Poemas neste tema
Amor não correspondido
Fernando Pessoa
Tu és Maria da Graça,
Tu és Maria da Graça,
Mas a que graça é que vem
Ser essa graça a desgraça
De quem a graça não tem?
Mas a que graça é que vem
Ser essa graça a desgraça
De quem a graça não tem?
1 230
Fernando Pessoa
Fizeste molhos de flores
Fizeste molhos de flores
Para não dar a ninguém.
São como os molhos de amores
Que foras fazer a alguém.
Para não dar a ninguém.
São como os molhos de amores
Que foras fazer a alguém.
1 082
Fernando Pessoa
Quando me deste os bons-dias
Quando me deste os bons-dias
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
889
Fernando Pessoa
Duas vezes te falei
Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
1 535
Fernando Pessoa
Eu bem sei que me desdenhas
Eu bem sei que me desdenhas
Mas gosto que seja assim,
Que o desdém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim.
Mas gosto que seja assim,
Que o desdém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim.
1 268
Fernando Pessoa
Teus olhos de quem não fita
Teus olhos de quem não fita
Vagueiam, estão na distância.
Se fosses menos bonita,
Isso não tinha importância.
Vagueiam, estão na distância.
Se fosses menos bonita,
Isso não tinha importância.
1 319
Fernando Pessoa
Thou needst not scorn me. All my praise of thee
Thou needst not scorn me. All my praise of thee
Though't be of that which opens men's desire
(Being of thy beauty), from desire is free.
My flame upon thine altars has no fire.
Beauty should beauty mate, lest by addition
It do subtraction suffer. So I name
Thy true mate beautiful. Thus my perdition
Myself desire and mine own love disclaim.
That this renouncement of the very thought
Of thy possible love, were't such or no,
Gives pain, is sure; yet the pain given does not
From the renouncement, but its reason, flow.
The gods that fated me not beautiful
Fated this just renouncement possible.
Though't be of that which opens men's desire
(Being of thy beauty), from desire is free.
My flame upon thine altars has no fire.
Beauty should beauty mate, lest by addition
It do subtraction suffer. So I name
Thy true mate beautiful. Thus my perdition
Myself desire and mine own love disclaim.
That this renouncement of the very thought
Of thy possible love, were't such or no,
Gives pain, is sure; yet the pain given does not
From the renouncement, but its reason, flow.
The gods that fated me not beautiful
Fated this just renouncement possible.
1 391
Fernando Pessoa
Dá-me um sorriso daqueles
Dá-me um sorriso daqueles
Que te não servem de nada
Como se dá às crianças
Uma caixa esvaziada.
Que te não servem de nada
Como se dá às crianças
Uma caixa esvaziada.
1 007
Fernando Pessoa
A quem a Natureza não fez belo
A quem a Natureza não fez belo
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
1 419
Fernando Pessoa
Elle est si belle,
Elle est si belle,
La petite rebelle,
Ce joyau de jeunesse;
Elle est si belle
Que mon coeur s’en blesse.
Oh, quelle tristesse,
Quel amour sans cris
Car celle
Qui est si belle
Est toujours la femme d’autrui.
Oh qu’importe
Qu’elle le soit déjà
Ou que mon destin ne comporte
Que ne l’avoir obtenu pas?
Ne pas l’avoir ou la perdre
C’est le même amour sans cris
Dans ce coeur meurtri.
Oh, elle,
Celle
Qui est si belle,
Est toujours la femme d’autrui.
La petite rebelle,
Ce joyau de jeunesse;
Elle est si belle
Que mon coeur s’en blesse.
Oh, quelle tristesse,
Quel amour sans cris
Car celle
Qui est si belle
Est toujours la femme d’autrui.
Oh qu’importe
Qu’elle le soit déjà
Ou que mon destin ne comporte
Que ne l’avoir obtenu pas?
Ne pas l’avoir ou la perdre
C’est le même amour sans cris
Dans ce coeur meurtri.
Oh, elle,
Celle
Qui est si belle,
Est toujours la femme d’autrui.
1 508
Fernando Pessoa
Tive uma flor para dar
Tive uma flor para dar
A quem não ousei dizer
Que lhe queria falar,
E a flor teve que morrer.
A quem não ousei dizer
Que lhe queria falar,
E a flor teve que morrer.
1 756
Fernando Pessoa
Quem lavra julga que lavra
Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
1 196
Fernando Pessoa
Nunca dizes se gostaste
Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
1 462
Fernando Pessoa
Teus olhos tristes, parados,
Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
1 161
Fernando Pessoa
Tens um livro que não lês,
Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
1 812
Fernando Pessoa
O vaso que dei àquela
O vaso que dei àquela
Que não sabe quem lho deu
Há-de ser posto à janela
Sem ninguém saber que é meu.
Que não sabe quem lho deu
Há-de ser posto à janela
Sem ninguém saber que é meu.
1 441
Fernando Pessoa
Escuta-me piedosamente.
Escuta-me piedosamente.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quase carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho de mim tanta pena
Queria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim mas da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quase carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho de mim tanta pena
Queria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim mas da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
1 317
Florbela Espanca
O Teu Livro
Li o teu livro, Amor, sofregamente;
Li-o, e nele em vão me procurei!
No teu livro d’amor não me encontrei,
Tendo lá encontrado toda a gente.
Um livro é a nossa alma, nunca mente!
Um livro somos nós, eu bem o sei...
E se em teus lindos versos não me achei
E que a tua alma nem sequer me sente!
As rosas do teu livro! As tuas rosas!
Rubros beijos de bocas mentirosas,
Desfolhaste-as por todas as mulheres!
Mas deixa, meu Amor, mesmo pisadas,
As tuas lindas rosas desfolhadas,
Eu apanho-as do-chão, se tu quiseres...
Li-o, e nele em vão me procurei!
No teu livro d’amor não me encontrei,
Tendo lá encontrado toda a gente.
Um livro é a nossa alma, nunca mente!
Um livro somos nós, eu bem o sei...
E se em teus lindos versos não me achei
E que a tua alma nem sequer me sente!
As rosas do teu livro! As tuas rosas!
Rubros beijos de bocas mentirosas,
Desfolhaste-as por todas as mulheres!
Mas deixa, meu Amor, mesmo pisadas,
As tuas lindas rosas desfolhadas,
Eu apanho-as do-chão, se tu quiseres...
1 564
Florbela Espanca
Á sua, que foi
Á sua, que foi, é e será sempre,
da sua que nunca foi, Não é nem será
Bela
da sua que nunca foi, Não é nem será
Bela
920
Florbela Espanca
Versos
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
2 530
Florbela Espanca
Quem Sabe?!...
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!
Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.
Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
......................................................................
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!
5 329
Leonardo Martinelli
Retrato Cubista (para cdcl)
Não há remédio
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e
o amor através -
além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -
do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -
então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -
esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso
(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e
o amor através -
além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -
do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -
então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -
esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso
(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)
623
D. Dinis
O que vos nunca cuidei a dizer
Os diré, con tristeza, lo que nunca pensé
que os diría, señora,
porque veo que por vos muero,
porque sabéis que nunca os hablé
de cómo me mataba vuestro amor:
porque sabéis bien que de otra señora
yo no sentía ni siento temor.
Todo esto me hizo sentir
el temor que de vos tengo,
y desde ahí por vos dar a entender
que por otra moriría, de ella tengo,
sabéis bien, algo de temor;
y desde hoy, hermosa señora mía,
si me matáis, bien me lo habré buscado.
Y creed que tendré gusto
de que me matéis, pues yo sé con certeza
que en el poco tiempo que he de vivir,
ningún placer obtendré;
y porque estoy seguro de esto,
si me quisierais dar muerte, señora,
por gran misericordia os lo tendré.
1 945
Xue Tao
Canção contemplando a primavera
(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
789