Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

n. 1953 BR BR

Salgado Maranhão é um poeta brasileiro aclamado, cuja obra se distingue pela forte ligação com a cultura popular nordestina, especialmente a do seu estado natal, o Maranhão. A sua poesia, rica em oralidade, musicalidade e imagens vívidas, explora temas como a identidade, a terra, o sagrado e o cotidiano, frequentemente incorporando elementos do imaginário popular e das tradições regionais. Maranhão é reconhecido pela sua capacidade de dar voz às paisagens, aos ritmos e às almas do Nordeste brasileiro, consolidando-se como um dos nomes mais importantes da poesia contemporânea do Brasil.

n. 1953, Caxias

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Sentença

faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.

por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Salgado Maranhão é um poeta brasileiro, nascido no estado do Maranhão. É um dos nomes mais proeminentes da poesia contemporânea brasileira, com uma obra fortemente enraizada na cultura e no imaginário do Nordeste.

Infância e formação

Nascido em 1947 em Caxias, Maranhão, Salgado Maranhão teve uma infância marcada pela rica cultura popular nordestina. A sua formação, embora não detalhada em termos académicos específicos, foi profundamente moldada pelas tradições orais, pela música, pelas festas populares e pelo ambiente social e cultural do Maranhão, que se tornariam fontes de inspiração constantes na sua obra.

Percurso literário

O percurso literário de Salgado Maranhão é marcado por uma escrita que celebra a identidade nordestina, a paisagem e a oralidade. Começou a publicar poesia na década de 1970 e rapidamente se destacou pela originalidade e pela força expressiva da sua voz poética. Colaborou em diversas publicações e antologias, consolidando a sua posição como um poeta de referência no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Salgado Maranhão é caracterizada pela fusão entre a linguagem erudita e a oralidade popular, pela forte musicalidade e pelo uso de imagens vívidas e sensoriais. Temas como a terra, o sagrado, o amor, a morte, a memória e a cultura popular nordestina são recorrentes. Explora o imaginário popular, as lendas, os mitos e as tradições do Maranhão, conferindo à sua poesia uma identidade única. O verso livre é predominante, mas com um ritmo acentuado e uma cadência que remete para a cantiga e para a oralidade. A sua linguagem é rica em metáforas e personificações, evocando paisagens e personagens com grande vivacidade. É associado a uma poesia que valoriza as raízes culturais brasileiras, dialogando com a tradição, mas com uma visão marcadamente contemporânea.

Contexto cultural e histórico

Salgado Maranhão escreve num período de intensa produção literária no Brasil, onde as questões de identidade nacional e regional ganham destaque. A sua obra insere-se numa linha de valorização das culturas populares e das especificidades regionais brasileiras, em contraste com modelos estéticos mais eurocêntricos. A sua poesia reflete a riqueza cultural do Nordeste, uma região com uma história e um imaginário muito próprios, e dialogue com outros artistas que também buscam expressar as particularidades regionais.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Salgado Maranhão são escassas em fontes públicas, mas a sua obra demonstra uma profunda ligação afetiva com a terra natal e com as suas gentes.

Reconhecimento e receção

Salgado Maranhão é amplamente reconhecido como um dos grandes poetas brasileiros contemporâneos. A sua obra tem sido objeto de estudo e admiração por parte da crítica e do público, que valorizam a sua capacidade de dar voz autêntica às paisagens e à cultura do Nordeste.

Influências e legado

A obra de Salgado Maranhão é influenciada pela poesia brasileira e pela rica tradição oral do Nordeste. O seu legado reside na forma como revitalizou e deu nova visibilidade à cultura popular nordestina na poesia brasileira, influenciando gerações de poetas que buscam explorar as suas próprias raízes culturais.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Salgado Maranhão é frequentemente analisada sob a ótica da sua representação da identidade nordestina, da sua relação com o sagrado e do diálogo entre o popular e o erudito. As análises destacam a sua mestria no uso da linguagem e a força das suas imagens poéticas.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto notável da sua obra é a forma como consegue incorporar a musicalidade e o ritmo da fala nordestina na poesia escrita, criando um efeito de autenticidade e de proximidade com o leitor.

Morte e memória

Salgado Maranhão é um autor vivo, e a sua memória e legado são construídos diariamente através da sua obra e do seu impacto na literatura brasileira.

Poemas

10

Sentença

faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.

por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
844

Desamanhecer

Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.

Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
895

Do Raio

Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva

nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.

O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas

sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
787

VULTO 1

Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
738

ESTILETES

Tornaram-se estiletes,
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.
721

Ladainha

Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.

Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
827

Do Arbítrio

Das estrias que a mão
esculpe
só o que brilha
sobrevive.

Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.

Não há comportas
nem caminhos

não há saaras
nem vienas

em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.

Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)

Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,

sopra o arbítrio dos dias.
769

OS NEO-GATUNOS

A meu ver, essa laia de neo-ladrões que tomou conta do país,
teve início na era Collor. E é, normalmente, composta de políticos (mais
ou menos) jovens, esclarecidos e sedutores, que, emulando
o discurso da Esquerda (e a ele acrescentando cores próprias —
baseadas na urgência que os pobres têm por assistencialismo), apoderaram-se
dessa larga maioria de necessitados, para vender ilusões.
Ainda que narcísicos e loucos por luxo e ostentação ( com suas mulheres
bregas e arrogantes), seu principal prazer é, simplesmente, ROUBAR. Se O Ministério
Publico e a Polícia Federal não os tivessem flagrados, certamente, já teriam
vendido as paredes da Petrobras.
Isso justifica, em parte, os assombrosos valores subtraídos. E, ainda,
as ridículas desculpas, ancoradas em matilhas de advogados bem pagos e super
hábeis na arte de defender canalhas.
Puni-los, severamente, é uma questão de honra e de profilática pedagogia social,
suas vitórias sobre a honestidade e o bom senso, representariam um escárnio e um péssimo exemplo para a sociedade, sobretudo, para as novas gerações.
669

NOZ

As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
727

ALQUIMIA

Para T.T.

Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
827

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