Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Allen Ginsberg
Mescalina
Ginsberg apodrecendo, olhei-o nu no espelho hoje
reparei no velho crânio, estou ficando calvo
minha cabeça brilha na luz da cozinha sob o cabelo fino
como o crânio de algum monge nas velhas catacumbas iluminadas por
um guarda com a lanterna
seguido por um bando de turistas
assim a morte existe
meu gato mia e olha para dentro do armário
Boito canta esta noite na vitrola sua antiga canção de anjos
o busto de Antinoo na fotografia marrom ainda olhando a partir da minha parede
uma luz jorrada das delicadas mios de Deus manda uma pomba de madeira para a calma virgem
o universo de Beato Angelico
o gato ficou louco e mia arranhando o chão
o que acontecerá quando o gongo da morte golpear a cabeça de ginsberg apodrecendo
em que universo entrarei
morte morte morte morte morte o gato sossegou
estaremos algum dia livres —de Ginsberg apodrecendo
Então deixa apodrecer, graças a Deus que eu sei
graças a quem
graças a quem
Graças a Ti, Oh senhor além do meu olho
o caminho deve levar a algum lugar
o caminho
o caminho
pelo cemitério dos navios que apodrecem, pelas orgias de Angelico
Bip, emite um vagido de bebê e já se foi
talvez seja essa a resposta, não saberia a não ser tendo um filho
Sei lá, nunca tive um filho nunca terei do jeito como estou indo
Sim, eu devia ser bom, devia casar
saber como é
mas não agüento essas mulheres em volta de mim
cheiro de Naomi
bah, estou travado neste familiar ginsberg apodrecendo
nem agüento mais os garotos
não agüento
não agüento
e quem, na verdade, está a fim de tomar no cu
Mares imensos passam sobre
o fluir do tempo
e quem está a fim de ser famoso e dar autógrafos como um
astro de cinema?
Quero saber
eu quero eu quero ridículo saber saber O QUE ginsberg apodrecendo
eu quero saber o que vai acontecer depois que eu apodrecer
pois já estou apodrecendo
meu cabelo está caindo eu estou barrigudo eu estou cheio de sexo
meu cu se arrasta pelo universo eu sei demais
e não sei o suficiente
quero saber o que acontece depois que eu morrer
logo descobriremos
preciso mesmo saber agora?
adianta alguma coisa adianta adianta
morte morte morte morte morte
deus deus deus deus deus deus deus o Lone Ranger
o ritmo da máquina de escrever
O que posso fazer Céus socando a máquina de escrever
estou travado trocar o disco Gregory ah ótimo ele está fazendo justamente isso
e eu estou consciente demais de um milhão de ouvidos
neste momento orelhas miseráveis, fazendo qualquer negócio
fotografias demais nos jornais
amarelados apagados recortes de jornais
estou saindo do poema para uma bosta contemplativa
lixo da mente
lixo do mundo
o homem é meio lixo
todo o lixo no túmulo
O que poderá Williams estar pensando em Paterson, a morte tão nele
tão já tão já
Williams, o que é a morte?
Você agora se defronta com a grande questão a cada momento
ou você a esquece no café da manhã olhando para a cara do seu velho e feio amor
estará você preparado para renascer
para livrar-se deste mundo e entrar no céu
ou livrar-se, livrar-se e tudo acabado - e ver uma vida - toda a eternidade - passada
para o nada, um enigma proposto pela lua para a terra sem resposta
Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma glória para mim! Não para mim!
Não adianta escrever quando o espírito não conduz
N Y 1959
reparei no velho crânio, estou ficando calvo
minha cabeça brilha na luz da cozinha sob o cabelo fino
como o crânio de algum monge nas velhas catacumbas iluminadas por
um guarda com a lanterna
seguido por um bando de turistas
assim a morte existe
meu gato mia e olha para dentro do armário
Boito canta esta noite na vitrola sua antiga canção de anjos
o busto de Antinoo na fotografia marrom ainda olhando a partir da minha parede
uma luz jorrada das delicadas mios de Deus manda uma pomba de madeira para a calma virgem
o universo de Beato Angelico
o gato ficou louco e mia arranhando o chão
o que acontecerá quando o gongo da morte golpear a cabeça de ginsberg apodrecendo
em que universo entrarei
morte morte morte morte morte o gato sossegou
estaremos algum dia livres —de Ginsberg apodrecendo
Então deixa apodrecer, graças a Deus que eu sei
graças a quem
graças a quem
Graças a Ti, Oh senhor além do meu olho
o caminho deve levar a algum lugar
o caminho
o caminho
pelo cemitério dos navios que apodrecem, pelas orgias de Angelico
Bip, emite um vagido de bebê e já se foi
talvez seja essa a resposta, não saberia a não ser tendo um filho
Sei lá, nunca tive um filho nunca terei do jeito como estou indo
Sim, eu devia ser bom, devia casar
saber como é
mas não agüento essas mulheres em volta de mim
cheiro de Naomi
bah, estou travado neste familiar ginsberg apodrecendo
nem agüento mais os garotos
não agüento
não agüento
e quem, na verdade, está a fim de tomar no cu
Mares imensos passam sobre
o fluir do tempo
e quem está a fim de ser famoso e dar autógrafos como um
astro de cinema?
Quero saber
eu quero eu quero ridículo saber saber O QUE ginsberg apodrecendo
eu quero saber o que vai acontecer depois que eu apodrecer
pois já estou apodrecendo
meu cabelo está caindo eu estou barrigudo eu estou cheio de sexo
meu cu se arrasta pelo universo eu sei demais
e não sei o suficiente
quero saber o que acontece depois que eu morrer
logo descobriremos
preciso mesmo saber agora?
adianta alguma coisa adianta adianta
morte morte morte morte morte
deus deus deus deus deus deus deus o Lone Ranger
o ritmo da máquina de escrever
O que posso fazer Céus socando a máquina de escrever
estou travado trocar o disco Gregory ah ótimo ele está fazendo justamente isso
e eu estou consciente demais de um milhão de ouvidos
neste momento orelhas miseráveis, fazendo qualquer negócio
fotografias demais nos jornais
amarelados apagados recortes de jornais
estou saindo do poema para uma bosta contemplativa
lixo da mente
lixo do mundo
o homem é meio lixo
todo o lixo no túmulo
O que poderá Williams estar pensando em Paterson, a morte tão nele
tão já tão já
Williams, o que é a morte?
Você agora se defronta com a grande questão a cada momento
ou você a esquece no café da manhã olhando para a cara do seu velho e feio amor
estará você preparado para renascer
para livrar-se deste mundo e entrar no céu
ou livrar-se, livrar-se e tudo acabado - e ver uma vida - toda a eternidade - passada
para o nada, um enigma proposto pela lua para a terra sem resposta
Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma glória para mim! Não para mim!
Não adianta escrever quando o espírito não conduz
N Y 1959
1 539
Allen Ginsberg
A resposta
Deus responde com minha condenação!
esta poesia apagada do lenho ardente
minhas mentiras respondidas pelo verme no meu ouvido
minha visão pela mão que cai sobre meus olhos para cobri-los
diante da visão do meu esqueleto
—meu anseio de ser Deus pela trêmula carne barbada do maxilar
que cobre meu crânio como a pele de um monstro
Estômago vomitando a videira da alma, cadáver no
assoalho de uma cabana de bambu, carne do corpo rastejando
rumo a seu pesadelo do destino que cresce no meu cérebro
0 barulho do estrondo da criação adorando seu Carrasco, o salto
dos pássaros para o Infinito, latidos como o som
do vômito no ar, sapos coaxando Morte nas árvores
eu sou um Serafim e não sei se vou para dentro do Vazio
eu sou um homem e não sei se vou para dentro da Morte —
Cristo Cristo pobre desesperançado
alçado à Cruz entre as Dimensões —
para ver o Sempre-Incognoscível!
um som de gongo morto treme por toda a minha carne e um
imenso Ser entra no meu
cérebro vindo do longe que vive para sempre
Nada mais além da Presença poderosa demais para registrar!
a Presença
na Morte, diante da qual estou indefeso
transforma-me de Alien em uma caveira
Velho Caolho dos sonhos dos quais não acordo a não ser morto
mãos puxadas para a escuridão por uma horrenda Mão
—cego contorcer-se do verme, cortado —o arado
é o próprio Deus
Que monstruoso baile da escuridão anterior ao universo
volta para visitar-me como um comando cego!
e possa eu apagar esta consciência, fugir de volta
para o amor de Nova York e o farei
Pobre lamentável Cristo com medo da predita Cruz, Imortal —
Fugir, mas não para sempre —a Presença virá, a hora
chegará, uma estranha verdade penetra o universo, a morte
mostra seu Ser como antes
e eu me desesperarei por ter esquecido! esquecido a volta ao meu destino,
para morrer disso —
O que é sagrado quando a Coisa é todo o universo?
rasteja em cada alma como um órgão de vampiro cantando
atrás das nuvens iluminadas pela lua —
pobre criatura vem agachada
sob as estrelas barbudas num campo negro no Peru
para depositar minha carga —morrerei de horror de morrer!
Nem diques nem pirâmides, mas a morte, e devemos nos preparar para essa
nudez, pobres ossos sugados até ressecarem por Sua longa boca
de formigas e vento, & nossas almas assassinadaspara preparar Sua Perfeição!
O momento chegou, Ele fez Sua vontade ser revelada para sempre
e nenhuma fuga para o velho Ser além das estrelas não irá
chegar ao mesmo escuro porto oscilante
de insuportável música
Nenhum refúgio no Eu, que está em chamas
nem no Mundo que também é Seu para ser
bombardeado & Devorado!
Reconhece Seu poder! Larga
minhas mãos —minha atemorizada caveira
— pois eu havia escolhido a auto-estima —
meus olhos, meu nariz, minha cara, meu caralho,
minha alma —e agora
o Destruidor sem cara!
Um bilhão de portas para o mesmo novo ser!
O universo vira-se pelo avesso para devorar-me!
e a poderosa irrupção de música sai para fora da porta desumana —
1960
esta poesia apagada do lenho ardente
minhas mentiras respondidas pelo verme no meu ouvido
minha visão pela mão que cai sobre meus olhos para cobri-los
diante da visão do meu esqueleto
—meu anseio de ser Deus pela trêmula carne barbada do maxilar
que cobre meu crânio como a pele de um monstro
Estômago vomitando a videira da alma, cadáver no
assoalho de uma cabana de bambu, carne do corpo rastejando
rumo a seu pesadelo do destino que cresce no meu cérebro
0 barulho do estrondo da criação adorando seu Carrasco, o salto
dos pássaros para o Infinito, latidos como o som
do vômito no ar, sapos coaxando Morte nas árvores
eu sou um Serafim e não sei se vou para dentro do Vazio
eu sou um homem e não sei se vou para dentro da Morte —
Cristo Cristo pobre desesperançado
alçado à Cruz entre as Dimensões —
para ver o Sempre-Incognoscível!
um som de gongo morto treme por toda a minha carne e um
imenso Ser entra no meu
cérebro vindo do longe que vive para sempre
Nada mais além da Presença poderosa demais para registrar!
a Presença
na Morte, diante da qual estou indefeso
transforma-me de Alien em uma caveira
Velho Caolho dos sonhos dos quais não acordo a não ser morto
mãos puxadas para a escuridão por uma horrenda Mão
—cego contorcer-se do verme, cortado —o arado
é o próprio Deus
Que monstruoso baile da escuridão anterior ao universo
volta para visitar-me como um comando cego!
e possa eu apagar esta consciência, fugir de volta
para o amor de Nova York e o farei
Pobre lamentável Cristo com medo da predita Cruz, Imortal —
Fugir, mas não para sempre —a Presença virá, a hora
chegará, uma estranha verdade penetra o universo, a morte
mostra seu Ser como antes
e eu me desesperarei por ter esquecido! esquecido a volta ao meu destino,
para morrer disso —
O que é sagrado quando a Coisa é todo o universo?
rasteja em cada alma como um órgão de vampiro cantando
atrás das nuvens iluminadas pela lua —
pobre criatura vem agachada
sob as estrelas barbudas num campo negro no Peru
para depositar minha carga —morrerei de horror de morrer!
Nem diques nem pirâmides, mas a morte, e devemos nos preparar para essa
nudez, pobres ossos sugados até ressecarem por Sua longa boca
de formigas e vento, & nossas almas assassinadaspara preparar Sua Perfeição!
O momento chegou, Ele fez Sua vontade ser revelada para sempre
e nenhuma fuga para o velho Ser além das estrelas não irá
chegar ao mesmo escuro porto oscilante
de insuportável música
Nenhum refúgio no Eu, que está em chamas
nem no Mundo que também é Seu para ser
bombardeado & Devorado!
Reconhece Seu poder! Larga
minhas mãos —minha atemorizada caveira
— pois eu havia escolhido a auto-estima —
meus olhos, meu nariz, minha cara, meu caralho,
minha alma —e agora
o Destruidor sem cara!
Um bilhão de portas para o mesmo novo ser!
O universo vira-se pelo avesso para devorar-me!
e a poderosa irrupção de música sai para fora da porta desumana —
1960
972
Allen Ginsberg
Sutra do girassol
Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
1 089
Affonso Romano de Sant'Anna
À Moda de Fernando Pessoa, Quase Manuel Bandeira
Se me parassem de pedir documentos
provando que sou quem sou…
ah! se parassem de me pedir documentos!
Esta a maior vantagem de estar morto:
ninguém me pedirá mais CPF, título de eleitor,
atestado de reservista e residência, provas de vacina
e pagamentos de imposto de renda.
Não me pedirão,
mas aos herdeiros
exigirão que provem que eu era quem eu era
ou que eu não era quem não era.
Nisto Deus resolveu de vez a questão:
quando, no primeiro guichê da burocracia humana,
Moisés lhe indagou: – Quem sois?
Ele tão somente respondeu:
– Eu sou quem sou.
No meu caso é diferente.
Eu nem sou o que penso ser.
Daí compreendo as dúvidas das repartições.
O bucrocrata pede
e eu lanço no balcão números e letras a granel.
Ele, funcionário, parece ao fim se contentar.
Eu, não.
Volto para casa
olho o espelho, reviro os poemas
numa pesquisa que não vai nunca terminar.
provando que sou quem sou…
ah! se parassem de me pedir documentos!
Esta a maior vantagem de estar morto:
ninguém me pedirá mais CPF, título de eleitor,
atestado de reservista e residência, provas de vacina
e pagamentos de imposto de renda.
Não me pedirão,
mas aos herdeiros
exigirão que provem que eu era quem eu era
ou que eu não era quem não era.
Nisto Deus resolveu de vez a questão:
quando, no primeiro guichê da burocracia humana,
Moisés lhe indagou: – Quem sois?
Ele tão somente respondeu:
– Eu sou quem sou.
No meu caso é diferente.
Eu nem sou o que penso ser.
Daí compreendo as dúvidas das repartições.
O bucrocrata pede
e eu lanço no balcão números e letras a granel.
Ele, funcionário, parece ao fim se contentar.
Eu, não.
Volto para casa
olho o espelho, reviro os poemas
numa pesquisa que não vai nunca terminar.
550
Affonso Romano de Sant'Anna
Isto & História,1968
Ontem, 67 estudantes foram presos na Cinelândia
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
1 031
Allen Ginsberg
Peço-lhe que volte
Esta noite fiquei ligado na janela do meu apartamento
sentado às 3 da manhã
olhando incandescentes tochas azuis
embaixo a rua amplamente iluminada
densas sombras assomando no asfalto recém-colocado
—assim como os rabinos medievais da semana passada
andando penosamente no escuro
lixo cruamente virado —bastões
& latas
e senhoras cansadas sentadas nos latões
de lixo espanhol —no calor mortal
- faz um mês
os hidrantes de incêndio tiveram um vazamento
hoje às 3 da tarde o sol numa neblina —
agora tudo escuro lá fora, um gato silencioso
atravessa a rua —eu mio
e ele olha para cima e passa por
uma pilha de entulho no caminho
até o brilhante latão dourado de lixo
(fósforo na noite
e fedor do beco)
( ou então do lixo nas portas)
—Acho que a América é um caos
A polícia atravanca as ruas com sua ansiedade
A viatura guincha & pára
Hoje uma mulher, 20 anos, bateu no irmão
que brincava com seus tijolos infantis
brincava com um enorme rochedo —
“Não faça isso agora! a polícia! a polícia!”
E não havia polícia lá —
Olho por cima do meu ombro —
Um monte de lixo do outro lado.
Gás lacrimogêneo! Dinamite! Bigodes!
Deixarei crescer a barba e carregarei adoráveis
bombas,
destruirei o mundo, me infiltrarei entre
as fendas da morte
E transformarei o universo —Ha! Tenho o segredo, carrego
salames subversivos na
minha pasta amarrotada
“Alho, pobreza, um testamento para o céu,”
um estranho sonho na minha carne:
Nuvens radiantes, eu ouvi a voz de Deus no
meu sono, ou de Blake acordado, ou minha
própria ou
o sonho de uma rotisseria de vacas mugindo
e porcos grunhindo —
O golpe de uma facada
um dedo decepado no meu cérebro —
umas poucas mortes que eu conheço —
Oh, irmãos na Láurea
Será o mundo real?
Será a Coroa de Louros
uma piada ou uma coroa de espinhos? —
Depressa, passa
pelo cu
Lá vou eu
Vem Pavor
—a rua lá fora,
eu espreitando Nova York
O caminhão negro passa roncando &
vibrando fundo —
Que
tai
se
os
mundos
fossem
uma
série
de degraus
Que
tal
se
os
degraus
se encontrassem
de novo
na
Margem
—Deixando-nos voar como pássaros para dentro do Tempo
—olhos e faróis de carros —
A retração do vazio
dentro da Nebulosa
Essas Galáxias cruzam-se como roldanas & elas passam
como gás
Que florestas nascem.
15 de setembro, 1959
sentado às 3 da manhã
olhando incandescentes tochas azuis
embaixo a rua amplamente iluminada
densas sombras assomando no asfalto recém-colocado
—assim como os rabinos medievais da semana passada
andando penosamente no escuro
lixo cruamente virado —bastões
& latas
e senhoras cansadas sentadas nos latões
de lixo espanhol —no calor mortal
- faz um mês
os hidrantes de incêndio tiveram um vazamento
hoje às 3 da tarde o sol numa neblina —
agora tudo escuro lá fora, um gato silencioso
atravessa a rua —eu mio
e ele olha para cima e passa por
uma pilha de entulho no caminho
até o brilhante latão dourado de lixo
(fósforo na noite
e fedor do beco)
( ou então do lixo nas portas)
—Acho que a América é um caos
A polícia atravanca as ruas com sua ansiedade
A viatura guincha & pára
Hoje uma mulher, 20 anos, bateu no irmão
que brincava com seus tijolos infantis
brincava com um enorme rochedo —
“Não faça isso agora! a polícia! a polícia!”
E não havia polícia lá —
Olho por cima do meu ombro —
Um monte de lixo do outro lado.
Gás lacrimogêneo! Dinamite! Bigodes!
Deixarei crescer a barba e carregarei adoráveis
bombas,
destruirei o mundo, me infiltrarei entre
as fendas da morte
E transformarei o universo —Ha! Tenho o segredo, carrego
salames subversivos na
minha pasta amarrotada
“Alho, pobreza, um testamento para o céu,”
um estranho sonho na minha carne:
Nuvens radiantes, eu ouvi a voz de Deus no
meu sono, ou de Blake acordado, ou minha
própria ou
o sonho de uma rotisseria de vacas mugindo
e porcos grunhindo —
O golpe de uma facada
um dedo decepado no meu cérebro —
umas poucas mortes que eu conheço —
Oh, irmãos na Láurea
Será o mundo real?
Será a Coroa de Louros
uma piada ou uma coroa de espinhos? —
Depressa, passa
pelo cu
Lá vou eu
Vem Pavor
—a rua lá fora,
eu espreitando Nova York
O caminhão negro passa roncando &
vibrando fundo —
Que
tai
se
os
mundos
fossem
uma
série
de degraus
Que
tal
se
os
degraus
se encontrassem
de novo
na
Margem
—Deixando-nos voar como pássaros para dentro do Tempo
—olhos e faróis de carros —
A retração do vazio
dentro da Nebulosa
Essas Galáxias cruzam-se como roldanas & elas passam
como gás
Que florestas nascem.
15 de setembro, 1959
912
Allen Ginsberg
Transcrição de música de órgão
A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
1 280
Allen Ginsberg
Salmo mágico
Porque o mundo está à beira do abismo e ninguém sabe o quevirá depois
Oh Fantasma que minha mente persegue de ano para ano desce do céu para esta carne trêmula
colhe meu olho fugitivo no vasto Raio que não conhece limites — Inseparável - Mestre
Gigante fora do tempo com todas as suas folhas caindo - Gênio do Universo - Mágico do Nada onde nuvens vermelhas aparecem -
Indizível Rei das rodovias que se foram - Ininteligível Cavalo saltando fora do sepulcro - Poente sobre a grande Cordilheira e inseto - Cupim -
Lamentoso - Riso sem boca, Coração que nunca teve carne para morrer - Promessa que não foi feita - Consolador, cujo sangue arde em um milhão de animais feridos -
Oh Misericórdia, Destruidor do Mundo, Oh Misericórdia, Criador das Ilusões Acalentadas, Oh Misericórdia, arrulho cacofônico da boca quente, Vem,
invade meu corpo com o sexo de Deus, sufoca minhas narinas com a infinita carícia da corrupção,
transfigura-me em vermes viscosos de pura transcendência sensorial, ainda estou vivo,
grasna minha voz com o mais feio que a realidade, um tomate psíquico falando-Te por milhões de bocas,
Alma minha com miríades de línguas, Monstro ou Anjo, Amante que vem foder-me para sempre - véu branco do Polvo sem Olhos -
Cu do Universo no qual desapareço - Mão Elástica que falou com Crane128 —Música que toca na vitrola dos anos vinda de outro Milênio - Ouvido dos edifícios de NY
Aquilo em que acredito - que vi - procurei incessantemente na folha cachorro olho - sempre culpa, falta, - o que me faz pensar -
Desejo que me criou, Desejo que escondo no meu corpo, Desejo que todo Homem conhece Morte, Desejo ultrapassando o mundo Babilônico possível
que faz minha carne sacudir-se em orgasmos do Teu Nome que não conheço nunca conseguirei nunca dizer -
Dizer à Humanidade para dizer que o grande sino toca um tom dourado nos balcões de ferro em cada milhão de universos,
eu sou Teu profeta volta para casa para este mundo para gritar um insuportável Nome pelo odioso sexto dos meus 5 sentidos
que conhece Tua mão em seu falo invisível, coberta pelos bulbos elétricos da morte -
Paz, Solucionador onde embaralho ilusões, vagina de Boca Moleque entra no meu cérebro por cima, Pomba da Arca com um ramo de Morte.
Enlouquece-me, Deus estou pronto para a desintegração da minha mente, desgraça-me no olho da terra,
ataca meu coração cabeludo come meu caralho Invisível coaxar do sapo da morte salta em mim matilha de pesados cães salivando luz,
devora meu cérebro fluxo Uno de interminável consciência, tenho medo da tua promessa devo fazer que minha oração grite no medo - Desce Oh Luz Criador & Devorador da Humanidade, arrebenta o mundo na sua loucura de bombas e morticínio,
Vulcões de carne sobre Londres, em Paris uma chuva de olhos - caminhões carregados de corações de anjos para lambuzar as paredes do Kremlin - a caveira de luz para Nova York -
miríade de pés recobertos de jóias nos terraços de Pequim - véus de gás elétrico baixando sobre a índia - cidades de
Bactéria invadindo o cérebro - a Alma escapando para as ondulantes bocas de borracha do Paraíso -
Este é o Grande Chamado, esta é a Toxina da Guerra Eterna, este é o grito da Mente assassinada na Nebulosa,
este é o Sino Dourado da Igreja que nunca existiu, este é o Bum no coração do raio do sol, esta é a trombeta do Verme na Morte,
Apelo do agarrâo castrado sem mãos Doação da semente dourada do futuro pelo terremoto & vulcão do mundo -
Sepulta meus pés sob os Andes, esparrama meus miolos sobre a Esfinge, hasteia minha barba e cabelo no Empire State Building,
cobre minha barriga com mãos de musgo, enche meus ouvidos com teu clarão, cega-me com arco-íris proféticos
Que eu prove finalmente a merda de Ser, que eu toque Teus genitais na palmeira,
que o vasto Raio do Futuro entre pela minha boca para fazer soar Tua Criação Eternamente Não-nascida, Oh beleza invisível para meu Século!
que minha oração ultrapasse minha compreensão, que eu deposite minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Julgamento de Alien neste mundo
nascido em Newark chegado para a Eternidade em Nova York chorando novamente no Peru pela definitiva Língua para salmodiar o Indisível,
que eu ultrapasse o desejo de transcendência e entre nas calmas águas do universo
que eu cavalgue esta onda, não mais eternamente afogado na torrente da minha imaginação
que eu não seja assassinado pela minha própria doida magia, crime este a ser punido nos piedosos cárceres da Morte,
homens entendei minha fala fora de seus próprios corações turcos, ajudem-me os profetas com a Proclamação,
que os Serafins aclamem Teu Nome, Tu subitamente em uma imensa Boca do Universo fazendo a carne responder.
1960
Oh Fantasma que minha mente persegue de ano para ano desce do céu para esta carne trêmula
colhe meu olho fugitivo no vasto Raio que não conhece limites — Inseparável - Mestre
Gigante fora do tempo com todas as suas folhas caindo - Gênio do Universo - Mágico do Nada onde nuvens vermelhas aparecem -
Indizível Rei das rodovias que se foram - Ininteligível Cavalo saltando fora do sepulcro - Poente sobre a grande Cordilheira e inseto - Cupim -
Lamentoso - Riso sem boca, Coração que nunca teve carne para morrer - Promessa que não foi feita - Consolador, cujo sangue arde em um milhão de animais feridos -
Oh Misericórdia, Destruidor do Mundo, Oh Misericórdia, Criador das Ilusões Acalentadas, Oh Misericórdia, arrulho cacofônico da boca quente, Vem,
invade meu corpo com o sexo de Deus, sufoca minhas narinas com a infinita carícia da corrupção,
transfigura-me em vermes viscosos de pura transcendência sensorial, ainda estou vivo,
grasna minha voz com o mais feio que a realidade, um tomate psíquico falando-Te por milhões de bocas,
Alma minha com miríades de línguas, Monstro ou Anjo, Amante que vem foder-me para sempre - véu branco do Polvo sem Olhos -
Cu do Universo no qual desapareço - Mão Elástica que falou com Crane128 —Música que toca na vitrola dos anos vinda de outro Milênio - Ouvido dos edifícios de NY
Aquilo em que acredito - que vi - procurei incessantemente na folha cachorro olho - sempre culpa, falta, - o que me faz pensar -
Desejo que me criou, Desejo que escondo no meu corpo, Desejo que todo Homem conhece Morte, Desejo ultrapassando o mundo Babilônico possível
que faz minha carne sacudir-se em orgasmos do Teu Nome que não conheço nunca conseguirei nunca dizer -
Dizer à Humanidade para dizer que o grande sino toca um tom dourado nos balcões de ferro em cada milhão de universos,
eu sou Teu profeta volta para casa para este mundo para gritar um insuportável Nome pelo odioso sexto dos meus 5 sentidos
que conhece Tua mão em seu falo invisível, coberta pelos bulbos elétricos da morte -
Paz, Solucionador onde embaralho ilusões, vagina de Boca Moleque entra no meu cérebro por cima, Pomba da Arca com um ramo de Morte.
Enlouquece-me, Deus estou pronto para a desintegração da minha mente, desgraça-me no olho da terra,
ataca meu coração cabeludo come meu caralho Invisível coaxar do sapo da morte salta em mim matilha de pesados cães salivando luz,
devora meu cérebro fluxo Uno de interminável consciência, tenho medo da tua promessa devo fazer que minha oração grite no medo - Desce Oh Luz Criador & Devorador da Humanidade, arrebenta o mundo na sua loucura de bombas e morticínio,
Vulcões de carne sobre Londres, em Paris uma chuva de olhos - caminhões carregados de corações de anjos para lambuzar as paredes do Kremlin - a caveira de luz para Nova York -
miríade de pés recobertos de jóias nos terraços de Pequim - véus de gás elétrico baixando sobre a índia - cidades de
Bactéria invadindo o cérebro - a Alma escapando para as ondulantes bocas de borracha do Paraíso -
Este é o Grande Chamado, esta é a Toxina da Guerra Eterna, este é o grito da Mente assassinada na Nebulosa,
este é o Sino Dourado da Igreja que nunca existiu, este é o Bum no coração do raio do sol, esta é a trombeta do Verme na Morte,
Apelo do agarrâo castrado sem mãos Doação da semente dourada do futuro pelo terremoto & vulcão do mundo -
Sepulta meus pés sob os Andes, esparrama meus miolos sobre a Esfinge, hasteia minha barba e cabelo no Empire State Building,
cobre minha barriga com mãos de musgo, enche meus ouvidos com teu clarão, cega-me com arco-íris proféticos
Que eu prove finalmente a merda de Ser, que eu toque Teus genitais na palmeira,
que o vasto Raio do Futuro entre pela minha boca para fazer soar Tua Criação Eternamente Não-nascida, Oh beleza invisível para meu Século!
que minha oração ultrapasse minha compreensão, que eu deposite minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Julgamento de Alien neste mundo
nascido em Newark chegado para a Eternidade em Nova York chorando novamente no Peru pela definitiva Língua para salmodiar o Indisível,
que eu ultrapasse o desejo de transcendência e entre nas calmas águas do universo
que eu cavalgue esta onda, não mais eternamente afogado na torrente da minha imaginação
que eu não seja assassinado pela minha própria doida magia, crime este a ser punido nos piedosos cárceres da Morte,
homens entendei minha fala fora de seus próprios corações turcos, ajudem-me os profetas com a Proclamação,
que os Serafins aclamem Teu Nome, Tu subitamente em uma imensa Boca do Universo fazendo a carne responder.
1960
1 777
Affonso Romano de Sant'Anna
Batismo No Jordão
Numa tarde banhei-me no rio Jordão.
Para quem vinha dos açudes de Minas
podeis imaginar minha santa satisfação.
Eu nadava. Nadava submergia nadava
e olhava atentamente o céu.
No entanto,
nenhuma pomba
nenhuma voz paterna
dizia ser eu um escolhido
embora me aguardasse em algum lugar
a inevitável crucificação.
Para quem vinha dos açudes de Minas
podeis imaginar minha santa satisfação.
Eu nadava. Nadava submergia nadava
e olhava atentamente o céu.
No entanto,
nenhuma pomba
nenhuma voz paterna
dizia ser eu um escolhido
embora me aguardasse em algum lugar
a inevitável crucificação.
1 153
Allen Ginsberg
Ácido lisérgico
Ele é um monstro múltiplo de um milhão de olhos
ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,
perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Alien Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus
eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado
Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa
Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim Há . . . um Sim eu Sou . .. um Sim você É .. . um Nós
Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas
da Batalha na sua Múltipla Esclerose
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra
Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibet
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte
Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um 0 ou Aum
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias
contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante -
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre
e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o Inominável, o Irrespondível, o
Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pars a si mesma
freme na sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada qual de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar
E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozóides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer maneira
ele aparece de qualquer maneira no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra na sua cabeça
um riso de bebê na sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heróico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
elé me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária,
MANDALA
Deuses dançam nos seus próprios corpos
Novas flores abrem-se esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas elevam-se num hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!
SF, 2 de junho, 1959
ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,
perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Alien Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus
eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado
Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa
Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim Há . . . um Sim eu Sou . .. um Sim você É .. . um Nós
Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas
da Batalha na sua Múltipla Esclerose
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra
Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibet
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte
Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um 0 ou Aum
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias
contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante -
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre
e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o Inominável, o Irrespondível, o
Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pars a si mesma
freme na sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada qual de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar
E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozóides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer maneira
ele aparece de qualquer maneira no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra na sua cabeça
um riso de bebê na sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heróico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
elé me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária,
MANDALA
Deuses dançam nos seus próprios corpos
Novas flores abrem-se esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas elevam-se num hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!
SF, 2 de junho, 1959
1 474
Allen Ginsberg
Kaddish
para Naomi Ginsberg193
1894-1956
I
Estranho pensar em você agora que partiu sem espartilhos & olhos, enquanto percorro o calçamento ensolarado de Greenwich Village
na direção do Centro de Manhattan, meio-dia claro de inverno e passei a noite toda acordado, falando, falando, lendo o Kaddish em voz alta, escutando o grito cego dos blues de Ray Charles na vitrola,
o ritmo, o ritmo – e tua lembrança na minha cabeça três anos depois – E li em voz alta, sozinho, os triunfantes versos finais de Adonais194 –
chorei ao perceber o quanto sofremos –
E o quanto a Morte é o lenitivo sonhado, cantado, profetizado por todos os cantores, como no Hino Hebraico ou no Livro Budista das Respostas – e uma folha murcha em minha própria imaginação – ao amanhecer –
Sonhando de novo através da vida, Teu tempo – e o meu acelerando-se rumo ao Apocalipse,
o momento final – a flor queimando no Dia – e o que virá depois,
olhando a mente que por sua vez enxergou uma cidade americana
num relance, e o grande sonho de Mim ou China ou você ou uma Rússia
fantasma ou uma cama desfeita que nunca existiu –
como um poema escuro – que escapou de volta para o Esquecimento –
Mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado, só os seres no Sonho, agarrados ao desaparecerem,
suspirando, berrando, comprando e vendendo pedaços de fantasma, adorando-se uns aos outros,
adorando o Deus incluído nisso tudo – desejo ou fatalidade? – enquanto dura, uma Visão – mais nada?
Salta ao meu redor enquanto saio e caminho pela rua, olho para trás, Sétima Avenida, a muralha de prédios de escritórios com suas janelas, acotovelando-se altos sob a nuvem, altos por um momento como o céu
– e o céu acima – um velho lugar azul.
ou rua abaixo pela Avenida para o Sul, para – enquanto caminho na direção do Baixo East Side – lá onde você caminhou há 50 anos, menina – da Rússia, comendo os primeiros tomates venenosos da América –
amedrontada no cais –
então debatendo-se na multidão de Orchard Street, para onde? – para Newark –
para as confeitarias, primeiras sodas caseiras do século, sorvete batido à mão no quarto dos fundos em mesas de madeira escura mofada –
Para a educação casamento colapso nervoso, operação, escola normal e aprendendo a ser louca, num sonho – que vida é essa?
Para a Chave na Janela195 – E a grande Chave repousa sua cabeça de luz no topo de Manhattan, no assoalho, repousa na calçada – um só raio de luz que se mexe enquanto desço pela Primeira Avenida na direção do Teatro Iídiche – e do lugar da pobreza
que você conheceu e eu conheci, mas sem preocupar-me agora – Estranho
ter passado por Paterson e o Oeste e a Europa e novamente aqui, agora com os gritos dos espanhóis nas soleiras das portas, meninos negros e escadas de emergência tão velhas quanto você
– Embora você não esteja mais velha, agora isso ficou aqui comigo
Eu, de qualquer modo, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez –
Isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dente no final –
Embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro, a alma em nós, Ah! oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança –
pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio pelado, costela quebrada, pele rasgada, Implacabilidade
Ai, ai! cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte a deixou de fora, a Morte teve piedade, você passou por seu século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – Finalmente passou por você mesma – Pura – De volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo –
Lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Sei para onde foi, tudo bem.
Mais nada de flores nos campos estivais de Nova York, agora mais nada da alegria nem do medo de Louis, 196
e mais nada de sua doçura e óculos, suas décadas de escolas, dívidas, casos amorosos, telefonemas amedrontados, leitos de parto, parentes, mãos –
Mais nada da irmã Elanor – ela partiu antes de você – nós não contamos –
você a matou – ou ela se matou por ter que aguentar você – coração artrítico – Porém a Morte as matou, às duas – Tanto faz –
Nem mais nada de lembranças da sua mãe, lágrimas de 1915 em filmes mudos por semanas e semanas seguidas – esquecendo, sofrendo ao assistir Marie Dressler197 dirigir-se à humanidade, Chaplin jovem dançando,
ou Boris Godunov, Chaliapin no Met198 elevando sua voz de Czar choroso em pé no saguão com Elanor & Max – olhando também os capitalistas ocuparem seus lugares na plateia, alvos casacos de pele, diamantes, com os Jovens Socialistas, 199 pegando uma carona pela Pennsylvania, bojudas calças pretas de ginástica, fotografias de 4 garotas cada qual com as mãos na cintura da outra, olhar risonho, tão recatadas, solidão virginal de 1920,
todas essas meninas envelheceram ou já morreram, e suas longas cabeleiras no túmulo – felizes ao arranjarem maridos mais tarde –
Você conseguiu – eu também cheguei! – meu irmão Eugene antes – até hoje se afligindo e se apertando até sua última mão enrijecida enquanto convive com seu câncer – ou se matará – mais tarde talvez – logo pensará –
E este é o último momento do qual me lembro, no qual os vejo todos, agora através de mim – mas não vejo você
Não antevi o que você sentiu – qual abismo mais horrendo desdentado de boca estragada chegou primeiro – para você – e estava você preparada?
Para ir aonde? Para aquela escuridão – aquela – aquele Deus? um clarão?
Um senhor no Vazio? como um olho dentro da nuvem negra no sonho?
Adonais finalmente com você?
Ultrapassa minha lembrança! Incapaz de adivinhar! Não é só o crânio amarelo no túmulo ou uma caixa de pó com vermes e uma tira de pano encardido – Caveira com auréola? Podes crer?
Será apenas o sol que brilha uma única vez para a mente, só o clarão da existência que já foi?
Nada além do que temos – do que você teve – tão pouca coisa – no entanto, Triunfo
por teres estado aqui e te transformado, como árvore caída ou flor – ligada ao solo – mas louca, com suas pétalas coloridas pensando no Grande Universo, abalada, a copa cortada, folha arrancada, escondida num hospital como um caixote vazio de ovos, trouxa de roupas, amarga –
perdida no cérebro lunático da Lua, anulação.
Nenhuma flor igual a essa flor que sabia estar no jardim e que lutou contra a faca – e que perdeu
Decepada pelo alfanje gelado do imbecil Boneco de Neve – e isso na Primavera – estranho pensamento fantasmagórico – que Morte – Afiado gume de gelo na mão – coroado de rosas murchas – um cachorro no lugar dos olhos – uma fábrica de escravos como caralho200 – coração de ferro elétrico.
Todas as acumulações da vida que nos consomem – relógios, corpos, consciência, sapatos, seios – filhos paridos – seu Comunismo –
“paranoia” nos hospitais.
Certa vez você chutou Elanor na perna, mais tarde ela morreu do coração.
Você de derrame. Dormindo? no espaço de um ano, vocês duas, irmãs
na morte. Estará Elanor feliz?
Max padece sozinho num escritório no Baixo Broadway, solitários bigodões sobre relatórios de Contabilidade a noite toda, algo assim. Sua vida passa – como é que ele a vê – e do que duvida agora? Ainda sonhando com ganhar dinheiro ou que poderia ter ganho dinheiro, contratado babá, tido filhos, até mesmo ter achado tua Imortalidade,
Naomi?
Logo o verei. Agora preciso continuar – para conversar com você – assim como eu não o fiz enquanto você tinha boca.
Para sempre. E estamos fadados a isso, Para Sempre – como os cavalos de Emily Dickinson201 – voltados para o Fim.
Eles conhecem o caminho – Esses Corcéis – correm mais rápido do que pensamos – é nossa própria vida que eles cruzam – e carregam consigo.
Magnífica, não mais carpida, golpeada no coração, mente para trás, sonhada casada mortal mudada – Bunda e rosto acabados com assassinato.
No mundo, doada, enlouquecida flor, Utopia que não chegou a ser, encerrada sob o lenho, consolada na Terra, confortada no Ermo, Jeová, aceita.
Inominado, Face Una, Para sempre além de mim, sem começo, sem fim, Pai da Morte. Ainda que eu não esteja preparado para esta Profecia, eu que não me casei, eu sem hinos, eu sem Céu, sem meta na bem-aventurança, ainda assim te adorarei.
A ti, Céu depois da morte, Único abençoado no Vazio, nem luz nem escuridão, Eternidade Sem Dias –
Recebe isto, este salmo, vindo de mim, um dia jorrado da minha mão, alguma coisa do meu Tempo agora entregue ao Nada – para louvar-Te –
Porém a Morte
Este é o fim, a redenção da Selvageria, caminho para o Maravilhado, casa almejada por Todos, lenço negro lavado pelas lágrimas – página para além do Salmo – Última transformação minha e de Naomi – rumo à perfeita Escuridão de Deus – Morte, para teus fantasmas!
II
De volta e de volta – refrão – dos Hospitais – ainda não escrevi tua
história – deixá-la abstrata – umas poucas imagens passam pela cabeça – como o coro de saxofone das casas e dos anos –
lembrança de eletrochoques.
Por aquelas longas noites quando criança no apartamento em Paterson, observando teu nervosismo – você era gorda – seu próximo passo –
Por aquela tarde quando fiquei em casa em vez de ir à escola, para cuidar de você – de uma vez por todas – quando fiz um voto para sempre, já que o homem discordava da minha opinião sobre o cosmos, então eu estava perdido –
Por minha missão mais tarde – promessa de iluminar a humanidade –
isto é, soltar partículas – (louco como você) – (sanidade um truque convencional) –
Mas você olhava pela janela para a esquina da Igreja de Broadway e espreitava um assassino místico de Newark,
Assim, telefonei para o Doutor – “OK, leve-a para repousar” – assim, vesti meu casaco e levei-a rua abaixo – No caminho, um garoto da escola berrou inesperadamente – “Para onde vai, senhora, para a Morte?”
Estremeci –
E você tapou o nariz com a gola de pele comida pelas traças, máscara antigases contra o veneno infiltrado na atmosfera da cidade, espalhado pela Vovó –
E quem seria o motorista da camioneta de queijos, se não um membro da quadrilha? Você teve um sobressalto ao vê-lo, mal podia conduzi-la –
para Nova York, Times Square mesmo, pegar outro ônibus da Greyhound –
– e lá ficamos parados umas 2 horas combatendo insetos invisíveis e doença judaica – brisa venenosa de Roosevelt –
soltos para pegá-la – e eu acompanhando-a, torcendo para que tudo
acabasse bem num quarto sossegado numa casa vitoriana junto a um lago.
3 horas de viagem por túneis passando por toda a indústria americana, Bayonne preparando-se para a Segunda Guerra Mundial, tanques, refinarias, fábricas de soda, refeitórios, rotundas fortificadas das locomotivas – até os pinheirais de índios de Nova Jersey – cidades tranquilas – longas estradas por bosques arenosos –
Pontes atravessando riachos sem cervos, antigos colares de contas enchendo o leito arenoso – lá embaixo, uma machadinha ou osso de Pocahontas – e um milhão de velhas votando em Roosevelt nas suas casinhas pintadas de marrom, estradas saindo da rodovia da loucura –
talvez um gavião numa árvore ou um ermitão procurando um galho cheio de corujas –
O tempo todo reclamando – com medo dos estranhos no banco da frente, roncando descuidadamente – em que viagem de ônibus estarão eles roncando agora?
“Allen, será que você não entende – é que – desde que enfiaram aquelas 3 varas grandes nas minhas costas – fizeram qualquer coisa comigo no Hospital, me envenenaram, querem me ver morta – 3 varas grandes, 3 varas grandes –
“A Puta! Vovó! Semana passada a vi, vestindo calças como um velho, um saco nas costas, subindo no prédio pela parede de tijolos
“Na escada de emergência, com germes de veneno, para jogar em mim
– à noite – talvez Louis a esteja ajudando – está dominado por ela –
“Eu sou sua mãe, leve-me para Lakewood” (perto do lugar onde o Graf Zeppelin havia caído, todo Hitler na Explosão) “onde eu possa me esconder”.
Chegamos lá – a casa de repouso do Dr. Whatzis – ela escondeu-se
atrás de um armário – exigiu transfusão de sangue.
Fomos postos para fora – caminhando com a maleta rumo a
desconhecidas casas com gramados à sombra – anoitecer, penumbra entre os pinheiros – longas ruas mortas cheias de grilos e urtigas –
Então já havia mandado ela calar a boca – casa grande CASA DE
REPOUSO, QUARTOS – deixei o pagamento para a semana com a senhoria – levei a maleta de ferro para dentro – sentei na cama esperando a hora de fugir –
Quarto limpo no sótão com uma colcha acolhedora – cortinas de laçarotes – tapete tecido à mão – Papel de parede manchado tão velho quanto Naomi – Estávamos em casa –
Parti no ônibus seguinte para Nova York – reclinei a cabeça no encosto do último banco, deprimido – o pior ainda por vir – deixando-a, viajei entorpecido – eu só tinha 12 anos.
Iria ela esconder-se no quarto para descer alegremente na hora do café?
Ou trancaria a porta para espreitar pela janela procurando espiões nas esquinas? Escutando o invisível gás Hitleriano pelo buraco da fechadura?
Sonhando numa poltrona – ou divertindo-se às minhas custas – diante de um espelho, só?
Aos 12 anos atravessando Nova Jersey de ônibus à noite, deixando Naomi entregue às Parcas na casa mal-assombrada de Lakewood – eu entregue ao ônibus do meu destino – afundado no assento – todos os violinos partidos – meu coração amargurado entre minhas costelas –
mente vazia – estivesse ela em segurança no seu caixão –
Ou então de volta à Escola Normal de Newark, estudando sobre a América de saia negra – inverno nas ruas sem almoço – um tostão, um pão202 – à noite em casa para cuidar de Elanor no quarto –
Primeiro colapso nervoso em 1919 – ficou em casa deitada no quarto escuro sem ir à escola por três semanas – alguma coisa ruim – nunca disse o que foi – todo ruído machucava – sonhando com as fendas de Wall Street
–
Antes da depressão cinzenta – mudou-se para o Estado de Nova York –
sarou – Louis tirou uma foto sua de pernas cruzadas na grama – seus longos cabelos com flores – sorrindo – tocando canções de ninar num bandolim – a fumaça das urtigas em colônias de férias de tendências esquerdistas e eu vendo árvores na infância –
ou de novo lecionando, rindo com os idiotas, as turmas mais atrasadas
– sua especialidade russa – idiotas de lábios sonhadores, olhos grandes, pés delgados & dedos doentios, recurvados, raquíticos –
cabeças grandes balançando sobre Alice no País das Maravilhas, um quadro-negro cheio de G A T O.
Naomi lendo pacientemente, histórias tiradas de um livro de contos de fadas comunistas – História da Súbita Doçura do Ditador – Clemência dos Bruxos – Exércitos beijando-se –
Caveiras ao redor da Mesa Verde – O Rei & os Trabalhadores – o Jornal de Paterson os publicou nos anos 30 até ela enlouquecer eles ou eles fecharem ou ambas as coisas.
Ó, Paterson! Cheguei tarde em casa aquela noite. Louis estava preocupado. Como podia eu ser tão – será que não pensava? Não a devia ter largado lá. Louca em Lakewood. Chamar o médico. Telefonar para a casa no pinheiral. Tarde demais.
Fui para a cama exausto, querendo largar o mundo (provavelmente de novo apaixonado por R aquele ano – meu herói do colégio na minha mente, garoto judeu que mais tarde se tornou médico, então um garoto
quieto e fino –
Eu mais tarde dando a vida por ele, mudei-me para Manhattan – segui-o na Faculdade – Rezei na balsa prometendo ajudar a humanidade se entrasse – prometi, o dia que fui fazer o vestibular –
que seria honesto revolucionário advogado trabalhista – me prepararia para isso – inspirado em Sacco Vanzetti, Norman Thomas, Debs, Altgeld, Sandburg, Poe – Brochuras Azuis. 203 Pretendia ser Presidente ou então Senador.
promessa ingênua – depois sonhos de prosternar-me diante dos joelhos escandalizados de R declarando meu amor em 1941 – Que doçura haveria ele de me mostrar, pois, a mim que tanto o desejara e tanto me desesperara
– primeiro amor – um choque –
Mais tarde uma avalanche mortal, montanhas de homossexualismo, Matterhorns de caralho, Grand Canyons de cu – pesando na minha cabeça melancólica –
enquanto isso caminhava pela Broadway imaginando o Infinito como uma bola de borracha sem espaço além dela – e o que existiria fora dela? –
voltando para casa na Graham Avenue ainda melancólico passando pelas solitárias cercas de arbustos ao longo da rua, sonhando depois do cinema –
)
O telefone tocou às 2 da madrugada – Emergência – ficou louca –
Naomi escondendo-se debaixo da cama gritando por causa dos percevejos de Mussolini – Socorro! Louis! Buba! 204 Fascistas! Morte! – a dona da pensão aterrorizada – o empregado bicha velha gritando com ela –
Terror que despertou os vizinhos – velhas do segundo andar recuperando-se da menopausa – todos aqueles trapos entre coxas, lençóis limpos, tristes por bebês perdidos – maridos cinéreos – filhos troçando em
Yale ou passando brilhantina no cabelo na Universidade de Nova York – ou tremendo na Faculdade de Educação de Montclair como Eugene –
Sua perna grossa dobrada até o peito, mão estendida Afastem-se, vestido de lã na altura das coxas, casaco de pele puxado para baixo da cama – entrincheirada com as malas ao pé da cama.
Louis de pijama ao telefone ouvindo apavorado – agora? Quem poderia resolver? – minha culpa, despachando-a para a solidão – sentado no quarto escuro, no sofá, trêmulo, tentando resolver –
Tomou o trem da manhã para Lakewood, Naomi sob a cama – pensou
que ele estivesse trazendo policiais com veneno – Naomi gritando – Louis, o que então aconteceu com seu coração? – Teria ele sido morto pelo êxtase de Naomi?
Arrastou-a para fora, dobrando a esquina, táxi, enfiou-a para dentro com a maleta mas o motorista os largou na frente da drogaria205 – Ponto de ônibus, duas horas de espera.
Eu nervoso, deitado na cama do apartamento de 4 cômodos, a cama grande da sala, junto à escrivaninha de Louis – tremendo – ele chegou tarde da noite em casa, contou-me o que acontecera.
Naomi no balcão dos remédios defendendo-se do inimigo – revoadas de livros infantis, saquinhos de banho de espuma, aspirinas, vidros, sangue
–
Louis aterrorizado junto ao balcão dos refrigerantes – com escoteiras de Lakewood – viciadas em Coca – enfermeiros – motoristas de ônibus esperando seu turno – Policiais da delegacia local, perplexos – e um padre, sonhando com porcos num antigo penhasco?
Farejando o ar – Louis apontando para o vazio? Fregueses vomitando suas Cocas – ou encarando – Louis humilhado – Naomi triunfante – A
Revelação da Conspiração. O ônibus chega, os motoristas não os levarão para Nova York.
Telefonema para o Dr. Whatzis, “ela precisa ser internada”, o Hospital psiquiátrico – Médicos do Estado em Greystone – Traga-a para cá, Mr.
Ginsberg.
Naomi, Naomi – suando, olhos esbugalhados, gorda, o vestido desabotoado de lado – cabelo na testa, meias malignamente caídas nas pernas – gritando que queria transfusão de sangue – uma mão reivindicatória levantada – sapato na mão – descalça na Farmácia –
A chegada dos inimigos – quais venenos? Gravadores? FBI?
Zdanov206 escondido atrás do balcão? Trotsky criando bacilo de rato no fundo da loja? Tio Sam em Newark, preparando mortais perfumes no bairro negro? Tio Ephraim, bêbado de assassinatos no bar dos políticos, tramando algo para Haia? Tia Rose afiando as agulhas da Guerra Civil Espanhola? 207
Até que a ambulância alugada por 35 dólares veio de Red Bank –
Agarraram-na pelos braços – ataram-na à padiola – gemendo, envenenada por coisas imaginárias, vomitando química através de Jersey, pedindo piedade desde Essex Country até Morristown –
E de volta a Greystone onde ficou por três anos – esse foi o ataque final, devolveu-a mais uma vez ao Hospício –
Em que pavilhões – andei por lá mais tarde, muito – velhas senhoras catatônicas? cinzentas como nuvens ou cinza ou paredes – sentadas cantarolando pelo chão – Cadeiras – e as bruxas encarquilhadas, reclamando – implorando por minha misericórdia de 13 anos de idade –
“Leve-me para casa” – Algumas vezes fui sozinho em busca da Naomi
perdida tomando eletrochoques – e eu dizia, “Não, Mamãe você está louca,
– Confie nos Drs.”
E Eugene, meu irmão, seu filho mais velho, estudando direito fora de casa num quarto mobiliado em Newark –
Chegou a Paterson no dia seguinte – sentou-se no sofá cambaio da sala
– “Tivemos de mandá-la de volta a Greystone” –
– sua cara perplexa, tão jovem, então só olhos com lágrimas – então só lágrimas rastejando pelo seu rosto – “Para quê?”, lamento vibrando no seu maxilar, olhos fechados, voz aguda – a cara da dor de Eugene.
Ele longe, refugiado num elevador da Biblioteca de Newark, sua garrafa diária de leite no peitoril da janela do apartamento mobiliado por 5
dólares a semana no Centro dos trilhos do bonde –
Ele trabalhava 5 horas por dia a 20 dólares/semana – durante os anos da Faculdade de Direito – permaneceu só e inocente perto dos prostíbulos dos negros.
Sem trepar, pobre virgem – escrevendo poemas sobre Ideais e cartas políticas para o editor do Pat Eve News208 – (ambos escrevíamos, denunciando o Senador Borah e os Isolacionistas – e sentindo algo de misterioso no Paço Municipal de Paterson –
Esgueirei-me lá dentro uma vez – torre do Moloch local com um pináculo fálico e cimeira ornamentada, estranha Poesia gótica plantada na Market Street – réplica do Hotel de Ville de Lyon –
alas, balcões e portais ornamentados, entrada para o gigantesco relógio da cidade, quarto secreto de mapas cheios de Haworthone209 – escuros Socialistas na comissão de Finanças – Rembrandt fumando na penumbra –
Silenciosas mesas envernizadas na grande sala de reuniões –
Vereadores? Comissão de Finanças? – Mosca, o cabeleireiro, conspirando
– Crapp, o gângster, dando ordens a partir da privada – Briga de loucos por
Zonas, Bombeiros, Tiros & Metafísica de Quartinho dos Fundos – estamos todos mortos – lá fora, no ponto de ônibus, Eugene mirava através da sua infância – na qual o Pastor Evangelista pregou loucamente por 3 décadas, cabelo arrepiado, pirado & fiel à sua Bíblia desprezível – rabiscou Prepara-te para Encontrar Teu Deus na calçada cívica –
Ou Deus é Amor na passarela sobre a ferrovia – delirava como eu deliraria, o solitário Evangelista – morte no Paço Municipal – )
Mas Gene, jovem – na Faculdade de Educação de Montclair por 4 anos
– lecionou por um semestre & largou tudo para seguir em frente na vida –
com medo dos Problemas Disciplinares – estudantes italianas de sexo escuro, garotas rudes dando trepadas, nada de inglês, sonetos deixados de lado – e ele não sabia muita coisa – só o que perdeu –
assim partiu sua vida em duas e entrou em Direito – manuais azuis realmente grandões e conduzindo o velho elevador a 13 milhas de distância em Newark e estudou para valer para o futuro.
acabara de deparar-se com o Grito de Naomi na soleira da porta do seu fracasso, pela última vez, Naomi fora-se, nós sozinhos – em casa – ele sentado lá –
Então tome um pouco de canja de galinha, Eugene. O Homem do Evangelho desespera-se diante do Paço Municipal. E esse ano Louis tem amores poéticos de meia-idade de subúrbio – em segredo – música de seu livro de 1937 – Sincero – ele aspira à beleza –
Nenhum amor desde que Naomi gritou – desde 1923? – agora perdida
no pavilhão de Greystone – novo choque para ela – Eletricidade seguindo a Insulina 40.
E o metrasol a fez engordar.
Eis que alguns anos mais tarde ela voltou de novo para casa –
havíamos antecipado e planejado muita coisa – eu esperava por aquele dia
– minha Mãe de novo para cozinhar & – tocar piano – cantar ao bandolim
– Ensopado de Bofe, & Stenka Razin, 210 & a linha comunista na guerra com a Finlândia – e Louis endividado – suspeita de ser dinheiro envenenado – capitalismos misteriosos
– & percorreu o longo saguão da entrada & olhou a mobília. Ela nunca lembrou de tudo. Alguma amnésia. Examinou as toalhinhas de mesa – e o conjunto da sala de jantar havia sido vendido –
a mesa de Mogno – 20 anos de amor – foi para o brechor – ainda tínhamos o piano – e o livro de Poe – e o Bandolim, empoeirado, precisando de cordas –
Ela foi para o quarto dos fundos deitar-se na cama e ruminar ou tirar uma soneca, esconder-se – Entrei com ela, não deixá-la sozinha – deitei-me a seu lado – venezianas fechadas, penumbra, fim de tarde – Louis na sala da frente, na mesa, esperando – talvez cozinhando galinha para o jantar –
“Não tenha medo de mim só porque estou voltando do Sanatório – Sou sua mãe –”
Pobre amor, perdido – que medo – eu deitado lá – Disse, “Te amo, Naomi”, – duro, junto a seu braço. Teria chorado, era essa a união solitária sem consolo? – Nervosa e logo se levantou.
Estaria ela satisfeita alguma vez? E – veio sentar-se no sofá novo junto à janela da frente, pouco à vontade – queixo apoiado na mão – estreitando os olhos – para qual fatalidade naquele dia –
Palitando seus dentes com a unha, lábios formando um O, suspeita –
velha vagina gasta do pensamento – ausente olhar de soslaio – alguma dívida maligna anotada na parede, a ser paga & os envelhecidos seios de
Newark chegando perto –
Pode ter escutado uma intriga no rádio pelos fios elétricos da sua cabeça controlada pelas 3 grandes varas deixadas nas suas costas por gângsteres da amnésia, durante o hospital – doíam entre os ombros –
Na sua cabeça – Roosevelt devia saber do seu caso, contou-me – com medo de matá-la, agora que o governo conhecia seus nomes – rastreados até Hitler – queria deixar a casa de Louis para sempre.
Uma noite, súbito ataque – seu barulho no banheiro – como se fosse sua alma crocitando – convulsões e vômito vermelho saindo da sua boca –
água de diarreia explodindo do seu traseiro – de quatro diante da privada –
urina escorrendo entre suas pernas – largada vomitando no chão de azulejos lambuzados com suas fezes negras – sem desmaiar –
Aos quarenta, varicosa, nua, gorda, condenada, escondendo-se do lado de fora do apartamento junto ao elevador, chamando a Polícia, gritando para que sua amiga Rose viesse socorrê-la –
Uma vez trancou-se com lâmina de barbear ou iodo – podia ouvi-la tossindo em prantos no lavabo – Louis arrombou a porta pelo vidro pintado de verde, arrastamo-la até o quarto.
Então quieta por meses aquele inverno – passeios sozinha, lá perto na Broadway, lia o Daily Worker. 211 Quebrou o braço, caindo na rua gelada –
Começou a planejar sua fuga das conspirações financeiras cósmicas assassinas – mais tarde fugiu até o Bronx para sua irmã Elanor. E aí está outra saga da finada Naomi em Nova York.
Ou por Elanor ou pela Associação dos Trabalhadores onde trabalhava, endereçando envelopes, ela foi levando – fazia compras de sopa de tomates Campbell’s – economizava o dinheiro que Louis lhe mandava –
Mais tarde arranjou um namorado e era médico – Dr. Isaac trabalhava
para o Sindicato Nacional dos Marítimos – agora uma velha boneca italiana gorda, atarracada e calva – e ele também era órfão – mas o puseram na rua – Velhas crueldades –
Mais desarrumada, sentada na cama ou na cadeira, de combinação, sonhando sozinha – “Estou com calor – Estou ficando gorda – Eu tinha um corpo tão bonito antes de ir para o hospital – Deviam ter me visto em Woodbine –” Isso num quarto mobiliado perto da sede do Sindicato dos Marítimos, 1943.
Olhando as fotos dos bebês nus nas revistas – anúncios de talco para nenê, papinha de cenoura espremida com carne – “Não pensarei em nada a não ser pensamentos belos.”
Virando a cabeça, dando voltas e voltas ao redor do pescoço em hipnose à luz da janela no verão, em recordações de sonho –
“Toco no seu rosto, toco no seu rosto, ele toca meus lábios com sua mão, eu tenho pensamentos belos, o bebê tem uma mão tão bonita.” –
Ou um repelão-Não no seu corpo, repugnância – algum pensamento de
Buchenwald212 – alguma insulina passando por sua cabeça – um sobressalto nervoso de careta do Involuntário – (como o estremecimento quando mijo) – má química da sua córtex – “Não, não pense nisso. Ele é um rato.”
Naomi: “E quando morremos nos transformamos numa cebola, num repolho, numa cenoura, numa abóbora, numa verdura.” Eu cheguei de Columbia para a cidade e concordo. Ela lê a Bíblia, pensa pensamentos belos o dia todo.
“Ontem eu vi Deus. Como ele é? Bem, à tarde subi por uma escada –
ele tem uma casinha modesta no campo, como em Monroe, NY, as granjas de galinhas no bosque. É um velho solitário com uma barba branca.
“Cozinhei o jantar para ele. Fiz um belo jantar – sopa de lentilha, verduras, pão e manteiga, – leite – ele sentou-se à mesa e comeu, estava triste.
“Eu lhe disse, Veja todas essas lutas e matanças acontecendo por aqui, O que há? Por que não dá um jeito nisso?
“Eu tento, disse ele – É tudo que posso fazer, parecia cansado.
Continua solteiro até hoje e gosta de sopa de lentilha.” Servindo-me enquanto isso um prato de peixe frio – repolho cru picado encharcado de água da torneira – tomates mal cheirosos – comida dietética velha de semanas – beterraba & cenoura ralada com molho aguado, morno – mais e mais dessa lamentável comida – às vezes não consigo comê-la de náusea –
a Caridade das suas mãos fedendo a Manhattan, loucura, desejo de agradar-me, peixe frio mal cozido – vermelho pálido junto ao osso. Seus cheiros – e frequentemente nua no quarto, então olho para a frente ou folheio um livro ignorando-a.
Certa vez achei que estava querendo que eu trepasse com ela –
flertando consigo mesma no lavabo – deitada na cama enorme que ocupava a maior parte do quarto, vestido levantado até os quadris, grande talho de pelos, cicatrizes de operação, pâncreas, feridas no ventre, abortos, apêndice, as marcas dos cortes destacando-se na gordura como horríveis zíperes grossos longos lábios esgarçados entre suas pernas – O que, até mesmo cheiro de cu? Fiquei frio – mais tarde um pouco enojado, não muito – pareceu uma boa ideia talvez tentar – conhecer o Monstro do Útero Inicial – talvez – dessa maneira. Iria ela se incomodar? Precisa de um amante.
Yisborach, v’istabach, v’yispoar, v’yisroman, v’yisnaseh, v’yisshador, v’yishalleh, v’yishallol, sh’meh, d’kudsho, b’rich hu213
E Louis recuperando-se no apartamento encardido do bairro negro de Newark – morando em quartos escuros – mas encontrou uma garota com a qual mais tarde se casou, apaixonando-se de novo – embora marcado e tímido – ferido por 20 anos do louco idealismo de Naomi.
Certa vez voltei para casa depois de muito tempo em NY, ele solitário
– sentados no quarto de dormir, ele na cadeira da escrivaninha virada de frente para mim – chorando, lágrimas nos olhos vermelhos sob os óculos –
Que o havíamos deixado – Gene estranhamente entrou no exército – ela vivendo fora por sua conta, quase infantil no seu quarto mobiliado. Assim, Louis caminhava até o centro para buscar a correspondência, dava aulas no colégio – sentava-se à escrivaninha da poesia, desamparado – comeu sofrimento no Bickford’s aqueles anos todos – passados.
Eugene saiu do Exército e voltou para casa, mudado e solitário – cortou fora o nariz na operação judaica – durante anos abordando garotas na Broadway oferecendo-lhes cafezinhos para transar com elas – Entrou na Universidade de Nova York, a sério, para terminar Direito –
E Gene morou com ela, comeu suas tortas vagabundas de peixe enquanto ela ficava cada vez mais louca – Emagreceu ou sentiu-se incapaz, Naomi exibindo poses de 1920 para a Lua, seminua na cama ao lado.
roía as unhas e estudava – era o filho-enfermeiro da louca – Ano seguinte mudou-se para um quarto perto de Columbia – pensara que ela queria viver com os filhos –
“Ouça a súplica da sua mãe, peço-lhe” – Louis ainda lhe mandando cheques – aquele ano eu estive no hospício por 8 meses214 – minhas próprias visões não mencionadas neste Lamento aqui –
Mas então ficou meio doida – Hitler no seu quarto, via seu bigode no
lavabo – agora com medo do Dr. Isaac, desconfiando que ele estivesse na conspiração de Newark – mandou-se para Bronx e foi viver junto ao Coração Reumático de Elanor –
E Tio Max nunca levantava antes do meio-dia, porém Naomi já ligava o rádio às 6 da manhã, procurando espiões – ou vigiando o peitoril da janela,
pois no terreno baldio embaixo rastejava um velho com seu saco, enfiando pacotes de lixo no seu capote preto.
Edie, irmã de Max, trabalha – por 17 anos guarda-livros na Gimbels215 – morava num apartamento embaixo, divorciada – assim, Edie acolheu Naomi na Avenida Rochambeau –
Cemitério de Woodlawn do outro lado da rua, amplo campo de tumbas
onde Poe certa vez – Última parada do metrô de Bronx – monte de comunistas naquela zona.
Que então se matriculou nas aulas noturnas de pintura da Escola para Adultos do Bronx – caminhava sozinha para a aula sob o Elevado Van Courtland – pintava Naomismos –
Seres humanos sentados na grama de alguma Colônia de Férias da Despreocupação dos verões de outrora – santos cabisbaixos com longas calças mal ajambradas, do hospital –
Noivas na frente do Baixo East Side com noivos baixinhos – trens perdidos do Elevado correndo sobre a cobertura da babilônia dos prédios de apartamento do Bronx –
Pinturas tristes – mas ela se expressava. Seu bandolim acabara, todas as cordas partidas na sua cabeça, ela tentava. Em direção à Beleza? ou a alguma velha Mensagem de vida?
Mas começou a chutar Elanor e Elanor tinha um problema de coração –
subia para interrogá-la sobre Espionagem durante horas – Elanor extenuada. Max fora de casa no escritório, fazendo a contabilidade de tabacarias até a noite.
“Eu sou uma grande mulher – e verdadeiramente uma bela alma – por
isso eles (Hitler, Vovó, Hearst, 216 os Capitalistas, Franco, o Daily News, os anos 20, Mussolini, os mortos-vivos) querem silenciar-me. Buba é a chefe de uma rede de espionagem – ”
Chutando as meninas, Edie & Elanor – Despertava Edie à meia-noite para dizer-lhe que ela era uma espiã e Elanor um rato. Edie trabalhava o dia todo e não aguentava – Estava organizando o Sindicato – E Elanor começou a morrer no andar de cima, na cama.
Os parentes me chamam, ela está piorando – Só sobrara eu – Fui de metrô com Eugene para vê-la, comi peixe velho –
“Minha irmã cochicha pelo rádio – Louis deve estar no seu apartamento – sua mãe lhe diz o que falar – MENTIROSOS! – Preparei comida para meus dois filhos – toquei bandolim –”
A noite passada a cotovia me despertou / A noite passada quando tudo estava quieto / cantava na dourada luz da lua / cantava na colina gelada.
Ela fez.
Empurrei-a contra a porta e gritei “NÃO CHUTE ELANOR!” – ela me
olhou – Desprezo – morrer – incrédula, seus filhos tão ingênuos, tão bobos
– “Elanor é o pior dos espiões! Ela está sendo comandada!”
“– Não há fios no quarto!” – Estou gritando com ela – última tentativa, Eugene escutando na cama – o que poderia fazer para fugir dessa Mamãe fatal – “Você separada de Louis faz anos – Vovó velha demais para andar –
”
De repente estamos todos vivos – até eu & Gene & Naomi num
mitológico quarto primordial – gritando uns com os outros no Para Sempre – Eu de jaqueta de Columbia, ela semidespida.
Eu socando aquela cabeça que via Rádios, Varas, Hitlers – a escala completa das alucinações – de verdade – seu próprio universo – nenhuma estrada levando a outro lugar – nem ao meu – nenhuma América, nem mesmo um mundo –
No qual você vá como todos os homens, como Van Gogh, como Hannah a louca, tudo a mesma coisa – até a sentença final – Trovão, Espíritos, Relâmpago!
Eu vi seu túmulo! Ó, estranha Naomi! Meu próprio – túmulo fendido!
Shema Y’Israel217 – Eu sou Svul Avrum218 – você – na morte?
Sua última noite na escuridão do Bronx – telefonei – por meio do hospital para a polícia secreta.
Que veio, quando você e eu estávamos sós, você berrando com Elanor no meu ouvido – ela que arquejava na sua cama, emagrecera –
Tampouco esquecerei, diante das batidas na porta, seu terror dos espiões, – a Lei que avança, pela minha honra – Eternidade entrando no quarto – você fugindo para o banheiro, nua, escondendo-se num protesto de derradeiro destino heroico –
olhando-me nos meus olhos, traída – os policiais finais da loucura, salvando-me – do seu pé contra o coração partido de Elanor,
sua voz para cima de Edie exausta de Gimbels chegando em casa para o rádio quebrado – e Louis precisando de um divórcio barato, ele quer casar logo – Eugene sonhando, escondendo-se na rua 125, movendo ações contra negros para fazê-los pagarem mobília de segunda mão, defendendo garotas negras –
Protestos no banheiro – Disse que estava sã – vestindo uma roupa de
algodão, seus sapatos então novos, sua bolsa e recortes de jornais – não sua honestidade –
enquanto inutilmente tornava seus lábios mais reais com baton, olhando pelo espelho para ver se a Insanidade era eu ou um carro cheio de policiais
ou Vovó espionando aos 78 – Sua visão – Ela subindo pelas paredes do cemitério com um saco de sequestrador político – ou o que você viu nos muros de Bronx, de camisola cor-de-rosa à meia-noite, olhando o terreno baldio pela janela –
Ah, Avenida Rochambeau – Playground de Fantasmas – último prédio
de apartamentos para espiões no Bronx – último lar para Elanor ou Naomi, foi aqui que essas duas irmãs comunistas perderam sua revolução –
“Está certo – ponha seu casaco, Sra. – vamos – Estamos com o carro embaixo – quer vir com ela até a delegacia?”
Então a viagem até lá – segurei a mão de Naomi e segurei sua cabeça junto do meu peito, sou mais alto – beijei-a e disse que estava fazendo aquilo pelo seu próprio bem – Elanor doente – e Max com problemas cardíacos – Necessidades –
Para mim, – “Por que fez isto?” – “Sim Sra. seu filho terá que deixá-la dentro de uma hora” – A Ambulância
demorou umas poucas horas – partiu às 4 da madrugada rumo a algum
Bellevue dentro da noite no centro da cidade – partiu para o hospital para sempre. Vi-a sendo levada – acenava, lágrimas nos olhos.
Dois anos mais tarde, de volta de uma viagem ao México219 –
desolação da paisagem plana de Brentwood, arbustos mirrados e mato ao longo dos trilhos do ramal não utilizado da ferrovia na direção do hospício
–
prédio central de tijolos novos com 20 andares – perdido nos amplos gramados da cidade de loucos de Long Island – enorme cidade da Lua.
Asilo estendendo suas asas gigantes sobre o caminho para um buraco negro minúsculo – a porta – entrada pelo escroto –
Entrei – cheiro esquisito – de novo os corredores – pelo elevador – até uma porta de vidro no Pavilhão das Mulheres – até Naomi – Duas rosadas enfermeiras de branco – Elas a trouxeram para fora, Naomi me encarou – e eu ofeguei – Ela havia sofrido um derrame –
Muito pequena, encarquilhada até os ossos – a velhice chegara para Naomi – agora alquebrada em cabelos brancos – vestido solto sobre o esqueleto – rosto encovado, velha! definhava – bochecha de anciã –
Uma mão rígida – o peso dos quarenta anos e menopausa reduzidos a
isso por um ataque cardíaco, agora capenga – rugas – uma cicatriz na cabeça, a lobotomia – ruína, a mão apontando para baixo, para a morte –
Ó rosto de russa, mulher na grama, teu comprido cabelo negro será coroado de flores, o bandolim nos teus joelhos –
Beleza Comunista, sentada aqui desposada no verso entre margaridas, felicidade prometida ao alcance da mão –
mãe santa, agora sorri para o amor, seu mundo renasceu, crianças correm nuas pelo campo recoberto de ranúnculos,
elas comem no pomar de ameixeiras no fim do prado onde encontram
uma cabana na qual um preto velho de cabelos brancos conta os segredos da sua barrica de chuva –
filha abençoada vem à América, anseio ouvir de novo tua voz, lembrando a música da tua mãe, a canção do Front Natural –
Ó musa gloriosa que me carregou no ventre, deu-me para sugar a primeira vida mística & ensinou-me a fala e a música, da tua cabeça
sofredora primeiro recebi a Visão –
Torturada e ferida no crânio – Que alucinações loucas dos malditos levaram-me para fora do meu crânio em busca da Eternidade até que eu encontrasse a paz em Ti, Ó Poesia – e em todo o chamamento da humanidade pela Origem,
Morte que és a mãe do universo! – Agora veste tua nudez para sempre, alvas flores no cabelo, teu casamento lacrado atrás do céu – revolução alguma destruirá essa virgindade –
Ó, bela Garbo do meu Carma – todas as fotografias de 1920 na Colônia de Férias Nicht-Gedeiget220 aqui intocadas – com todos os professores de Newark – Elanor não partiu, Max não espera seu espectro – nem Louis se aposentou do Colégio –
De volta! Você! Naomi! Quebranto em você! Imortalidade descarnada
e revolução chegaram – mulher mirrada e alquebrada – aos cinéreos olhares intramuros dos hospitais, cinzento dos pavilhões na pele –
“Você é um espião?” Eu sentado na mesa do amargor, olhos enchendo-
se de lágrimas – “Quem é você? Louis o mandou? Os fios –”
em seu cabelo enquanto batia na cabeça – “Não sou uma menina má –
não me mate! – eu ouço o teto – eu criei dois filhos –”
Dois anos desde que lá estive – comecei a chorar – Ela me encarou – a enfermeira interrompeu o encontro por um momento – entrei no banheiro para esconder-me atrás das brancas paredes do toalete
“O Horror” eu chorando – vê-la de novo – “O Horror” – como se ela
estivesse morta e com a podridão do funeral – “O Horror!”
Voltei, ela gritou mais ainda – levaram-na embora – “Você não é Allen
– ” observei seu rosto – mas ela passou por mim, sem olhar –
Abriu a porta do pavilhão – cruzou-a sem uma olhada para trás,
subitamente sossegada – olhei mais uma vez – ela parecia velha – à beira do túmulo – “Todo o Horror!”
Mais um ano, deixei NY – no chalé da Costa Oeste em Berkeley221
sonhei com sua alma – a qual, através da vida, de que maneira se mantivera naquele corpo, em cinzas ou maníaco, além da alegria –
próxima de sua morte – com olhos – era meu próprio amor em sua forma, Naomi, ainda minha mãe na terra – mandei-lhe uma longa carta –
& escrevi hinos aos loucos – Obra do misericordioso Senhor da Poesia que faz com que a erva arrancada permaneça verde ou que a rocha se abra em ervas – ou que o Sol seja constante para a terra – Sol de todos os girassóis e dias em claras pontes de ferro – que brilha nos velhos hospitais
– assim como em meu jardim –
Voltando certa noite de San Francisco, Orlovsky no meu quarto –
Whalen em sua calma cadeira – um telegrama de Gene, Naomi morta –
Lá fora inclinei minha cabeça até o chão sob os arbustos junto à garagem – sabia que ela estava melhor –
finalmente – não mais deixada para olhar sozinha pela Terra – 2 anos de solidão – ninguém, perto dos 60 anos – velha mulher descarnada –
outrora Naomi de longas tranças da Bíblia –
Ou Ruth que chorou na América – Rebeca envelhecida em Newark –
Davi recordando-se de sua harpa, agora advogado em Yale
ou Svul Avrum – Israel Abraham – eu mesmo – para cantar na selva em louvor a Deus – Ó Elohim! – e assim até o fim – 2 dias depois da morte recebi sua carta –
Estranhas profecias, de novo! Ela escreveu – “A chave está na janela, a chave está na luz do sol na janela – Eu tenho a chave – Case-se Allen não tome drogas – a chave está entre as barras, na luz do sol na janela.
Com amor,
sua mãe”
a qual é Naomi –
HINO
No mundo que Ele criou de acordo com sua vontade Bendito Louvado
Glorificado Celebrado Exaltado o Nome do Santificado Bendito é Ele!
Na casa de Newark Bendito é Ele! Na casa dos loucos Bendito é Ele! Na casa da Morte Bendito é Ele!
Bendito seja Ele na homossexualidade! Bendito seja Ele na Paranoia!
Bendito seja Ele na cidade! Bendito seja Ele no Livro!
Bendito seja Ele que mora na sombra! Bendito seja Ele! Bendito seja Ele!
Bendita seja você Naomi em lágrimas! Bendita seja você Naomi nos medos!
Bendita Bendita Bendita na doença!
Bendita seja você Naomi nos Hospitais! Bendita seja você Naomi na solidão! Bendito seja seu triunfo! Benditas sejam tuas grades! Bendita seja a solidão dos teus últimos anos!
Bendito seja teu fracasso! Bendito seja teu ataque! Bendito seja o fechar dos teus olhos! Bendito seja o encovado da tua face! Benditas sejam tuas coxas murchas!
Bendita sejas tu Naomi na Morte! Bendita seja a Morte! Bendita seja a Morte!
Bendito seja Ele Quem leva todo sofrimento para o céu! Bendito seja Ele no final!
Bendito seja Ele que constrói o Céu na escuridão! Bendito Bendito Bendito seja Ele! Bendito seja Ele! Bendita seja a Morte de Todos nós!
III
Só por não esquecer o começo quando ela bebeu refrigerantes baratos nos necrotérios de Newark,
só por tê-la visto chorar nas mesas cinzentas dos longos pavilhões do seu universo
só por ter conhecido suas ideias malucas de Hitler na porta, os fios na sua cabeça, as três grandes varas
marretadas nas suas costas, as vozes do forro berrando por causa das suas feias trepadas cedo por 30 anos,
só por ter visto os saltos no tempo, a memória apagar-se, o troar das guerras, o rugido e o silêncio de um imenso choque elétrico,
só por tê-la visto pintar grosseiros quadros de trens correndo por cima dos telhados do Bronx
seus irmãos mortos em Riverside ou Rússia, sua solidão em Long Island escrevendo uma carta perdida – e sua imagem na luz do sol na janela
“A chave está na luz do sol na janela nas grades a chave está na luz do sol”,
só por ter chegado até aquela noite escura do ataque numa cama de ferro enquanto o sol se punha em Long Island
e lá fora o vasto Atlântico rugia o grande clamor do Ser para si
mesmo para retornar ao Pesadelo – criação dividida – com sua cabeça pousada num travesseiro de hospital para morrer
– num último relance – toda a Terra uma Luz perene na familiar escuridão
– nada de lágrimas por causa dessa visão –
Mas a chave devia ser deixada para trás – na janela – a chave na luz do sol
– para os vivos – que podem receber
essa fatia de luz nas mãos – e abrir a porta – e olhar para trás enxergando a
Criação que resplandece de volta ao mesmo túmulo, do tamanho do universo,
do tamanho do tique-taque do relógio do hospital no arco sobre a porta branca –
IV
Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de
Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey222 morrendo numa ambulância com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs223
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de
Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo
corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa
ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores
V
Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol224
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có
Senhor NY, 1959
1894-1956
I
Estranho pensar em você agora que partiu sem espartilhos & olhos, enquanto percorro o calçamento ensolarado de Greenwich Village
na direção do Centro de Manhattan, meio-dia claro de inverno e passei a noite toda acordado, falando, falando, lendo o Kaddish em voz alta, escutando o grito cego dos blues de Ray Charles na vitrola,
o ritmo, o ritmo – e tua lembrança na minha cabeça três anos depois – E li em voz alta, sozinho, os triunfantes versos finais de Adonais194 –
chorei ao perceber o quanto sofremos –
E o quanto a Morte é o lenitivo sonhado, cantado, profetizado por todos os cantores, como no Hino Hebraico ou no Livro Budista das Respostas – e uma folha murcha em minha própria imaginação – ao amanhecer –
Sonhando de novo através da vida, Teu tempo – e o meu acelerando-se rumo ao Apocalipse,
o momento final – a flor queimando no Dia – e o que virá depois,
olhando a mente que por sua vez enxergou uma cidade americana
num relance, e o grande sonho de Mim ou China ou você ou uma Rússia
fantasma ou uma cama desfeita que nunca existiu –
como um poema escuro – que escapou de volta para o Esquecimento –
Mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado, só os seres no Sonho, agarrados ao desaparecerem,
suspirando, berrando, comprando e vendendo pedaços de fantasma, adorando-se uns aos outros,
adorando o Deus incluído nisso tudo – desejo ou fatalidade? – enquanto dura, uma Visão – mais nada?
Salta ao meu redor enquanto saio e caminho pela rua, olho para trás, Sétima Avenida, a muralha de prédios de escritórios com suas janelas, acotovelando-se altos sob a nuvem, altos por um momento como o céu
– e o céu acima – um velho lugar azul.
ou rua abaixo pela Avenida para o Sul, para – enquanto caminho na direção do Baixo East Side – lá onde você caminhou há 50 anos, menina – da Rússia, comendo os primeiros tomates venenosos da América –
amedrontada no cais –
então debatendo-se na multidão de Orchard Street, para onde? – para Newark –
para as confeitarias, primeiras sodas caseiras do século, sorvete batido à mão no quarto dos fundos em mesas de madeira escura mofada –
Para a educação casamento colapso nervoso, operação, escola normal e aprendendo a ser louca, num sonho – que vida é essa?
Para a Chave na Janela195 – E a grande Chave repousa sua cabeça de luz no topo de Manhattan, no assoalho, repousa na calçada – um só raio de luz que se mexe enquanto desço pela Primeira Avenida na direção do Teatro Iídiche – e do lugar da pobreza
que você conheceu e eu conheci, mas sem preocupar-me agora – Estranho
ter passado por Paterson e o Oeste e a Europa e novamente aqui, agora com os gritos dos espanhóis nas soleiras das portas, meninos negros e escadas de emergência tão velhas quanto você
– Embora você não esteja mais velha, agora isso ficou aqui comigo
Eu, de qualquer modo, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez –
Isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dente no final –
Embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro, a alma em nós, Ah! oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança –
pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio pelado, costela quebrada, pele rasgada, Implacabilidade
Ai, ai! cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte a deixou de fora, a Morte teve piedade, você passou por seu século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – Finalmente passou por você mesma – Pura – De volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo –
Lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Sei para onde foi, tudo bem.
Mais nada de flores nos campos estivais de Nova York, agora mais nada da alegria nem do medo de Louis, 196
e mais nada de sua doçura e óculos, suas décadas de escolas, dívidas, casos amorosos, telefonemas amedrontados, leitos de parto, parentes, mãos –
Mais nada da irmã Elanor – ela partiu antes de você – nós não contamos –
você a matou – ou ela se matou por ter que aguentar você – coração artrítico – Porém a Morte as matou, às duas – Tanto faz –
Nem mais nada de lembranças da sua mãe, lágrimas de 1915 em filmes mudos por semanas e semanas seguidas – esquecendo, sofrendo ao assistir Marie Dressler197 dirigir-se à humanidade, Chaplin jovem dançando,
ou Boris Godunov, Chaliapin no Met198 elevando sua voz de Czar choroso em pé no saguão com Elanor & Max – olhando também os capitalistas ocuparem seus lugares na plateia, alvos casacos de pele, diamantes, com os Jovens Socialistas, 199 pegando uma carona pela Pennsylvania, bojudas calças pretas de ginástica, fotografias de 4 garotas cada qual com as mãos na cintura da outra, olhar risonho, tão recatadas, solidão virginal de 1920,
todas essas meninas envelheceram ou já morreram, e suas longas cabeleiras no túmulo – felizes ao arranjarem maridos mais tarde –
Você conseguiu – eu também cheguei! – meu irmão Eugene antes – até hoje se afligindo e se apertando até sua última mão enrijecida enquanto convive com seu câncer – ou se matará – mais tarde talvez – logo pensará –
E este é o último momento do qual me lembro, no qual os vejo todos, agora através de mim – mas não vejo você
Não antevi o que você sentiu – qual abismo mais horrendo desdentado de boca estragada chegou primeiro – para você – e estava você preparada?
Para ir aonde? Para aquela escuridão – aquela – aquele Deus? um clarão?
Um senhor no Vazio? como um olho dentro da nuvem negra no sonho?
Adonais finalmente com você?
Ultrapassa minha lembrança! Incapaz de adivinhar! Não é só o crânio amarelo no túmulo ou uma caixa de pó com vermes e uma tira de pano encardido – Caveira com auréola? Podes crer?
Será apenas o sol que brilha uma única vez para a mente, só o clarão da existência que já foi?
Nada além do que temos – do que você teve – tão pouca coisa – no entanto, Triunfo
por teres estado aqui e te transformado, como árvore caída ou flor – ligada ao solo – mas louca, com suas pétalas coloridas pensando no Grande Universo, abalada, a copa cortada, folha arrancada, escondida num hospital como um caixote vazio de ovos, trouxa de roupas, amarga –
perdida no cérebro lunático da Lua, anulação.
Nenhuma flor igual a essa flor que sabia estar no jardim e que lutou contra a faca – e que perdeu
Decepada pelo alfanje gelado do imbecil Boneco de Neve – e isso na Primavera – estranho pensamento fantasmagórico – que Morte – Afiado gume de gelo na mão – coroado de rosas murchas – um cachorro no lugar dos olhos – uma fábrica de escravos como caralho200 – coração de ferro elétrico.
Todas as acumulações da vida que nos consomem – relógios, corpos, consciência, sapatos, seios – filhos paridos – seu Comunismo –
“paranoia” nos hospitais.
Certa vez você chutou Elanor na perna, mais tarde ela morreu do coração.
Você de derrame. Dormindo? no espaço de um ano, vocês duas, irmãs
na morte. Estará Elanor feliz?
Max padece sozinho num escritório no Baixo Broadway, solitários bigodões sobre relatórios de Contabilidade a noite toda, algo assim. Sua vida passa – como é que ele a vê – e do que duvida agora? Ainda sonhando com ganhar dinheiro ou que poderia ter ganho dinheiro, contratado babá, tido filhos, até mesmo ter achado tua Imortalidade,
Naomi?
Logo o verei. Agora preciso continuar – para conversar com você – assim como eu não o fiz enquanto você tinha boca.
Para sempre. E estamos fadados a isso, Para Sempre – como os cavalos de Emily Dickinson201 – voltados para o Fim.
Eles conhecem o caminho – Esses Corcéis – correm mais rápido do que pensamos – é nossa própria vida que eles cruzam – e carregam consigo.
Magnífica, não mais carpida, golpeada no coração, mente para trás, sonhada casada mortal mudada – Bunda e rosto acabados com assassinato.
No mundo, doada, enlouquecida flor, Utopia que não chegou a ser, encerrada sob o lenho, consolada na Terra, confortada no Ermo, Jeová, aceita.
Inominado, Face Una, Para sempre além de mim, sem começo, sem fim, Pai da Morte. Ainda que eu não esteja preparado para esta Profecia, eu que não me casei, eu sem hinos, eu sem Céu, sem meta na bem-aventurança, ainda assim te adorarei.
A ti, Céu depois da morte, Único abençoado no Vazio, nem luz nem escuridão, Eternidade Sem Dias –
Recebe isto, este salmo, vindo de mim, um dia jorrado da minha mão, alguma coisa do meu Tempo agora entregue ao Nada – para louvar-Te –
Porém a Morte
Este é o fim, a redenção da Selvageria, caminho para o Maravilhado, casa almejada por Todos, lenço negro lavado pelas lágrimas – página para além do Salmo – Última transformação minha e de Naomi – rumo à perfeita Escuridão de Deus – Morte, para teus fantasmas!
II
De volta e de volta – refrão – dos Hospitais – ainda não escrevi tua
história – deixá-la abstrata – umas poucas imagens passam pela cabeça – como o coro de saxofone das casas e dos anos –
lembrança de eletrochoques.
Por aquelas longas noites quando criança no apartamento em Paterson, observando teu nervosismo – você era gorda – seu próximo passo –
Por aquela tarde quando fiquei em casa em vez de ir à escola, para cuidar de você – de uma vez por todas – quando fiz um voto para sempre, já que o homem discordava da minha opinião sobre o cosmos, então eu estava perdido –
Por minha missão mais tarde – promessa de iluminar a humanidade –
isto é, soltar partículas – (louco como você) – (sanidade um truque convencional) –
Mas você olhava pela janela para a esquina da Igreja de Broadway e espreitava um assassino místico de Newark,
Assim, telefonei para o Doutor – “OK, leve-a para repousar” – assim, vesti meu casaco e levei-a rua abaixo – No caminho, um garoto da escola berrou inesperadamente – “Para onde vai, senhora, para a Morte?”
Estremeci –
E você tapou o nariz com a gola de pele comida pelas traças, máscara antigases contra o veneno infiltrado na atmosfera da cidade, espalhado pela Vovó –
E quem seria o motorista da camioneta de queijos, se não um membro da quadrilha? Você teve um sobressalto ao vê-lo, mal podia conduzi-la –
para Nova York, Times Square mesmo, pegar outro ônibus da Greyhound –
– e lá ficamos parados umas 2 horas combatendo insetos invisíveis e doença judaica – brisa venenosa de Roosevelt –
soltos para pegá-la – e eu acompanhando-a, torcendo para que tudo
acabasse bem num quarto sossegado numa casa vitoriana junto a um lago.
3 horas de viagem por túneis passando por toda a indústria americana, Bayonne preparando-se para a Segunda Guerra Mundial, tanques, refinarias, fábricas de soda, refeitórios, rotundas fortificadas das locomotivas – até os pinheirais de índios de Nova Jersey – cidades tranquilas – longas estradas por bosques arenosos –
Pontes atravessando riachos sem cervos, antigos colares de contas enchendo o leito arenoso – lá embaixo, uma machadinha ou osso de Pocahontas – e um milhão de velhas votando em Roosevelt nas suas casinhas pintadas de marrom, estradas saindo da rodovia da loucura –
talvez um gavião numa árvore ou um ermitão procurando um galho cheio de corujas –
O tempo todo reclamando – com medo dos estranhos no banco da frente, roncando descuidadamente – em que viagem de ônibus estarão eles roncando agora?
“Allen, será que você não entende – é que – desde que enfiaram aquelas 3 varas grandes nas minhas costas – fizeram qualquer coisa comigo no Hospital, me envenenaram, querem me ver morta – 3 varas grandes, 3 varas grandes –
“A Puta! Vovó! Semana passada a vi, vestindo calças como um velho, um saco nas costas, subindo no prédio pela parede de tijolos
“Na escada de emergência, com germes de veneno, para jogar em mim
– à noite – talvez Louis a esteja ajudando – está dominado por ela –
“Eu sou sua mãe, leve-me para Lakewood” (perto do lugar onde o Graf Zeppelin havia caído, todo Hitler na Explosão) “onde eu possa me esconder”.
Chegamos lá – a casa de repouso do Dr. Whatzis – ela escondeu-se
atrás de um armário – exigiu transfusão de sangue.
Fomos postos para fora – caminhando com a maleta rumo a
desconhecidas casas com gramados à sombra – anoitecer, penumbra entre os pinheiros – longas ruas mortas cheias de grilos e urtigas –
Então já havia mandado ela calar a boca – casa grande CASA DE
REPOUSO, QUARTOS – deixei o pagamento para a semana com a senhoria – levei a maleta de ferro para dentro – sentei na cama esperando a hora de fugir –
Quarto limpo no sótão com uma colcha acolhedora – cortinas de laçarotes – tapete tecido à mão – Papel de parede manchado tão velho quanto Naomi – Estávamos em casa –
Parti no ônibus seguinte para Nova York – reclinei a cabeça no encosto do último banco, deprimido – o pior ainda por vir – deixando-a, viajei entorpecido – eu só tinha 12 anos.
Iria ela esconder-se no quarto para descer alegremente na hora do café?
Ou trancaria a porta para espreitar pela janela procurando espiões nas esquinas? Escutando o invisível gás Hitleriano pelo buraco da fechadura?
Sonhando numa poltrona – ou divertindo-se às minhas custas – diante de um espelho, só?
Aos 12 anos atravessando Nova Jersey de ônibus à noite, deixando Naomi entregue às Parcas na casa mal-assombrada de Lakewood – eu entregue ao ônibus do meu destino – afundado no assento – todos os violinos partidos – meu coração amargurado entre minhas costelas –
mente vazia – estivesse ela em segurança no seu caixão –
Ou então de volta à Escola Normal de Newark, estudando sobre a América de saia negra – inverno nas ruas sem almoço – um tostão, um pão202 – à noite em casa para cuidar de Elanor no quarto –
Primeiro colapso nervoso em 1919 – ficou em casa deitada no quarto escuro sem ir à escola por três semanas – alguma coisa ruim – nunca disse o que foi – todo ruído machucava – sonhando com as fendas de Wall Street
–
Antes da depressão cinzenta – mudou-se para o Estado de Nova York –
sarou – Louis tirou uma foto sua de pernas cruzadas na grama – seus longos cabelos com flores – sorrindo – tocando canções de ninar num bandolim – a fumaça das urtigas em colônias de férias de tendências esquerdistas e eu vendo árvores na infância –
ou de novo lecionando, rindo com os idiotas, as turmas mais atrasadas
– sua especialidade russa – idiotas de lábios sonhadores, olhos grandes, pés delgados & dedos doentios, recurvados, raquíticos –
cabeças grandes balançando sobre Alice no País das Maravilhas, um quadro-negro cheio de G A T O.
Naomi lendo pacientemente, histórias tiradas de um livro de contos de fadas comunistas – História da Súbita Doçura do Ditador – Clemência dos Bruxos – Exércitos beijando-se –
Caveiras ao redor da Mesa Verde – O Rei & os Trabalhadores – o Jornal de Paterson os publicou nos anos 30 até ela enlouquecer eles ou eles fecharem ou ambas as coisas.
Ó, Paterson! Cheguei tarde em casa aquela noite. Louis estava preocupado. Como podia eu ser tão – será que não pensava? Não a devia ter largado lá. Louca em Lakewood. Chamar o médico. Telefonar para a casa no pinheiral. Tarde demais.
Fui para a cama exausto, querendo largar o mundo (provavelmente de novo apaixonado por R aquele ano – meu herói do colégio na minha mente, garoto judeu que mais tarde se tornou médico, então um garoto
quieto e fino –
Eu mais tarde dando a vida por ele, mudei-me para Manhattan – segui-o na Faculdade – Rezei na balsa prometendo ajudar a humanidade se entrasse – prometi, o dia que fui fazer o vestibular –
que seria honesto revolucionário advogado trabalhista – me prepararia para isso – inspirado em Sacco Vanzetti, Norman Thomas, Debs, Altgeld, Sandburg, Poe – Brochuras Azuis. 203 Pretendia ser Presidente ou então Senador.
promessa ingênua – depois sonhos de prosternar-me diante dos joelhos escandalizados de R declarando meu amor em 1941 – Que doçura haveria ele de me mostrar, pois, a mim que tanto o desejara e tanto me desesperara
– primeiro amor – um choque –
Mais tarde uma avalanche mortal, montanhas de homossexualismo, Matterhorns de caralho, Grand Canyons de cu – pesando na minha cabeça melancólica –
enquanto isso caminhava pela Broadway imaginando o Infinito como uma bola de borracha sem espaço além dela – e o que existiria fora dela? –
voltando para casa na Graham Avenue ainda melancólico passando pelas solitárias cercas de arbustos ao longo da rua, sonhando depois do cinema –
)
O telefone tocou às 2 da madrugada – Emergência – ficou louca –
Naomi escondendo-se debaixo da cama gritando por causa dos percevejos de Mussolini – Socorro! Louis! Buba! 204 Fascistas! Morte! – a dona da pensão aterrorizada – o empregado bicha velha gritando com ela –
Terror que despertou os vizinhos – velhas do segundo andar recuperando-se da menopausa – todos aqueles trapos entre coxas, lençóis limpos, tristes por bebês perdidos – maridos cinéreos – filhos troçando em
Yale ou passando brilhantina no cabelo na Universidade de Nova York – ou tremendo na Faculdade de Educação de Montclair como Eugene –
Sua perna grossa dobrada até o peito, mão estendida Afastem-se, vestido de lã na altura das coxas, casaco de pele puxado para baixo da cama – entrincheirada com as malas ao pé da cama.
Louis de pijama ao telefone ouvindo apavorado – agora? Quem poderia resolver? – minha culpa, despachando-a para a solidão – sentado no quarto escuro, no sofá, trêmulo, tentando resolver –
Tomou o trem da manhã para Lakewood, Naomi sob a cama – pensou
que ele estivesse trazendo policiais com veneno – Naomi gritando – Louis, o que então aconteceu com seu coração? – Teria ele sido morto pelo êxtase de Naomi?
Arrastou-a para fora, dobrando a esquina, táxi, enfiou-a para dentro com a maleta mas o motorista os largou na frente da drogaria205 – Ponto de ônibus, duas horas de espera.
Eu nervoso, deitado na cama do apartamento de 4 cômodos, a cama grande da sala, junto à escrivaninha de Louis – tremendo – ele chegou tarde da noite em casa, contou-me o que acontecera.
Naomi no balcão dos remédios defendendo-se do inimigo – revoadas de livros infantis, saquinhos de banho de espuma, aspirinas, vidros, sangue
–
Louis aterrorizado junto ao balcão dos refrigerantes – com escoteiras de Lakewood – viciadas em Coca – enfermeiros – motoristas de ônibus esperando seu turno – Policiais da delegacia local, perplexos – e um padre, sonhando com porcos num antigo penhasco?
Farejando o ar – Louis apontando para o vazio? Fregueses vomitando suas Cocas – ou encarando – Louis humilhado – Naomi triunfante – A
Revelação da Conspiração. O ônibus chega, os motoristas não os levarão para Nova York.
Telefonema para o Dr. Whatzis, “ela precisa ser internada”, o Hospital psiquiátrico – Médicos do Estado em Greystone – Traga-a para cá, Mr.
Ginsberg.
Naomi, Naomi – suando, olhos esbugalhados, gorda, o vestido desabotoado de lado – cabelo na testa, meias malignamente caídas nas pernas – gritando que queria transfusão de sangue – uma mão reivindicatória levantada – sapato na mão – descalça na Farmácia –
A chegada dos inimigos – quais venenos? Gravadores? FBI?
Zdanov206 escondido atrás do balcão? Trotsky criando bacilo de rato no fundo da loja? Tio Sam em Newark, preparando mortais perfumes no bairro negro? Tio Ephraim, bêbado de assassinatos no bar dos políticos, tramando algo para Haia? Tia Rose afiando as agulhas da Guerra Civil Espanhola? 207
Até que a ambulância alugada por 35 dólares veio de Red Bank –
Agarraram-na pelos braços – ataram-na à padiola – gemendo, envenenada por coisas imaginárias, vomitando química através de Jersey, pedindo piedade desde Essex Country até Morristown –
E de volta a Greystone onde ficou por três anos – esse foi o ataque final, devolveu-a mais uma vez ao Hospício –
Em que pavilhões – andei por lá mais tarde, muito – velhas senhoras catatônicas? cinzentas como nuvens ou cinza ou paredes – sentadas cantarolando pelo chão – Cadeiras – e as bruxas encarquilhadas, reclamando – implorando por minha misericórdia de 13 anos de idade –
“Leve-me para casa” – Algumas vezes fui sozinho em busca da Naomi
perdida tomando eletrochoques – e eu dizia, “Não, Mamãe você está louca,
– Confie nos Drs.”
E Eugene, meu irmão, seu filho mais velho, estudando direito fora de casa num quarto mobiliado em Newark –
Chegou a Paterson no dia seguinte – sentou-se no sofá cambaio da sala
– “Tivemos de mandá-la de volta a Greystone” –
– sua cara perplexa, tão jovem, então só olhos com lágrimas – então só lágrimas rastejando pelo seu rosto – “Para quê?”, lamento vibrando no seu maxilar, olhos fechados, voz aguda – a cara da dor de Eugene.
Ele longe, refugiado num elevador da Biblioteca de Newark, sua garrafa diária de leite no peitoril da janela do apartamento mobiliado por 5
dólares a semana no Centro dos trilhos do bonde –
Ele trabalhava 5 horas por dia a 20 dólares/semana – durante os anos da Faculdade de Direito – permaneceu só e inocente perto dos prostíbulos dos negros.
Sem trepar, pobre virgem – escrevendo poemas sobre Ideais e cartas políticas para o editor do Pat Eve News208 – (ambos escrevíamos, denunciando o Senador Borah e os Isolacionistas – e sentindo algo de misterioso no Paço Municipal de Paterson –
Esgueirei-me lá dentro uma vez – torre do Moloch local com um pináculo fálico e cimeira ornamentada, estranha Poesia gótica plantada na Market Street – réplica do Hotel de Ville de Lyon –
alas, balcões e portais ornamentados, entrada para o gigantesco relógio da cidade, quarto secreto de mapas cheios de Haworthone209 – escuros Socialistas na comissão de Finanças – Rembrandt fumando na penumbra –
Silenciosas mesas envernizadas na grande sala de reuniões –
Vereadores? Comissão de Finanças? – Mosca, o cabeleireiro, conspirando
– Crapp, o gângster, dando ordens a partir da privada – Briga de loucos por
Zonas, Bombeiros, Tiros & Metafísica de Quartinho dos Fundos – estamos todos mortos – lá fora, no ponto de ônibus, Eugene mirava através da sua infância – na qual o Pastor Evangelista pregou loucamente por 3 décadas, cabelo arrepiado, pirado & fiel à sua Bíblia desprezível – rabiscou Prepara-te para Encontrar Teu Deus na calçada cívica –
Ou Deus é Amor na passarela sobre a ferrovia – delirava como eu deliraria, o solitário Evangelista – morte no Paço Municipal – )
Mas Gene, jovem – na Faculdade de Educação de Montclair por 4 anos
– lecionou por um semestre & largou tudo para seguir em frente na vida –
com medo dos Problemas Disciplinares – estudantes italianas de sexo escuro, garotas rudes dando trepadas, nada de inglês, sonetos deixados de lado – e ele não sabia muita coisa – só o que perdeu –
assim partiu sua vida em duas e entrou em Direito – manuais azuis realmente grandões e conduzindo o velho elevador a 13 milhas de distância em Newark e estudou para valer para o futuro.
acabara de deparar-se com o Grito de Naomi na soleira da porta do seu fracasso, pela última vez, Naomi fora-se, nós sozinhos – em casa – ele sentado lá –
Então tome um pouco de canja de galinha, Eugene. O Homem do Evangelho desespera-se diante do Paço Municipal. E esse ano Louis tem amores poéticos de meia-idade de subúrbio – em segredo – música de seu livro de 1937 – Sincero – ele aspira à beleza –
Nenhum amor desde que Naomi gritou – desde 1923? – agora perdida
no pavilhão de Greystone – novo choque para ela – Eletricidade seguindo a Insulina 40.
E o metrasol a fez engordar.
Eis que alguns anos mais tarde ela voltou de novo para casa –
havíamos antecipado e planejado muita coisa – eu esperava por aquele dia
– minha Mãe de novo para cozinhar & – tocar piano – cantar ao bandolim
– Ensopado de Bofe, & Stenka Razin, 210 & a linha comunista na guerra com a Finlândia – e Louis endividado – suspeita de ser dinheiro envenenado – capitalismos misteriosos
– & percorreu o longo saguão da entrada & olhou a mobília. Ela nunca lembrou de tudo. Alguma amnésia. Examinou as toalhinhas de mesa – e o conjunto da sala de jantar havia sido vendido –
a mesa de Mogno – 20 anos de amor – foi para o brechor – ainda tínhamos o piano – e o livro de Poe – e o Bandolim, empoeirado, precisando de cordas –
Ela foi para o quarto dos fundos deitar-se na cama e ruminar ou tirar uma soneca, esconder-se – Entrei com ela, não deixá-la sozinha – deitei-me a seu lado – venezianas fechadas, penumbra, fim de tarde – Louis na sala da frente, na mesa, esperando – talvez cozinhando galinha para o jantar –
“Não tenha medo de mim só porque estou voltando do Sanatório – Sou sua mãe –”
Pobre amor, perdido – que medo – eu deitado lá – Disse, “Te amo, Naomi”, – duro, junto a seu braço. Teria chorado, era essa a união solitária sem consolo? – Nervosa e logo se levantou.
Estaria ela satisfeita alguma vez? E – veio sentar-se no sofá novo junto à janela da frente, pouco à vontade – queixo apoiado na mão – estreitando os olhos – para qual fatalidade naquele dia –
Palitando seus dentes com a unha, lábios formando um O, suspeita –
velha vagina gasta do pensamento – ausente olhar de soslaio – alguma dívida maligna anotada na parede, a ser paga & os envelhecidos seios de
Newark chegando perto –
Pode ter escutado uma intriga no rádio pelos fios elétricos da sua cabeça controlada pelas 3 grandes varas deixadas nas suas costas por gângsteres da amnésia, durante o hospital – doíam entre os ombros –
Na sua cabeça – Roosevelt devia saber do seu caso, contou-me – com medo de matá-la, agora que o governo conhecia seus nomes – rastreados até Hitler – queria deixar a casa de Louis para sempre.
Uma noite, súbito ataque – seu barulho no banheiro – como se fosse sua alma crocitando – convulsões e vômito vermelho saindo da sua boca –
água de diarreia explodindo do seu traseiro – de quatro diante da privada –
urina escorrendo entre suas pernas – largada vomitando no chão de azulejos lambuzados com suas fezes negras – sem desmaiar –
Aos quarenta, varicosa, nua, gorda, condenada, escondendo-se do lado de fora do apartamento junto ao elevador, chamando a Polícia, gritando para que sua amiga Rose viesse socorrê-la –
Uma vez trancou-se com lâmina de barbear ou iodo – podia ouvi-la tossindo em prantos no lavabo – Louis arrombou a porta pelo vidro pintado de verde, arrastamo-la até o quarto.
Então quieta por meses aquele inverno – passeios sozinha, lá perto na Broadway, lia o Daily Worker. 211 Quebrou o braço, caindo na rua gelada –
Começou a planejar sua fuga das conspirações financeiras cósmicas assassinas – mais tarde fugiu até o Bronx para sua irmã Elanor. E aí está outra saga da finada Naomi em Nova York.
Ou por Elanor ou pela Associação dos Trabalhadores onde trabalhava, endereçando envelopes, ela foi levando – fazia compras de sopa de tomates Campbell’s – economizava o dinheiro que Louis lhe mandava –
Mais tarde arranjou um namorado e era médico – Dr. Isaac trabalhava
para o Sindicato Nacional dos Marítimos – agora uma velha boneca italiana gorda, atarracada e calva – e ele também era órfão – mas o puseram na rua – Velhas crueldades –
Mais desarrumada, sentada na cama ou na cadeira, de combinação, sonhando sozinha – “Estou com calor – Estou ficando gorda – Eu tinha um corpo tão bonito antes de ir para o hospital – Deviam ter me visto em Woodbine –” Isso num quarto mobiliado perto da sede do Sindicato dos Marítimos, 1943.
Olhando as fotos dos bebês nus nas revistas – anúncios de talco para nenê, papinha de cenoura espremida com carne – “Não pensarei em nada a não ser pensamentos belos.”
Virando a cabeça, dando voltas e voltas ao redor do pescoço em hipnose à luz da janela no verão, em recordações de sonho –
“Toco no seu rosto, toco no seu rosto, ele toca meus lábios com sua mão, eu tenho pensamentos belos, o bebê tem uma mão tão bonita.” –
Ou um repelão-Não no seu corpo, repugnância – algum pensamento de
Buchenwald212 – alguma insulina passando por sua cabeça – um sobressalto nervoso de careta do Involuntário – (como o estremecimento quando mijo) – má química da sua córtex – “Não, não pense nisso. Ele é um rato.”
Naomi: “E quando morremos nos transformamos numa cebola, num repolho, numa cenoura, numa abóbora, numa verdura.” Eu cheguei de Columbia para a cidade e concordo. Ela lê a Bíblia, pensa pensamentos belos o dia todo.
“Ontem eu vi Deus. Como ele é? Bem, à tarde subi por uma escada –
ele tem uma casinha modesta no campo, como em Monroe, NY, as granjas de galinhas no bosque. É um velho solitário com uma barba branca.
“Cozinhei o jantar para ele. Fiz um belo jantar – sopa de lentilha, verduras, pão e manteiga, – leite – ele sentou-se à mesa e comeu, estava triste.
“Eu lhe disse, Veja todas essas lutas e matanças acontecendo por aqui, O que há? Por que não dá um jeito nisso?
“Eu tento, disse ele – É tudo que posso fazer, parecia cansado.
Continua solteiro até hoje e gosta de sopa de lentilha.” Servindo-me enquanto isso um prato de peixe frio – repolho cru picado encharcado de água da torneira – tomates mal cheirosos – comida dietética velha de semanas – beterraba & cenoura ralada com molho aguado, morno – mais e mais dessa lamentável comida – às vezes não consigo comê-la de náusea –
a Caridade das suas mãos fedendo a Manhattan, loucura, desejo de agradar-me, peixe frio mal cozido – vermelho pálido junto ao osso. Seus cheiros – e frequentemente nua no quarto, então olho para a frente ou folheio um livro ignorando-a.
Certa vez achei que estava querendo que eu trepasse com ela –
flertando consigo mesma no lavabo – deitada na cama enorme que ocupava a maior parte do quarto, vestido levantado até os quadris, grande talho de pelos, cicatrizes de operação, pâncreas, feridas no ventre, abortos, apêndice, as marcas dos cortes destacando-se na gordura como horríveis zíperes grossos longos lábios esgarçados entre suas pernas – O que, até mesmo cheiro de cu? Fiquei frio – mais tarde um pouco enojado, não muito – pareceu uma boa ideia talvez tentar – conhecer o Monstro do Útero Inicial – talvez – dessa maneira. Iria ela se incomodar? Precisa de um amante.
Yisborach, v’istabach, v’yispoar, v’yisroman, v’yisnaseh, v’yisshador, v’yishalleh, v’yishallol, sh’meh, d’kudsho, b’rich hu213
E Louis recuperando-se no apartamento encardido do bairro negro de Newark – morando em quartos escuros – mas encontrou uma garota com a qual mais tarde se casou, apaixonando-se de novo – embora marcado e tímido – ferido por 20 anos do louco idealismo de Naomi.
Certa vez voltei para casa depois de muito tempo em NY, ele solitário
– sentados no quarto de dormir, ele na cadeira da escrivaninha virada de frente para mim – chorando, lágrimas nos olhos vermelhos sob os óculos –
Que o havíamos deixado – Gene estranhamente entrou no exército – ela vivendo fora por sua conta, quase infantil no seu quarto mobiliado. Assim, Louis caminhava até o centro para buscar a correspondência, dava aulas no colégio – sentava-se à escrivaninha da poesia, desamparado – comeu sofrimento no Bickford’s aqueles anos todos – passados.
Eugene saiu do Exército e voltou para casa, mudado e solitário – cortou fora o nariz na operação judaica – durante anos abordando garotas na Broadway oferecendo-lhes cafezinhos para transar com elas – Entrou na Universidade de Nova York, a sério, para terminar Direito –
E Gene morou com ela, comeu suas tortas vagabundas de peixe enquanto ela ficava cada vez mais louca – Emagreceu ou sentiu-se incapaz, Naomi exibindo poses de 1920 para a Lua, seminua na cama ao lado.
roía as unhas e estudava – era o filho-enfermeiro da louca – Ano seguinte mudou-se para um quarto perto de Columbia – pensara que ela queria viver com os filhos –
“Ouça a súplica da sua mãe, peço-lhe” – Louis ainda lhe mandando cheques – aquele ano eu estive no hospício por 8 meses214 – minhas próprias visões não mencionadas neste Lamento aqui –
Mas então ficou meio doida – Hitler no seu quarto, via seu bigode no
lavabo – agora com medo do Dr. Isaac, desconfiando que ele estivesse na conspiração de Newark – mandou-se para Bronx e foi viver junto ao Coração Reumático de Elanor –
E Tio Max nunca levantava antes do meio-dia, porém Naomi já ligava o rádio às 6 da manhã, procurando espiões – ou vigiando o peitoril da janela,
pois no terreno baldio embaixo rastejava um velho com seu saco, enfiando pacotes de lixo no seu capote preto.
Edie, irmã de Max, trabalha – por 17 anos guarda-livros na Gimbels215 – morava num apartamento embaixo, divorciada – assim, Edie acolheu Naomi na Avenida Rochambeau –
Cemitério de Woodlawn do outro lado da rua, amplo campo de tumbas
onde Poe certa vez – Última parada do metrô de Bronx – monte de comunistas naquela zona.
Que então se matriculou nas aulas noturnas de pintura da Escola para Adultos do Bronx – caminhava sozinha para a aula sob o Elevado Van Courtland – pintava Naomismos –
Seres humanos sentados na grama de alguma Colônia de Férias da Despreocupação dos verões de outrora – santos cabisbaixos com longas calças mal ajambradas, do hospital –
Noivas na frente do Baixo East Side com noivos baixinhos – trens perdidos do Elevado correndo sobre a cobertura da babilônia dos prédios de apartamento do Bronx –
Pinturas tristes – mas ela se expressava. Seu bandolim acabara, todas as cordas partidas na sua cabeça, ela tentava. Em direção à Beleza? ou a alguma velha Mensagem de vida?
Mas começou a chutar Elanor e Elanor tinha um problema de coração –
subia para interrogá-la sobre Espionagem durante horas – Elanor extenuada. Max fora de casa no escritório, fazendo a contabilidade de tabacarias até a noite.
“Eu sou uma grande mulher – e verdadeiramente uma bela alma – por
isso eles (Hitler, Vovó, Hearst, 216 os Capitalistas, Franco, o Daily News, os anos 20, Mussolini, os mortos-vivos) querem silenciar-me. Buba é a chefe de uma rede de espionagem – ”
Chutando as meninas, Edie & Elanor – Despertava Edie à meia-noite para dizer-lhe que ela era uma espiã e Elanor um rato. Edie trabalhava o dia todo e não aguentava – Estava organizando o Sindicato – E Elanor começou a morrer no andar de cima, na cama.
Os parentes me chamam, ela está piorando – Só sobrara eu – Fui de metrô com Eugene para vê-la, comi peixe velho –
“Minha irmã cochicha pelo rádio – Louis deve estar no seu apartamento – sua mãe lhe diz o que falar – MENTIROSOS! – Preparei comida para meus dois filhos – toquei bandolim –”
A noite passada a cotovia me despertou / A noite passada quando tudo estava quieto / cantava na dourada luz da lua / cantava na colina gelada.
Ela fez.
Empurrei-a contra a porta e gritei “NÃO CHUTE ELANOR!” – ela me
olhou – Desprezo – morrer – incrédula, seus filhos tão ingênuos, tão bobos
– “Elanor é o pior dos espiões! Ela está sendo comandada!”
“– Não há fios no quarto!” – Estou gritando com ela – última tentativa, Eugene escutando na cama – o que poderia fazer para fugir dessa Mamãe fatal – “Você separada de Louis faz anos – Vovó velha demais para andar –
”
De repente estamos todos vivos – até eu & Gene & Naomi num
mitológico quarto primordial – gritando uns com os outros no Para Sempre – Eu de jaqueta de Columbia, ela semidespida.
Eu socando aquela cabeça que via Rádios, Varas, Hitlers – a escala completa das alucinações – de verdade – seu próprio universo – nenhuma estrada levando a outro lugar – nem ao meu – nenhuma América, nem mesmo um mundo –
No qual você vá como todos os homens, como Van Gogh, como Hannah a louca, tudo a mesma coisa – até a sentença final – Trovão, Espíritos, Relâmpago!
Eu vi seu túmulo! Ó, estranha Naomi! Meu próprio – túmulo fendido!
Shema Y’Israel217 – Eu sou Svul Avrum218 – você – na morte?
Sua última noite na escuridão do Bronx – telefonei – por meio do hospital para a polícia secreta.
Que veio, quando você e eu estávamos sós, você berrando com Elanor no meu ouvido – ela que arquejava na sua cama, emagrecera –
Tampouco esquecerei, diante das batidas na porta, seu terror dos espiões, – a Lei que avança, pela minha honra – Eternidade entrando no quarto – você fugindo para o banheiro, nua, escondendo-se num protesto de derradeiro destino heroico –
olhando-me nos meus olhos, traída – os policiais finais da loucura, salvando-me – do seu pé contra o coração partido de Elanor,
sua voz para cima de Edie exausta de Gimbels chegando em casa para o rádio quebrado – e Louis precisando de um divórcio barato, ele quer casar logo – Eugene sonhando, escondendo-se na rua 125, movendo ações contra negros para fazê-los pagarem mobília de segunda mão, defendendo garotas negras –
Protestos no banheiro – Disse que estava sã – vestindo uma roupa de
algodão, seus sapatos então novos, sua bolsa e recortes de jornais – não sua honestidade –
enquanto inutilmente tornava seus lábios mais reais com baton, olhando pelo espelho para ver se a Insanidade era eu ou um carro cheio de policiais
ou Vovó espionando aos 78 – Sua visão – Ela subindo pelas paredes do cemitério com um saco de sequestrador político – ou o que você viu nos muros de Bronx, de camisola cor-de-rosa à meia-noite, olhando o terreno baldio pela janela –
Ah, Avenida Rochambeau – Playground de Fantasmas – último prédio
de apartamentos para espiões no Bronx – último lar para Elanor ou Naomi, foi aqui que essas duas irmãs comunistas perderam sua revolução –
“Está certo – ponha seu casaco, Sra. – vamos – Estamos com o carro embaixo – quer vir com ela até a delegacia?”
Então a viagem até lá – segurei a mão de Naomi e segurei sua cabeça junto do meu peito, sou mais alto – beijei-a e disse que estava fazendo aquilo pelo seu próprio bem – Elanor doente – e Max com problemas cardíacos – Necessidades –
Para mim, – “Por que fez isto?” – “Sim Sra. seu filho terá que deixá-la dentro de uma hora” – A Ambulância
demorou umas poucas horas – partiu às 4 da madrugada rumo a algum
Bellevue dentro da noite no centro da cidade – partiu para o hospital para sempre. Vi-a sendo levada – acenava, lágrimas nos olhos.
Dois anos mais tarde, de volta de uma viagem ao México219 –
desolação da paisagem plana de Brentwood, arbustos mirrados e mato ao longo dos trilhos do ramal não utilizado da ferrovia na direção do hospício
–
prédio central de tijolos novos com 20 andares – perdido nos amplos gramados da cidade de loucos de Long Island – enorme cidade da Lua.
Asilo estendendo suas asas gigantes sobre o caminho para um buraco negro minúsculo – a porta – entrada pelo escroto –
Entrei – cheiro esquisito – de novo os corredores – pelo elevador – até uma porta de vidro no Pavilhão das Mulheres – até Naomi – Duas rosadas enfermeiras de branco – Elas a trouxeram para fora, Naomi me encarou – e eu ofeguei – Ela havia sofrido um derrame –
Muito pequena, encarquilhada até os ossos – a velhice chegara para Naomi – agora alquebrada em cabelos brancos – vestido solto sobre o esqueleto – rosto encovado, velha! definhava – bochecha de anciã –
Uma mão rígida – o peso dos quarenta anos e menopausa reduzidos a
isso por um ataque cardíaco, agora capenga – rugas – uma cicatriz na cabeça, a lobotomia – ruína, a mão apontando para baixo, para a morte –
Ó rosto de russa, mulher na grama, teu comprido cabelo negro será coroado de flores, o bandolim nos teus joelhos –
Beleza Comunista, sentada aqui desposada no verso entre margaridas, felicidade prometida ao alcance da mão –
mãe santa, agora sorri para o amor, seu mundo renasceu, crianças correm nuas pelo campo recoberto de ranúnculos,
elas comem no pomar de ameixeiras no fim do prado onde encontram
uma cabana na qual um preto velho de cabelos brancos conta os segredos da sua barrica de chuva –
filha abençoada vem à América, anseio ouvir de novo tua voz, lembrando a música da tua mãe, a canção do Front Natural –
Ó musa gloriosa que me carregou no ventre, deu-me para sugar a primeira vida mística & ensinou-me a fala e a música, da tua cabeça
sofredora primeiro recebi a Visão –
Torturada e ferida no crânio – Que alucinações loucas dos malditos levaram-me para fora do meu crânio em busca da Eternidade até que eu encontrasse a paz em Ti, Ó Poesia – e em todo o chamamento da humanidade pela Origem,
Morte que és a mãe do universo! – Agora veste tua nudez para sempre, alvas flores no cabelo, teu casamento lacrado atrás do céu – revolução alguma destruirá essa virgindade –
Ó, bela Garbo do meu Carma – todas as fotografias de 1920 na Colônia de Férias Nicht-Gedeiget220 aqui intocadas – com todos os professores de Newark – Elanor não partiu, Max não espera seu espectro – nem Louis se aposentou do Colégio –
De volta! Você! Naomi! Quebranto em você! Imortalidade descarnada
e revolução chegaram – mulher mirrada e alquebrada – aos cinéreos olhares intramuros dos hospitais, cinzento dos pavilhões na pele –
“Você é um espião?” Eu sentado na mesa do amargor, olhos enchendo-
se de lágrimas – “Quem é você? Louis o mandou? Os fios –”
em seu cabelo enquanto batia na cabeça – “Não sou uma menina má –
não me mate! – eu ouço o teto – eu criei dois filhos –”
Dois anos desde que lá estive – comecei a chorar – Ela me encarou – a enfermeira interrompeu o encontro por um momento – entrei no banheiro para esconder-me atrás das brancas paredes do toalete
“O Horror” eu chorando – vê-la de novo – “O Horror” – como se ela
estivesse morta e com a podridão do funeral – “O Horror!”
Voltei, ela gritou mais ainda – levaram-na embora – “Você não é Allen
– ” observei seu rosto – mas ela passou por mim, sem olhar –
Abriu a porta do pavilhão – cruzou-a sem uma olhada para trás,
subitamente sossegada – olhei mais uma vez – ela parecia velha – à beira do túmulo – “Todo o Horror!”
Mais um ano, deixei NY – no chalé da Costa Oeste em Berkeley221
sonhei com sua alma – a qual, através da vida, de que maneira se mantivera naquele corpo, em cinzas ou maníaco, além da alegria –
próxima de sua morte – com olhos – era meu próprio amor em sua forma, Naomi, ainda minha mãe na terra – mandei-lhe uma longa carta –
& escrevi hinos aos loucos – Obra do misericordioso Senhor da Poesia que faz com que a erva arrancada permaneça verde ou que a rocha se abra em ervas – ou que o Sol seja constante para a terra – Sol de todos os girassóis e dias em claras pontes de ferro – que brilha nos velhos hospitais
– assim como em meu jardim –
Voltando certa noite de San Francisco, Orlovsky no meu quarto –
Whalen em sua calma cadeira – um telegrama de Gene, Naomi morta –
Lá fora inclinei minha cabeça até o chão sob os arbustos junto à garagem – sabia que ela estava melhor –
finalmente – não mais deixada para olhar sozinha pela Terra – 2 anos de solidão – ninguém, perto dos 60 anos – velha mulher descarnada –
outrora Naomi de longas tranças da Bíblia –
Ou Ruth que chorou na América – Rebeca envelhecida em Newark –
Davi recordando-se de sua harpa, agora advogado em Yale
ou Svul Avrum – Israel Abraham – eu mesmo – para cantar na selva em louvor a Deus – Ó Elohim! – e assim até o fim – 2 dias depois da morte recebi sua carta –
Estranhas profecias, de novo! Ela escreveu – “A chave está na janela, a chave está na luz do sol na janela – Eu tenho a chave – Case-se Allen não tome drogas – a chave está entre as barras, na luz do sol na janela.
Com amor,
sua mãe”
a qual é Naomi –
HINO
No mundo que Ele criou de acordo com sua vontade Bendito Louvado
Glorificado Celebrado Exaltado o Nome do Santificado Bendito é Ele!
Na casa de Newark Bendito é Ele! Na casa dos loucos Bendito é Ele! Na casa da Morte Bendito é Ele!
Bendito seja Ele na homossexualidade! Bendito seja Ele na Paranoia!
Bendito seja Ele na cidade! Bendito seja Ele no Livro!
Bendito seja Ele que mora na sombra! Bendito seja Ele! Bendito seja Ele!
Bendita seja você Naomi em lágrimas! Bendita seja você Naomi nos medos!
Bendita Bendita Bendita na doença!
Bendita seja você Naomi nos Hospitais! Bendita seja você Naomi na solidão! Bendito seja seu triunfo! Benditas sejam tuas grades! Bendita seja a solidão dos teus últimos anos!
Bendito seja teu fracasso! Bendito seja teu ataque! Bendito seja o fechar dos teus olhos! Bendito seja o encovado da tua face! Benditas sejam tuas coxas murchas!
Bendita sejas tu Naomi na Morte! Bendita seja a Morte! Bendita seja a Morte!
Bendito seja Ele Quem leva todo sofrimento para o céu! Bendito seja Ele no final!
Bendito seja Ele que constrói o Céu na escuridão! Bendito Bendito Bendito seja Ele! Bendito seja Ele! Bendita seja a Morte de Todos nós!
III
Só por não esquecer o começo quando ela bebeu refrigerantes baratos nos necrotérios de Newark,
só por tê-la visto chorar nas mesas cinzentas dos longos pavilhões do seu universo
só por ter conhecido suas ideias malucas de Hitler na porta, os fios na sua cabeça, as três grandes varas
marretadas nas suas costas, as vozes do forro berrando por causa das suas feias trepadas cedo por 30 anos,
só por ter visto os saltos no tempo, a memória apagar-se, o troar das guerras, o rugido e o silêncio de um imenso choque elétrico,
só por tê-la visto pintar grosseiros quadros de trens correndo por cima dos telhados do Bronx
seus irmãos mortos em Riverside ou Rússia, sua solidão em Long Island escrevendo uma carta perdida – e sua imagem na luz do sol na janela
“A chave está na luz do sol na janela nas grades a chave está na luz do sol”,
só por ter chegado até aquela noite escura do ataque numa cama de ferro enquanto o sol se punha em Long Island
e lá fora o vasto Atlântico rugia o grande clamor do Ser para si
mesmo para retornar ao Pesadelo – criação dividida – com sua cabeça pousada num travesseiro de hospital para morrer
– num último relance – toda a Terra uma Luz perene na familiar escuridão
– nada de lágrimas por causa dessa visão –
Mas a chave devia ser deixada para trás – na janela – a chave na luz do sol
– para os vivos – que podem receber
essa fatia de luz nas mãos – e abrir a porta – e olhar para trás enxergando a
Criação que resplandece de volta ao mesmo túmulo, do tamanho do universo,
do tamanho do tique-taque do relógio do hospital no arco sobre a porta branca –
IV
Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de
Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey222 morrendo numa ambulância com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs223
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de
Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo
corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa
ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores
V
Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol224
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có
Senhor NY, 1959
1 712
Affonso Romano de Sant'Anna
O Pai
Procuro em meus papéis,
nos baús familiares
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
Expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
as vacas gordas de José,
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
– mia caro samiedano –
Polônia, China,
Bélgica e Japão.
Maçom, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refastelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Márquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com um carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a filha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
nos baús familiares
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
Expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
as vacas gordas de José,
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
– mia caro samiedano –
Polônia, China,
Bélgica e Japão.
Maçom, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refastelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Márquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com um carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a filha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
1 033
Affonso Romano de Sant'Anna
A Porta do Messias
Entardecia dentro dos muros de Jerusalém:
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
1 019
Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Tirado de Um Livro de Ciências
Lineu,
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
1 075
Affonso Romano de Sant'Anna
Primavera Em Aix
“Martim caiu em área sagrada” – Clarice Lispector
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
1 081
Affonso Romano de Sant'Anna
O Deus de Santa Fina
Santa Fina, aos 10 anos, doente,
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
1 182
Affonso Romano de Sant'Anna
Novo Gênesis
No primeiro dia
o Demônio criou o universo e tudo o que nele há
e viu que era bom.
No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.
No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.
Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.
o Demônio criou o universo e tudo o que nele há
e viu que era bom.
No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.
No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.
Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.
1 058
Affonso Romano de Sant'Anna
Mais Beleza, Senhor
Tio Lemos, humilde servo e pastor,
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
1 045
Affonso Romano de Sant'Anna
O Éden Possível
Do lado de fora da Mesquita de Oman, em Jerusalém,
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
1 033
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 003
Affonso Romano de Sant'Anna
Tumba Celta
Há cinco mil anos,
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
1 042
Pablo Neruda
Canto III - Os Conquistadores
I
Chegam pelas ilhas (1493)
Os carniceiros desolaram as ilhas.
Guanahaní foi a primeira
nesta história de martírios.
Os filhos da argila viram partido
seu sorriso, ferida
sua frágil estatura de gamos,
e nem mesmo na morte entendiam.
Foram amarrados c feridos,
foram queimados e abrasados,
foram mordidos e enterrados.
E quando o tempo deu sua volta de valsa
dançando nas palmeiras,
o salão verde estava vazio.
Só ficavam ossos
rigidamente colocados
em forma de cruz, para maior
glória de Deus e dos homens.
Das gredas ancestrais
e da ramagem de sotavento
até as agrupadas coralinas
foi cortando a faca de Narváez.
Aqui a cruz, ali o rosário,
aqui a Virgem do Garrote.
A jóia de Colombo, Cuba fosfórica,
recebeu o estandarte e os joelhos
em sua areia molhada.
II Agora é Cuba
E foi logo o sangue e a cinza.
Depois ficaram as palmeiras sozinhas.
Cuba, meu amor, te amarraram ao potro,
te cortaram a cara,
te apartaram as pernas de ouro pálido,
te partiram o sexo de romã,
te atravessaram de facas,
te dividiram, te queimaram.
Pelos vales da doçura
desceram os exterminadores,
e nos altos montes a cimeira
de teus filhos se perdeu na névoa,
mas ali foram atingidos
um por um até a morte,
despedaçados no tormento
sem sua terra tépida de flores
que fugia sob os seus pés.
Cuba, meu amor, que calafrio
te sacudiu de espuma a espuma,
até que te fizeste pureza,
solidão, silêncio, mato,
e os ossinhos de teus filhos
fossem disputados pelos caranguejos.
III
Chegam ao Mar do México (1519)
A Veracruz vai o vento assassino.
Em Veracruz desembarcaram os cavalos.
As barcas vão atochadas de garras
e barbas vermelhas de Castela.
São Arias, Reyes, Rojas, Maldonados,
filhos do desamparo castelhano,
conhecedores da fome no inverno
e dos piolhos nos albergues.
Que olham debruçados nos navios?
Quanto do que vem e do perdido
passado, do errante
vento feudal na pátria açoitada?
Não deixaram os portos do sul
para colocar as mãos do povo
no saque e na morte:
eles enxergam terras verdes, liberdades,
cadeias rompidas, construções,
e do alto do navio as ondas que se extinguem
sobre as costas do compacto mistério.
Iriam morrer ou reviver atrás
das palmeiras no ar quente
que, como um forno estranho, a total baforada
para eles dirigem as terras abrasadoras?
Eram povo, cabeças hirsutas de Montiel,
mãos duras e quebradas de Ocaña e Piedrahita,
braços de ferreiros, olhos de meninos
a mirar o sol terrível e as palmeiras.
A fome antiga da Europa, fome como a cauda
dum planeta mortal, povoava o brigue,
a fome lá estava, desmantelada,
errante machado frio, madrasta
dos povos, a fome lança os dados
na navegação, sopra as velas:
“Mais além, senão te como, mais além,
senão regressas
à mãe, ao irmão, ao juiz e ao cura,
aos inquisidores, ao inferno, à peste.
Mais além, mais além, longe do piolho
do chicote feudal, do calabouço,
das galeras cheias de excremento”.
E os olhos de Núñez e Bernales
fixavam na ilimitada
luz o repouso,
uma vida, outra vida,
a inumerável e castigada
família dos pobres do mundo.
IV
Cortés
Cortés não tem povo, é raio frio,
coração morto na armadura.
“Ferazes terras, meu Senhor e Rei,
templos em que o ouro, coalhado
está por mãos de índio.
”
E avança mergulhando punhais, ferindo
as terras baixas, as escarvantes
cordilheiras dos perfumes,
parando a sua tropa entre orquídeas
e coroações de pinheiros,
atropelando os jasmins,
até as portas de Tlaxcala.
(Irmão aterrado, não tomes
por amigo o abutre cor-de-rosa:
do musgo te falo, das
raízes de nosso reino.
Vai chover sangue amanhã,
as lágrimas serão capazes
de formar névoa, vapor, rios,
até derreteres os teus olhos.
)
Cortés recebe uma pomba,
recebe um faisão, uma cítara
dos músicos do monarca
mas quer a câmara do ouro,
quer mais um passo e tudo cai
nas arcas dos vorazes.
O rei assoma aos balcões:
“É meu irmão”, diz.
As pedras
do povo voam respondendo,
e Cortés afia punhais
sobre os beijos traídos.
Volta a Tlaxcala, o vento trouxe
um surdo rumor de dores.
V
Cholula
Em Cholula os jovens vestem
seu melhor tecido, ouro e plumagens,
e calçados para o festival
interrogam o invasor.
A morte lhes deu resposta.
Lá estão milhares de mortos.
Corações assassinados
que ali palpitam estendidos
e que, na úmida furna que abriram,
guardam o fio daquele dia.
(Entraram matando a cavalo,
cortaram a mão que fazia
a homenagem de ouro e flores,
fecharam a praça, cansaram
os braços até o arrocho,
matando a flor do reinado,
metidos até os cotovelos no sangue
de meus irmãos surpreendidos.
)
VI
Alvarado
Alvarado, com garras e facas,
caiu sobre as choupanas, arrasou
o patrimônio do ourives,
raptou a rosa nupcial da tribo,
agrediu raças, prédios, religiões,
foi a caixa caudal dos ladrões,
o falcão clandestino da morte.
Até o grande rio verde, o Papaloapan,
rio das Borboletas, foi mais tarde
levando sangue em seu estandarte.
O grave rio viu os seus filhos
morrerem ou sobreviverem escravos,
viu arder nas fogueiras perto d'água
raça e razão, cabeças juvenis.
Mas não se esgotaram as dores
como à sua passagem endurecida
para novas capitanias.
VII
Guatemala
Guatemala, a doce, cada laje
de tua mansão leva uma gota
de sangue antigo devorado
pelo focinho dos tigres.
Alvarado massacrou tua estirpe,
violou as estrelas austrais,
espojou-se em seus martírios.
Em Yucatán entrou o bispo
atrás dos pálidos tigres.
Reuniu a sabedoria
mais profunda ouvida no ar
do primeiro dia do mundo,
quando o primeiro maia escreveu
anotando o tremor do rio,
a ciência do pólen, a ira
dos Deuses do Envoltório,
as migrações através
dos primeiros universos,
as leis da colméia,
o segredo da ave verde,
o idioma das estrelas,
segredos do dia e da noite
colhidos nas margens
da evolução terrestre!
VIII
Um bispo
O bispo ergueu o braço,
queimou os livros na praça
em nome de seu Deus pequeno
tornando em fumaça as velhas folhas
gastas pelo tempo escuro.
E a fumaça não volta do céu.
IX
A cabeça num pau
Balboa, morte e garra
levaste aos rincões da doce
terra central, e entre os cães
caçadores, o teu era a tua alma:
leãozinho de beiço sangrento
apanhou o escravo que fugia,
enfiou caninos espanhóis
nas gargantas palpitantes,
e das, unhas dos cachorros
saía a carne para o martírio
e a jóia caía na bolsa.
Malditos sejam cão e homem,
o uivo infame na selva
original, a desafiante
passagem de ferro do bandido.
Maldita seja a espinhenta
Coroa da sarça agreste
que não saltou como um ouriço
para defender o berço invadido.
Mas entre os capitães
sangüinários se ergueu na sombra
a justiça dos punhais,
o acerbo ramo da inveja.
No regresso estava a meio
de teu caminho o apelido
de Pedrarias qual uma corda.
Te julgaram entre os latidos
de cães matadores de índios.
Agora que morres, ouves
o silêncio puro, partido
por teus lebréus açulados?
Agora que morres nas mãos
dos torvos chefes,
sentes o aroma dourado
do reino destruído?
Quando cortaram a cabeça
de Balboa, ficou enfiada
num pau.
Seus olhos mortos
decompuseram seu relâmpago
e rolaram pela lança
numa grande gota de imundice
que desapareceu na terra.
X
Homenagem a Balboa
Descobridor, o vasto mar, minha espuma,
latitude da lua, império da água,
depois de séculos te fala pela minha boca.
Tua plenitude chegou antes da morte.
Ergueste até o céu a fadiga,
e da noite dura das árvores
conduziu-te o suor até a beira
da soma do mar, do grande oceano.
Em teu olhar se fez o matrimônio
da luz estendida e do pequeno
coração do homem, encheu-se a taça
jamais antes erguida, uma semente
de relâmpagos chegou contigo
e um trovão torrencial encheu a terra.
Balboa, capitão, quão diminuta
a tua mão na viseira, misterioso
boneco do sal descobridor,
noivo da oceânica doçura,
filho do novo útero do mundo.
Por teus olhos entrou como um galope
de flores de laranjeira o aroma escuro
da roubada majestade marinha,
caiu em teu sangue uma aurora arrogante
até povoar-te a alma, possesso!
Quando voltaste às terras rudes,
sonâmbulo do mar, capitão verde,
eras um morto que esperava
a terra para receber os teus ossos.
Noivo mortal, a traição cumpria-se.
Não em vão pela história
entrava o crime espezinhado, o falcão devorava
seu ninho e se juntavam as serpentes
que se atacavam com línguas de ouro.
Entraste no crepúsculo frenético
e os passos perdidos que levavas,
ainda empapado de profundidades,
vestido de fulgor e desposado
pela maior espuma, te traziam
às praias de outro mar: a morte.
XI
Dorme um soldado
Extraviado nas fronteiras espessas
chegou o soldado.
Era total fadiga
e caiu entre os cipós e as folhas
ao pé do grande deus emplumado:
este
estava só com o seu mundo mal
surgido da selva.
Olhou o soldado,
estranho nascido do oceano.
Olhou seus olhos, sua barba sangrenta,
sua espada, o brilho negro
da armadura, o cansaço tombado
como bruma sobre essa cabeça
de menino carniceiro.
Quantas zonas
de obscuridade para que o Deus de Pluma
nascesse e enroscasse seu volume
sobre os bosques, na pedra rosada,
quanta desordem de águas loucas
e de noite selvagem, o transbordado
leito da luz sem nascer, o fermento raivoso
das vicias, a destruição, a farinha
da fertilidade e logo a ordem.
a ordem da planta e da seita,
a elevação das rochas cortadas.
a fumaça das lâmpadas rituais,
a firmeza do solo para o homem,
a fundação das tribos,
o tribunal dos deuses terrestres.
Palpitou cada escama da pedra,
Sentiu o pavor que tombou
Como uma invasão de insetos,
Recolheu todo o seu poderio,
fez chegar a chuva às raízes,
falou com as correntezas da terra,
escuro em sua vestimenta
de pedra cósmica imobilizada,
e não pôde mover nem garras nem dentes,
nem rios, nem tremores.
nem meteoros que silvaram
na abóbada do reinado,
e ali ficam, pedra imóvel, silêncio,
enquanto Beltrán de Córdoba dormia.
XII
Ximénez de Quesada (1536)
Tá vão, já vão, já chegam,
coração meu, olha as naus,
as naus pelo Magdalena,
as naus de Gonzalo Jiménez
já chegam, já chegam as naus,
detém-nas, rio, fecha
tuas margens devoradoras,
submerge-as em teu palpitar,
arrebata-lhes a cobiça,
lança-lhes tua trompa de fogo,
teus vertebrados sanguinários,
tuas enguias comedoras de olhos,
atravessa o jacaré espesso
com os seus dentes cor de lodo
c sua primitiva armadura,
estende-o como ponte
sobre tuas águas arenosas,
dispara o fogo do jaguar
do alto das árvores, nascidas
de tuas sementes, rio mãe,
atira-lhes moscas de sangue,
cega-os com estercos negro,
afunda-os em teu hemisfério,
submete-os entre as raízes
na escuridão de teu leito,
apodrece-lhes o sangue todo
devorando-lhes os pulmões
e os lábios com teus caranguejos.
Já entraram na floresta:
já roubam, já mordem, já matam.
Ó Colômbia! Defende o véu
de tua secreta selva rubra.
Já ergueram o punhal
sobre o oratório de Iraka,
agora agarram o cacique,
agora o amarram.
“Entrega
as jóias do deus antigo”,
e brincavam com o orvalho
da manhã da Colômbia.
Agora atormentam o príncipe.
Degolaram-no, sua cabeça
me espia com olhos que ninguém
pode fechar, olhos amados
de minha pátria verde e nua.
Agora queimam a casa solene,
agora seguem os cavalos,
os tormentos, as espadas,
agora restam umas brasas
e entre as cinzas os olhos
do príncipe que não se fecharam.
XIII
Encontro de corvos
No Panamá uniram-se os demônios.
Foi aí o pacto dos furões.
Uma vela apenas iluminava
quando os três chegaram por um.
Primeiro chegou Almagro antigo e torto,
Pizarro, o velho porcino
e o frade Luque, cônego entendido
em trevas.
Cada um
escondia o punhal para as costas
do associado, cada um
com ensebado olhar nas escuras
paredes adivinhava sangue,
e o ouro do longínquo império os atraía
como a lua às pedras malditas.
Quando pactuaram, Luque ergueu
a hóstia na eucaristia,
os três ladrões amassaram
a obréia com torvo sorriso.
“Deus foi dividido, irmãos,
entre nós”, garantiu o cônego,
e os carniceiros de dentes
roxos disseram “Amém”.
Bateram na mesa cuspindo.
Como não sabiam de letras
encheram de cruzes a mesa,
o papel, os bancos, os muros.
O Peru, escuro, submerso,
estava marcado de cruzes,
pequenas, negras, negras cruzes
pelo sul saíram navegando:
cruzes para as agonias,
cruzes peludas e afiadas,
cruzes com ganchos de réptil,
cruzes salpicadas de pústulas,
cruzes como pernas de aranha,
sombrias cruzes caçadoras.
XIV
As agonias
Em Cajamarca começou a agonia.
O jovem Atahualpa, estame azul,
árvore insigne, ouviu o vento
trazer rumor de aço.
Era um confuso
brilho e tremor desde a costa,
um incrível galope
- patear e poderio -
de ferro e ferro entre a relva.
Chegaram os capitães.
O Inca saiu da música
rodeado pelos senhores.
As visitas
de outro planeta suadas e barbudas,
iam prestar reverência.
O capelão
Valverde, coração traidor, chacal podre,
avança um estranho objeto, um pedaço
de cesto, um fruto
talvez daquele planeta
de onde vieram os cavalos.
Atahualpa o segura.
Não sabe
de que se trata: não brilha, não soa,
e o deixa cair sorrindo.
“Morte,
vingança, matai, que vos absolvo”,
grita o chacal da cruz assassina.
O trovão acode aos bandoleiros.
Nosso sangue em seu berço é derramado.
Os príncipes rodeiam como um coro
o Inca, na hora agonizante.
Dez mil peruanos caem
debaixo de cruzes e espadas, o sangue
molha as vestimentas de Atahualpa.
Pizarro, o porco cruel de Extremadura,
faz amarrar os delicados braços
do Inca.
A noite desceu
sobre o Peru como brasa negra.
XV
A linha avermelhada
Mais tarde ergueu a fatigada
mão o monarca, e acima
das caras dos bandidos,
tocou os muros.
Aí traçaram
a linha avermelhada.
Três câmaras
era preciso encher de ouro e prata,
até essa linha de seu sangue.
Rodou a roda de ouro, noite e noite.
A roda do martírio dia e noite.
Arranharam a terra, retiraram
jóias feitas com amor e espuma,
arrancaram o bracelete da noiva,
desampararam os seus deuses.
O lavrador entregou a sua medalha,
o pescador sua gota de ouro,
e as relhas tremeram respondendo
enquanto voz e mensagem nas alturas
ia a roda de ouro rodando.
Aí tigre e tigre se juntaram
e repartiram o sangue e as lágrimas.
Atahualpa esperava levemente
triste no escarpado dia andino.
Não se abriram as portas.
Até a última
jóia os abutres dividiram:
as turquesas rituais, salpicadas
pela carnificina, o vestido
laminado de prata: as unhas bandoleiras
iam medindo e a gargalhada
do frade entre os verdugos
o rei escutava com tristeza.
Era seu coração um vaso cheio
de uma angústia amarga como
a essência amarga da quina.
Pensou em suas fruteiras, no alto Cuzco,
nas princesas, em sua idade,
no calafrio de seu reino.
Maduro estava por dentro, sua paz
desesperada era tristeza.
Pensou em Huáscar.
Viriam dele os estrangeiros?
Tudo era enigma, tudo era faca.
Tudo era solidão, só a linha rubra
palpitava vivente,
tragando as entranhas amarelas
do reino emudecido que morria.
Entrou Valverde então com a morte.
“Te chamarás Juan”, lhe disse
enquanto preparavam a fogueira.
Gravemente respondeu: “Juan,
Juan me chamo até morrer”,
já sem compreender nem mesmo a morte.
Ataram-lhe o pescoço e um gancho
penetrou na alma do Peru.
XVI
Elegia
Só, nas soledades
quero chorar como os rios, quero
escurecer, dormir
como tua antiga noite mineral.
Por que chegaram as chaves radiantes
até às mãos do bandido? Levanta-te,
materna Oello, descansa teu segredo
na fadiga longa desta noite
e deita em minhas veias teu conselho.
Não te peço ainda o sol do Yupanquis.
Te falo adormecido, chamando
de terra a terra, mãe
peruana, matriz, cordilheira.
Como entrou em teu arenoso recinto
a avalanche dos punhais?
Imóvel em tuas mãos,
sinto estenderem-se os metais
nos canais do subsolo.
Estou feito de tuas raízes,
mas não entendo, não me entrega
a terra a sua sabedoria.
Vejo apenas noite e noite
sob as terras estreladas.
Que sonho sem sentido, de serpente,
arrastou-se até a linha avermelhada?
Olhos do luto, planta tenebrosa.
Como chegaste a este vento vinagre,
como entre os penhascos da ira
não ergueu Capac a sua tiara
de argila deslumbrante?
Deixai-me sob os pavilhões
padecer e afundar-me como
a raiz curta que não dará esplendor.
Sob a dura noite dura
descerei pela terra até chegar
à boca do ouro.
Quero estender-me na pedra noturna.
Quero chegar aí com a desgraça.
XVII
As guerras
Mais tarde ao Relógio de Granito
chegou uma chama incendiária.
Almagros e Pizarros e Valverdes,
Castillos e Urías e Beltranes
se apunhalaram repartindo
as traições adquiridas,
se roubavam a mulher e o ouro,
disputavam a dinastia.
Enforcavam-se nos currais,
debulhavam-se na praça,
agarravam-se aos Cabildos.
Tombava a árvore do saque
entre estocadas e gangrena.
Desse galope de Pizarros
nos territórios linhosos
nasceu um silêncio estupefato.
Estava tudo cheio de morte
e sobre a agonia arrasada
de seus filhos desventurados,
no território (roído
até os ossos pelas ratazanas),
sujeitavam-se as entranhas
antes de matar e se matarem.
Magarefes de cólera e força,
centauros tombados na lama
da cobiça, ídolos
partidos pela luz do ouro,
exterminastes vossa própria
estirpe de unhas sanguinárias
e junto às rochas murais
do alto Cuzco coroado.
diante do sol de espigas mais altas,
representastes no pó
dourado do Inca, o teatro
dos infernos imperiais:
a Rapina de focinho verde,
a Luxúria azeitada em sangue,
a Cobiça de unhas de ouro,
a Traição, avessa dentadura,
a Cruz como um réptil rapace,
a Forca mm fundo de neve,
e a Morte fina como o ar
imóvel em sua armadura.
XVIII Descobridores do Chile
Do norte trouxe Almagro sua rugosa centelha.
E sobre o território, entre explosão e ocaso,
inclinou-se dia e noite como sobre uma carta
Sombra de espinhos, sombra de cardo e cera,
o espanhol reunido com a sua seca figura,
mirando as sombrias estratégias do solo.
Noite, neve e areia fazem a forma
de minha pátria delgada,
todo o silêncio está em sua longa linha,
toda a espuma sai de sua barba marinha,
todo o carvão a enche de beijos misteriosos.
Como brasa o ouro arde em seus dedos
e a prata ilumina como lua verde
sua endurecida forma de tétrico planeta.
O espanhol sentado junto à rosa um dia,
junto ao azeite, junto ao vinho, junto ao antigo céu,
não imaginou este ponto de colérica pedra
nascer sob o esterco da águia marinha.
XIX
A terra combatente
Primeiro resistiu a terra.
A neve araucana queimou
como uma fogueira de brancura
a marcha dos invasores.
Caíam de frio os dedos,
as mãos, os pés de Almagro
e as garras que devoraram
e sepultaram monarquias
eram na neve um ponto
de carne gelada, eram silêncio.
Foi no mar das cordilheiras.
O ar chileno chicoteava
marcando estrelas, derrubando
cobiças e cavalarias.
Cedo, a fome andou atrás
de Almagro como invisível
mandíbula que atacava.
Os cavalos eram comidos
naquela festa glacial.
E a morte do sul debulhou
o galope dos Almagros,
até que voltou seu cavalo
para o Peru, onde esperava
o descobridor rechaçado,
a morte do norte, sentada
no caminho, com um machado.
XX
Unem-se a Terra e o Homem
Araucania ramo de carvalhos torrenciais,
c5 Pátria despiedosa, amada escura,
solitária em teu reino chuvoso:
eras apenas gargantas minerais,
mãos de frio, punhos
acostumados a cortar penhascos,
eras, Pátria, a paz da dureza
e teus homens eram rumor,
áspera aparição, vento bravio.
Não tiveram os meus pais araucanos
elmos de plumagem luminosa,
não descansaram em flores nupciais,
não fiaram ouro para o sacerdote:
eram pedra e árvore, raízes
dos matagais sacudidos,
folhas com forma de lança,
cabeças de metal guerreiro.
Pais, apenas levantastes
a orelha ao galope, apenas no cimo
dos montes, cruzou
o raio de Araucania.
Tornaram-se sombra os pais de pedra,
ataram-se ao bosque, às trevas
naturais, tornaram-se luz de gelo,
asperezas de terras e espinhos,
e assim esperaram nas profundezas
da solidão indomável:
um era uma árvore vermelha que olhava,
outro um fragmento de metal que ouvia,
outro uma lufada de vento e verruma,
outro tinha a cor do caminho.
Pátria, nave de neve,
folhagem endurecida:
aí nasceste, quando o homem teu
pediu à terra o seu estandarte,
e quando terra e ar e pedra e chuva,
folha, raiz, uivo, perfume,
cobriram como um manto o filho
que amaram e defenderam.
Assim nasceu a pátria unânime:
a unidade antes do combate.
XXI
Valdivia (1544)
Mas voltaram (Pedro se chamava).
Valdivia, o capitão intruso,
cortou minha terra com a espada
entre ladrões: “Isto é teu,
isto é teu.
Valdés, Montero,
isto é teu, Inés, este lugar
é o cabido”.
Dividiram minha pátria
como sé fosse um asno morto.
“Leva
este pedaço de lua e arvoredo,
devora este rio com crepúsculo”,
enquanto a grande cordilheira
erguia bronze e brancura.
Assomou Arauco.
Adobes, torres,
ruas, o silencioso
dono da casa levantou sorrindo.
Trabalhou com as mãos empapadas
de sua água e de seu barro, trouxe
a greda e verteu a água andina:
mas não pôde ser escravo.
Então Valdivia, o verdugo,
atacou a fogo e morte.
Assim começou o sangue,
o sangue de três séculos, o sangue oceano,
o sangue atmosfera que cobriu a minha terra
e o tempo imenso, como guerra nenhuma.
Saiu o abutre iracundo
da armadura enlutada
e mordeu o chefe, rompeu
o pacto escrito no silêncio
de Huelén, no ar andino.
Arauco começou a ferver seu prato
De sangue e pedras.
Sete príncipes
vieram para lamentar.
Foram presos.
Diante dos olhos da Araucania,
cortaram as cabeças dos caciques.
Animavam-se os verdugos.
Toda
empapada de vísceras, uivando,
Inés Suárez, a mercenária,
subjugava os pescoços imperiais
com os seus joelhos de infernal harpia.
E as lançou sobre a paliçada,
banhando-se de sangue nobre,
cobrindo-se de barro escarlate.
Acreditaram assim dominar Arauco.
Porém aqui a unidade sombria
de árvore e pedra, lança e rosto,
transmitiu o crime ao vento.
Soube disso a árvore da fronteira,
o pescador, o rei, o mago,
soube disso o lavrador antártico,
souberam-no as águas mães
do Bío-Bío.
Assim nasceu a guerra pátria.
Valdivia enfiou a lança gotejante
nas entranhas pedregosas
de Arauco, meteu a mão
no palpitar, apertou os dedos
no coração araucano,
derramou as veias silvestres
dos labregos,
exterminou
o amanhecer pastoril,
ordenou martírio
ao rei do bosque, incendiou
a casa do dono do bosque,
cortou as mãos do cacique,
devolveu os prisioneiros
com orelhas e narizes cortados,
empalou o toqui, assassinou
a moça guerrilheira
e com a sua luva ensangüentada
marcou as pedras da pátria,
deixando-a cheia de mortos
e solidão e cicatrizes.
XXII
Ercilla
Pedras de Arauco e desatadas rosas
fluviais, territórios de raízes,
encontraram-se com o homem que chegou de Espanha.
Invadem a sua armadura com gigantesco líquen.
Atropelam a sua espada as sombras do feto.
A hera original põe mãos azuis
no recém-chegado silêncio do planeta.
Homem, Ercilla sonoro, ouço o pulso da água
de teu primeiro amanhecer, um frenesi de pássaros
e um trovão na folhagem.
Deixa, deixa a tua pegada
de águia rubra, destroça
a tua face contra o milho silvestre,
tudo será na terra devorado.
Sonoro, somente tu não beberás a taça
de sangue, sonoro, só ao rápido
fulgor de ti nascido
cm vão chegará a boca secreta do tempo
para dizer-te: em vão.
Em vão, em vão
sangue pelas ramagens de cristal salpicado,
em vão pelas noites do puma
o desafiador passo do soldado,
as ordens,
os passos
do ferido.
Tudo torna ao silêncio coroado de plumas
onde um rei remoto devora trepadeiras.
XXIII
Enterram-se as lanças
Assim ficou repartido o patrimônio.
O sangue dividiu a pátria inteira.
(Contarei em outras linhas
a luta do meu povo.
)
Mas foi cortada a terra
pelas facas invasoras.
Depois vieram povoar a herança
usurário de Euzkadi, netos
de Loyola.
Da cordilheira
do oceano
dividiram com árvores e corpos
a sombra recostada do planeta.
As comendas sobre a terra
sacudida, ferida, incendiada,
o reparte de selva e água
nos bolsos, os Errázuriz
que chegam com seu escudo de armas:
um chicote e uma alpargata.
XXIV
O coração magalhânico (1519)
De onde sou, às vezes me pergunto, de que diabos
venho, que dia é hoje, que acontece,
ronco, no meio do sonho, da árvore, da noite,
e uma onda se levanta como pálpebra, um dia
dela nasce, um relâmpago com focinho de tigre.
Desperto de repente na noite pensando no extremo sul
Vem o dia e me diz: “Ouves
a água lenta, a água
sobre a Patagônia?”
E eu respondo: “Sim, senhor, escuto”.
Vem o dia e me diz: “Uma ovelha selvagem,
longe, na região, lambe a cor gelada
duma pedra.
Não escutas o balido, não reconheces
o vendaval azul em cujas mãos
a lua é uma taça, não vês a tropa, o dedo
rancoroso do vento
tocar a onda e a vida com o seu anel vazio?”
Recordo a solidão do estreito
A longa noite, o pinheiro, vêm aonde vou.
E se transtorna o ácido surdo, a fadiga,
a tampa do tonel, quanto tenho na vida.
Uma gota de neve chora e chora à minha porta
mostrando o seu vestido claro e desatado
de pequeno cometa que me procura e soluça.
Ninguém olha a lufada, a extensão, o uivo
do ar nas pradarias.
Me aproximo e digo: vamos.
Toco o sul, desemboco
na areia, vejo a planta seca e negra, toda raiz e rocha,
as ilhas arranhadas pela água e pelo céu,
o Rio da Fome, o Coração de Cinza,
o Pátio do Mar Lúgubre, e onde assovia
a solitária serpente, onde cava
o último zorro ferido e esconde seu tesouro sangrento
encontro a tempestade e sua voz de ruptura,
sua voz de velho livro, sua boca de cem lábios,
algo me diz, algo que o ar devora cada dia.
Os descobridores da América aparecem e deles nada fica
Recorda a água quanto aconteceu ao navio.
A dura terra estranha guarda as suas caveiras
que soam no pânico austral como cornetas
e olhos de homem e de boi dão ao dia o seu vazio,
o seu anel, o seu ressoar de implacável sulco.
O velho céu busca a vela, ninguém
já sobrevive: o brigue destruído
vive com a cinza do marinheiro amargo,
e dos entrepostos de ouro, das casas de couro
do trigo pestilento, e da
chama fria das navegações
(quanto golpe noite [rocha e baixel] no casa,)
fica apenas o domínio queimado e sem cadáveres,
a incessante intempérie apenas partida
por um negro fragmento
de fogo falecido.
Só se impõe a desolação
Esfera que destroça lentamente a noite, a água, o gelo,
extensão combatida pelo tempo e pelo fim,
com sua marca violeta, com o final azul
do arco-íris selvagem
se afogam os pés de minha pátria em tua sombra
e uiva e agoniza a rosa triturada.
Recordo o velho descobridor
Pelo canal navega novamente
o cereal gelado, a barca do combate,
0 outono glacial, o transitório ferido.
Com ele, com o antigo, com o morto,
com o destituído pela água raivosa,
com ele em sua tormenta, com seu rosto.
Ainda o segue o albatroz c a soga de couro
comida, com os olhos fora do olhar
e o rato devorado cegamente olhando
entre paus partidos o esplendor iracundo,
enquanto no vazio o anel e o osso
caem, resvalam pela vaca-marinha.
Magalhães
Qual é o deus que passa? Olhai sua barba cheia de vermes
e seus calções aos quais a espessa atmosfera
se agarra e morde como um cão náufrago:
e tem peso de âncora maldita a sua estatura,
e silva o pélago e o aquilão acorre
até seus pés molhados.
Caracol da escura
sombra do tempo, espora
carcomida, velho senhor de luto litoral, caçador
sem estirpe, manchado manancial, o esterco
do estreiro te manda,
e de cruz tem o seu peito só um grito
do mar, um grito branco, de luz marinha,
e de tenaz, de tombo em tombo, de aguilhão demolido.
Chega ao Pacífico
Porque o sinistro dia do mar termina um dia,
e a mão noturna corta seus dedos um a um
até não ser, até que o homem nasce
e o capitão descobre dentro de si o aço
e a América sobe a soa borbulha
e a costa levanta o seu pálido arrecife
sujo de aurora, turvo de nascimento
até que da nau sai um grito e se afoga
e outro grito e a alba que nasce da espuma.
Todos morreram
Irmãos de água e piolho, de planeta carnívoro:
vistes, enfim, a árvore do mastro encolhida
pela tormenta? Vistes a pedra esmagada
sob a louca neve brusca da lufada?
Enfim, já tendes o vosso paraíso perdido,
enfim, tendes a vossa guarnição maldizente,
enfim, vossos fantasmas atravessados pelo ar
beijam sobre a areia o rasto da foca.
Enfim, a vossos dedos sem anel
chega o pequeno sal do páramo, o dia morto,
tremendo, em seu hospital de ondas e pedras.
XXV
Apesar da ira
Roídos elmos, ferraduras mortas!
Mas através do fogo e da ferradura
como de um manancial iluminado
pelo sangue sombrio,
com o metal fundido no tormento
derramou-se uma luz sobre a terra:
número, nome, linha e estrutura.
Página de água, claro poderio
de idiomas rumorosos, doces gotas
elaboradas como cachos de uvas,
sílabas de platina na ternura
de uns peitos puros aljofarados,
e uma clássica boca de diamantes
deu seu fulgor nevado ao território.
Já longe a estátua depunha
seu mármore morto, e na primavera
do mundo, amanheceu a maquinaria.
A técnica elevava o seu domínio
e o tempo foi velocidade e lufada
na bandeira dos mercadores.
Lua de geografia
que descobriu a planta e o planeta
estendendo geométrica formosura
em seu desenvolvido movimento.
Ásia entregou o seu virginal aroma.
A inteligência com um fio gelado
foi atrás do sangue a fiar o dia.
O papel repartiu a pele nua
guardada nas trevas.
Um vôo
de pombal saiu da pintura
com arrebol e azul ultramarino.
E as línguas do homem se juntaram
na primeira ira, antes do canto.
Assim, com o sangrento
titã de pedra,
falcão encarniçado,
não só chegou o sangue mas o trigo.
A luz veio apesar dos punhais.
Chegam pelas ilhas (1493)
Os carniceiros desolaram as ilhas.
Guanahaní foi a primeira
nesta história de martírios.
Os filhos da argila viram partido
seu sorriso, ferida
sua frágil estatura de gamos,
e nem mesmo na morte entendiam.
Foram amarrados c feridos,
foram queimados e abrasados,
foram mordidos e enterrados.
E quando o tempo deu sua volta de valsa
dançando nas palmeiras,
o salão verde estava vazio.
Só ficavam ossos
rigidamente colocados
em forma de cruz, para maior
glória de Deus e dos homens.
Das gredas ancestrais
e da ramagem de sotavento
até as agrupadas coralinas
foi cortando a faca de Narváez.
Aqui a cruz, ali o rosário,
aqui a Virgem do Garrote.
A jóia de Colombo, Cuba fosfórica,
recebeu o estandarte e os joelhos
em sua areia molhada.
II Agora é Cuba
E foi logo o sangue e a cinza.
Depois ficaram as palmeiras sozinhas.
Cuba, meu amor, te amarraram ao potro,
te cortaram a cara,
te apartaram as pernas de ouro pálido,
te partiram o sexo de romã,
te atravessaram de facas,
te dividiram, te queimaram.
Pelos vales da doçura
desceram os exterminadores,
e nos altos montes a cimeira
de teus filhos se perdeu na névoa,
mas ali foram atingidos
um por um até a morte,
despedaçados no tormento
sem sua terra tépida de flores
que fugia sob os seus pés.
Cuba, meu amor, que calafrio
te sacudiu de espuma a espuma,
até que te fizeste pureza,
solidão, silêncio, mato,
e os ossinhos de teus filhos
fossem disputados pelos caranguejos.
III
Chegam ao Mar do México (1519)
A Veracruz vai o vento assassino.
Em Veracruz desembarcaram os cavalos.
As barcas vão atochadas de garras
e barbas vermelhas de Castela.
São Arias, Reyes, Rojas, Maldonados,
filhos do desamparo castelhano,
conhecedores da fome no inverno
e dos piolhos nos albergues.
Que olham debruçados nos navios?
Quanto do que vem e do perdido
passado, do errante
vento feudal na pátria açoitada?
Não deixaram os portos do sul
para colocar as mãos do povo
no saque e na morte:
eles enxergam terras verdes, liberdades,
cadeias rompidas, construções,
e do alto do navio as ondas que se extinguem
sobre as costas do compacto mistério.
Iriam morrer ou reviver atrás
das palmeiras no ar quente
que, como um forno estranho, a total baforada
para eles dirigem as terras abrasadoras?
Eram povo, cabeças hirsutas de Montiel,
mãos duras e quebradas de Ocaña e Piedrahita,
braços de ferreiros, olhos de meninos
a mirar o sol terrível e as palmeiras.
A fome antiga da Europa, fome como a cauda
dum planeta mortal, povoava o brigue,
a fome lá estava, desmantelada,
errante machado frio, madrasta
dos povos, a fome lança os dados
na navegação, sopra as velas:
“Mais além, senão te como, mais além,
senão regressas
à mãe, ao irmão, ao juiz e ao cura,
aos inquisidores, ao inferno, à peste.
Mais além, mais além, longe do piolho
do chicote feudal, do calabouço,
das galeras cheias de excremento”.
E os olhos de Núñez e Bernales
fixavam na ilimitada
luz o repouso,
uma vida, outra vida,
a inumerável e castigada
família dos pobres do mundo.
IV
Cortés
Cortés não tem povo, é raio frio,
coração morto na armadura.
“Ferazes terras, meu Senhor e Rei,
templos em que o ouro, coalhado
está por mãos de índio.
”
E avança mergulhando punhais, ferindo
as terras baixas, as escarvantes
cordilheiras dos perfumes,
parando a sua tropa entre orquídeas
e coroações de pinheiros,
atropelando os jasmins,
até as portas de Tlaxcala.
(Irmão aterrado, não tomes
por amigo o abutre cor-de-rosa:
do musgo te falo, das
raízes de nosso reino.
Vai chover sangue amanhã,
as lágrimas serão capazes
de formar névoa, vapor, rios,
até derreteres os teus olhos.
)
Cortés recebe uma pomba,
recebe um faisão, uma cítara
dos músicos do monarca
mas quer a câmara do ouro,
quer mais um passo e tudo cai
nas arcas dos vorazes.
O rei assoma aos balcões:
“É meu irmão”, diz.
As pedras
do povo voam respondendo,
e Cortés afia punhais
sobre os beijos traídos.
Volta a Tlaxcala, o vento trouxe
um surdo rumor de dores.
V
Cholula
Em Cholula os jovens vestem
seu melhor tecido, ouro e plumagens,
e calçados para o festival
interrogam o invasor.
A morte lhes deu resposta.
Lá estão milhares de mortos.
Corações assassinados
que ali palpitam estendidos
e que, na úmida furna que abriram,
guardam o fio daquele dia.
(Entraram matando a cavalo,
cortaram a mão que fazia
a homenagem de ouro e flores,
fecharam a praça, cansaram
os braços até o arrocho,
matando a flor do reinado,
metidos até os cotovelos no sangue
de meus irmãos surpreendidos.
)
VI
Alvarado
Alvarado, com garras e facas,
caiu sobre as choupanas, arrasou
o patrimônio do ourives,
raptou a rosa nupcial da tribo,
agrediu raças, prédios, religiões,
foi a caixa caudal dos ladrões,
o falcão clandestino da morte.
Até o grande rio verde, o Papaloapan,
rio das Borboletas, foi mais tarde
levando sangue em seu estandarte.
O grave rio viu os seus filhos
morrerem ou sobreviverem escravos,
viu arder nas fogueiras perto d'água
raça e razão, cabeças juvenis.
Mas não se esgotaram as dores
como à sua passagem endurecida
para novas capitanias.
VII
Guatemala
Guatemala, a doce, cada laje
de tua mansão leva uma gota
de sangue antigo devorado
pelo focinho dos tigres.
Alvarado massacrou tua estirpe,
violou as estrelas austrais,
espojou-se em seus martírios.
Em Yucatán entrou o bispo
atrás dos pálidos tigres.
Reuniu a sabedoria
mais profunda ouvida no ar
do primeiro dia do mundo,
quando o primeiro maia escreveu
anotando o tremor do rio,
a ciência do pólen, a ira
dos Deuses do Envoltório,
as migrações através
dos primeiros universos,
as leis da colméia,
o segredo da ave verde,
o idioma das estrelas,
segredos do dia e da noite
colhidos nas margens
da evolução terrestre!
VIII
Um bispo
O bispo ergueu o braço,
queimou os livros na praça
em nome de seu Deus pequeno
tornando em fumaça as velhas folhas
gastas pelo tempo escuro.
E a fumaça não volta do céu.
IX
A cabeça num pau
Balboa, morte e garra
levaste aos rincões da doce
terra central, e entre os cães
caçadores, o teu era a tua alma:
leãozinho de beiço sangrento
apanhou o escravo que fugia,
enfiou caninos espanhóis
nas gargantas palpitantes,
e das, unhas dos cachorros
saía a carne para o martírio
e a jóia caía na bolsa.
Malditos sejam cão e homem,
o uivo infame na selva
original, a desafiante
passagem de ferro do bandido.
Maldita seja a espinhenta
Coroa da sarça agreste
que não saltou como um ouriço
para defender o berço invadido.
Mas entre os capitães
sangüinários se ergueu na sombra
a justiça dos punhais,
o acerbo ramo da inveja.
No regresso estava a meio
de teu caminho o apelido
de Pedrarias qual uma corda.
Te julgaram entre os latidos
de cães matadores de índios.
Agora que morres, ouves
o silêncio puro, partido
por teus lebréus açulados?
Agora que morres nas mãos
dos torvos chefes,
sentes o aroma dourado
do reino destruído?
Quando cortaram a cabeça
de Balboa, ficou enfiada
num pau.
Seus olhos mortos
decompuseram seu relâmpago
e rolaram pela lança
numa grande gota de imundice
que desapareceu na terra.
X
Homenagem a Balboa
Descobridor, o vasto mar, minha espuma,
latitude da lua, império da água,
depois de séculos te fala pela minha boca.
Tua plenitude chegou antes da morte.
Ergueste até o céu a fadiga,
e da noite dura das árvores
conduziu-te o suor até a beira
da soma do mar, do grande oceano.
Em teu olhar se fez o matrimônio
da luz estendida e do pequeno
coração do homem, encheu-se a taça
jamais antes erguida, uma semente
de relâmpagos chegou contigo
e um trovão torrencial encheu a terra.
Balboa, capitão, quão diminuta
a tua mão na viseira, misterioso
boneco do sal descobridor,
noivo da oceânica doçura,
filho do novo útero do mundo.
Por teus olhos entrou como um galope
de flores de laranjeira o aroma escuro
da roubada majestade marinha,
caiu em teu sangue uma aurora arrogante
até povoar-te a alma, possesso!
Quando voltaste às terras rudes,
sonâmbulo do mar, capitão verde,
eras um morto que esperava
a terra para receber os teus ossos.
Noivo mortal, a traição cumpria-se.
Não em vão pela história
entrava o crime espezinhado, o falcão devorava
seu ninho e se juntavam as serpentes
que se atacavam com línguas de ouro.
Entraste no crepúsculo frenético
e os passos perdidos que levavas,
ainda empapado de profundidades,
vestido de fulgor e desposado
pela maior espuma, te traziam
às praias de outro mar: a morte.
XI
Dorme um soldado
Extraviado nas fronteiras espessas
chegou o soldado.
Era total fadiga
e caiu entre os cipós e as folhas
ao pé do grande deus emplumado:
este
estava só com o seu mundo mal
surgido da selva.
Olhou o soldado,
estranho nascido do oceano.
Olhou seus olhos, sua barba sangrenta,
sua espada, o brilho negro
da armadura, o cansaço tombado
como bruma sobre essa cabeça
de menino carniceiro.
Quantas zonas
de obscuridade para que o Deus de Pluma
nascesse e enroscasse seu volume
sobre os bosques, na pedra rosada,
quanta desordem de águas loucas
e de noite selvagem, o transbordado
leito da luz sem nascer, o fermento raivoso
das vicias, a destruição, a farinha
da fertilidade e logo a ordem.
a ordem da planta e da seita,
a elevação das rochas cortadas.
a fumaça das lâmpadas rituais,
a firmeza do solo para o homem,
a fundação das tribos,
o tribunal dos deuses terrestres.
Palpitou cada escama da pedra,
Sentiu o pavor que tombou
Como uma invasão de insetos,
Recolheu todo o seu poderio,
fez chegar a chuva às raízes,
falou com as correntezas da terra,
escuro em sua vestimenta
de pedra cósmica imobilizada,
e não pôde mover nem garras nem dentes,
nem rios, nem tremores.
nem meteoros que silvaram
na abóbada do reinado,
e ali ficam, pedra imóvel, silêncio,
enquanto Beltrán de Córdoba dormia.
XII
Ximénez de Quesada (1536)
Tá vão, já vão, já chegam,
coração meu, olha as naus,
as naus pelo Magdalena,
as naus de Gonzalo Jiménez
já chegam, já chegam as naus,
detém-nas, rio, fecha
tuas margens devoradoras,
submerge-as em teu palpitar,
arrebata-lhes a cobiça,
lança-lhes tua trompa de fogo,
teus vertebrados sanguinários,
tuas enguias comedoras de olhos,
atravessa o jacaré espesso
com os seus dentes cor de lodo
c sua primitiva armadura,
estende-o como ponte
sobre tuas águas arenosas,
dispara o fogo do jaguar
do alto das árvores, nascidas
de tuas sementes, rio mãe,
atira-lhes moscas de sangue,
cega-os com estercos negro,
afunda-os em teu hemisfério,
submete-os entre as raízes
na escuridão de teu leito,
apodrece-lhes o sangue todo
devorando-lhes os pulmões
e os lábios com teus caranguejos.
Já entraram na floresta:
já roubam, já mordem, já matam.
Ó Colômbia! Defende o véu
de tua secreta selva rubra.
Já ergueram o punhal
sobre o oratório de Iraka,
agora agarram o cacique,
agora o amarram.
“Entrega
as jóias do deus antigo”,
e brincavam com o orvalho
da manhã da Colômbia.
Agora atormentam o príncipe.
Degolaram-no, sua cabeça
me espia com olhos que ninguém
pode fechar, olhos amados
de minha pátria verde e nua.
Agora queimam a casa solene,
agora seguem os cavalos,
os tormentos, as espadas,
agora restam umas brasas
e entre as cinzas os olhos
do príncipe que não se fecharam.
XIII
Encontro de corvos
No Panamá uniram-se os demônios.
Foi aí o pacto dos furões.
Uma vela apenas iluminava
quando os três chegaram por um.
Primeiro chegou Almagro antigo e torto,
Pizarro, o velho porcino
e o frade Luque, cônego entendido
em trevas.
Cada um
escondia o punhal para as costas
do associado, cada um
com ensebado olhar nas escuras
paredes adivinhava sangue,
e o ouro do longínquo império os atraía
como a lua às pedras malditas.
Quando pactuaram, Luque ergueu
a hóstia na eucaristia,
os três ladrões amassaram
a obréia com torvo sorriso.
“Deus foi dividido, irmãos,
entre nós”, garantiu o cônego,
e os carniceiros de dentes
roxos disseram “Amém”.
Bateram na mesa cuspindo.
Como não sabiam de letras
encheram de cruzes a mesa,
o papel, os bancos, os muros.
O Peru, escuro, submerso,
estava marcado de cruzes,
pequenas, negras, negras cruzes
pelo sul saíram navegando:
cruzes para as agonias,
cruzes peludas e afiadas,
cruzes com ganchos de réptil,
cruzes salpicadas de pústulas,
cruzes como pernas de aranha,
sombrias cruzes caçadoras.
XIV
As agonias
Em Cajamarca começou a agonia.
O jovem Atahualpa, estame azul,
árvore insigne, ouviu o vento
trazer rumor de aço.
Era um confuso
brilho e tremor desde a costa,
um incrível galope
- patear e poderio -
de ferro e ferro entre a relva.
Chegaram os capitães.
O Inca saiu da música
rodeado pelos senhores.
As visitas
de outro planeta suadas e barbudas,
iam prestar reverência.
O capelão
Valverde, coração traidor, chacal podre,
avança um estranho objeto, um pedaço
de cesto, um fruto
talvez daquele planeta
de onde vieram os cavalos.
Atahualpa o segura.
Não sabe
de que se trata: não brilha, não soa,
e o deixa cair sorrindo.
“Morte,
vingança, matai, que vos absolvo”,
grita o chacal da cruz assassina.
O trovão acode aos bandoleiros.
Nosso sangue em seu berço é derramado.
Os príncipes rodeiam como um coro
o Inca, na hora agonizante.
Dez mil peruanos caem
debaixo de cruzes e espadas, o sangue
molha as vestimentas de Atahualpa.
Pizarro, o porco cruel de Extremadura,
faz amarrar os delicados braços
do Inca.
A noite desceu
sobre o Peru como brasa negra.
XV
A linha avermelhada
Mais tarde ergueu a fatigada
mão o monarca, e acima
das caras dos bandidos,
tocou os muros.
Aí traçaram
a linha avermelhada.
Três câmaras
era preciso encher de ouro e prata,
até essa linha de seu sangue.
Rodou a roda de ouro, noite e noite.
A roda do martírio dia e noite.
Arranharam a terra, retiraram
jóias feitas com amor e espuma,
arrancaram o bracelete da noiva,
desampararam os seus deuses.
O lavrador entregou a sua medalha,
o pescador sua gota de ouro,
e as relhas tremeram respondendo
enquanto voz e mensagem nas alturas
ia a roda de ouro rodando.
Aí tigre e tigre se juntaram
e repartiram o sangue e as lágrimas.
Atahualpa esperava levemente
triste no escarpado dia andino.
Não se abriram as portas.
Até a última
jóia os abutres dividiram:
as turquesas rituais, salpicadas
pela carnificina, o vestido
laminado de prata: as unhas bandoleiras
iam medindo e a gargalhada
do frade entre os verdugos
o rei escutava com tristeza.
Era seu coração um vaso cheio
de uma angústia amarga como
a essência amarga da quina.
Pensou em suas fruteiras, no alto Cuzco,
nas princesas, em sua idade,
no calafrio de seu reino.
Maduro estava por dentro, sua paz
desesperada era tristeza.
Pensou em Huáscar.
Viriam dele os estrangeiros?
Tudo era enigma, tudo era faca.
Tudo era solidão, só a linha rubra
palpitava vivente,
tragando as entranhas amarelas
do reino emudecido que morria.
Entrou Valverde então com a morte.
“Te chamarás Juan”, lhe disse
enquanto preparavam a fogueira.
Gravemente respondeu: “Juan,
Juan me chamo até morrer”,
já sem compreender nem mesmo a morte.
Ataram-lhe o pescoço e um gancho
penetrou na alma do Peru.
XVI
Elegia
Só, nas soledades
quero chorar como os rios, quero
escurecer, dormir
como tua antiga noite mineral.
Por que chegaram as chaves radiantes
até às mãos do bandido? Levanta-te,
materna Oello, descansa teu segredo
na fadiga longa desta noite
e deita em minhas veias teu conselho.
Não te peço ainda o sol do Yupanquis.
Te falo adormecido, chamando
de terra a terra, mãe
peruana, matriz, cordilheira.
Como entrou em teu arenoso recinto
a avalanche dos punhais?
Imóvel em tuas mãos,
sinto estenderem-se os metais
nos canais do subsolo.
Estou feito de tuas raízes,
mas não entendo, não me entrega
a terra a sua sabedoria.
Vejo apenas noite e noite
sob as terras estreladas.
Que sonho sem sentido, de serpente,
arrastou-se até a linha avermelhada?
Olhos do luto, planta tenebrosa.
Como chegaste a este vento vinagre,
como entre os penhascos da ira
não ergueu Capac a sua tiara
de argila deslumbrante?
Deixai-me sob os pavilhões
padecer e afundar-me como
a raiz curta que não dará esplendor.
Sob a dura noite dura
descerei pela terra até chegar
à boca do ouro.
Quero estender-me na pedra noturna.
Quero chegar aí com a desgraça.
XVII
As guerras
Mais tarde ao Relógio de Granito
chegou uma chama incendiária.
Almagros e Pizarros e Valverdes,
Castillos e Urías e Beltranes
se apunhalaram repartindo
as traições adquiridas,
se roubavam a mulher e o ouro,
disputavam a dinastia.
Enforcavam-se nos currais,
debulhavam-se na praça,
agarravam-se aos Cabildos.
Tombava a árvore do saque
entre estocadas e gangrena.
Desse galope de Pizarros
nos territórios linhosos
nasceu um silêncio estupefato.
Estava tudo cheio de morte
e sobre a agonia arrasada
de seus filhos desventurados,
no território (roído
até os ossos pelas ratazanas),
sujeitavam-se as entranhas
antes de matar e se matarem.
Magarefes de cólera e força,
centauros tombados na lama
da cobiça, ídolos
partidos pela luz do ouro,
exterminastes vossa própria
estirpe de unhas sanguinárias
e junto às rochas murais
do alto Cuzco coroado.
diante do sol de espigas mais altas,
representastes no pó
dourado do Inca, o teatro
dos infernos imperiais:
a Rapina de focinho verde,
a Luxúria azeitada em sangue,
a Cobiça de unhas de ouro,
a Traição, avessa dentadura,
a Cruz como um réptil rapace,
a Forca mm fundo de neve,
e a Morte fina como o ar
imóvel em sua armadura.
XVIII Descobridores do Chile
Do norte trouxe Almagro sua rugosa centelha.
E sobre o território, entre explosão e ocaso,
inclinou-se dia e noite como sobre uma carta
Sombra de espinhos, sombra de cardo e cera,
o espanhol reunido com a sua seca figura,
mirando as sombrias estratégias do solo.
Noite, neve e areia fazem a forma
de minha pátria delgada,
todo o silêncio está em sua longa linha,
toda a espuma sai de sua barba marinha,
todo o carvão a enche de beijos misteriosos.
Como brasa o ouro arde em seus dedos
e a prata ilumina como lua verde
sua endurecida forma de tétrico planeta.
O espanhol sentado junto à rosa um dia,
junto ao azeite, junto ao vinho, junto ao antigo céu,
não imaginou este ponto de colérica pedra
nascer sob o esterco da águia marinha.
XIX
A terra combatente
Primeiro resistiu a terra.
A neve araucana queimou
como uma fogueira de brancura
a marcha dos invasores.
Caíam de frio os dedos,
as mãos, os pés de Almagro
e as garras que devoraram
e sepultaram monarquias
eram na neve um ponto
de carne gelada, eram silêncio.
Foi no mar das cordilheiras.
O ar chileno chicoteava
marcando estrelas, derrubando
cobiças e cavalarias.
Cedo, a fome andou atrás
de Almagro como invisível
mandíbula que atacava.
Os cavalos eram comidos
naquela festa glacial.
E a morte do sul debulhou
o galope dos Almagros,
até que voltou seu cavalo
para o Peru, onde esperava
o descobridor rechaçado,
a morte do norte, sentada
no caminho, com um machado.
XX
Unem-se a Terra e o Homem
Araucania ramo de carvalhos torrenciais,
c5 Pátria despiedosa, amada escura,
solitária em teu reino chuvoso:
eras apenas gargantas minerais,
mãos de frio, punhos
acostumados a cortar penhascos,
eras, Pátria, a paz da dureza
e teus homens eram rumor,
áspera aparição, vento bravio.
Não tiveram os meus pais araucanos
elmos de plumagem luminosa,
não descansaram em flores nupciais,
não fiaram ouro para o sacerdote:
eram pedra e árvore, raízes
dos matagais sacudidos,
folhas com forma de lança,
cabeças de metal guerreiro.
Pais, apenas levantastes
a orelha ao galope, apenas no cimo
dos montes, cruzou
o raio de Araucania.
Tornaram-se sombra os pais de pedra,
ataram-se ao bosque, às trevas
naturais, tornaram-se luz de gelo,
asperezas de terras e espinhos,
e assim esperaram nas profundezas
da solidão indomável:
um era uma árvore vermelha que olhava,
outro um fragmento de metal que ouvia,
outro uma lufada de vento e verruma,
outro tinha a cor do caminho.
Pátria, nave de neve,
folhagem endurecida:
aí nasceste, quando o homem teu
pediu à terra o seu estandarte,
e quando terra e ar e pedra e chuva,
folha, raiz, uivo, perfume,
cobriram como um manto o filho
que amaram e defenderam.
Assim nasceu a pátria unânime:
a unidade antes do combate.
XXI
Valdivia (1544)
Mas voltaram (Pedro se chamava).
Valdivia, o capitão intruso,
cortou minha terra com a espada
entre ladrões: “Isto é teu,
isto é teu.
Valdés, Montero,
isto é teu, Inés, este lugar
é o cabido”.
Dividiram minha pátria
como sé fosse um asno morto.
“Leva
este pedaço de lua e arvoredo,
devora este rio com crepúsculo”,
enquanto a grande cordilheira
erguia bronze e brancura.
Assomou Arauco.
Adobes, torres,
ruas, o silencioso
dono da casa levantou sorrindo.
Trabalhou com as mãos empapadas
de sua água e de seu barro, trouxe
a greda e verteu a água andina:
mas não pôde ser escravo.
Então Valdivia, o verdugo,
atacou a fogo e morte.
Assim começou o sangue,
o sangue de três séculos, o sangue oceano,
o sangue atmosfera que cobriu a minha terra
e o tempo imenso, como guerra nenhuma.
Saiu o abutre iracundo
da armadura enlutada
e mordeu o chefe, rompeu
o pacto escrito no silêncio
de Huelén, no ar andino.
Arauco começou a ferver seu prato
De sangue e pedras.
Sete príncipes
vieram para lamentar.
Foram presos.
Diante dos olhos da Araucania,
cortaram as cabeças dos caciques.
Animavam-se os verdugos.
Toda
empapada de vísceras, uivando,
Inés Suárez, a mercenária,
subjugava os pescoços imperiais
com os seus joelhos de infernal harpia.
E as lançou sobre a paliçada,
banhando-se de sangue nobre,
cobrindo-se de barro escarlate.
Acreditaram assim dominar Arauco.
Porém aqui a unidade sombria
de árvore e pedra, lança e rosto,
transmitiu o crime ao vento.
Soube disso a árvore da fronteira,
o pescador, o rei, o mago,
soube disso o lavrador antártico,
souberam-no as águas mães
do Bío-Bío.
Assim nasceu a guerra pátria.
Valdivia enfiou a lança gotejante
nas entranhas pedregosas
de Arauco, meteu a mão
no palpitar, apertou os dedos
no coração araucano,
derramou as veias silvestres
dos labregos,
exterminou
o amanhecer pastoril,
ordenou martírio
ao rei do bosque, incendiou
a casa do dono do bosque,
cortou as mãos do cacique,
devolveu os prisioneiros
com orelhas e narizes cortados,
empalou o toqui, assassinou
a moça guerrilheira
e com a sua luva ensangüentada
marcou as pedras da pátria,
deixando-a cheia de mortos
e solidão e cicatrizes.
XXII
Ercilla
Pedras de Arauco e desatadas rosas
fluviais, territórios de raízes,
encontraram-se com o homem que chegou de Espanha.
Invadem a sua armadura com gigantesco líquen.
Atropelam a sua espada as sombras do feto.
A hera original põe mãos azuis
no recém-chegado silêncio do planeta.
Homem, Ercilla sonoro, ouço o pulso da água
de teu primeiro amanhecer, um frenesi de pássaros
e um trovão na folhagem.
Deixa, deixa a tua pegada
de águia rubra, destroça
a tua face contra o milho silvestre,
tudo será na terra devorado.
Sonoro, somente tu não beberás a taça
de sangue, sonoro, só ao rápido
fulgor de ti nascido
cm vão chegará a boca secreta do tempo
para dizer-te: em vão.
Em vão, em vão
sangue pelas ramagens de cristal salpicado,
em vão pelas noites do puma
o desafiador passo do soldado,
as ordens,
os passos
do ferido.
Tudo torna ao silêncio coroado de plumas
onde um rei remoto devora trepadeiras.
XXIII
Enterram-se as lanças
Assim ficou repartido o patrimônio.
O sangue dividiu a pátria inteira.
(Contarei em outras linhas
a luta do meu povo.
)
Mas foi cortada a terra
pelas facas invasoras.
Depois vieram povoar a herança
usurário de Euzkadi, netos
de Loyola.
Da cordilheira
do oceano
dividiram com árvores e corpos
a sombra recostada do planeta.
As comendas sobre a terra
sacudida, ferida, incendiada,
o reparte de selva e água
nos bolsos, os Errázuriz
que chegam com seu escudo de armas:
um chicote e uma alpargata.
XXIV
O coração magalhânico (1519)
De onde sou, às vezes me pergunto, de que diabos
venho, que dia é hoje, que acontece,
ronco, no meio do sonho, da árvore, da noite,
e uma onda se levanta como pálpebra, um dia
dela nasce, um relâmpago com focinho de tigre.
Desperto de repente na noite pensando no extremo sul
Vem o dia e me diz: “Ouves
a água lenta, a água
sobre a Patagônia?”
E eu respondo: “Sim, senhor, escuto”.
Vem o dia e me diz: “Uma ovelha selvagem,
longe, na região, lambe a cor gelada
duma pedra.
Não escutas o balido, não reconheces
o vendaval azul em cujas mãos
a lua é uma taça, não vês a tropa, o dedo
rancoroso do vento
tocar a onda e a vida com o seu anel vazio?”
Recordo a solidão do estreito
A longa noite, o pinheiro, vêm aonde vou.
E se transtorna o ácido surdo, a fadiga,
a tampa do tonel, quanto tenho na vida.
Uma gota de neve chora e chora à minha porta
mostrando o seu vestido claro e desatado
de pequeno cometa que me procura e soluça.
Ninguém olha a lufada, a extensão, o uivo
do ar nas pradarias.
Me aproximo e digo: vamos.
Toco o sul, desemboco
na areia, vejo a planta seca e negra, toda raiz e rocha,
as ilhas arranhadas pela água e pelo céu,
o Rio da Fome, o Coração de Cinza,
o Pátio do Mar Lúgubre, e onde assovia
a solitária serpente, onde cava
o último zorro ferido e esconde seu tesouro sangrento
encontro a tempestade e sua voz de ruptura,
sua voz de velho livro, sua boca de cem lábios,
algo me diz, algo que o ar devora cada dia.
Os descobridores da América aparecem e deles nada fica
Recorda a água quanto aconteceu ao navio.
A dura terra estranha guarda as suas caveiras
que soam no pânico austral como cornetas
e olhos de homem e de boi dão ao dia o seu vazio,
o seu anel, o seu ressoar de implacável sulco.
O velho céu busca a vela, ninguém
já sobrevive: o brigue destruído
vive com a cinza do marinheiro amargo,
e dos entrepostos de ouro, das casas de couro
do trigo pestilento, e da
chama fria das navegações
(quanto golpe noite [rocha e baixel] no casa,)
fica apenas o domínio queimado e sem cadáveres,
a incessante intempérie apenas partida
por um negro fragmento
de fogo falecido.
Só se impõe a desolação
Esfera que destroça lentamente a noite, a água, o gelo,
extensão combatida pelo tempo e pelo fim,
com sua marca violeta, com o final azul
do arco-íris selvagem
se afogam os pés de minha pátria em tua sombra
e uiva e agoniza a rosa triturada.
Recordo o velho descobridor
Pelo canal navega novamente
o cereal gelado, a barca do combate,
0 outono glacial, o transitório ferido.
Com ele, com o antigo, com o morto,
com o destituído pela água raivosa,
com ele em sua tormenta, com seu rosto.
Ainda o segue o albatroz c a soga de couro
comida, com os olhos fora do olhar
e o rato devorado cegamente olhando
entre paus partidos o esplendor iracundo,
enquanto no vazio o anel e o osso
caem, resvalam pela vaca-marinha.
Magalhães
Qual é o deus que passa? Olhai sua barba cheia de vermes
e seus calções aos quais a espessa atmosfera
se agarra e morde como um cão náufrago:
e tem peso de âncora maldita a sua estatura,
e silva o pélago e o aquilão acorre
até seus pés molhados.
Caracol da escura
sombra do tempo, espora
carcomida, velho senhor de luto litoral, caçador
sem estirpe, manchado manancial, o esterco
do estreiro te manda,
e de cruz tem o seu peito só um grito
do mar, um grito branco, de luz marinha,
e de tenaz, de tombo em tombo, de aguilhão demolido.
Chega ao Pacífico
Porque o sinistro dia do mar termina um dia,
e a mão noturna corta seus dedos um a um
até não ser, até que o homem nasce
e o capitão descobre dentro de si o aço
e a América sobe a soa borbulha
e a costa levanta o seu pálido arrecife
sujo de aurora, turvo de nascimento
até que da nau sai um grito e se afoga
e outro grito e a alba que nasce da espuma.
Todos morreram
Irmãos de água e piolho, de planeta carnívoro:
vistes, enfim, a árvore do mastro encolhida
pela tormenta? Vistes a pedra esmagada
sob a louca neve brusca da lufada?
Enfim, já tendes o vosso paraíso perdido,
enfim, tendes a vossa guarnição maldizente,
enfim, vossos fantasmas atravessados pelo ar
beijam sobre a areia o rasto da foca.
Enfim, a vossos dedos sem anel
chega o pequeno sal do páramo, o dia morto,
tremendo, em seu hospital de ondas e pedras.
XXV
Apesar da ira
Roídos elmos, ferraduras mortas!
Mas através do fogo e da ferradura
como de um manancial iluminado
pelo sangue sombrio,
com o metal fundido no tormento
derramou-se uma luz sobre a terra:
número, nome, linha e estrutura.
Página de água, claro poderio
de idiomas rumorosos, doces gotas
elaboradas como cachos de uvas,
sílabas de platina na ternura
de uns peitos puros aljofarados,
e uma clássica boca de diamantes
deu seu fulgor nevado ao território.
Já longe a estátua depunha
seu mármore morto, e na primavera
do mundo, amanheceu a maquinaria.
A técnica elevava o seu domínio
e o tempo foi velocidade e lufada
na bandeira dos mercadores.
Lua de geografia
que descobriu a planta e o planeta
estendendo geométrica formosura
em seu desenvolvido movimento.
Ásia entregou o seu virginal aroma.
A inteligência com um fio gelado
foi atrás do sangue a fiar o dia.
O papel repartiu a pele nua
guardada nas trevas.
Um vôo
de pombal saiu da pintura
com arrebol e azul ultramarino.
E as línguas do homem se juntaram
na primeira ira, antes do canto.
Assim, com o sangrento
titã de pedra,
falcão encarniçado,
não só chegou o sangue mas o trigo.
A luz veio apesar dos punhais.
1 018
Pablo Neruda
Vii - Se Lhes Falo...
Há mil anos um homem foi crucificado,
morreu em sua fé, pensando mais além da terra.
Sua cruz pesou sobre a vida humana
e amassou a ânsia e a esperança.
Nós teremos milhões de crucificados
e nossa esperança está sobre a terra.
Que levante os olhos o que deseje vê-la.
Dá-me a mão se queres tocá-la.
Nos novos arrozais da China está nossa esperança.
E quando os dentes brancos do arroz sorriem,
não é verdade que a terra está feliz?
Não é verdade que o trigo e a carne,
não é verdade que a escola,
a casa limpa, o trabalho assegurado e justo,
a paz para os filhos, o amor,
o livro em que a alegria e a sabedoria se juntaram,
não é verdade que são estas as conquistas do homem,
e estas simples verdades compõem nossa esperança?
Por que desejais que aos camponeses aimarás da infeliz Bolívia,
desfiados pela fome e o frio das
grandes alturas, venha amanhã prometer-lhes o
céu?
Já não me crucificaríeis porque eles continuariam famintos.
Mas se lhes falo de uma cooperativa agrícola que
vi na Polônia,
onde o leite, o pão e o livro eram tesouros comuns,
então me dareis pauladas nas costas
e me crucificareis se os meus não me defendem.
Temos um crucificado em cada quilômetro de terra, e perto da próspera Nova York, perto do Stork Club, crucificam um negro e um branco diariamente.
Mas não ficamos tranquilos
esperando o martírio nem o incenso,
nós lutaremos cada dia de nossa vida,
nós venceremos e agora te chamamos,
e assim lá de sua forca e sua cruz, como a chames
não me importa,
o coração morto de Julius Fucik derrotou seus carrascos.
morreu em sua fé, pensando mais além da terra.
Sua cruz pesou sobre a vida humana
e amassou a ânsia e a esperança.
Nós teremos milhões de crucificados
e nossa esperança está sobre a terra.
Que levante os olhos o que deseje vê-la.
Dá-me a mão se queres tocá-la.
Nos novos arrozais da China está nossa esperança.
E quando os dentes brancos do arroz sorriem,
não é verdade que a terra está feliz?
Não é verdade que o trigo e a carne,
não é verdade que a escola,
a casa limpa, o trabalho assegurado e justo,
a paz para os filhos, o amor,
o livro em que a alegria e a sabedoria se juntaram,
não é verdade que são estas as conquistas do homem,
e estas simples verdades compõem nossa esperança?
Por que desejais que aos camponeses aimarás da infeliz Bolívia,
desfiados pela fome e o frio das
grandes alturas, venha amanhã prometer-lhes o
céu?
Já não me crucificaríeis porque eles continuariam famintos.
Mas se lhes falo de uma cooperativa agrícola que
vi na Polônia,
onde o leite, o pão e o livro eram tesouros comuns,
então me dareis pauladas nas costas
e me crucificareis se os meus não me defendem.
Temos um crucificado em cada quilômetro de terra, e perto da próspera Nova York, perto do Stork Club, crucificam um negro e um branco diariamente.
Mas não ficamos tranquilos
esperando o martírio nem o incenso,
nós lutaremos cada dia de nossa vida,
nós venceremos e agora te chamamos,
e assim lá de sua forca e sua cruz, como a chames
não me importa,
o coração morto de Julius Fucik derrotou seus carrascos.
821
Pablo Neruda
Então Te Ocultavas
Ali onde estavas, anjo da Guarda?
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
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