Poemas neste tema
Dor e Desespero
Salgado Maranhão
ESTILETES
Tornaram-se estiletes,
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.
713
Salgado Maranhão
NOZ
As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
720
Charles Bukowski
Os Cães Latem Facas
jesus cristo os cães latem facas
e nos elevadores
homens como brinquedos de armar
decidem minha vida e minha morte;
os falcões são vesgos
e não há nada para salvar;
saibamos o impossível
saibamos que homens fortes morrem aos magotes,
saibamos que o amor é comprado e criado
como um cão de estimação - um cão que late facas
ou um cão que late amor;
saibamos que viver uma vida
entre bilhões de idiotas com a sensibilidade de moléculas
é em si uma arte;
saibamos manhãs e noites e
perfídia;
partamos com as andorinhas
linchemos a última esperança
encontremos o cemitério dos elefantes
e o cemitério dos loucos;
e aqueles que cantam suas próprias canções
que as cantem para os idiotas e os mentirosos
e os planejadores de estratégias
em um jogo chato demais para as crianças;
só existe um modo de viver
que é estar só,
e só um modo de morrer, que é o mesmo;
ouvi a marcha de seus exércitos
por todos esses anos;
que aborrecido -
o que eles querem e o que eles ganharam;
que aborrecido eles serem meus donos
e provavelmente me seguirem na morte
trazendo mais morte à morte;
o caminho todo é oco -
eu toco um pequeno anel no meu dedo
e respiro o ar
derrotado.
e nos elevadores
homens como brinquedos de armar
decidem minha vida e minha morte;
os falcões são vesgos
e não há nada para salvar;
saibamos o impossível
saibamos que homens fortes morrem aos magotes,
saibamos que o amor é comprado e criado
como um cão de estimação - um cão que late facas
ou um cão que late amor;
saibamos que viver uma vida
entre bilhões de idiotas com a sensibilidade de moléculas
é em si uma arte;
saibamos manhãs e noites e
perfídia;
partamos com as andorinhas
linchemos a última esperança
encontremos o cemitério dos elefantes
e o cemitério dos loucos;
e aqueles que cantam suas próprias canções
que as cantem para os idiotas e os mentirosos
e os planejadores de estratégias
em um jogo chato demais para as crianças;
só existe um modo de viver
que é estar só,
e só um modo de morrer, que é o mesmo;
ouvi a marcha de seus exércitos
por todos esses anos;
que aborrecido -
o que eles querem e o que eles ganharam;
que aborrecido eles serem meus donos
e provavelmente me seguirem na morte
trazendo mais morte à morte;
o caminho todo é oco -
eu toco um pequeno anel no meu dedo
e respiro o ar
derrotado.
1 110
Charles Bukowski
Van Gogh e 9 Rodadas Do Jogo
as noites de navio de guerra na Geórgia
quando todos nós
naufragamos.
você sabe? houve esse russo que
saltava acompanhando a música tão bem que o fazia chorar
e ele ficou louco
e eles o puseram em algum lugar e o
alimentaram e
lhe deram choques com fios elétricos e água fria
e depois
água quente e ele escreveu livros sobre si mesmo
que ele não conseguia ler
ou lembrar.
lá fora no jogo
em Atlanta
eu os via correndo, suando,
e eu sentado lá pensando no
holandês
(em vez do russo)
o holandês com a pincelada com escova de
dentes
que nunca aprendeu a misturar suas tintas
apropriadamente e que nem mesmo conseguiu fazer
que uma puta o amasse
e então tudo acabou
para ele e para a puta
e ele cortou sua orelha e continuou a
implorar por tintas
e eles escrevem livros a seu respeito
agora
mas ele está morto e não os pode ler
e eu vi algumas das suas coisas em uma
galeria
ano passado - eles as haviam amarrado e
vigiado de modo que você não pudesse tocar as
obras.
alguém venceu o jogo em Atlanta e a
puta
não quis sua
orelha.
quando todos nós
naufragamos.
você sabe? houve esse russo que
saltava acompanhando a música tão bem que o fazia chorar
e ele ficou louco
e eles o puseram em algum lugar e o
alimentaram e
lhe deram choques com fios elétricos e água fria
e depois
água quente e ele escreveu livros sobre si mesmo
que ele não conseguia ler
ou lembrar.
lá fora no jogo
em Atlanta
eu os via correndo, suando,
e eu sentado lá pensando no
holandês
(em vez do russo)
o holandês com a pincelada com escova de
dentes
que nunca aprendeu a misturar suas tintas
apropriadamente e que nem mesmo conseguiu fazer
que uma puta o amasse
e então tudo acabou
para ele e para a puta
e ele cortou sua orelha e continuou a
implorar por tintas
e eles escrevem livros a seu respeito
agora
mas ele está morto e não os pode ler
e eu vi algumas das suas coisas em uma
galeria
ano passado - eles as haviam amarrado e
vigiado de modo que você não pudesse tocar as
obras.
alguém venceu o jogo em Atlanta e a
puta
não quis sua
orelha.
952
Charles Bukowski
Abandono da Luta
cometeram seu primeiro erro quando
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
1 128
Charles Bukowski
Adeus, Meu Amor
cinza mortifera de tudo
o que nós desmanchamos em pedaços
arrancamos a cabeça
os braços
as pernas
cortamos fora os órgãos sexuais
mijamos no coração
cinza mortífera de tudo
em todo lugar
as calçadas agora estão mais duras
os olhos do populacho mais cruéis
a música mais insípida
cinza
eu fui deixado com pura
cinza
primeiro nós mijamos no coração
agora nós mijamos na cinza.
o que nós desmanchamos em pedaços
arrancamos a cabeça
os braços
as pernas
cortamos fora os órgãos sexuais
mijamos no coração
cinza mortífera de tudo
em todo lugar
as calçadas agora estão mais duras
os olhos do populacho mais cruéis
a música mais insípida
cinza
eu fui deixado com pura
cinza
primeiro nós mijamos no coração
agora nós mijamos na cinza.
1 283
Charles Bukowski
Os Elefantes do Vietnã
primeiro eles costumavam, ele me contou,
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
1 153
Charles Bukowski
Olhos Sem Cérebro
na manhã amarga
rosas altas crescem
e os sapos comemoram
vitória.
no balão vazio da noite
nada cresce;
a noite
mastiga e arrota
e a vitória só é comemorada
por senhoras indecentes
com as pernas abertas
e olhos sem cérebro.
ao meio-dia,
por exemplo ao meio-dia,
algo acontece
finalmente.
o farol muda
o tráfego passa.
a própria vida não é o milagre.
que a dor seja tão constante,
esse é o milagre -
aquele martelar da coisa
quando você não pode nem gritar nem chorar
e tudo fica em cima de você
olhando nos seus olhos
comendo sua carne.
manhã noite e meio-dia
o tráfego passa
e o assassinato e a traição
de amigos e amantes
e toda a gente
passa através de você.
dor é a alegria de saber
a menos generosa verdade
que chega sem
avisar.
a vida é estar só.
a morte é estar só.
até os loucos choram
manhã noite e meio-dia.
rosas altas crescem
e os sapos comemoram
vitória.
no balão vazio da noite
nada cresce;
a noite
mastiga e arrota
e a vitória só é comemorada
por senhoras indecentes
com as pernas abertas
e olhos sem cérebro.
ao meio-dia,
por exemplo ao meio-dia,
algo acontece
finalmente.
o farol muda
o tráfego passa.
a própria vida não é o milagre.
que a dor seja tão constante,
esse é o milagre -
aquele martelar da coisa
quando você não pode nem gritar nem chorar
e tudo fica em cima de você
olhando nos seus olhos
comendo sua carne.
manhã noite e meio-dia
o tráfego passa
e o assassinato e a traição
de amigos e amantes
e toda a gente
passa através de você.
dor é a alegria de saber
a menos generosa verdade
que chega sem
avisar.
a vida é estar só.
a morte é estar só.
até os loucos choram
manhã noite e meio-dia.
1 253
Charles Bukowski
Não é Muito
suponho que assim como outros
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
1 048
Charles Bukowski
Homem Cortando A Grama do Outro Lado Da Rua
eu o vejo seguindo em frente com sua máquina.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
1 152
Charles Bukowski
Traga-Me Seu Amor
Harry venceu os degraus que o separavam do jardim. Muitos dos pacientes estavam por ali. Haviam-lhe dito que sua esposa, Gloria, estava ali fora. Avistou-a sentada sozinha em uma mesa. Aproximou-se de forma oblíqua, por um dos lados e um pouco às costas dela. Gloria sentava-se bastante ereta, estava muito pálida. Olhava para ele, mas não o enxergava. Até que por fim o viu.
– Você é o condutor? – ela perguntou
– O condutor do quê?
– O condutor da verossimilhança?
– Não, não sou.
Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, de um azul pálido.
– Como você se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
–Você trepa com putas, Harry. Você gosta de trepar com putas.
– Isso não é verdade, Gloria.
– Elas também chupam você? Elas chupam seu pau?
– Ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ainda não melhorou da gripe.
– Aquela velha pilantra está sempre armando alguma coisa... Você é o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados às mesas, escorados nas árvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imóveis e silenciosos.
– Que tal a comida aqui, Gloria? Já fez algum amigo?
– Terrível. E não. Seu comedor de putas.
– Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
– Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
– Por que você não me trouxe chocolates?
– Gloria, você tinha me dito que odiava chocolate.
As lágrimas desciam em profusão.
– Eu não odeio chocolate! Eu amo chocolate!
– Não chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que você quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, só pra estar perto de você.
Seus olhos pálidos se arregalaram.
– Um quarto de motel? Você deve estar lá com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornôs juntos, espelho no teto e tudo!
– Vou ficar aqui por perto uns dois dias – disse Harry, com suavidade. – Posso trazer o que você quiser.
– Me traga seu amor, então – ela gritou. – Por que, diabos, você não me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
– Gloria, tenho certeza que não há no mundo alguém que se importe com você mais do que eu.
– Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
– Só quero dar isso a você, antes que eu me esqueça. Você tem permissão pra fazer chamadas externas? Está aqui o meu número, pra tudo o que você precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lá dentro e voltou a calçá-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
– Bem, bem, bem...
– Olá, dr. Jensen – falou Gloria sem emoção.
– Posso me sentar? – perguntou o médico.
– Claro – disse Gloria.
O médico era um homem pesado. Emanava um ar de importância, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparência grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar até sua boca úmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
– Bem, bem, bem – ele disse. – Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos até agora...
– Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estável, o quanto as consultas e as sessões de grupo têm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inútil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva já desapareceram...
Gloria se sentou com as mãos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
– Gloria fez um notável progresso!
– Sim – Harry disse –, pude perceber.
– Creio que é questão de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderá voltar pra casa com você.
– Doutor? – perguntou Gloria. – Posso fumar um cigarro?
– Como não – disse o médico, puxando um maço de cigarros exóticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o médico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
– Você tem mãos lindas, dr. Jensen – ela disse.
– Oh, muito obrigado, querida.
– E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
– Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... – disse o dr. Jensen, com doçura. – Bem, se vocês puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
– Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
– Gloria, foi ótimo ter estado com você, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor está certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas não uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
– Não fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho até que piorei...
– Isso não é verdade, Gloria...
– Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnóstico melhor do que ninguém.
– Que negócio é esse de “cabeça de peixe”?
– Ninguém nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
– Não.
– A próxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para não cortar suas guelras.
– Tenho que ir embora... mas amanhã eu venho fazer outra visita...
– Da próxima vez traga o condutor.
– Tem certeza de que não quer que eu traga nada?
– Eu sei que você vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
– Que tal se eu trouxer um número da New York? Você costumava gostar dessa revista...
– Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e já mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando já havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone não parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
– Merda – ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
– Alô?
Era Gloria.
– Você está comendo alguma vagabunda!
– Gloria, eles deixam você ligar a uma hora dessas? Não dão uma pílula pra você dormir ou algo assim?
– Por que você demorou tanto pra atender o telefone?
– Você nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocô dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
– Sim, eu vou... Você ia terminar tudo pra só depois me atender?
– Gloria, tudo isso é culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pôs você aí onde você está.
– Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
– Escute, o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Vá dormir um pouco. Amanhã eu lhe faço uma visita.
– Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada à beira do colchão, com uísque e água em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
– Bem – ela perguntou – como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
– Sinto muito, Nan...
– Sente pelo quê? Por quem? Por ela, por mim ou o quê?
Harry secou sua dose de uísque.
– Tudo bem, não precisamos fazer um dramalhão por causa disso.
– Ah, não? Bem, como você quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
– Mas que diabos, não banque a espertinha. Você conhece a situação tão bem quanto eu. Foi você quem quis vir junto comigo!
– Porque sabia que se eu não viesse junto você traria uma vagabunda qualquer com você!
– Caralho – disse Harry –, eis a palavra mágica outra vez.
– Que palavra? Que palavra? – Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole só, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
– Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que está acontecendo entre nós!
– Nem morta! Ela é uma mulher doente!
– E você é um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois já estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
– Septuagenarian Stew
– Você é o condutor? – ela perguntou
– O condutor do quê?
– O condutor da verossimilhança?
– Não, não sou.
Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, de um azul pálido.
– Como você se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
–Você trepa com putas, Harry. Você gosta de trepar com putas.
– Isso não é verdade, Gloria.
– Elas também chupam você? Elas chupam seu pau?
– Ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ainda não melhorou da gripe.
– Aquela velha pilantra está sempre armando alguma coisa... Você é o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados às mesas, escorados nas árvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imóveis e silenciosos.
– Que tal a comida aqui, Gloria? Já fez algum amigo?
– Terrível. E não. Seu comedor de putas.
– Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
– Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
– Por que você não me trouxe chocolates?
– Gloria, você tinha me dito que odiava chocolate.
As lágrimas desciam em profusão.
– Eu não odeio chocolate! Eu amo chocolate!
– Não chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que você quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, só pra estar perto de você.
Seus olhos pálidos se arregalaram.
– Um quarto de motel? Você deve estar lá com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornôs juntos, espelho no teto e tudo!
– Vou ficar aqui por perto uns dois dias – disse Harry, com suavidade. – Posso trazer o que você quiser.
– Me traga seu amor, então – ela gritou. – Por que, diabos, você não me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
– Gloria, tenho certeza que não há no mundo alguém que se importe com você mais do que eu.
– Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
– Só quero dar isso a você, antes que eu me esqueça. Você tem permissão pra fazer chamadas externas? Está aqui o meu número, pra tudo o que você precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lá dentro e voltou a calçá-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
– Bem, bem, bem...
– Olá, dr. Jensen – falou Gloria sem emoção.
– Posso me sentar? – perguntou o médico.
– Claro – disse Gloria.
O médico era um homem pesado. Emanava um ar de importância, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparência grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar até sua boca úmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
– Bem, bem, bem – ele disse. – Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos até agora...
– Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estável, o quanto as consultas e as sessões de grupo têm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inútil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva já desapareceram...
Gloria se sentou com as mãos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
– Gloria fez um notável progresso!
– Sim – Harry disse –, pude perceber.
– Creio que é questão de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderá voltar pra casa com você.
– Doutor? – perguntou Gloria. – Posso fumar um cigarro?
– Como não – disse o médico, puxando um maço de cigarros exóticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o médico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
– Você tem mãos lindas, dr. Jensen – ela disse.
– Oh, muito obrigado, querida.
– E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
– Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... – disse o dr. Jensen, com doçura. – Bem, se vocês puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
– Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
– Gloria, foi ótimo ter estado com você, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor está certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas não uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
– Não fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho até que piorei...
– Isso não é verdade, Gloria...
– Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnóstico melhor do que ninguém.
– Que negócio é esse de “cabeça de peixe”?
– Ninguém nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
– Não.
– A próxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para não cortar suas guelras.
– Tenho que ir embora... mas amanhã eu venho fazer outra visita...
– Da próxima vez traga o condutor.
– Tem certeza de que não quer que eu traga nada?
– Eu sei que você vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
– Que tal se eu trouxer um número da New York? Você costumava gostar dessa revista...
– Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e já mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando já havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone não parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
– Merda – ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
– Alô?
Era Gloria.
– Você está comendo alguma vagabunda!
– Gloria, eles deixam você ligar a uma hora dessas? Não dão uma pílula pra você dormir ou algo assim?
– Por que você demorou tanto pra atender o telefone?
– Você nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocô dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
– Sim, eu vou... Você ia terminar tudo pra só depois me atender?
– Gloria, tudo isso é culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pôs você aí onde você está.
– Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
– Escute, o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Vá dormir um pouco. Amanhã eu lhe faço uma visita.
– Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada à beira do colchão, com uísque e água em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
– Bem – ela perguntou – como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
– Sinto muito, Nan...
– Sente pelo quê? Por quem? Por ela, por mim ou o quê?
Harry secou sua dose de uísque.
– Tudo bem, não precisamos fazer um dramalhão por causa disso.
– Ah, não? Bem, como você quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
– Mas que diabos, não banque a espertinha. Você conhece a situação tão bem quanto eu. Foi você quem quis vir junto comigo!
– Porque sabia que se eu não viesse junto você traria uma vagabunda qualquer com você!
– Caralho – disse Harry –, eis a palavra mágica outra vez.
– Que palavra? Que palavra? – Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole só, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
– Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que está acontecendo entre nós!
– Nem morta! Ela é uma mulher doente!
– E você é um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois já estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
– Septuagenarian Stew
1 105
Charles Bukowski
Albergue
você não viveu de verdade
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.
Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.
Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
1 345
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
516
Charles Bukowski
Resposta a Um Bilhete Encontrado Na Caixa de Correio
“o amor é como um sino
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
1 012
Charles Bukowski
Marchando Pela Geórgia
estamos queimando como uma asa de frango deixada na grelha de um
churrasco ao ar livre
somos indesejados e ardentes somos ardentes e indesejados
somos
um indesejado
incêndio
nós chiamos e fritamos
até o osso
as brasas do Inferno de Dante estalam e crepitam embaixo de
nós
e
acima do céu é uma mão aberta
e
as palavras de homens sábios são inúteis
este não é um mundo agradável, um mundo agradável este
não é...
vamos lá, experimente este agradável poema de asa de frango queimada
é quente é duro sem muita
carne
mas é tristemente sensato
e uma ou duas mordidas o devoram por inteiro
assim
churrasco ao ar livre
somos indesejados e ardentes somos ardentes e indesejados
somos
um indesejado
incêndio
nós chiamos e fritamos
até o osso
as brasas do Inferno de Dante estalam e crepitam embaixo de
nós
e
acima do céu é uma mão aberta
e
as palavras de homens sábios são inúteis
este não é um mundo agradável, um mundo agradável este
não é...
vamos lá, experimente este agradável poema de asa de frango queimada
é quente é duro sem muita
carne
mas é tristemente sensato
e uma ou duas mordidas o devoram por inteiro
assim
1 206
Charles Bukowski
Lixo
eu tinha tomado uma surra tremenda,
eu tinha escolhido um verdadeiro touro, e por causa das
garotas e dele mesmo e só por sua
brutal energia esquiva
ele quase tinha me assassinado:
eu soube depois
que mesmo quando eu já estava apagado
ele havia chutado minha cabeça repetidas
vezes
e então havia esvaziado várias latas de lixo
em cima de mim
e então haviam me deixado ali
naquele beco.
eu era o cara de fora da cidade.
foi por volta das 6 da manhã num
domingo que eu voltei
a mim.
meu rosto era um amontoado de
feridas, crostas, coágulos, galos, calombos, meus lábios
engrossados e dormentes, meus olhos quase fechados de tão
inchados
mas eu me botei de pé e comecei
a caminhar;
eu via indícios do sol, casas, a calçada
trêmula enquanto eu
avançava na direção do meu quarto
então escutei sons arrastados vindos do
centro da rua
e forcei meus olhos para
focalizar e vi um
homem cambaleando
suas roupas rasgadas e ensanguentadas
ele cheirava a morte e escuridão
mas continuava andando em frente
pelo meio da rua
como se já tivesse caminhado
quilômetros
desde algum acontecimento tão horrível que
a própria mente poderia se recusar a aceitá-lo
como parte da vida.
meu impulso era ajudá-lo
e saltei do
meio-fio
e avancei ao encontro dele.
ele não conseguia me ver, ele avançava
procurando algum lugar para ir,
qualquer lugar, e
eu vi um dos olhos dele pendurado
fora da órbita,
balançando.
eu recuei.
ele era como uma criatura não pertencente à
terra.
deixei o homem
passar.
dava para ouvir os pés se afastando
atrás de mim
aqueles passos cegos
oscilando, em
agonia,
insensivelmente
solitários.
voltei à
calçada.
voltei ao meu
quarto.
subi na
cama.
caí com o rosto para cima
o teto no alto em cima de mim,
eu esperei.
eu tinha escolhido um verdadeiro touro, e por causa das
garotas e dele mesmo e só por sua
brutal energia esquiva
ele quase tinha me assassinado:
eu soube depois
que mesmo quando eu já estava apagado
ele havia chutado minha cabeça repetidas
vezes
e então havia esvaziado várias latas de lixo
em cima de mim
e então haviam me deixado ali
naquele beco.
eu era o cara de fora da cidade.
foi por volta das 6 da manhã num
domingo que eu voltei
a mim.
meu rosto era um amontoado de
feridas, crostas, coágulos, galos, calombos, meus lábios
engrossados e dormentes, meus olhos quase fechados de tão
inchados
mas eu me botei de pé e comecei
a caminhar;
eu via indícios do sol, casas, a calçada
trêmula enquanto eu
avançava na direção do meu quarto
então escutei sons arrastados vindos do
centro da rua
e forcei meus olhos para
focalizar e vi um
homem cambaleando
suas roupas rasgadas e ensanguentadas
ele cheirava a morte e escuridão
mas continuava andando em frente
pelo meio da rua
como se já tivesse caminhado
quilômetros
desde algum acontecimento tão horrível que
a própria mente poderia se recusar a aceitá-lo
como parte da vida.
meu impulso era ajudá-lo
e saltei do
meio-fio
e avancei ao encontro dele.
ele não conseguia me ver, ele avançava
procurando algum lugar para ir,
qualquer lugar, e
eu vi um dos olhos dele pendurado
fora da órbita,
balançando.
eu recuei.
ele era como uma criatura não pertencente à
terra.
deixei o homem
passar.
dava para ouvir os pés se afastando
atrás de mim
aqueles passos cegos
oscilando, em
agonia,
insensivelmente
solitários.
voltei à
calçada.
voltei ao meu
quarto.
subi na
cama.
caí com o rosto para cima
o teto no alto em cima de mim,
eu esperei.
1 270
Charles Bukowski
Verdade
um dos melhores versos de Lorca
é
“agonia, sempre
agonia...”
pense nisso quando você
matar uma
barata ou
pegar uma navalha para
se barbear
ou despertar na manhã
para
encarar o
sol.
é
“agonia, sempre
agonia...”
pense nisso quando você
matar uma
barata ou
pegar uma navalha para
se barbear
ou despertar na manhã
para
encarar o
sol.
1 317
Charles Bukowski
Vamos Fazer Um Acordo
em conjunção com
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
1 258
Charles Bukowski
Bem, É Assim Que É...
às vezes quando tudo parece estar no
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
1 144
Charles Bukowski
Janeiro
aqui
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
1 068
Charles Bukowski
Ai Disse a Vaca À Cerca Que Ligava
, esperneiam esses bebês idiotas,
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
998
Charles Bukowski
Ala Beneficente
e me jogaram num porão por 3 dias
e era um lugar muito escuro, e parecia que
todo mundo era louco lá embaixo e isso,
pelo menos, me mantinha feliz. mas volta e meia
um grande filho da mãe que se autodenominava
“Booboo Cullers, o grandão das Avenidas!”
vinha se meter, quero dizer ele saía de sua cama
e ele era enorme e doido e eu estava fraco, muito,
e ele batia nos outros pacientes com seus punhos,
mas eu sempre dava um jeito de rechaçá-lo
eu pegava meu jarro de água
levantava pra trás com a mão esquerda, praguejava fazendo mira.
Boo desistia.
depois de despacharem 6 mortos
um por causas naturais
5 pelas mãos do fabuloso Booboo Cullers
o grandão das Avenidas,
amarraram o enorme Booboo
com grande dificuldade,
e eu fiquei olhando enquanto os guardas batiam nele
no rosto e na barriga e na genitália até que ele
parou de gritar e cedeu
e eu sorri e me dei conta do que significava
a palavra Humanismo
apenas o máximo de conforto para o máximo número de humanos,
o que no meu entender era
muito bacana.
e era um lugar muito escuro, e parecia que
todo mundo era louco lá embaixo e isso,
pelo menos, me mantinha feliz. mas volta e meia
um grande filho da mãe que se autodenominava
“Booboo Cullers, o grandão das Avenidas!”
vinha se meter, quero dizer ele saía de sua cama
e ele era enorme e doido e eu estava fraco, muito,
e ele batia nos outros pacientes com seus punhos,
mas eu sempre dava um jeito de rechaçá-lo
eu pegava meu jarro de água
levantava pra trás com a mão esquerda, praguejava fazendo mira.
Boo desistia.
depois de despacharem 6 mortos
um por causas naturais
5 pelas mãos do fabuloso Booboo Cullers
o grandão das Avenidas,
amarraram o enorme Booboo
com grande dificuldade,
e eu fiquei olhando enquanto os guardas batiam nele
no rosto e na barriga e na genitália até que ele
parou de gritar e cedeu
e eu sorri e me dei conta do que significava
a palavra Humanismo
apenas o máximo de conforto para o máximo número de humanos,
o que no meu entender era
muito bacana.
1 033
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 220
Charles Bukowski
Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –
o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
661