feliz ardente
pulso dentro
de um rasgar de acender
a nudez verde
parte de ser
a delícia da parte
o todo de encanto caindo sobre a face
Verão animal
da mão
até ao seio
a frescura do centro
a bondade mais grossa mais divina
O ser redondo
em partes
num tumulto
de espuma sobre lábios
e cabelos
até que o silêncio beije a praia rasa
pulso dentro
de um rasgar de acender
a nudez verde
parte de ser
a delícia da parte
o todo de encanto caindo sobre a face
Verão animal
da mão
até ao seio
a frescura do centro
a bondade mais grossa mais divina
O ser redondo
em partes
num tumulto
de espuma sobre lábios
e cabelos
até que o silêncio beije a praia rasa
522
António Ramos Rosa
Na Dispersão Unida
Na dispersão unida
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
1 103
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
Ferozmente nulo humilde árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
994
António Ramos Rosa
O Grito Cego
à Ana
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras
linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras
aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez
caudal abrindo o ciclo do declive
A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se
a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores
vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço
corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras
linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras
aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez
caudal abrindo o ciclo do declive
A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se
a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores
vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço
corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
1 170
António Ramos Rosa
Exploração Submarina
a Jean Laude
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam
de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto
primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente
aqui mais forte o nome
da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando
o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro onde culminam
secretas palavras que iluminam um rosto
as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas
evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo O corpo abre-se
Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água
a pupila dilata-se
a pele entrega-se só um corpo
existe entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)
e a figura ilumina-se
no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa
Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase e os vários níveis
dos templos do tempo
(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado
um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam
de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto
primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente
aqui mais forte o nome
da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando
o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro onde culminam
secretas palavras que iluminam um rosto
as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas
evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo O corpo abre-se
Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água
a pupila dilata-se
a pele entrega-se só um corpo
existe entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)
e a figura ilumina-se
no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa
Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase e os vários níveis
dos templos do tempo
(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado
um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
1 014
António Ramos Rosa
Se Existe Uma Figura Ela É Volátil
Se existe uma figura ela é volátil
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
1 007
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 045
António Ramos Rosa
A Mão Seria de Fugitiva Espécie
A mão seria de fugitiva espécie
no ar
de algum arbusto
e que desejo extremo
o pulso
sobre a boca suspensa
O corpo no interior da chama verde
da folhagem
o corpo no interior do corpo ardente
braço dentro
do fogo
sobre
o rosto da figura ilesa
roxo sobre a erva
O espírito das pernas tão redondas lentas
o penetrante gesto no puro ardor
das folhas
no ar
de algum arbusto
e que desejo extremo
o pulso
sobre a boca suspensa
O corpo no interior da chama verde
da folhagem
o corpo no interior do corpo ardente
braço dentro
do fogo
sobre
o rosto da figura ilesa
roxo sobre a erva
O espírito das pernas tão redondas lentas
o penetrante gesto no puro ardor
das folhas
984
António Ramos Rosa
O Seio Jovem
O seio jovem,
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
1 121
António Ramos Rosa
A Partir da Ausência
Imaginar a forma
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
1 126
António Ramos Rosa
Conduz a Mão
Conduz a mão
a negro
vela plástica
rugosa e larga grave
ó boca que
te entreabres
devagar e sobre a perna
silenciosa Soberba linha que
se fez trave
e torno
e dói de ser
torso da latitude pura e alta
lâmina quente
gume cume gomo
coxas para envolver cabeças braços
um arranque total
o ser no vértice
do chão
a negro
vela plástica
rugosa e larga grave
ó boca que
te entreabres
devagar e sobre a perna
silenciosa Soberba linha que
se fez trave
e torno
e dói de ser
torso da latitude pura e alta
lâmina quente
gume cume gomo
coxas para envolver cabeças braços
um arranque total
o ser no vértice
do chão
944
António Ramos Rosa
Em Abandono Límpido a Brancura
Em abandono límpido a brancura
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
1 019
António Ramos Rosa
3. Para o Incêndio da Festa
Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
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