Poemas neste tema
Desejo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dançam As Árvores Puras Sacudidas
Pelas chuvas verdes
O dia tem em si mãos interrompidas
Que um desejo absurdo ergue.
O dia tem em si mãos interrompidas
Que um desejo absurdo ergue.
1 136
Adélia Prado
Inconcluso
O dia em sua metade
e o calor do corpo ainda não me deixou.
Ele estava em minha casa e ia comer conosco.
Enquanto a mãe cozinhava,
esgueirou-se e disse no meu ouvido:
Quero falar com você.
Vamos até ali, respondi abrasada,
medrosa de que alguém nos visse.
Chegara com um frango depenado
— o que não me abalava o enlevo —
como se me testasse:
A quem não ama seu corpo,
sua alma lhe fecha a porta.
Ai, que meu pai não me visse assim tão ofegante
e estumasse seu nariz perdigueiro
à cica que me entranhava.
O sonho acabou aqui, onde estou até agora
ardente e virgem.
e o calor do corpo ainda não me deixou.
Ele estava em minha casa e ia comer conosco.
Enquanto a mãe cozinhava,
esgueirou-se e disse no meu ouvido:
Quero falar com você.
Vamos até ali, respondi abrasada,
medrosa de que alguém nos visse.
Chegara com um frango depenado
— o que não me abalava o enlevo —
como se me testasse:
A quem não ama seu corpo,
sua alma lhe fecha a porta.
Ai, que meu pai não me visse assim tão ofegante
e estumasse seu nariz perdigueiro
à cica que me entranhava.
O sonho acabou aqui, onde estou até agora
ardente e virgem.
1 190
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esgotei o Meu Mal, Agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.
Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.
Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
1 611
Adélia Prado
Quarto de Costura
Um óvulo imaginado,
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
1 467
Adélia Prado
Anjo Mau
O que desejo é o corpo
e não beijo.
O que desejo é o corpo
e não toco.
Quando vem a dádiva
já tenho o lábio torto de irrisão.
Vai morrer, digo à boca.
Vai secar, digo à mão.
Bela como um arcanjo,
uma força de danação
quer me perder.
e não beijo.
O que desejo é o corpo
e não toco.
Quando vem a dádiva
já tenho o lábio torto de irrisão.
Vai morrer, digo à boca.
Vai secar, digo à mão.
Bela como um arcanjo,
uma força de danação
quer me perder.
1 269
Adélia Prado
Pingentes de Citrino
Tão lírica minha vida,
difícil perceber onde sofri.
Depois de décadas de reprimido desejo,
furei as orelhas.
Miúdos como grãos de arroz,
brinquinhos de pouco brilho
me tornam mais bondosa.
Fora minhas irmãs,
que também pagam imposto
ao mesmo comedimento,
quase ninguém notou.
Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.
difícil perceber onde sofri.
Depois de décadas de reprimido desejo,
furei as orelhas.
Miúdos como grãos de arroz,
brinquinhos de pouco brilho
me tornam mais bondosa.
Fora minhas irmãs,
que também pagam imposto
ao mesmo comedimento,
quase ninguém notou.
Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.
1 041
Adélia Prado
O Noviço E a Abstinência de Preceito
Tenho dificuldade em comer folhas,
mesmo as que eu próprio lavo
com óculos de aumento e rios d’água.
Minha carne quer outra carne,
vermelha entre dourados
de gordura amarela gotejante.
Não me vale saber das excelências do verde,
meu lábio treme à vista de suculências.
Aos rigores da lei
— paulina ou não —
minha fortaleza é a da mostarda.
Um grão.
mesmo as que eu próprio lavo
com óculos de aumento e rios d’água.
Minha carne quer outra carne,
vermelha entre dourados
de gordura amarela gotejante.
Não me vale saber das excelências do verde,
meu lábio treme à vista de suculências.
Aos rigores da lei
— paulina ou não —
minha fortaleza é a da mostarda.
Um grão.
1 202
Adélia Prado
O Vivente
Sem avisos se mostra
a duração perfeita,
forma que de si mesma se acrescenta
e na mesma medida permanece.
Contemplá-la
é querer para si toda a pobreza.
Não causa medo,
só o belo tremor da noiva
deixando a casa paterna.
O que diz é: vem.
O que é: abismo.
Puro gozo
que à medida que come
mais tem fome.
a duração perfeita,
forma que de si mesma se acrescenta
e na mesma medida permanece.
Contemplá-la
é querer para si toda a pobreza.
Não causa medo,
só o belo tremor da noiva
deixando a casa paterna.
O que diz é: vem.
O que é: abismo.
Puro gozo
que à medida que come
mais tem fome.
1 108
Adélia Prado
Branco E Branco
Fervor, afoiteza, beco estreito,
menino com menina,
flores chamadas lírios,
dente novo mordendo talo verde,
como se o sangue deles fosse branco.
menino com menina,
flores chamadas lírios,
dente novo mordendo talo verde,
como se o sangue deles fosse branco.
1 183
Adélia Prado
A Noiva
Meu bem supremo é o lugar
onde sonhar é a máxima vigília.
Em qualquer reluzente coisa eu o procuro,
bem que só a mim servirá,
os sapatos da Cinderela.
Talismã ou relíquia,
seu ouro me apela às núpcias,
por orgulho meu de pobreza
sempre procrastinadas.
Mas chega a hora e é esta
em que se não o acolher
o noivo se irá desesperado de mim
morar com outra menina
na reluzente montanha.
onde sonhar é a máxima vigília.
Em qualquer reluzente coisa eu o procuro,
bem que só a mim servirá,
os sapatos da Cinderela.
Talismã ou relíquia,
seu ouro me apela às núpcias,
por orgulho meu de pobreza
sempre procrastinadas.
Mas chega a hora e é esta
em que se não o acolher
o noivo se irá desesperado de mim
morar com outra menina
na reluzente montanha.
1 168
Adélia Prado
Aqui, Tão Longe
Neste bairro pobre todos têm um real
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
1 183
Adélia Prado
Rute No Campo
No quarto pequeno
onde o amor não pode nem gemer
admiro minhas lágrimas no espelho, sou humana,
quero o carinho que à ovelha mais fraca se dispensa.
Não parecem ser meus meus pensamentos.
Alguns versos restam inaproveitáveis,
belos como relíquias de ouro velho quebrado,
esquecidas no campo à sorte de quem as respigue.
A nudez apazigua porque o corpo é inocente,
só quer comer, casar, só pensa em núpcias,
comida quente na mesa comprida
pois sente fome, fome, muita fome.
onde o amor não pode nem gemer
admiro minhas lágrimas no espelho, sou humana,
quero o carinho que à ovelha mais fraca se dispensa.
Não parecem ser meus meus pensamentos.
Alguns versos restam inaproveitáveis,
belos como relíquias de ouro velho quebrado,
esquecidas no campo à sorte de quem as respigue.
A nudez apazigua porque o corpo é inocente,
só quer comer, casar, só pensa em núpcias,
comida quente na mesa comprida
pois sente fome, fome, muita fome.
1 252
Adélia Prado
Tal Qual Um Macho
Comi em frente da televisão
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
1 001
Adélia Prado
Outubro
El macaquito diria
se falasse espanhol
mas só sei português
e bater um coco no outro
ignorante e atrevida.
Outubro me dá desejos
secretos e confessáveis.
Grito alto
pelos mesmos motivos das cigarras.
se falasse espanhol
mas só sei português
e bater um coco no outro
ignorante e atrevida.
Outubro me dá desejos
secretos e confessáveis.
Grito alto
pelos mesmos motivos das cigarras.
1 244
Adélia Prado
A Santa Ceia
Começou dizendo: o amor...
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
1 332
Adélia Prado
Portunhol
Quero dizer
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
1 154
Adélia Prado
Pastoral
Quando, por demasiada,
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
1 261
Adélia Prado
A Terceira Via
Jonathan me traiu com uma mulher
que não sofreu por ele
um terço do que eu sofri;
uma mulher turista espairecendo na Europa.
Jonathan é bastante tolo.
Estou sem saber se me mudo
para alguém mais ladino,
se espero Jonathan crescer.
Sem descasar-me, sem gastar um tostão,
o moço oferece-me pensamentos diários
com irresistível margem de perigos:
posso ficar tísica,
posso engordar,
posso entender de física,
posso jejuar
produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz: ‘Deus é um tijolo,
está aqui no nariz do meu cachorro.
Eu sou puro pecado.’
E imediatamente come docinho de aletria
com descansada certeza:
‘Irei salvar-me porque Deus me ama.’
Não tenho o peito de Ismália
pra chegar perto de Deus.
Por isso fico ganindo
e chego perto dos homens,
cheiro a camisa de Pedro,
o travo ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou
quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha.
Da geração da cachaça,
do é ou não é,
do ou casa ou vai pro convento,
não posso ser gay e dizer: depende,
vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega
ou na santidade mais rigorosa.
Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas,
por que os santos levitam.
Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico,
minha unha é como meu sexo.
Meu pé te deseja, meu nariz.
Meu espírito — que é o alento de Deus em mim —
[te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, estático
— Francisco e o Serafim, abrasados —,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...
que não sofreu por ele
um terço do que eu sofri;
uma mulher turista espairecendo na Europa.
Jonathan é bastante tolo.
Estou sem saber se me mudo
para alguém mais ladino,
se espero Jonathan crescer.
Sem descasar-me, sem gastar um tostão,
o moço oferece-me pensamentos diários
com irresistível margem de perigos:
posso ficar tísica,
posso engordar,
posso entender de física,
posso jejuar
produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz: ‘Deus é um tijolo,
está aqui no nariz do meu cachorro.
Eu sou puro pecado.’
E imediatamente come docinho de aletria
com descansada certeza:
‘Irei salvar-me porque Deus me ama.’
Não tenho o peito de Ismália
pra chegar perto de Deus.
Por isso fico ganindo
e chego perto dos homens,
cheiro a camisa de Pedro,
o travo ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou
quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha.
Da geração da cachaça,
do é ou não é,
do ou casa ou vai pro convento,
não posso ser gay e dizer: depende,
vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega
ou na santidade mais rigorosa.
Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas,
por que os santos levitam.
Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico,
minha unha é como meu sexo.
Meu pé te deseja, meu nariz.
Meu espírito — que é o alento de Deus em mim —
[te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, estático
— Francisco e o Serafim, abrasados —,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...
1 715
Adélia Prado
Poema Para Menina-Aprendiz
Hoje aqui em Divinópolis
está desesperador
mas ninguém escapará
à sedução da minha paciência.
A meninazinha insiste
em arrumar a cozinha para mim,
parece uma imperatriz: ‘sai daqui’.
O homem sério insinua-se:
‘te aprecio mais sem óculos’,
um homem desanimador.
Pelo que disse
sobre a memória histórica da aldeia,
a edilidade vai me ovacionar;
no entanto,
se me escavarem nada encontrarão
a não ser desejo,
quase ingratidão.
Sai a romaria para Congonhas do Campo,
quero ir também,
pegar poeira por debaixo das unhas.
Tem mais alguma coisa pra lavar?
Tem, sim, o encardido da alma,
um grão de esperança lava.
Pode ir brincar, Beatriz.
está desesperador
mas ninguém escapará
à sedução da minha paciência.
A meninazinha insiste
em arrumar a cozinha para mim,
parece uma imperatriz: ‘sai daqui’.
O homem sério insinua-se:
‘te aprecio mais sem óculos’,
um homem desanimador.
Pelo que disse
sobre a memória histórica da aldeia,
a edilidade vai me ovacionar;
no entanto,
se me escavarem nada encontrarão
a não ser desejo,
quase ingratidão.
Sai a romaria para Congonhas do Campo,
quero ir também,
pegar poeira por debaixo das unhas.
Tem mais alguma coisa pra lavar?
Tem, sim, o encardido da alma,
um grão de esperança lava.
Pode ir brincar, Beatriz.
1 471
Adélia Prado
Memória Amorosa
Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!
1 205
Adélia Prado
O Pelicano
Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi — como vi o navio — um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
— a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria.
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi — como vi o navio — um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
— a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria.
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
2 795
Adélia Prado
Não-Blasfemo
Deus não tem vontade. Eu, sim,
porque sou impressionável e pequena
e nunca mais tive paz desde que há muitos anos
pus meus olhos em Jonathan.
Meus olhos e em seguida minha alma.
Nada mais quis até hoje.
Como serei julgada,
se meu medo se esvai, o meu medo do inferno,
da face do Deus raivoso?
O princípio da sabedoria é agora minha coragem
de viajar pressurosa para onde ele estiver.
Meu coração não pensa
e meu coração sou eu e seu desejo incansável.
A menina falou espantosamente:
‘É impossível pensar em Deus.’
E foi este o meu erro todo o tempo,
Deus não existe assim pensável.
Não sei vos reproduzir como é a testa de Jonathan,
mas quando ele me toca é no seio de Deus que eu fico,
um seio que não me repele.
Assim,
cumpro o desígnio da divina vontade:
seu queixo agora, Jonathan,
seu riso quase escarninho,
seu modo de não me ver.
Entalho a beleza de Deus.
porque sou impressionável e pequena
e nunca mais tive paz desde que há muitos anos
pus meus olhos em Jonathan.
Meus olhos e em seguida minha alma.
Nada mais quis até hoje.
Como serei julgada,
se meu medo se esvai, o meu medo do inferno,
da face do Deus raivoso?
O princípio da sabedoria é agora minha coragem
de viajar pressurosa para onde ele estiver.
Meu coração não pensa
e meu coração sou eu e seu desejo incansável.
A menina falou espantosamente:
‘É impossível pensar em Deus.’
E foi este o meu erro todo o tempo,
Deus não existe assim pensável.
Não sei vos reproduzir como é a testa de Jonathan,
mas quando ele me toca é no seio de Deus que eu fico,
um seio que não me repele.
Assim,
cumpro o desígnio da divina vontade:
seu queixo agora, Jonathan,
seu riso quase escarninho,
seu modo de não me ver.
Entalho a beleza de Deus.
1 275
Adélia Prado
O Sacrifício
Não tem mar, nem transtorno político,
nem desgraça ecológica
que me afastem de Jonathan.
Vinte invernos não bastaram
pra esmaecer sua imagem.
Manhã, noite, meio-dia,
como um diamante,
meu amor se perfaz, indestrutível.
Eu suspiro por ele.
Casar, ter filhos,
foi tudo só um disfarce, recreio,
um modo humano de me dar repouso.
Dias há em que meu desejo é vingar-me,
proferir impropérios: maldito, maldito.
Mas é a mim que maldigo,
pois vive dentro de mim
e talvez seja Deus fazendo pantomimas.
Quero ver Jonathan
e com o mesmo forte desejo
quero adorar, prostrar-me,
cantar com alta voz Panis Angelicus.
Desde a juventude canto.
Desde a juventude desejo e desejo
a presença que para sempre me cale.
As outras meninas bailavam,
eu estacava querendo
e só de querer vivi.
Licor de romãs,
sangue invisível pulsando na presença Santíssima.
Eu canto muito alto:
Jonathan é Jesus.
nem desgraça ecológica
que me afastem de Jonathan.
Vinte invernos não bastaram
pra esmaecer sua imagem.
Manhã, noite, meio-dia,
como um diamante,
meu amor se perfaz, indestrutível.
Eu suspiro por ele.
Casar, ter filhos,
foi tudo só um disfarce, recreio,
um modo humano de me dar repouso.
Dias há em que meu desejo é vingar-me,
proferir impropérios: maldito, maldito.
Mas é a mim que maldigo,
pois vive dentro de mim
e talvez seja Deus fazendo pantomimas.
Quero ver Jonathan
e com o mesmo forte desejo
quero adorar, prostrar-me,
cantar com alta voz Panis Angelicus.
Desde a juventude canto.
Desde a juventude desejo e desejo
a presença que para sempre me cale.
As outras meninas bailavam,
eu estacava querendo
e só de querer vivi.
Licor de romãs,
sangue invisível pulsando na presença Santíssima.
Eu canto muito alto:
Jonathan é Jesus.
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Adélia Prado
Carta
Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
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