Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Adélia Prado
Móbiles
Que belo poema se poderia escrever.
Coisas espicaçadoras não faltam,
hortigranjeiros esperando transporte
e tudo que é necessário:
tenho que fazer o almoço.
Ou supostamente ético:
batia gente na porta,
Tialzi no corador virava as calcinhas todas
de modo a esconder o fundo.
Uma laranjeira rebrota,
preciosa árvore do mato dá espinhos,
folhinhas miúdas, flores cujas pétalas
são fios agrupados em contas de odorífero ouro.
Elas explicam o mundo como os pintinhos explicam,
perfeitos até as unhas, emplumados, vivos,
invencível delicadeza
que homem algum já fez com sua mão.
Surpreendido de noite com a mão nos ouvidos,
o moço dizia: não durmo, é a música do bar,
este galo seu que canta fora de hora.
Mentira. É por causa da vida que não dorme,
da zoeira sem fim que a vida faz.
Quer casar e não pode,
seu emprego é mau,
seu pâncreas, ingrato e preguiçoso.
Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição.
O dia passa, a noite, saio da sombra e digo:
é só isso que eu quero,
ficar no sol até enrugar o couro.
Mas vai-se o sol também atrás do morro,
a noite vem e passa sobre mim
que longe de espelhos alimento sonhos
quanto a viagens, glórias,
homens raros me ofertando colares, palavras
que se podem comer, de tão doces,
de tão aquecidas, corporificadas.
A parreira verga de flores,
eu durmo inebriada,
achando pouca a beleza do mundo,
ansiando a que não passa nem murcha
nem fica alta, nem longe,
nem foge de encontrar meu duro olhar de gula.
A beleza imóvel,
a cara de Deus que vai matar minha fome.
Coisas espicaçadoras não faltam,
hortigranjeiros esperando transporte
e tudo que é necessário:
tenho que fazer o almoço.
Ou supostamente ético:
batia gente na porta,
Tialzi no corador virava as calcinhas todas
de modo a esconder o fundo.
Uma laranjeira rebrota,
preciosa árvore do mato dá espinhos,
folhinhas miúdas, flores cujas pétalas
são fios agrupados em contas de odorífero ouro.
Elas explicam o mundo como os pintinhos explicam,
perfeitos até as unhas, emplumados, vivos,
invencível delicadeza
que homem algum já fez com sua mão.
Surpreendido de noite com a mão nos ouvidos,
o moço dizia: não durmo, é a música do bar,
este galo seu que canta fora de hora.
Mentira. É por causa da vida que não dorme,
da zoeira sem fim que a vida faz.
Quer casar e não pode,
seu emprego é mau,
seu pâncreas, ingrato e preguiçoso.
Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição.
O dia passa, a noite, saio da sombra e digo:
é só isso que eu quero,
ficar no sol até enrugar o couro.
Mas vai-se o sol também atrás do morro,
a noite vem e passa sobre mim
que longe de espelhos alimento sonhos
quanto a viagens, glórias,
homens raros me ofertando colares, palavras
que se podem comer, de tão doces,
de tão aquecidas, corporificadas.
A parreira verga de flores,
eu durmo inebriada,
achando pouca a beleza do mundo,
ansiando a que não passa nem murcha
nem fica alta, nem longe,
nem foge de encontrar meu duro olhar de gula.
A beleza imóvel,
a cara de Deus que vai matar minha fome.
1 246
Adélia Prado
Os Tiranos
Joaquim meu tio foi imperturbável ditador.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
840
Adélia Prado
Querido Irmão
Como é possível, disse meu irmão,
nem um amigo levantou sua voz em meu favor.
Não sei para onde ir, sinto um desterro.
Vamos a nosso pai, pedi.
Queixemos a nossa mãe o que nos fazem.
Já morreram, ele disse, como nos ouvirão?
Nosso pai, falei, após enterros, desastres,
após extrair os dentes, sentava e comia.
Escuta a mãe cantando:
o Averno ruge, enfurecido,
altar e trono quer destruídos...
Temos poderes para evocar um campo,
dilatar ao infinito a curta vida, em mil e uma noites de
[lembranças:
se nos proteges, ó mãe potente,
contra a inimiga, cruel serpente...
Um dia disseste: não vou no açougue não. E te enfurnaste.
Nosso pai disse: vai porque vai, seu estudantezinho.
E foste. Porque nosso pai bramia em seu brutal amor.
Tens de nossa mãe poucas lembranças,
mas eu te digo, foi corajosa e triste. Seríamos fundadores.
de mil soldados não teme a espada...
cantava ela, como ordem e predição.
Somos órfãos e não.
Teu terninho marrom foi dona Zica quem fez,
dona Zica Peru
que foi ser freira, lá longe...
Teu primeiro retrato tem um olho zarolho.
Magnificat! Magnificat!
Os olhos de nossa mãe resplandeciam:
tiraste dez na escola? Introibo ad altare Dei,
qual é a resposta?
Ajoelha e jura que nunca mais farás isto.
Agora come. Para de chorar e come, ordenava nosso pai,
as bravatas católicas concitantes.
Tan-ta-ra-ran ta-ra-ran tan-tan,
como em festa de igreja, em procissão de enterro,
a banda atrás de tudo,
a grande dor musicada, o grito agarrado em Deus,
na orla do manto da Virgem.
Uma fé humilde e engraçada, uma fé verdadeira.
Somos órfãos?
Pois sim, pois não. A medida da vida é o sofrimento.
Alegra-te, meu irmão. Que belo destino o nosso,
semear em lágrimas o chão.
Numa bandeja de prata, foi-se a cabeça de João.
Que a nossa role também,
que os anjos digam amém
e restemos nus.
No vento, na chuva, na casa destelhada,
na cova aberta na terra onde estão nossos pais
esperando a corneta,
esperando a banda, a trombeta, esperando os filhos
pra pôr na fila com eles
e entrar com eles no céu.
nem um amigo levantou sua voz em meu favor.
Não sei para onde ir, sinto um desterro.
Vamos a nosso pai, pedi.
Queixemos a nossa mãe o que nos fazem.
Já morreram, ele disse, como nos ouvirão?
Nosso pai, falei, após enterros, desastres,
após extrair os dentes, sentava e comia.
Escuta a mãe cantando:
o Averno ruge, enfurecido,
altar e trono quer destruídos...
Temos poderes para evocar um campo,
dilatar ao infinito a curta vida, em mil e uma noites de
[lembranças:
se nos proteges, ó mãe potente,
contra a inimiga, cruel serpente...
Um dia disseste: não vou no açougue não. E te enfurnaste.
Nosso pai disse: vai porque vai, seu estudantezinho.
E foste. Porque nosso pai bramia em seu brutal amor.
Tens de nossa mãe poucas lembranças,
mas eu te digo, foi corajosa e triste. Seríamos fundadores.
de mil soldados não teme a espada...
cantava ela, como ordem e predição.
Somos órfãos e não.
Teu terninho marrom foi dona Zica quem fez,
dona Zica Peru
que foi ser freira, lá longe...
Teu primeiro retrato tem um olho zarolho.
Magnificat! Magnificat!
Os olhos de nossa mãe resplandeciam:
tiraste dez na escola? Introibo ad altare Dei,
qual é a resposta?
Ajoelha e jura que nunca mais farás isto.
Agora come. Para de chorar e come, ordenava nosso pai,
as bravatas católicas concitantes.
Tan-ta-ra-ran ta-ra-ran tan-tan,
como em festa de igreja, em procissão de enterro,
a banda atrás de tudo,
a grande dor musicada, o grito agarrado em Deus,
na orla do manto da Virgem.
Uma fé humilde e engraçada, uma fé verdadeira.
Somos órfãos?
Pois sim, pois não. A medida da vida é o sofrimento.
Alegra-te, meu irmão. Que belo destino o nosso,
semear em lágrimas o chão.
Numa bandeja de prata, foi-se a cabeça de João.
Que a nossa role também,
que os anjos digam amém
e restemos nus.
No vento, na chuva, na casa destelhada,
na cova aberta na terra onde estão nossos pais
esperando a corneta,
esperando a banda, a trombeta, esperando os filhos
pra pôr na fila com eles
e entrar com eles no céu.
1 779
Adélia Prado
A Boca
Se olho atentamente a erva no pedregulho
uma voz me admoesta: mulher! mulher!
como se me dissesse: Moisés! Moisés!
Tenho missão tão grave sobre os ombros
e quero só vadiar.
Um nome para mim seria A BOCA
ou A SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA
ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.
Gosto tanto de feijão com arroz!
Meu pai e minha mãe que se privaram
da metade do prato para me engordar
sofreram menos que eu.
Pecaram exatos pecados,
voz nenhuma os perseguiu.
Quantos sacos de arroz já consumi?
Ó Deus, cujo Reino é um festim,
a mesa dissoluta me seduz,
tem piedade de mim.
uma voz me admoesta: mulher! mulher!
como se me dissesse: Moisés! Moisés!
Tenho missão tão grave sobre os ombros
e quero só vadiar.
Um nome para mim seria A BOCA
ou A SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA
ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.
Gosto tanto de feijão com arroz!
Meu pai e minha mãe que se privaram
da metade do prato para me engordar
sofreram menos que eu.
Pecaram exatos pecados,
voz nenhuma os perseguiu.
Quantos sacos de arroz já consumi?
Ó Deus, cujo Reino é um festim,
a mesa dissoluta me seduz,
tem piedade de mim.
1 073
Adélia Prado
O Nascimento do Poema
O que existe são coisas,
não palavras. Por isso
te ouvirei sem cansaço recitar em búlgaro
como olharei montanhas durante horas,
ou nuvens.
Sinais valem palavras,
palavras valem coisas,
coisas não valem nada.
Entender é um rapto,
é o mesmo que desentender.
Minha mãe morrendo,
não faltou a meu choro este arco-íris:
o luto irá bem com meus cabelos claros.
Granito, lápide, crepe,
são belas coisas ou palavras belas?
Mármore, sol, lixívia.
Entender me sequestra de palavra e de coisa,
arremessa-me ao coração da poesia.
Por isso escrevo os poemas
pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal.
Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,
é o Espírito quem me impele,
quer ser adorado
e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:
baldes, vassouras, dívidas e medo,
desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.
Não construí as pirâmides. Sou Deus.
não palavras. Por isso
te ouvirei sem cansaço recitar em búlgaro
como olharei montanhas durante horas,
ou nuvens.
Sinais valem palavras,
palavras valem coisas,
coisas não valem nada.
Entender é um rapto,
é o mesmo que desentender.
Minha mãe morrendo,
não faltou a meu choro este arco-íris:
o luto irá bem com meus cabelos claros.
Granito, lápide, crepe,
são belas coisas ou palavras belas?
Mármore, sol, lixívia.
Entender me sequestra de palavra e de coisa,
arremessa-me ao coração da poesia.
Por isso escrevo os poemas
pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal.
Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,
é o Espírito quem me impele,
quer ser adorado
e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:
baldes, vassouras, dívidas e medo,
desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.
Não construí as pirâmides. Sou Deus.
1 696
Adélia Prado
Responsório
Santo Antônio,
procurai para mim a carteira perdida,
vós que estais desafadigado,
gozando junto de Deus a recompensa dos justos.
Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,
documentos e um retrato
onde apareço cansada, com uma cara
que ninguém olhará mais de uma vez
a não ser vós, que já em vida
vos apiedáveis dos tormentos humanos:
sumiu a agulha da bordadeira,
sumiu o namorado,
o navio no alto-mar,
sumiu o dinheiro no ar.
Tenho que comprar coisas, pagar contas,
dívidas de existir neste planeta convulso.
Prometo-vos uma vela de cera,
um terço do meu salário
e outro que rezarei
pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges,
cuja língua restou fresca
entre vossos ossos, intacta.
Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida
e, se tal não aprouver a Deus para a salvação da minha
[alma,
procurai antes me ensinar
a viver como vós,
como um pobre de Deus.
Amém!
procurai para mim a carteira perdida,
vós que estais desafadigado,
gozando junto de Deus a recompensa dos justos.
Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,
documentos e um retrato
onde apareço cansada, com uma cara
que ninguém olhará mais de uma vez
a não ser vós, que já em vida
vos apiedáveis dos tormentos humanos:
sumiu a agulha da bordadeira,
sumiu o namorado,
o navio no alto-mar,
sumiu o dinheiro no ar.
Tenho que comprar coisas, pagar contas,
dívidas de existir neste planeta convulso.
Prometo-vos uma vela de cera,
um terço do meu salário
e outro que rezarei
pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges,
cuja língua restou fresca
entre vossos ossos, intacta.
Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida
e, se tal não aprouver a Deus para a salvação da minha
[alma,
procurai antes me ensinar
a viver como vós,
como um pobre de Deus.
Amém!
1 220
Adélia Prado
À Soleira
O que farei com este meu corpo inóspito
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
1 325
Adélia Prado
Cacos Para Um Vitral
Existe mesmo o Japão?
E um país que não conheço, com seu litoral deserto?
Entre as coxas é público. Público e óbvio.
Quero é teu coração, o fundo dos teus dois olhos
que só faltam falar.
Mira-me en español pra ver se não estalo os dedos
e saio dançando em vermelho.
Fechei os olhos no sol, vi a forma-prima
por um segundo só e esqueci.
Como existiram os santos, Deus existe
e com um poder de sedução indizível.
Quem fez o ouro foi Ele, quem deu tino ao homem
pra inventar o cordão que se põe no pescoço.
Dito assim é tão puro, quase não vejo culpa
em comprar um pra mim.
Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás,
imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada,
minha mãe fazendo café
e meu pai sentado, esperando.
E um país que não conheço, com seu litoral deserto?
Entre as coxas é público. Público e óbvio.
Quero é teu coração, o fundo dos teus dois olhos
que só faltam falar.
Mira-me en español pra ver se não estalo os dedos
e saio dançando em vermelho.
Fechei os olhos no sol, vi a forma-prima
por um segundo só e esqueci.
Como existiram os santos, Deus existe
e com um poder de sedução indizível.
Quem fez o ouro foi Ele, quem deu tino ao homem
pra inventar o cordão que se põe no pescoço.
Dito assim é tão puro, quase não vejo culpa
em comprar um pra mim.
Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás,
imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada,
minha mãe fazendo café
e meu pai sentado, esperando.
2 022
Adélia Prado
Lembrança de Maio
Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergônteas, virgens,
tépidos músculos
que sob as roupas rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco,
incensado ar de velas.
Santa sobre os abismos,
à voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergônteas, virgens,
tépidos músculos
que sob as roupas rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco,
incensado ar de velas.
Santa sobre os abismos,
à voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.
1 037
Adélia Prado
Lirial
Lírios, lírios,
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Como cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo — um antilírio —,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Como cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo — um antilírio —,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.
1 500
Adélia Prado
Dolores
Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescidos do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
nem tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência...”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objeto de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos
[tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas
[dignas
não recusam casamento, antes acham o sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no
[cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
sofri três tipos de medo
acrescidos do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
nem tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência...”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objeto de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos
[tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas
[dignas
não recusam casamento, antes acham o sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no
[cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
1 867
Adélia Prado
Três Mulheres E Uma Quarta
Arnalda, Alice e Armantilda
são três mulheres piedosas
que amam passar as tardes no serviço do templo.
Arnalda, forte e bruta,
lava teto, piso e paredes,
lustra sacrário e átrio.
Alice é para as flores:
a espécie conforme o jarro
e o calendário litúrgico.
Armantilda é para adorar.
O Senhor ama igualmente as três,
mas simpatiza mais com Araceli.
À uma e meia da tarde elas vêm
com balde, rosário e rosas,
Araceli com seu nariz.
Ai que cheiro, ela diz:
poeira, flor murcha e incenso,
o sovaco de Deus.
Ai que cheiro, ela diz,
louvado seja!
Quando ela chega, desacomoda o pó
de entremeio-os-dedos das imagens,
os toquinhos de vela crepitam e morrem,
arroxeiam de vez as rosas de remédio na jarrinha.
Araceli cheira e cata,
feliz como um cachorro, e sai
com o lixo sagrado dela.
são três mulheres piedosas
que amam passar as tardes no serviço do templo.
Arnalda, forte e bruta,
lava teto, piso e paredes,
lustra sacrário e átrio.
Alice é para as flores:
a espécie conforme o jarro
e o calendário litúrgico.
Armantilda é para adorar.
O Senhor ama igualmente as três,
mas simpatiza mais com Araceli.
À uma e meia da tarde elas vêm
com balde, rosário e rosas,
Araceli com seu nariz.
Ai que cheiro, ela diz:
poeira, flor murcha e incenso,
o sovaco de Deus.
Ai que cheiro, ela diz,
louvado seja!
Quando ela chega, desacomoda o pó
de entremeio-os-dedos das imagens,
os toquinhos de vela crepitam e morrem,
arroxeiam de vez as rosas de remédio na jarrinha.
Araceli cheira e cata,
feliz como um cachorro, e sai
com o lixo sagrado dela.
1 182
Adélia Prado
Impropérios
Senhor, escutai meu estrondoso medo.
Tal é que nem minha boca se abre,
tanto me espantam os sanitários e seus vasos,
estes que só a flores
e a Vosso Precioso Sangue deveriam remeter-se.
No entanto, até línguas eu queria saber
pra expressar meu horror
nos mil modos que o horror tem.
Quando eu tinha quinze anos minha mãe morreu.
Foi o sofrimento mais lindo,
a verde vida um pasto tão bonito, eu belamente urrei,
bezerra sem sua mãe, apenas.
Hoje, a simples tosse sufoca, mais que a meu peito,
minha alma imortal, e mais feia eu fico que uma feia
[mulher.
Eu não tinha canais, ainda que porosa. Hoje tenho,
de bile, de televisão, por onde os micróbios
e minha própria imagem me excomungam.
Ó Deus anacrônico, vem em meu socorro, como vinhas,
da mais eterna forma: o menino quer ser feliz com seu
[arco.
Que bom é suar na tarde e gritar: mãe, cê tá aí, mãe?
A morte veio e vem, mas se devem alçar os caixões
e com passo de marcha carregá-los, chorando sim,
mas como quem leva espigas para o campo.
Me estende Senhor Tua mão de ferreiro
que segura trens e navios, puxa pelo nariz os aviões.
Que boa é a vida se não me abandonas.
Um violino muito ao longe chora,
silente e vagarosa chega a noite.
A hora, o açoite, que valem?
se Vos tenho a meu lado, ó meu Pastor.
Tal é que nem minha boca se abre,
tanto me espantam os sanitários e seus vasos,
estes que só a flores
e a Vosso Precioso Sangue deveriam remeter-se.
No entanto, até línguas eu queria saber
pra expressar meu horror
nos mil modos que o horror tem.
Quando eu tinha quinze anos minha mãe morreu.
Foi o sofrimento mais lindo,
a verde vida um pasto tão bonito, eu belamente urrei,
bezerra sem sua mãe, apenas.
Hoje, a simples tosse sufoca, mais que a meu peito,
minha alma imortal, e mais feia eu fico que uma feia
[mulher.
Eu não tinha canais, ainda que porosa. Hoje tenho,
de bile, de televisão, por onde os micróbios
e minha própria imagem me excomungam.
Ó Deus anacrônico, vem em meu socorro, como vinhas,
da mais eterna forma: o menino quer ser feliz com seu
[arco.
Que bom é suar na tarde e gritar: mãe, cê tá aí, mãe?
A morte veio e vem, mas se devem alçar os caixões
e com passo de marcha carregá-los, chorando sim,
mas como quem leva espigas para o campo.
Me estende Senhor Tua mão de ferreiro
que segura trens e navios, puxa pelo nariz os aviões.
Que boa é a vida se não me abandonas.
Um violino muito ao longe chora,
silente e vagarosa chega a noite.
A hora, o açoite, que valem?
se Vos tenho a meu lado, ó meu Pastor.
1 170
Adélia Prado
Bairro
O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.
1 954
Adélia Prado
Apelação
É bom que uma vez se tenha usado bainha em calças.
No Juízo Final nos servirá de defesa.
Em algumas coisas fomos tão inocentes...
Houve, é certo, sob nossos telhados
ruidoso desamor,
fel em gotas de silêncio segregado.
Mas fazemos laços tão honestos com os cordões dos
[sapatos
e é tão coitado o nó de uma gravata
que ao pescoço logo se perdoa.
Mais Deus nos perdoará,
Ele que sabe o que fez: ‘homem humano’.
A boca que comeu e mentiu come Seu Corpo Santo.
Eu não sei o que digo,
mesmo se o que falo é:
Não sou digno, Senhor.
No Juízo Final nos servirá de defesa.
Em algumas coisas fomos tão inocentes...
Houve, é certo, sob nossos telhados
ruidoso desamor,
fel em gotas de silêncio segregado.
Mas fazemos laços tão honestos com os cordões dos
[sapatos
e é tão coitado o nó de uma gravata
que ao pescoço logo se perdoa.
Mais Deus nos perdoará,
Ele que sabe o que fez: ‘homem humano’.
A boca que comeu e mentiu come Seu Corpo Santo.
Eu não sei o que digo,
mesmo se o que falo é:
Não sou digno, Senhor.
842
Adélia Prado
Choro a Capela
O poder que eu quisera é dominar meu medo.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.
1 208
Adélia Prado
Um Bom Motivo
O Presidente morre.
Choro querendo o meu choro o mais definitivo de todos
e esta mesma vaidade choro.
Poetas antes de mim choraram e melhor e mais belo
e mais profundamente, não apenas a morte do rei,
mas a minha, a tua, a própria morte deles,
a condição miserável de ser homem. No entanto,
as razões de chorar não se acabaram.
O meu poder é pouco, governo sobre algumas lembranças:
um prato, uma toalha de mesa, um domingo,
cascas de laranja fresca recendendo.
O Bem e o Mal me escapam, mesmo e porque me
[habitam.
Me escapam o dia, a hora, as horas,
escrevo o poema e iludo-me de que escapei à tristeza.
Só a tornei ritmada, talvez mais leve.
Por torná-la bela, suportável, me empenho
e por tal razão sem razão mais choro.
O Presidente morre: é tristíssimo.
‘Carneiro primaveril com favas’:
quem a esta hora se anima aos livros de culinária?
O sexo automovente pende, para baixo pesa, murchado.
Lua é planeta, violão é madeira e cordas.
Aproveito que o Presidente morre
e choro as cáries nos dentes, as pernas varicosas,
a saia feia atravessando a rua, o cotovelo humilhado,
a cabeça cheia de bobbies, coroada.
Choro porque vou me refazer e dar risadas
e perguntar incorrigivelmente pelas fases da lua
e semear flores e plantar hortaliças.
Choro porque reincido no prazer como os meninos
e isto, depois de velha, mortifica-me.
Choro por me ter humilhada em razão da alegria,
o coração orgulhoso, sem simplicidade.
O Presidente morre: é um bom motivo.
Aproveito e choro o povo brasileiro,
o Cruzeiro do Sul, que, só agora percebo,
poderia não nos pertencer.
A Terra de Vera Cruz, a Terra de Santa Cruz,
a carta de Caminha, admiravelmente precedendo-nos:
“É um país que vai pra frente, Senhor meu Rei.”
A Terra das Palmeiras a cuja sombra soluço, incongruente.
Por nascimento e gosto, por destino, agora por dura
[escolha
desejo o sabiá, o Presidente vivo, o peixe vivo,
meu pai vivo gritando viva arroucado de tão alto:
VIVA! VIVA! VIVA!
É difícil morrer com vida,
é difícil entender a vida,
não amar a vida, impossível.
Infinita vida que para continuar desaparece
e toma outra forma e rebrota,
árvore podada se abrindo,
a raiz mergulhada em Deus. Ó Deus,
o globo do meu olho dói, apertado de choro,
a minha alma está triste, desejo largar o emprego,
que os de minha casa, hoje, comam frio.
Não me banho, não me penteio, não recebo ninguém,
uma pequena vingança contra a dor de viver.
O que é entristecível continuará,
o que é risível, deleitoso, também.
Continuará a vida, repetitiva.
Novíssima continuará a vida.
Só vida. Nua. Vida.
Quem foi vivo uma vez disse a palavra Cruz,
disse a palavra Pai, inclinando a cabeça,
uma vez disse, do fundo do seu cansaço:
‘Ó meu Deus’ e desejou dar seu reino
pela simples morada da alegria.
Ó Senhor, consola-nos, tem piedade de nós.
“A vitória provém de Tua Mão,
de Teu Braço divino.”
Choro querendo o meu choro o mais definitivo de todos
e esta mesma vaidade choro.
Poetas antes de mim choraram e melhor e mais belo
e mais profundamente, não apenas a morte do rei,
mas a minha, a tua, a própria morte deles,
a condição miserável de ser homem. No entanto,
as razões de chorar não se acabaram.
O meu poder é pouco, governo sobre algumas lembranças:
um prato, uma toalha de mesa, um domingo,
cascas de laranja fresca recendendo.
O Bem e o Mal me escapam, mesmo e porque me
[habitam.
Me escapam o dia, a hora, as horas,
escrevo o poema e iludo-me de que escapei à tristeza.
Só a tornei ritmada, talvez mais leve.
Por torná-la bela, suportável, me empenho
e por tal razão sem razão mais choro.
O Presidente morre: é tristíssimo.
‘Carneiro primaveril com favas’:
quem a esta hora se anima aos livros de culinária?
O sexo automovente pende, para baixo pesa, murchado.
Lua é planeta, violão é madeira e cordas.
Aproveito que o Presidente morre
e choro as cáries nos dentes, as pernas varicosas,
a saia feia atravessando a rua, o cotovelo humilhado,
a cabeça cheia de bobbies, coroada.
Choro porque vou me refazer e dar risadas
e perguntar incorrigivelmente pelas fases da lua
e semear flores e plantar hortaliças.
Choro porque reincido no prazer como os meninos
e isto, depois de velha, mortifica-me.
Choro por me ter humilhada em razão da alegria,
o coração orgulhoso, sem simplicidade.
O Presidente morre: é um bom motivo.
Aproveito e choro o povo brasileiro,
o Cruzeiro do Sul, que, só agora percebo,
poderia não nos pertencer.
A Terra de Vera Cruz, a Terra de Santa Cruz,
a carta de Caminha, admiravelmente precedendo-nos:
“É um país que vai pra frente, Senhor meu Rei.”
A Terra das Palmeiras a cuja sombra soluço, incongruente.
Por nascimento e gosto, por destino, agora por dura
[escolha
desejo o sabiá, o Presidente vivo, o peixe vivo,
meu pai vivo gritando viva arroucado de tão alto:
VIVA! VIVA! VIVA!
É difícil morrer com vida,
é difícil entender a vida,
não amar a vida, impossível.
Infinita vida que para continuar desaparece
e toma outra forma e rebrota,
árvore podada se abrindo,
a raiz mergulhada em Deus. Ó Deus,
o globo do meu olho dói, apertado de choro,
a minha alma está triste, desejo largar o emprego,
que os de minha casa, hoje, comam frio.
Não me banho, não me penteio, não recebo ninguém,
uma pequena vingança contra a dor de viver.
O que é entristecível continuará,
o que é risível, deleitoso, também.
Continuará a vida, repetitiva.
Novíssima continuará a vida.
Só vida. Nua. Vida.
Quem foi vivo uma vez disse a palavra Cruz,
disse a palavra Pai, inclinando a cabeça,
uma vez disse, do fundo do seu cansaço:
‘Ó meu Deus’ e desejou dar seu reino
pela simples morada da alegria.
Ó Senhor, consola-nos, tem piedade de nós.
“A vitória provém de Tua Mão,
de Teu Braço divino.”
1 841
Adélia Prado
Canto Eucarístico
Na fila da comunhão percebo à minha frente uma velha,
a mulher que há muitos anos crucificou minha vida,
por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços
[diante de mim:
‘juro pelo Magnificat que ela me tentou até eu cair,
peço perdão, por alma de meu pai morto,
pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela
[vez só’.
Coisas atrozes aconteceram.
Até tia Cininha, que morava longe,
deu de aparecer na volta do dia.
Conversávamos a portas fechadas,
ela com um ar no rosto que eu ainda não vira,
zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.
Houve punhos fechados, observações científicas
sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecia do
[vidro,
sobre como pode um homem, num só dia,
trocar duas camisas limpas.
Irritação, impertinência,
uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo,
uma alegria — que chamei assim à falta de outro nome —
invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas do
[diabo.
Rezei de modo terrível.
O perdão tinha espasmos de cobra malferida
e não queria perdoar,
era proparoxítono, um perdão grifado,
que se avisava perdão.
‘Olha, filha, aquela mulher que vai ali
não é digna do nosso cumprimento.’
‘Por que, mãe, não é dí-gui-na?’
‘Quando você crescer, entenderá.’
Senhor, eu não sou digno
que neste peito entreis,
mas vós, ó Deus benigno,
as faltas suprireis.
Na fila da comunhão cantamos, ambas.
A mulher velha e eu.
a mulher que há muitos anos crucificou minha vida,
por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços
[diante de mim:
‘juro pelo Magnificat que ela me tentou até eu cair,
peço perdão, por alma de meu pai morto,
pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela
[vez só’.
Coisas atrozes aconteceram.
Até tia Cininha, que morava longe,
deu de aparecer na volta do dia.
Conversávamos a portas fechadas,
ela com um ar no rosto que eu ainda não vira,
zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.
Houve punhos fechados, observações científicas
sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecia do
[vidro,
sobre como pode um homem, num só dia,
trocar duas camisas limpas.
Irritação, impertinência,
uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo,
uma alegria — que chamei assim à falta de outro nome —
invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas do
[diabo.
Rezei de modo terrível.
O perdão tinha espasmos de cobra malferida
e não queria perdoar,
era proparoxítono, um perdão grifado,
que se avisava perdão.
‘Olha, filha, aquela mulher que vai ali
não é digna do nosso cumprimento.’
‘Por que, mãe, não é dí-gui-na?’
‘Quando você crescer, entenderá.’
Senhor, eu não sou digno
que neste peito entreis,
mas vós, ó Deus benigno,
as faltas suprireis.
Na fila da comunhão cantamos, ambas.
A mulher velha e eu.
1 291
Adélia Prado
Instância
Eu cometi pecados,
por palavras, por atos, omissões.
Deles confesso a Deus,
à Virgem Maria, aos santos,
a São Miguel Arcanjo
e a vós irmãos.
A tão criticável tristeza
e seu divisível ser
pelejam por abotoar em mim
seu colar de desespero.
Mas eu peço perdão:
a Deus e a vós, irmãos.
O meu peito está nu como quando nasci;
em panos de alegria me enrolou minha mãe,
beijou minha carne estragável,
em minha boca mentirosa espremeu seu leite,
por isso sobrevivi.
Agora vós, irmãos, perdoai-me,
por minha mãe que se foi.
Por Deus que não vejo, perdoai-me.
por palavras, por atos, omissões.
Deles confesso a Deus,
à Virgem Maria, aos santos,
a São Miguel Arcanjo
e a vós irmãos.
A tão criticável tristeza
e seu divisível ser
pelejam por abotoar em mim
seu colar de desespero.
Mas eu peço perdão:
a Deus e a vós, irmãos.
O meu peito está nu como quando nasci;
em panos de alegria me enrolou minha mãe,
beijou minha carne estragável,
em minha boca mentirosa espremeu seu leite,
por isso sobrevivi.
Agora vós, irmãos, perdoai-me,
por minha mãe que se foi.
Por Deus que não vejo, perdoai-me.
1 372
Adélia Prado
O Antigo E o Novo Testamento
As filhas do sô João Lobo
morreram de raio, as duas.
Chilapt! ele fez caindo do céu,
clareando e assustando eu com minha mãe
mais meu avô no terreiro.
Aconteceu alguma coisa, ele falou.
Só então a raiva de Deus estrondou:
Senhor meu Jesus Cristo Deus e homem
verdadeiro, meu intestino desata-se,
pesa-me de Vos ter ofendido, o meu
coração desfalece, pesa-me também por
ter perdido o céu e merecido o inferno.
Rosa morreu costurando,
Maria com um pano branco em volta do seu pescoço,
o pente-fino na mão.
Hoje tem para-raio na Vila Belo-Horizonte
e esta oração que eu faço, quando a faísca navega
azulando a cerca de arame:
louvado sejas, meu Senhor, pelo fragor e a luz,
bendito o que vem de Tua mão, morte ou vida.
Mais me colhe Teu amor que a força da tempestade.
Os elementos Te louvem em fúria ou calma.
Diga eu sim ao Teu chamado,
venha Tua voz do trovão
ou de entre as flores do prado.
morreram de raio, as duas.
Chilapt! ele fez caindo do céu,
clareando e assustando eu com minha mãe
mais meu avô no terreiro.
Aconteceu alguma coisa, ele falou.
Só então a raiva de Deus estrondou:
Senhor meu Jesus Cristo Deus e homem
verdadeiro, meu intestino desata-se,
pesa-me de Vos ter ofendido, o meu
coração desfalece, pesa-me também por
ter perdido o céu e merecido o inferno.
Rosa morreu costurando,
Maria com um pano branco em volta do seu pescoço,
o pente-fino na mão.
Hoje tem para-raio na Vila Belo-Horizonte
e esta oração que eu faço, quando a faísca navega
azulando a cerca de arame:
louvado sejas, meu Senhor, pelo fragor e a luz,
bendito o que vem de Tua mão, morte ou vida.
Mais me colhe Teu amor que a força da tempestade.
Os elementos Te louvem em fúria ou calma.
Diga eu sim ao Teu chamado,
venha Tua voz do trovão
ou de entre as flores do prado.
1 254
Adélia Prado
Fluência
Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
1 453
Adélia Prado
Eh!
Têm cheiro especial
as bolas de carne cozinhando.
O cachorro olha pra gente
com um olho piedoso,
mas eu não dou.
Comida de cachorro é muxiba,
resto de prato.
Se lembro disto de noite
e estou sozinha no quarto
acho muito engraçado
e rio com estardalhaço:
a vida é mesmo uma pândega!
Dona Ló costurou pra dona Corina
que até hoje não pagou.
E bem que pode, já que exibe no lixo
papel higiênico Sublime,
que é do melhor e mais caro.
Mas os meninos se vingam:
có có có có có corina
có có có có có corina
sua roupa de baixo
tem catinga de urina.
O sol se põe intocado
atrás do morro onde ninguém nunca foi.
É brasa sua viva cor. Tem roxos,
uma angústia pendente
que sorvo em goles de antecipada saudade.
Quando a noite fechar,
dona Corina vai dormir com seu Lula,
homem sem fantasia,
que só faz as coisas de um jeito.
Dona Ló é viúva e dorme com Santa Bárbara,
“fulgente margarita que com melodia agradável
segues ao Esposo Cordeiro”.
Se não estou compassiva, boto as mãos nas cadeiras
e grito para o Radar: É DEVERA!
Ele bota o rabo entre as pernas
e vai dormir na coberta.
Ai, Deus, minha virgindade se consome
entre precisar de feijão,
pó de café e açúcar.
Tem piedade de mim.
as bolas de carne cozinhando.
O cachorro olha pra gente
com um olho piedoso,
mas eu não dou.
Comida de cachorro é muxiba,
resto de prato.
Se lembro disto de noite
e estou sozinha no quarto
acho muito engraçado
e rio com estardalhaço:
a vida é mesmo uma pândega!
Dona Ló costurou pra dona Corina
que até hoje não pagou.
E bem que pode, já que exibe no lixo
papel higiênico Sublime,
que é do melhor e mais caro.
Mas os meninos se vingam:
có có có có có corina
có có có có có corina
sua roupa de baixo
tem catinga de urina.
O sol se põe intocado
atrás do morro onde ninguém nunca foi.
É brasa sua viva cor. Tem roxos,
uma angústia pendente
que sorvo em goles de antecipada saudade.
Quando a noite fechar,
dona Corina vai dormir com seu Lula,
homem sem fantasia,
que só faz as coisas de um jeito.
Dona Ló é viúva e dorme com Santa Bárbara,
“fulgente margarita que com melodia agradável
segues ao Esposo Cordeiro”.
Se não estou compassiva, boto as mãos nas cadeiras
e grito para o Radar: É DEVERA!
Ele bota o rabo entre as pernas
e vai dormir na coberta.
Ai, Deus, minha virgindade se consome
entre precisar de feijão,
pó de café e açúcar.
Tem piedade de mim.
1 218
Adélia Prado
Graça
O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado
[gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio
[nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos
[e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado
[gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio
[nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos
[e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
1 233
Adélia Prado
Ausência da Poesia
Aquele que me fez me tirou da abastança,
há quarenta dias me oprime no deserto.
O político morreu, coitado.
Quis ser presidente e não foi.
Meu pai queria comer.
Minha mãe, peregrinar.
Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo.
Ó Deus, meu filho me pede a bênção, eu dou.
Eu que sou mau.
Por que, para mim, nem mel de vespas?
Eu que disse na praça, expondo-me
— dançai maltrapilhos, vamos seguir o tambor,
o Reino é subjacente mas existe —,
não sei responder a este motivo:
‘as torres ficam mais eternas às duas horas da tarde’.
Vejo a mangueira contra a nuvem preta,
meu coração se aquece,
mais uma vez me iludo de que farei o poema.
Tudo que aprendeu no bandalho
a marafona convertida faz para o êxtase místico;
mesmo que a costureira chegue na porta da rua
chupando o pilão com a língua,
eu acho bonito.
Me tentam a beleza física, forma concreta de lábios,
sexo, telefone, cartas,
o desenho amargo da boca do Ecce Homo.
Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacó,
esta hora cruel não passa?
Me tira desta areia, ó Espírito,
redime estas palavras do seu pó.
No país tropical grassa duro inverno.
Estou com meias, paletó e ânsias.
há quarenta dias me oprime no deserto.
O político morreu, coitado.
Quis ser presidente e não foi.
Meu pai queria comer.
Minha mãe, peregrinar.
Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo.
Ó Deus, meu filho me pede a bênção, eu dou.
Eu que sou mau.
Por que, para mim, nem mel de vespas?
Eu que disse na praça, expondo-me
— dançai maltrapilhos, vamos seguir o tambor,
o Reino é subjacente mas existe —,
não sei responder a este motivo:
‘as torres ficam mais eternas às duas horas da tarde’.
Vejo a mangueira contra a nuvem preta,
meu coração se aquece,
mais uma vez me iludo de que farei o poema.
Tudo que aprendeu no bandalho
a marafona convertida faz para o êxtase místico;
mesmo que a costureira chegue na porta da rua
chupando o pilão com a língua,
eu acho bonito.
Me tentam a beleza física, forma concreta de lábios,
sexo, telefone, cartas,
o desenho amargo da boca do Ecce Homo.
Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacó,
esta hora cruel não passa?
Me tira desta areia, ó Espírito,
redime estas palavras do seu pó.
No país tropical grassa duro inverno.
Estou com meias, paletó e ânsias.
1 390