Criatividade e Inspiração
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um Poeta Clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo
Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda
Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos
Nuno Júdice
Receita para fazer o azul
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
Nuno Júdice
Verbo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca - onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.
Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.
Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.
Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
Raquel Nobre Guerra
Aprendi a tranquilidade
com o domínio de um coração baixo.
De me perturbar menos a posição astrológica
de certas palavras no coração do verso.
Houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse humor
que me cheguei de cara toda à carcaça
julgando que o bife na mesa fosse meu.
Mas a natureza morta da metáfora
não me deu talho para o poema.
Sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre nós
como um sol mobilizado para a morte.
Sei, porque me chego para a frente com força
que o poeta transporta um saco de luz
com um coração doente que canta
mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro.
Que não me falhe a pontaria na hora de traçar
uma obra futura para nutrimento do espírito
- essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja mais
que cair na tentação de durar por escrito.
Minto, porque cedo ao poder das palavras
o que trago no saco são coisas remendadas
que vou deixando cair.
Se ao menos tivesse dois ou três dentes de ouro
e na lei que me confere vencida a ética
fizesse, como tu, felizes tantas bocas.
Mas aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço sombrio
um príncipe melancólico com abalos de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher
a correr urgências psiquiátricas para arranjar namoradinho.
Reconheço, no meio disto, a cantiga do bandido.
Se ao menos aprendesse a bravura dos recrutas:
Vá - pago um copo / a quem disser que me ama!
Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob mim.
Corrijam-me se estiver errada
mas a razão comovida de tudo
podia começar por aqui.
Agradecer aos destroços, abrir lume,
destinar-lhe estas últimas sete palavras.
Ser convicto enfim mesmo sem saber como.
Nuno Júdice
Recitação, no espelho definitivo
O processo não é novo e a sua eficácia depende
do grau de desenvolvimento da consciência
que quem escreve tem de si próprio. Se eu me perguntasse
"conheço-me", e a seguir respondesse afirmativamente, estaria
perto desse estado.
Mas não me perguntei nada,
e antes disso não tinha qualquer resposta.
Vi então que os meus gestos eram a repetição mecânica deles próprios.
Mas, enquanto se sucediam, algo instalava uma diferente disposição
dos seus elementos verbais (ainda que subjectivos), insinuando uma nova
época de Prosa. E a compreensão geral surgiu.
Era tempo para que ela se formasse no interior do cérebro,
o envolvesse ("tentacularmente").
Daí para a frente tive tudo nas mãos. As mãos faziam
com que eu escrevesse, davam-me de comer, vestiam-me,
dispunham os diversos elementos sobre um tabuleiro abstracto
- que alguém disse ser "eu próprio".
E é por isso que já não digo nada. É por isso que estou aqui,
sem me mexer, de pé e batido pelo vento,
de mãos nos bolsos e sem dizer nada.
Nuno Júdice | "As Inumeráveis Águas", 1974
.
Nuno Júdice
Extractos
- tal é o sentido actual das minhas palavras.
Voo sobre as linhas semelhantes, as outras asas;
elas dissipam a turbulência dos meus gestos, prevendo
que vou cair. Já não é possível a exploração interior de
[um espírito calcinado.
De cada vez que me impeço de ser preciso
vomito água pelas orelhas. Surgirá um barco?
O monótono enjoo do mar,
a inteligente mecânica do fumo.
Compreenda-se a minha atitude.
Para que é que sirvo durante um tremor de alma?
Para que é que me fecho num canto?
Senti que a obstinação do ritmo romperia algo na vida.
Voei sem asas, sem a vertigem da altitude, sem sentimento para
[o Azul.
Como se a literatura se ficasse pelo chão...
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 78 | Quetzal Editores, 1991
Manuel António Pina
A leitura
ave imortal não nascida para morrer
que imovelmente me fita da lembrança,
alguma voz anterior fala no que posso escrever
e no que posso ler; talvez o anjo cabalístico
tocando-me o lábio superior ao nascer
me tenha condenado ao destino paroxístico
e ocioso de repetir, repetir, repetir,
até, puro de novo, me calar por fim,
eu que, com minhas mãos, matei o albatroz,
que culpa penará então a minha alheia voz
dos meus versos, nos vossos errando sem mim?
Não, não me peçais ainda concordância,
estarei ocupado de mais à minha escuta
no coração e na boca, no oiro e na cicuta,
e na escuridão dos livros, talvez os da minha infância.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 308 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
O movimento do mundo
se olha para o mundo; as coisas revelam-se
naquilo que imaginação alguma a supôs; e
o centro desloca-se de onde estava, desde
a origem, obrigando o pensamento a rodar
noutra direção. O poema, no entanto, não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua
essência reside no fragmento de um absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver mais
do que isso - o desperdício da antiga
perfeição - e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
Fernando Pessoa
Quero versos que sejam como jóias
Para que durem no porvir extenso
E os não macule a morte
Que em cada cousa a espreita,
Versos onde se esquece o duro e triste
Lapso curto dos dias e se volve
À antiga liberdade
Que talvez nunca houvemos.
Aqui, nestas amigas sombras postas
Longe, onde menos nos conhece a história
Lembro os que urdem, cuidados,
Seus descuidados versos.
E mais que a todos te lembrando, escrevo
Sob o vedado sol, e, te lembrando,
Bebo, imortal Horácio,
Supérfluo, à tua glória...
Fernando Pessoa
49 - MOOD
I tremble at my very glee.
Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
A lust‑like spirituality.
It makes me one with all the grass.
My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
Shakes off red petals from my hours
And my heart sulters without showers.
Then God becomes a vice of mine
And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.
My thoughts and feelings mingle and form
A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.
My parched thoughts mix and occupy
Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.
I am a drunkard of my thoughts.
My feelings' juice o'erruns my soul.
My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
To beauty in my verses' dole.
Fernando Pessoa
MEN OF TO-DAY
Before you were the things we see
Who gave a guess or gave a thought
That such as you to‑day should be?
Ah, passers by the common way,
Who thought of ye before to‑day?
Men of to‑day, to‑morrow's dust,
When years have past where shall ye go?
What vulgar daub or hurried lust [...]
Shall chronicle your joy and woe?
Waves on the crest of life's swift sea,
After to‑day who'll think of ye?
Genius alone can rouse the fire
That in your glorious nature lies;
Genius alone can strike the Iyre
And raise your name to mortal skies;
Genius of death can tear the pall
And yester's nought may be an all.
But virtue, fool, like human tears,
By sand of earth too surely drunk,
Sinks in the dust of passing years,
Nor knowest thou where has it sunk.
Let genius then the laurel wear;
To‑morrow's dust may live for e'er.
Fernando Pessoa
Minha oração-cavalgada!
Minha saudação-arranco!
Quem como tu sentiu a vida individual de tudo?
Quem como tu esgotou sentir-se — a vida — sentir-nos?
Quem como tu tem sempre o sobresselente por próprio
E transborda por norma da norma — forma da Vida?
(...)
a minha alegria é uma raiva,
o meu arranco um choque
(Pá!)
em mim...
Saúdo-te em ti ó Mestre da minha doença de saúde,
o primeiro doente perfeito da universalite que tenho
o caso-nome do “mal de Whitman” que há dentro de mim!
St. Walt dos Delírios Ruidosos e a Raiva!
Fernando Pessoa
Para saudar-te
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo
Tudo cantavas, e em ti cantava tudo —
Tolerância magnífica e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo
Fernando Pessoa
Never have I so deeply felt my exclusion from mankind.
To one side the sane, to the other side the lame and the halt and the blind;
To one side the healthy, the good, the strong, those in life's prime,
To the other side the slaves of genius, of madness, of crime.
Build prisons and hospitals and Bedlams. To one side the glad,
To the other side the sickly, the stupid, the ill and the mad.
At no time have I felt so deep the gulf between me and men.
Is it idiocy, madness or crime, or genius - or what is this pain?
I have felt it to-day with full truth and have felt to remember it well:
I am one thrown aside ‑ a torturer and tortured in my being's hell;
Yet I asked not to live, nor had choice of my living's rotten worth,
I had no power on my life, nor am I guilty of my birth.
So I shall sing my song without hope, cheerless and forlorn,
That men may learn - at least they may laugh - to what some hearts are born;
Song all mystery, all symbols, contradictions in ignoble dance,
But that this is madness complete not the smallest ignorance;
Song all of tortures of soul, of a being's human abysm
And never a doubt but this is but raving egotism;
Song of evil, song of hate, song of revolt, song of love
Of Nature, of Mother Nature, the earth at my feet and the sky above;
Song of the hatred of customs, of creeds, of conventions, of institutions
Song of madness unpondering to human prostitutions;
Song of one that better were dead, song of one set aside,
Song of one that hell and earth conspired and combined to deride.
Peace! let the sane be set on that side and the mad on this side.
Fernando Pessoa
Há tanto tempo que não sou capaz
De escrever um poema extenso!
Há anos...
Perdi a virtude do desenvolvimento rítmico
Em que a ideia e a forma,
Numa unidade de corpo com alma,
Unanimemente se moviam...
Perdi tudo que me fazia consciente
De uma certeza qualquer no meu ser...
Hoje o que me resta?
O sol que está sem que eu o chamasse...
O dia que me não custou esforço...
Uma brisa, com a festa de uma brisa
Que me dão uma consciência do ar...
E o egoísmo doméstico de não querer mais nada
Mas, ah!, minha Ode Triunfal ,
O teu movimento rectilíneo!
Ah, minha Ode Marítima
A tua estrutura geral em estrofe antiestrofe e epodo!
E os meus planos, então, os meus planos —
Esses é que eram as grandes odes.
E aquela a última a suprema a impossível!
Fernando Pessoa
E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
Fernando Pessoa
Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.
Fernando Pessoa
III - Análogo começo,
Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo,
Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.
O interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.
Timbre do vespertino,
Ali, caricia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN
Eu, o ritmista febril
Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira,
Para quem, por baixo da metáfora aparente,
Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo,
Que por detrás do delírio construo
Que por detrás de sentir penso
Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida,
Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma,
Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo
Nos meus momentos de alma multiplicados em verso.
Mas o ar do mar alto
Chega, por um influxo de dentro do meu sangue
Ao meu cérebro desterrado em terra,
E a fúria com que medito, a raiva com que me domino
Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares
Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...)
Fernando Pessoa
Even as great Macchiavel, shut fast from all,
His court dress donned to visit his invention,
So I, when the commanding Muse doth call,
Give to the wide world sleep and inattention.
I close the door to all the man in me,
To friend, relation, countryman and self,
Closeting myself with eternity
And both the good and ill of me do shelf.
I strive to please Athena, not mankind.
No time shall call me out, or place seduce,
Nor ache to please, nor fear to offend me blind
To the great passion for true beauty's use.
Mine own self I displease, if it so fit
The claiming tyranny and press of wit.
Fernando Pessoa
Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [a]
Um comboio de criança movido a corda, puxado a cordel
Tem mais movimento real do que os nossos versos...
Os nossos versos que não têm rodas
Os nossos versos que não se deslocam
Os nossos versos que, nunca lidos, não saem para fora do papel.
(Estou farto — farto da vida, farto da arte —,
Farto de não ter coisas, a menos ou a medo —
Rabo-leva da minha respiração chagando a minha vida,
Fantoche absurdo de feira da minha ideia de mim.
Quando é que parte o último comboio?)
Sei que cantar-te assim não é cantar-te — mas que importa?
Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te,
Sei que é cantar-me a mim — mas cantar-me a mim é cantar-te a ti
Sei que dizer que não posso cantar é cantar-te, WaIt, ainda...
Fernando Pessoa
No meu verso canto comboios
Mas no meu verso, por mais que o ice, ha só ritmos e ideias,
Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,
Não há a realidade da pedra mais nula da rua,
Da pedra que por acaso ninguém olha ao pisar
Mas que pode ser olhada, pegada na mão, pisada,
E os meus versos são como ideias que podem não ser compreendidas.
O que eu quero não é cantar o ferro: é o ferro.
O que eu penso é dar só a vida do aço — e não o aço —
O que me enfurece em todas as emoções da inteligência
É não trocar o meu ritmo que imita a água cantante
Pelo frescor real da água tocando-me nas mãos,
Pelo som visível do rio onde posso entrar e molhar-me,
Que pode deixar o meu fato a escorrer,
Onde me posso afogar, se quiser,
Que tem a divindade natural de estar ali sem literatura.
Merda! Mil vezes merda para tudo o que eu não posso fazer.
Que tudo, Walt — [...] ? — que é tudo, tudo, tudo?
Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus
Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne
E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito!
Para ter estrelas reais dentro do meu pensamento-ser
Nomes-números nos confins da minha emoção-a-Terra.
Fernando Pessoa
Futilidade, irrealidade, (...) estática de toda a arte,
Condenação dos artistas a não viver!
Ó quem nos dera, Walt,
A terceira coisa, a média entre a arte e vida
A coisa que sentiste, e não seja estática nem dinâmica,
Nem real nem irreal
Nem nós nem os outros —
Mas como até imaginá-la?
Ou mesmo apreendê-la
Mesmo sem a esperança de não a ter nunca?
A dinâmica pura, a velocidade em si,
Aquilo que dê absolutamente as coisas,
Aquilo que chegue tactilmente aos sentidos,
Construamos comboios, Walt, e não os cantemos,
Cavemos e não cantemos, meu velho, o cavador e o campo,
Provemos e não escrevamos,
Amemos e não construamos,
Metamos dois tiros de revólver na primeira cabeça com chapéu
E não façamos onomatopeias inúteis e vãs no nosso verso
No nosso verso escrito em prosa, e depois [....].
Poema que esculpisse em Móvel e Eterno a escultura,
Poema que (...)se palavras
Que (...) ritmo o canto, a dança e (...)
Poema que fosse todos os poemas,
Que dispensasse bem outros poemas,
Poema que dispensasse a Vida.
Irra, faço o que quero, estorça o que estorça no meu ser central,
Force o que force em meus nervos industriados a tudo,
Maquine o que maquine no meu cérebro furor e lucidez,
Sempre me escapa a coisa em que eu penso,
Sempre me falta a coisa que (...) e eu vou ver se me falta,
Sempre me falta, em cada cubo, seis faces,
Quatro lados em cada quadrado do que quis exprimir,
Três dimensões na solidez que procurei perpetuar...
Sempre um comboio de criança movido a corda, a corda,
Terá mais movimento que os meus versos estáticos e lidos,
Sempre o mais verme dos vermes, a mais química célula viva
Terá mais vida, mais Deus, que toda a vida dos meus versos,
Nunca como os duma pedra todos os vermelhos que eu descreva,
Nunca como numa música todos os ritmos que eu sugira!
Nunca como (...)
Eu nunca farei senão copiar um eco das coisas,
O reflexo das coisas reais no espelho baço de mim.
A morte de tudo na minha sensibilidade (que vibra tanto!)
A secura real eterna do rio lúcido da minha imaginação!
Quero cantar-te e não posso cantar-te, Walt!
Quero dar-te o canto que te convenha,
Mas nem a ti, nem a nada, — nem a mim, ai de mim! — dou um canto...
Sou um surdo-mudo berrando em voz alta os seus gestos,
Um cego fitando à roda do olhar um invisível-tudo
Assim te canto, Walt, dizendo que não posso cantar-te!
Meu velho comentador da multiplicidade das coisas,
Meu camarada em sentir nos nervos a dinâmica marcha
Da perfeita físico-química da
Da energia fundamental da aparência das coisas para Deus,
Da distinta forma de sujeito e objecto para além da vida
Andamos a jogar às escondidas com a nossa intenção...
Fazemos arte e o que queremos fazer afinal é a vida.
O que queremos fazer já está feito e não está em nós fazê-Io,
E fá-lo o [...] melhor do que nós, mais de perto,
Mais instintivamente [...]
Sim, se o que nos poemas é o que vibra e fala,
4O mais casto gesto da vida é mais sensual que o mais sensual dos poemas,
Porque é feito por alguém que vive, porque é (...) porque é Vida.