Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Frei Agostinho da Cruz
Da Oração
Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.
Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?
Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.
Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?
Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?
699
Frei Agostinho da Cruz
LIII Ó montes altos
Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;
Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.
Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;
Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;
Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.
Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;
Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
610
Frei Agostinho da Cruz
LXIV Ao pecado original
Se sendo, meu Senhor, por vós formado
Adão, antes de ser o mal nascido,
Pecou, que fará quem foi concebido
Nas entranhas, que já tinham pecado?
Comer de um fruito só lhe foi vedado,
Tudo o mais a seu gosto concedido,
E por uma só vez haver caido,
Por muitas ser não posso levantado.
Tão fraca ficou minha natureza,
Que levantar não deixa o pensamento
Da terra, a que está atada e presa,
Tão imiga do meu merecimento,
Que se morder não pode na pureza,
Não deixa de ladrar um só momento.
Adão, antes de ser o mal nascido,
Pecou, que fará quem foi concebido
Nas entranhas, que já tinham pecado?
Comer de um fruito só lhe foi vedado,
Tudo o mais a seu gosto concedido,
E por uma só vez haver caido,
Por muitas ser não posso levantado.
Tão fraca ficou minha natureza,
Que levantar não deixa o pensamento
Da terra, a que está atada e presa,
Tão imiga do meu merecimento,
Que se morder não pode na pureza,
Não deixa de ladrar um só momento.
732
José Paulo Paes
Mundo Novo
Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel a terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel a terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.
1 165
José Paulo Paes
L’AFFAIRE SARDINHA
O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
685
Frei Agostinho da Cruz
LI À morte
Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.
E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.
Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.
Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.
E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.
Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.
Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
752
Charles Bukowski
Não é Muito
suponho que assim como outros
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
1 048
Charles Bukowski
Abrace a Escuridão
o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
1 473
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo Amor Que Tive, Que Não Foi Suficiente: –
recolho a saia,
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irá
devolvê-la para mim.
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irá
devolvê-la para mim.
1 032
Charles Bukowski
Garota de Minissaia Lendo a Bíblia Junto À Minha Janela
Domingo. estou comendo um
pomelo. a missa terminou na Igreja Ortodoxa
Russa a
oeste.
ela é morena
de descendência oriental,
grandes olhos castanhos erguem-se da Bíblia
e voltam a baixar. uma Bíblia pequena, vermelha
e negra, e enquanto ela lê
suas pernas seguem em movimento, não param,
ela executa uma dança lenta e ritmada
lendo a Bíblia...
brincos dourados e compridos;
2 braceletes de ouro em cada braço,
e está num traje minúsculo, suponho,
a roupa adere a seu corpo,
a mais leve das camadas é esta roupa,
ela rebola pra lá e pra cá,
pernas longas e jovens esquentando ao sol...
não há como escapar dela
nem se deseja isso...
meu rádio toca música sinfônica
que ela não pode ouvir
mas seus movimentos coincidem exatamente
com os ritmos da
sinfonia...
ela é morena, ela é morena
ela está lendo sobre Deus.
eu sou Deus.
pomelo. a missa terminou na Igreja Ortodoxa
Russa a
oeste.
ela é morena
de descendência oriental,
grandes olhos castanhos erguem-se da Bíblia
e voltam a baixar. uma Bíblia pequena, vermelha
e negra, e enquanto ela lê
suas pernas seguem em movimento, não param,
ela executa uma dança lenta e ritmada
lendo a Bíblia...
brincos dourados e compridos;
2 braceletes de ouro em cada braço,
e está num traje minúsculo, suponho,
a roupa adere a seu corpo,
a mais leve das camadas é esta roupa,
ela rebola pra lá e pra cá,
pernas longas e jovens esquentando ao sol...
não há como escapar dela
nem se deseja isso...
meu rádio toca música sinfônica
que ela não pode ouvir
mas seus movimentos coincidem exatamente
com os ritmos da
sinfonia...
ela é morena, ela é morena
ela está lendo sobre Deus.
eu sou Deus.
1 144
Charles Bukowski
Sua Mulher, a Pintora
Havia esboços de homens, mulheres e patos sobre as paredes,
e do lado de fora um grande ônibus verde cortava o tráfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, Turguêniev, Turguêniev,
diz o rádio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
“Vou fazer o retrato dela no dia 28, quando você estiver
no trabalho.”
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o ódio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição está suspensa como um pólipo úmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos à lâmina sob a água (como a vida), não tão quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, Bibliothèque Nationale.
“Ela tem um rosto como nunca vi em outra mulher.”
“O que é isso? Um caso amoroso?”
“Tolinho. Não posso amar uma mulher. Além disso, ela está grávida.”
Não posso pintar – uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol é uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
“Tenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele é homossexual.”
“Você segue lendo Freud?”
“Página 299.”
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi à igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma máscara é que ela
nunca muda.
Tão rude as flores que crescem e não crescem belas.
Tão incrível a cadeira no pátio que não precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um túnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as árvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguíneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.
Fay estava grávida. Mas isso não a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionários faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes – com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistá-lo. A equipe carregava os caminhões com as cartas que chegavam através do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Às vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lápis comprido atrás da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas – liam os mesmos comentaristas esportivos.
– Muito bem, cara, quem é pra você o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
– Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
– O quê? O quê?
– É isso aí, meu!
– E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
– Ok, Ok, quem é o seu jogador cinco estrelas na posição?
– Não é cinco estrelas, é o melhor de todos os tempos!
– Ok, Ok, você sabe o que eu quero dizer, meu, você sabe o que eu quero
dizer!
– Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
– Vocês dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionários começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
– Não, não, não há nada de errado com sua pressão.
Então ele me auscultou e me pesou.
– Não vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez três coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
– Importa-se de esperar na outra sala?
– Não, não, vou dar uma volta por aí e retorno na hora combinada.
– Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. Então houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui até uma loja de conveniências e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relógio e saí. Vi aquela mulher sentada na parada de ônibus. Era uma dessas que a gente vê raramente. Mostrava boa parte das pernas. Não conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distância.
Então ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agência dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrás dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aérea e dois dólares em selos.
Quando saí, ela apanhava o ônibus. Vi ainda um resquício daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ônibus, ônibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
– O que aconteceu? O senhor está cinco minutos atrasado!
– Não sei. Meu relógio deve ter parado.
– AS COISAS TÊM QUE SER FEITAS COM EXATIDÃO!
– Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulários.
Eu chegava por volta das onze da noite e lá estava Fay. Pobre Fay grávida.
– O que aconteceu?
– Não conseguia suportar mais – eu disse –, estou muito sensível...
– Cartas na rua
e do lado de fora um grande ônibus verde cortava o tráfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, Turguêniev, Turguêniev,
diz o rádio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
“Vou fazer o retrato dela no dia 28, quando você estiver
no trabalho.”
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o ódio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição está suspensa como um pólipo úmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos à lâmina sob a água (como a vida), não tão quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, Bibliothèque Nationale.
“Ela tem um rosto como nunca vi em outra mulher.”
“O que é isso? Um caso amoroso?”
“Tolinho. Não posso amar uma mulher. Além disso, ela está grávida.”
Não posso pintar – uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol é uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
“Tenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele é homossexual.”
“Você segue lendo Freud?”
“Página 299.”
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi à igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma máscara é que ela
nunca muda.
Tão rude as flores que crescem e não crescem belas.
Tão incrível a cadeira no pátio que não precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um túnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as árvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguíneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.
Fay estava grávida. Mas isso não a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionários faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes – com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistá-lo. A equipe carregava os caminhões com as cartas que chegavam através do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Às vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lápis comprido atrás da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas – liam os mesmos comentaristas esportivos.
– Muito bem, cara, quem é pra você o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
– Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
– O quê? O quê?
– É isso aí, meu!
– E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
– Ok, Ok, quem é o seu jogador cinco estrelas na posição?
– Não é cinco estrelas, é o melhor de todos os tempos!
– Ok, Ok, você sabe o que eu quero dizer, meu, você sabe o que eu quero
dizer!
– Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
– Vocês dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionários começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
– Não, não, não há nada de errado com sua pressão.
Então ele me auscultou e me pesou.
– Não vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez três coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
– Importa-se de esperar na outra sala?
– Não, não, vou dar uma volta por aí e retorno na hora combinada.
– Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. Então houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui até uma loja de conveniências e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relógio e saí. Vi aquela mulher sentada na parada de ônibus. Era uma dessas que a gente vê raramente. Mostrava boa parte das pernas. Não conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distância.
Então ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agência dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrás dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aérea e dois dólares em selos.
Quando saí, ela apanhava o ônibus. Vi ainda um resquício daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ônibus, ônibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
– O que aconteceu? O senhor está cinco minutos atrasado!
– Não sei. Meu relógio deve ter parado.
– AS COISAS TÊM QUE SER FEITAS COM EXATIDÃO!
– Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulários.
Eu chegava por volta das onze da noite e lá estava Fay. Pobre Fay grávida.
– O que aconteceu?
– Não conseguia suportar mais – eu disse –, estou muito sensível...
– Cartas na rua
1 170
Charles Bukowski
Hoje Os Melros São Brutais
solitário como um velho e usado pomar
que se espalha por toda a Terra
para ser usado e rendido.
abatido como um ex-pugilista vendendo
na esquina o jornal do dia.
assolado por lágrimas como
uma corista envelhecida
cujo último cheque acaba de ser descontado.
um lencinho está à mão seu senhor sua
adoração.
os melros hoje são brutais
como
unhas encravadas
numa noite passada na
cadeia –
o vinho enche de vinho o lamento,
os melros voam por toda parte e
voam em círculos
dedilhando
melodias espanholas e castanholas.
e todo lugar é
nenhum lugar –
o sonho é tão ruim quanto
panquecas e pneus vazios:
por que a gente segue
com nossas mentes e
bolsos cheios de
pó
como um valentão recém-saído da
escola –
me diga
você,
você que foi um herói de alguma
revolução
você que ensina as crianças
você que bebe com toda calma
você que possui belas casas
e caminha pelos jardins
você que matou um homem e é dono de uma
bela mulher
me diga você
por que estou em chamas como lixo velho e
seco.
poderíamos certamente manter uma correspondência
muito interessante.
manteríamos o carteiro ocupado.
e as borboletas e as formigas e as pontes e os
cemitérios
e os construtores de foguetes e os cachorros e os mecânicos de garagem
seguiriam em frente por um
momento
até que ficássemos sem selos
e/ou
ideias.
não sinta vergonha de
nada; acho que Deus sabe o que faz
como
as trancas nas
portas.
que se espalha por toda a Terra
para ser usado e rendido.
abatido como um ex-pugilista vendendo
na esquina o jornal do dia.
assolado por lágrimas como
uma corista envelhecida
cujo último cheque acaba de ser descontado.
um lencinho está à mão seu senhor sua
adoração.
os melros hoje são brutais
como
unhas encravadas
numa noite passada na
cadeia –
o vinho enche de vinho o lamento,
os melros voam por toda parte e
voam em círculos
dedilhando
melodias espanholas e castanholas.
e todo lugar é
nenhum lugar –
o sonho é tão ruim quanto
panquecas e pneus vazios:
por que a gente segue
com nossas mentes e
bolsos cheios de
pó
como um valentão recém-saído da
escola –
me diga
você,
você que foi um herói de alguma
revolução
você que ensina as crianças
você que bebe com toda calma
você que possui belas casas
e caminha pelos jardins
você que matou um homem e é dono de uma
bela mulher
me diga você
por que estou em chamas como lixo velho e
seco.
poderíamos certamente manter uma correspondência
muito interessante.
manteríamos o carteiro ocupado.
e as borboletas e as formigas e as pontes e os
cemitérios
e os construtores de foguetes e os cachorros e os mecânicos de garagem
seguiriam em frente por um
momento
até que ficássemos sem selos
e/ou
ideias.
não sinta vergonha de
nada; acho que Deus sabe o que faz
como
as trancas nas
portas.
1 054
Charles Bukowski
a neve da Itália
do meu rádio agora
vem o som de um órgão louco de verdade,
eu posso ver algum monge
bêbado em uma adega
a mente perdida ou encontrada
falando com Deus de um modo diferente;
eu vejo velas e esse homem tem uma barba vermelha
assim como Deus tem uma barba vermelha;
está nevando, é na Itália, faz frio
e o pão é duro
e não há manteiga,
apenas vinho
vinho em garrafas rubras
com gargalos de girafa,
e agora o órgão sobe, outra vez,
ele o viola,
ele o toca como um louco,
há sangue e cuspe em sua barba,
ele quer rir mas não há tempo,
o sol se põe,
então seus dedos esmorecem,
agora há exaustão e o sonho,
sim, até santidade,
homem indo ao homem,
à montanha, ao elefante, à estrela,
e uma vela cai
mas continua a queimar de lado,
uma poça de cera brilhando nos olhos
do meu monge vermelho,
há musgo nas paredes
e a mancha de pensamento e fracasso e
espera,
então novamente a música sobe como tigres famélicos,
e ele ri,
é um riso de criança, um riso de idiota,
riso por nada,
o único riso que compreende,
ele preme as teclas
igual a parar tudo
e o quarto floresce de loucura,
e então ele para, para,
e senta, as velas queimando,
uma em pé, outra caída,
a neve da Itália é tudo o que resta,
acabou: a essência e a forma.
eu observo enquanto
ele apaga as velas com seus dedos
comprimindo o canto externo de cada olho
e o quarto está escuro
como tudo sempre esteve.
vem o som de um órgão louco de verdade,
eu posso ver algum monge
bêbado em uma adega
a mente perdida ou encontrada
falando com Deus de um modo diferente;
eu vejo velas e esse homem tem uma barba vermelha
assim como Deus tem uma barba vermelha;
está nevando, é na Itália, faz frio
e o pão é duro
e não há manteiga,
apenas vinho
vinho em garrafas rubras
com gargalos de girafa,
e agora o órgão sobe, outra vez,
ele o viola,
ele o toca como um louco,
há sangue e cuspe em sua barba,
ele quer rir mas não há tempo,
o sol se põe,
então seus dedos esmorecem,
agora há exaustão e o sonho,
sim, até santidade,
homem indo ao homem,
à montanha, ao elefante, à estrela,
e uma vela cai
mas continua a queimar de lado,
uma poça de cera brilhando nos olhos
do meu monge vermelho,
há musgo nas paredes
e a mancha de pensamento e fracasso e
espera,
então novamente a música sobe como tigres famélicos,
e ele ri,
é um riso de criança, um riso de idiota,
riso por nada,
o único riso que compreende,
ele preme as teclas
igual a parar tudo
e o quarto floresce de loucura,
e então ele para, para,
e senta, as velas queimando,
uma em pé, outra caída,
a neve da Itália é tudo o que resta,
acabou: a essência e a forma.
eu observo enquanto
ele apaga as velas com seus dedos
comprimindo o canto externo de cada olho
e o quarto está escuro
como tudo sempre esteve.
1 206
Charles Bukowski
Morde Morde
ah, as mulheres sabem ser mordazes
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
1 079
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente
eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
854
Charles Bukowski
O Melhor da Raça
não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
1 448
Charles Bukowski
Um Homem Para Os Séculos
no todo, bebendo aqui rumo às primeiras horas da manhã e
absorvendo o que o rádio me dá: muitos dos compositores das
eras entraram, saíram, tudo no todo, sugando este
adorável vinho e ouvindo, me veio Bach: ele
saboreia a risada de júbilo antes da morte, cada nota como um feijão
selvagem, me entristece que ele tenha baseado sua vida em Deus,
embora eu entenda que isso seja às vezes necessário, mas
não importa tanto a crença de um homem e sim o que ele faz e
Bach o fez tão bem, e ao escutá-lo neste quarto pequeno eu
me sinto um herói só por estar vivo, por ter braços, pernas,
uma cabeça, todas as diversas peças enquanto fico escutando, ingerindo o
som e sugando este adorável vinho
um morto se tornou um amigo e tanto
espero que ele tenha encontrado Deus
ele merece Deus
e Deus
se Ele existir
merece
Bach
e nós também merecemos:
nós os bebuns
nós os agnósticos:
essas notas pulando como feijões
selvagens.
absorvendo o que o rádio me dá: muitos dos compositores das
eras entraram, saíram, tudo no todo, sugando este
adorável vinho e ouvindo, me veio Bach: ele
saboreia a risada de júbilo antes da morte, cada nota como um feijão
selvagem, me entristece que ele tenha baseado sua vida em Deus,
embora eu entenda que isso seja às vezes necessário, mas
não importa tanto a crença de um homem e sim o que ele faz e
Bach o fez tão bem, e ao escutá-lo neste quarto pequeno eu
me sinto um herói só por estar vivo, por ter braços, pernas,
uma cabeça, todas as diversas peças enquanto fico escutando, ingerindo o
som e sugando este adorável vinho
um morto se tornou um amigo e tanto
espero que ele tenha encontrado Deus
ele merece Deus
e Deus
se Ele existir
merece
Bach
e nós também merecemos:
nós os bebuns
nós os agnósticos:
essas notas pulando como feijões
selvagens.
967
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 056
Charles Bukowski
Fato
eu tenho 90 mil dólares
no banco
tenho 50 anos de idade
peso 130 quilos
nunca acordo com despertador
e estou mais próximo de Deus
do que o
pardal.
no banco
tenho 50 anos de idade
peso 130 quilos
nunca acordo com despertador
e estou mais próximo de Deus
do que o
pardal.
1 115
Charles Bukowski
Algo Sobre a Ação:
aquele
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
1 024
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 022
Charles Bukowski
Sim Sim
quando Deus criou o amor Ele não ajudou a maioria
quando Deus criou os cães Ele não ajudou os cães
quando Deus criou as plantas isto não foi nada de mais
quando Deus criou o ódio nós recebemos uma utilidade básica
quando Deus criou a mim Ele criou a mim
quando Deus criou o macaco Ele estava dormindo
quando Deus criou a girafa Ele estava bêbado
quando Deus criou os narcóticos Ele estava viajando
e quando Deus criou o suicídio Ele estava deprimido
quando Ele criou você deitada na cama
Ele sabia o que estava fazendo
Ele estava bêbado e Ele estava viajando
e Ele criou as montanhas e o mar e o fogo
ao mesmo tempo
Ele cometeu alguns erros
mas quando Ele a criou deitada na cama
Ele gozou por sobre todo o Seu Universo Abençoado.
quando Deus criou os cães Ele não ajudou os cães
quando Deus criou as plantas isto não foi nada de mais
quando Deus criou o ódio nós recebemos uma utilidade básica
quando Deus criou a mim Ele criou a mim
quando Deus criou o macaco Ele estava dormindo
quando Deus criou a girafa Ele estava bêbado
quando Deus criou os narcóticos Ele estava viajando
e quando Deus criou o suicídio Ele estava deprimido
quando Ele criou você deitada na cama
Ele sabia o que estava fazendo
Ele estava bêbado e Ele estava viajando
e Ele criou as montanhas e o mar e o fogo
ao mesmo tempo
Ele cometeu alguns erros
mas quando Ele a criou deitada na cama
Ele gozou por sobre todo o Seu Universo Abençoado.
1 416
Charles Bukowski
Uma Soneca E a Paz do Sossego
se você é um homem, Los Angeles é onde você deixa de sê-lo e
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
1 061
Charles Bukowski
O Padre E o Matador
no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 102