Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Charles Bukowski
A Aranha
então houve um tempo em
New Orleans
em que eu vivia com uma gorda,
Marie, no Bairro Francês
e fiquei bastante doente.
enquanto ela estava no trabalho
ajoelhei-me
naquela tarde
na cozinha e
rezei. não sou um
homem religioso
mas era uma tarde escura demais
e eu rezei:
“caro Deus: se você me poupar,
prometo-lhe nunca mais tomar
outro trago”.
fiquei ali de joelhos e foi como estar
num filme –
ao terminar minha oração
as nuvens se abriram e o sol
rasgou as cortinas
e deitou sobre mim.
então me ergui e fui dar uma cagada.
havia uma aranha enorme no banheiro da Marie.
mas caguei do mesmo jeito.
uma hora depois comecei a me sentir muito
melhor. dei uma volta pelo bairro
e sorri para as pessoas.
parei na mercearia e comprei
uma dúzia de cervejas para Marie.
comecei a me sentir tão bem que uma hora depois
me sentei na cozinha e abri
uma das cervejas.
esvaziei-a e depois outra
e então fui lá e
matei a aranha.
quando Marie voltou do trabalho
eu lhe dei um beijo daqueles,
depois sentei na cozinha e conversamos
enquanto ela preparava o jantar.
ela me perguntou o que eu tinha feito naquele dia
e eu lhe disse que tinha matado uma
aranha. ela não ficou
braba. era uma boa
pessoa.
New Orleans
em que eu vivia com uma gorda,
Marie, no Bairro Francês
e fiquei bastante doente.
enquanto ela estava no trabalho
ajoelhei-me
naquela tarde
na cozinha e
rezei. não sou um
homem religioso
mas era uma tarde escura demais
e eu rezei:
“caro Deus: se você me poupar,
prometo-lhe nunca mais tomar
outro trago”.
fiquei ali de joelhos e foi como estar
num filme –
ao terminar minha oração
as nuvens se abriram e o sol
rasgou as cortinas
e deitou sobre mim.
então me ergui e fui dar uma cagada.
havia uma aranha enorme no banheiro da Marie.
mas caguei do mesmo jeito.
uma hora depois comecei a me sentir muito
melhor. dei uma volta pelo bairro
e sorri para as pessoas.
parei na mercearia e comprei
uma dúzia de cervejas para Marie.
comecei a me sentir tão bem que uma hora depois
me sentei na cozinha e abri
uma das cervejas.
esvaziei-a e depois outra
e então fui lá e
matei a aranha.
quando Marie voltou do trabalho
eu lhe dei um beijo daqueles,
depois sentei na cozinha e conversamos
enquanto ela preparava o jantar.
ela me perguntou o que eu tinha feito naquele dia
e eu lhe disse que tinha matado uma
aranha. ela não ficou
braba. era uma boa
pessoa.
1 192
Manuel Bandeira
Alegrias de Nossa Senhora
I
RECITANTE
O Anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:
ANJO
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.
RECITANTE
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:
MARIA
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo a sua palavra.
CORO
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!
II
RECITANTE
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
* Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:
ISABEL
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!
RECITANTE
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:
MARIA
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.
CORO
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
III
RECITANTE
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:
CORO DE PASTORES
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nasalturas!
IV
RECITANTE
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam, admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:
MARIA
Filho, por que fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.
R RECITANTE
Ao que Jesus responde:
JESUS (menino de doze anos)
Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?
RECITANTE
E Maria:
MARIA
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.
CORO
Santo! Santo! Santo!
V
RECITANTE
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de vestes resplandecentes falaram:
OS DOIS VARÕES
Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse em Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
"E ao terceiro dia ressuscite."
CORO
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!
RECITANTE
O Anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:
ANJO
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.
RECITANTE
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:
MARIA
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo a sua palavra.
CORO
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!
II
RECITANTE
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
* Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:
ISABEL
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!
RECITANTE
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:
MARIA
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.
CORO
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
III
RECITANTE
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:
CORO DE PASTORES
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nasalturas!
IV
RECITANTE
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam, admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:
MARIA
Filho, por que fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.
R RECITANTE
Ao que Jesus responde:
JESUS (menino de doze anos)
Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?
RECITANTE
E Maria:
MARIA
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.
CORO
Santo! Santo! Santo!
V
RECITANTE
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de vestes resplandecentes falaram:
OS DOIS VARÕES
Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse em Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
"E ao terceiro dia ressuscite."
CORO
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!
959
Manuel Bandeira
Bélgica
Bélgica dos canais de labor perseverante,
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia...
Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingênua vela branca...
Mais de uma vela nova... mais de uma vela virgem...
Bélgica das velas brancas e virgens!
Bélgica dos velhos paços municipais,
Umidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.
Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.
Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
* Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta...
Bélgica dos carrilhões católicos.
Bélgica dos poetas iniciadores,
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados de Flandres.
Bélgica das velas ingênuas e virgens.
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia...
Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingênua vela branca...
Mais de uma vela nova... mais de uma vela virgem...
Bélgica das velas brancas e virgens!
Bélgica dos velhos paços municipais,
Umidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.
Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.
Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
* Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta...
Bélgica dos carrilhões católicos.
Bélgica dos poetas iniciadores,
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados de Flandres.
Bélgica das velas ingênuas e virgens.
1 089
Manuel Bandeira
O Obelisco
Um obelisco monolítico é a verdade nua em praça pública. A nudez dos obeliscos é mais inteira, mais estreme, mais escorreita, mais franca, mais sincera, mais lisa, mais pura, mais ingênua do que a da mulher mais bem feita.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
1 285
Manuel Bandeira
Nossa Senhora de Nazareth
Jantando uma vez em casa de Odylo,
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
1 164
Manuel Bandeira
Poema para Tuquinha
Você chamou Maria Helena "o anjo lindo de Tuquinha".
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
1 261
Manuel Bandeira
Louvado e Prece
Isabel querida
— A menininha
mais bonitinha,
mais engraçadinha,
mais bizurunguinha
que eu já vi na minha vida
— amorável,
adorável,
a d o r á v e l !
Mas é mesmo uma menina?
Ou será, Manuel,
lírio da campina
botão de rosa no galho,
ou na manhã fria
de abril, cristalina
gotinha de orvalho?
(De orvalho ou de mel?)
Se não é um doce,
é como se fosse.
É mais: um anjinho
muito seriozinho
caído do céu
por descuido, com
uma bonequinha
loura e coradinha
nos braços. Que bom
que é um anjo fresquinho
caído do céu!
Rogo a Deus, nosso Senhor,
seres meu anjo-guardião:
se um dia, seja em que for,
eu cair em tentação
(sou tão grande pecador!)
peço-te que tu me salves,
salves o bardo Manuel,
Isabel,
— Isabel Moreira Alves.
— A menininha
mais bonitinha,
mais engraçadinha,
mais bizurunguinha
que eu já vi na minha vida
— amorável,
adorável,
a d o r á v e l !
Mas é mesmo uma menina?
Ou será, Manuel,
lírio da campina
botão de rosa no galho,
ou na manhã fria
de abril, cristalina
gotinha de orvalho?
(De orvalho ou de mel?)
Se não é um doce,
é como se fosse.
É mais: um anjinho
muito seriozinho
caído do céu
por descuido, com
uma bonequinha
loura e coradinha
nos braços. Que bom
que é um anjo fresquinho
caído do céu!
Rogo a Deus, nosso Senhor,
seres meu anjo-guardião:
se um dia, seja em que for,
eu cair em tentação
(sou tão grande pecador!)
peço-te que tu me salves,
salves o bardo Manuel,
Isabel,
— Isabel Moreira Alves.
1 144
Manuel Bandeira
Balada de Santa Maria Egipcíaca
Santa Maria Egipcíaca seguia
Em peregrinação à terra do Senhor.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
— Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
— Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.
O homem duro escarneceu: — Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.
Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade da sua nudez.
Em peregrinação à terra do Senhor.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
— Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
— Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.
O homem duro escarneceu: — Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.
Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade da sua nudez.
1 942
Manuel Bandeira
Isaías
Deus dê a este novo Isaías
Não visões, não profecias:
Dê o que falta a tanta gente
— Pureza d'alma, semente
Das celestiais alegrias.
Não visões, não profecias:
Dê o que falta a tanta gente
— Pureza d'alma, semente
Das celestiais alegrias.
1 155
Manuel Bandeira
Sonho de Uma Noite de Coca
O suplicante — Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome. Venha a nós o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pó nosso de cada dia nos dá hoje...
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
724
Manuel Bandeira
Brigadeiro Praticante
O Brigadeiro é católico:
Vai à igreja, ajoelha e reza.
Mas quando bate no peito,
Bate em rocha de certeza;
— É direito!
Brigadeiro praticante,
Comunga, e quando comunga,
Incorpora um Deus ativo:
Não o Deus, inútil calunga,
Sim o Deus vivo!
O Deus que acende nos homens
A chama da caridade,
Do dever sem recompensa:
Deus que a força da humildade
Faz imensa!
Comunga, mas não comunga
Com os impostores ateus
e os ricos do Estado Novo:
Comunga só com o seu Deus
E com o povo!
Vai à igreja, ajoelha e reza.
Mas quando bate no peito,
Bate em rocha de certeza;
— É direito!
Brigadeiro praticante,
Comunga, e quando comunga,
Incorpora um Deus ativo:
Não o Deus, inútil calunga,
Sim o Deus vivo!
O Deus que acende nos homens
A chama da caridade,
Do dever sem recompensa:
Deus que a força da humildade
Faz imensa!
Comunga, mas não comunga
Com os impostores ateus
e os ricos do Estado Novo:
Comunga só com o seu Deus
E com o povo!
782
Manuel Bandeira
Oração a Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
942
Manuel Bandeira
Prece
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
1 077
Manuel Bandeira
André
André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
1 064
Manuel Bandeira
Três Letras para Melodias de Villa-lobos
1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
1 333
Manuel Bandeira
Zezé-arnaldo
Meus caros primos, na data
De hoje, a Jesus Cristo Rei
Alquimista pedirei
Transforme em ouro essa prata,
Ainda que é prata de lei.
De hoje, a Jesus Cristo Rei
Alquimista pedirei
Transforme em ouro essa prata,
Ainda que é prata de lei.
1 074
Manuel Bandeira
Anunciação
O anjo, embuçado
Num raio X,
Curvou-se e disse:
— Chico de Assis,
Senhora Eunice,
Queríeis filho?
Pois, Deus louvado,
Me maravilho,
Que ouvidos sois:
Dar-vos-á dois!
Num raio X,
Curvou-se e disse:
— Chico de Assis,
Senhora Eunice,
Queríeis filho?
Pois, Deus louvado,
Me maravilho,
Que ouvidos sois:
Dar-vos-á dois!
1 074
Manuel Bandeira
A Maria da Glória
Maria dá glória a menina,
Mas esta dá glória a Maria.
Então viva muito a menina
Para glória maior de Maria.
Mas esta dá glória a Maria.
Então viva muito a menina
Para glória maior de Maria.
1 379
Manuel Bandeira
Duas Marias
Duas Marias: Cristina
E sua gêmea Isabel.
A ambas saúda e se assina
Servo e admirador Manuel.
Pincel que pintar Cristina
Tem que pintar Isabel.
Se o pintor for o Candinho,
Então é a sopa no mel.
Dorme sem susto, Cristina,
Dorme sem medo, Isabel:
Nossa Senhora vos nina,
Ao pé está o Anjo Gabriel.
E sua gêmea Isabel.
A ambas saúda e se assina
Servo e admirador Manuel.
Pincel que pintar Cristina
Tem que pintar Isabel.
Se o pintor for o Candinho,
Então é a sopa no mel.
Dorme sem susto, Cristina,
Dorme sem medo, Isabel:
Nossa Senhora vos nina,
Ao pé está o Anjo Gabriel.
1 064
Manuel Bandeira
Urânia Maria
Urânia junto a Maria:
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
1 196
Manuel Bandeira
Mozart no Céu
No dia 5 de dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus Mozart entrou no céu, como um artista de circo, fazendo piruetas extraordinárias sobre um mirabolante cavalo branco.
Os anjinhos atônitos diziam: Que foi? Que foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
Os anjinhos atônitos diziam: Que foi? Que foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
1 286
Manuel Bandeira
Lenda Brasileira
A moita buliu. Bentinho Jararaca levou a arma à cara: o que saiu do mato foi
o Veado Branco! Bentinho ficou pregado no chão. Quis puxar o gatilho e
não pôde.
— Deus me perdoe!
Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo, parou junto do caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.
o Veado Branco! Bentinho ficou pregado no chão. Quis puxar o gatilho e
não pôde.
— Deus me perdoe!
Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo, parou junto do caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.
1 600
Manuel Bandeira
Ubiquidade
Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
Petrópolis, 11.3.1943
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
Petrópolis, 11.3.1943
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