Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Martha Medeiros
nós que nós amávamos tanto
nós que nós amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
1 196
Martha Medeiros
foi então que ela viu no calendário
foi então que ela viu no calendário
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês
foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês
foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez
1 153
Martha Medeiros
você chegou com uma nova versão
você chegou com uma nova versão
do passado
e mais que apressado
esqueceu
que o que passou
ficou do meu lado
do passado
e mais que apressado
esqueceu
que o que passou
ficou do meu lado
1 102
Martha Medeiros
o término da nossa relação
o término da nossa relação
foi pra mim um choque térmico
não senti mais teu calor
nunca te vi tão frio
foi pra mim um choque térmico
não senti mais teu calor
nunca te vi tão frio
986
Martha Medeiros
passei tanto tempo procurando as palavras
passei tanto tempo procurando as palavras
que resumiriam nossa relação
mas tudo o que encontrei
foi pontuação
exclamações, interrogações, reticências
muita vírgula no lugar errado
tremas e acentos desatualizados
aspas que deixavam tudo formal
e um ponto final pra lá de precipitado
que resumiriam nossa relação
mas tudo o que encontrei
foi pontuação
exclamações, interrogações, reticências
muita vírgula no lugar errado
tremas e acentos desatualizados
aspas que deixavam tudo formal
e um ponto final pra lá de precipitado
967
Martha Medeiros
depois de tudo o que falamos na sala
depois de tudo o que falamos na sala
fiquei a ouvir teu ronco na cama
referencial diário do nosso casamento moderno
fiquei a ouvir teu ronco na cama
referencial diário do nosso casamento moderno
1 132
Martha Medeiros
bem que me avisaram
bem que me avisaram
ficarás sozinha e mal falada
dolorida e abandonada
à mercê dos tubarões
mas não pude resistir
foi mais forte os calafrios
agora a ver navios
nunca mais os garanhões
ficarás sozinha e mal falada
dolorida e abandonada
à mercê dos tubarões
mas não pude resistir
foi mais forte os calafrios
agora a ver navios
nunca mais os garanhões
1 037
Martha Medeiros
caprichei na meia-calça
caprichei na meia-calça
preparei a meia-luz
irrompi à meia-noite
ficou tudo meia-boca
preparei a meia-luz
irrompi à meia-noite
ficou tudo meia-boca
1 042
Martha Medeiros
amor por correspondência
amor por correspondência
tem problema de fuso horário
ele me entende tarde demais
eu desisto dele muito cedo
tem problema de fuso horário
ele me entende tarde demais
eu desisto dele muito cedo
1 177
Martha Medeiros
a emoção que veio vermelha
a emoção que veio vermelha
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele
1 237
Sophia de Mello Breyner Andresen
Como Todo o Amor Humano
Eras impuro, falso e vil,
Mas eu ergui a perfeição do teu perfil
Na manhã d’hoje em frente do Oceano.
Mas eu ergui a perfeição do teu perfil
Na manhã d’hoje em frente do Oceano.
1 206
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema Perdido
Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão
E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão
E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.
1 362
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xiv. Através do Teu Coração Passou Um Barco
Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
1 473
Sophia de Mello Breyner Andresen
Será Possível
Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
1 050
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lamentação de Adriano Sobre a Morte de Antinoos
Não escreverei mais o meu nome em letras gregas sobre a cera das tabuinhas
Porque estás morto
E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina
Porque estás morto
E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina
1 161
Sophia de Mello Breyner Andresen
Traduzido de Kleist
Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos
1 601
Sophia de Mello Breyner Andresen
Saga
Aos outros dei aquilo que não eram
E por isso depois me arrependi.
Um homem morto em tudo o que perdi —
E olhos que são meus e não me esperam.
E por isso depois me arrependi.
Um homem morto em tudo o que perdi —
E olhos que são meus e não me esperam.
1 555
Sophia de Mello Breyner Andresen
Aquelas Cujos Ombros Se Extinguiram
Contra os muros dum quarto misterioso
Onde há uma janela voltada para longe
Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas
Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.
Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
Onde há uma janela voltada para longe
Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas
Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.
Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
1 172
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Por Que Será Que Não Há Ninguém No Mundo
Por que será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
1 148
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mais do Que Tudo, Odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.
1 078
Sophia de Mello Breyner Andresen
Às Vezes Julgo Ver Nos Meus Olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
1 192
Adélia Prado
A Diva
Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
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