Poemas neste tema
Namoro e Paixão
Carlos Drummond de Andrade
As Moças da Escola de Aperfeiçoamento
São cinquenta, são duzentas,
são trezentas
as professorinhas que invadem
a desprevenida Belô?
São cento e cinquenta, ou mil
as boinas azuis e verdes
e róseas, alaranjadas
e negras também e roxas,
os lábios coracionais
e os tom pouce petulantes
que elas ostentam, radiosas?
De onde vêm essas garotas?
eu que sei?
Vêm de Poços, de São João
del Rei, Juiz de Fora, Lavras,
Leopoldina, Itajubá,
Montes Claros, Minas Novas,
cidades novas de Minas
ainda não cadastradas
no Dicionário Corográfico
de Pelicano Frade?
E são assim tão modernas,
tão chegadas de Paris
par le dernier bateau
ancorado na Avenida
Afonso Pena ou Bahia,
que a gente não as distingue
das melindrosas cariocas
em férias mineiras?
Que vêm fazer essas jovens?
Vêm descobrir, saber coisas
de Decroly, Claparède,
novidades pedagógicas,
segredos de arte e de técnica
revelados por Helena
Antipoff, Madame Artus,
Mademoiselle Milde, mais quem?
Ou vêm para perturbar
se possível mais ainda
a precária paz de espírito
dos estudantes vadios
(eu, um deles)
que só querem declinar
os tempos irregulares
de namorar e de amar?
Ai, o mal que faz a Minas,
a nós, pelo menos, frágeis,
irresponsáveis, dementes
cultivadores da aérea
flor feminina fechada
em pétalas de reticência,
a Escola novidadeira,
dita de Aperfeiçoamento!
A gente não dava conta
de tanto impulso maluco
doridamente frustrado
ante a pétrea rigidez
dos domésticos presídios
onde vivem clausuradas
as meninas de Belô,
e irrompe essa multitude
de boinas, bocas, batons
escarlates, desafiando
a nossa corda sensível.
Que faz Mário Casassanta,
autoridade do ensino,
que não devolve essas moças
a seus lugares de origem?
Chamo Seu Edgarzinho,
responsável pela Escola.
Que ponha reparo — peço-lhe —
nas crianças do interior
que ficaram sem suas mestras.
Convém restituí-las logo
à tarefa habitual.
Ele responde: “São ordens
do Doutor Francisco Campos,
nosso ilustre Secretário
de Educação e Cultura.
Carece elevar o nível
do ensino por toda parte.
Vá-se embora, não insista
em perturbar nossos planos
racionais”.
Vou-me embora. Já na esquina
a boina azul me aparece
sob o azul universal
que faz de Belô um céu
pousado em pelúcia verde.
Sua dona, deslizante
entre formas costumeiras,
é diferente de tudo
e não olha para mim
deslumbrado, derrotado,
que vou bobeando assim.
Não há professora feia?
Pode ser que haja. A vista,
até onde o sonho alcança,
cinge a todas de beleza,
e a beleza, disse alguém,
é mortal como punhal.
são trezentas
as professorinhas que invadem
a desprevenida Belô?
São cento e cinquenta, ou mil
as boinas azuis e verdes
e róseas, alaranjadas
e negras também e roxas,
os lábios coracionais
e os tom pouce petulantes
que elas ostentam, radiosas?
De onde vêm essas garotas?
eu que sei?
Vêm de Poços, de São João
del Rei, Juiz de Fora, Lavras,
Leopoldina, Itajubá,
Montes Claros, Minas Novas,
cidades novas de Minas
ainda não cadastradas
no Dicionário Corográfico
de Pelicano Frade?
E são assim tão modernas,
tão chegadas de Paris
par le dernier bateau
ancorado na Avenida
Afonso Pena ou Bahia,
que a gente não as distingue
das melindrosas cariocas
em férias mineiras?
Que vêm fazer essas jovens?
Vêm descobrir, saber coisas
de Decroly, Claparède,
novidades pedagógicas,
segredos de arte e de técnica
revelados por Helena
Antipoff, Madame Artus,
Mademoiselle Milde, mais quem?
Ou vêm para perturbar
se possível mais ainda
a precária paz de espírito
dos estudantes vadios
(eu, um deles)
que só querem declinar
os tempos irregulares
de namorar e de amar?
Ai, o mal que faz a Minas,
a nós, pelo menos, frágeis,
irresponsáveis, dementes
cultivadores da aérea
flor feminina fechada
em pétalas de reticência,
a Escola novidadeira,
dita de Aperfeiçoamento!
A gente não dava conta
de tanto impulso maluco
doridamente frustrado
ante a pétrea rigidez
dos domésticos presídios
onde vivem clausuradas
as meninas de Belô,
e irrompe essa multitude
de boinas, bocas, batons
escarlates, desafiando
a nossa corda sensível.
Que faz Mário Casassanta,
autoridade do ensino,
que não devolve essas moças
a seus lugares de origem?
Chamo Seu Edgarzinho,
responsável pela Escola.
Que ponha reparo — peço-lhe —
nas crianças do interior
que ficaram sem suas mestras.
Convém restituí-las logo
à tarefa habitual.
Ele responde: “São ordens
do Doutor Francisco Campos,
nosso ilustre Secretário
de Educação e Cultura.
Carece elevar o nível
do ensino por toda parte.
Vá-se embora, não insista
em perturbar nossos planos
racionais”.
Vou-me embora. Já na esquina
a boina azul me aparece
sob o azul universal
que faz de Belô um céu
pousado em pelúcia verde.
Sua dona, deslizante
entre formas costumeiras,
é diferente de tudo
e não olha para mim
deslumbrado, derrotado,
que vou bobeando assim.
Não há professora feia?
Pode ser que haja. A vista,
até onde o sonho alcança,
cinge a todas de beleza,
e a beleza, disse alguém,
é mortal como punhal.
1 228
Carlos Drummond de Andrade
Poder do Perfume
Popular, a água florida.
O seu nome-roseira
já é flor e trescala
só de o ouvirmos na sala.
A excelsa brilhantina
em potes de Paris
embalsama noivados
no sofá dos sobrados.
Jiqui, perfume nobre,
há de estar bem à vista
entre jarro e bacia
da rural burguesia.
As botas onde o estrume
deixa visível marca,
em chegando à cidade,
cedem à amenidade
que os moços fazendeiros
sabem criar em volta
de um sólido namoro
de perfumes em coro.
Qual mais recendente
a sândalo e jasmim,
ele e ela, abraçados
em cheiros conjugados,
sem se tocarem (nada
autoriza a licença
do beijo corporal)
praticam sem detença
— ai! — o sexo aromal.
O seu nome-roseira
já é flor e trescala
só de o ouvirmos na sala.
A excelsa brilhantina
em potes de Paris
embalsama noivados
no sofá dos sobrados.
Jiqui, perfume nobre,
há de estar bem à vista
entre jarro e bacia
da rural burguesia.
As botas onde o estrume
deixa visível marca,
em chegando à cidade,
cedem à amenidade
que os moços fazendeiros
sabem criar em volta
de um sólido namoro
de perfumes em coro.
Qual mais recendente
a sândalo e jasmim,
ele e ela, abraçados
em cheiros conjugados,
sem se tocarem (nada
autoriza a licença
do beijo corporal)
praticam sem detença
— ai! — o sexo aromal.
680
Carlos Drummond de Andrade
A Lamentável História Dos Namorados
Namorados, namorados,
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
1 191
Carlos Drummond de Andrade
Véspera
Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
1 112
Martha Medeiros
Beijo na boca
Uma vez a atriz e cineasta Carla Camuratti declarou, numa entrevista, que um bom beijo é melhor do que uma transa insossa. Quando a escutei dizendo isso, pensei: "então não sou só eu". Estou com Carla: o beijo é a parte mais importante da relação física entre duas pessoas, e se ele não funcionar, pode desistir do resto.
A Editora Mandarim acaba de lançar um livro que reúne ensaios de diversos intelectuais a respeito do assunto. O nome do livro é O Beijo - Primeiras Lições de Amor, História, Arte e Erotismo. Os autores discutem o beijo materno, o beijo nos contos-de-fadas, o beijo traiçoeiro de Judas, os primeiros beijos impressos em cartazes, o beijo na propaganda, o mais longo beijo do cinema e todas as suas simbologias. Às vezes o livro fica prolixo demais, mas ainda assim é um assunto tentador. Procure-o nas melhores casas do ramo. O livro, porque beijo não está à venda.
Todo mundo sonha com aquele beijo made in Hollywood, que tira o fôlego e dá início a um romance incandescente. Pena que nem sempre isso aconteça na vida real. O primeiro beijo entre um casal costuma ser suave, investigativo, decente. Aos pouquinhos, no entanto, acende-se a labareda e as bocas dizem a que vieram. Existe um prazo para isso acontecer: entre cinco minutos depois do primeiro roçar de lábios até, no máximo, cinco dias. Neste espaço de tempo, ainda compreende-se que os beijos sejam vacilantes: tratam-se de duas pessoas criando um vínculo e testando suas reações. Mas se a decência persistir, não espere ver estrelinhas na etapa seguinte. A química não aconteceu.
Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.
A Editora Mandarim acaba de lançar um livro que reúne ensaios de diversos intelectuais a respeito do assunto. O nome do livro é O Beijo - Primeiras Lições de Amor, História, Arte e Erotismo. Os autores discutem o beijo materno, o beijo nos contos-de-fadas, o beijo traiçoeiro de Judas, os primeiros beijos impressos em cartazes, o beijo na propaganda, o mais longo beijo do cinema e todas as suas simbologias. Às vezes o livro fica prolixo demais, mas ainda assim é um assunto tentador. Procure-o nas melhores casas do ramo. O livro, porque beijo não está à venda.
Todo mundo sonha com aquele beijo made in Hollywood, que tira o fôlego e dá início a um romance incandescente. Pena que nem sempre isso aconteça na vida real. O primeiro beijo entre um casal costuma ser suave, investigativo, decente. Aos pouquinhos, no entanto, acende-se a labareda e as bocas dizem a que vieram. Existe um prazo para isso acontecer: entre cinco minutos depois do primeiro roçar de lábios até, no máximo, cinco dias. Neste espaço de tempo, ainda compreende-se que os beijos sejam vacilantes: tratam-se de duas pessoas criando um vínculo e testando suas reações. Mas se a decência persistir, não espere ver estrelinhas na etapa seguinte. A química não aconteceu.
Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.
1 228
Fernando Pessoa
Trazes a rosa na mão
Trazes a rosa na mão
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida?
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida?
817
Fernando Pessoa
A abanar o fogareiro
A abanar o fogareiro
Ela corou do calor.
Ah, quem a fará corar
De um outro modo melhor!
Ela corou do calor.
Ah, quem a fará corar
De um outro modo melhor!
992
Fernando Pessoa
As ondas que a maré conta
As ondas que a maré conta
Ninguém as pode contar.
Se, ao passar, ninguém te aponta,
Aponta-te com o olhar.
Ninguém as pode contar.
Se, ao passar, ninguém te aponta,
Aponta-te com o olhar.
1 507
Fernando Pessoa
Boca de romã perfeita
Boca de romã perfeita
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
1 204
Fernando Pessoa
IX - Now is she gowned completely, her face won
IX
Now is she gowned completely, her face won
To a flush. Look how the sun
Shines hot and how the creeper, loosed, doth strain
To hit the heated pane!
She is all white, all she's awaiting him.
Her eyes are bright and dim.
Her hands are cold, her lips are dry, her heart
Pants like a pursued hart.
Now is she gowned completely, her face won
To a flush. Look how the sun
Shines hot and how the creeper, loosed, doth strain
To hit the heated pane!
She is all white, all she's awaiting him.
Her eyes are bright and dim.
Her hands are cold, her lips are dry, her heart
Pants like a pursued hart.
1 238
Fernando Pessoa
Rouxinol que não cantaste,
Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
971
Fernando Pessoa
Trazes já aquele cinto
Trazes já aquele cinto
Que compraste no outro dia.
Eu trago o que sempre sinto
E que é contigo, Maria.
Que compraste no outro dia.
Eu trago o que sempre sinto
E que é contigo, Maria.
1 427
Fernando Pessoa
A tua boca de riso
A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
2 105
Fernando Pessoa
Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!
1 425
Fernando Pessoa
Levava eu um jarrinho
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
1 793
Fernando Pessoa
Ao dobrar o guardanapo
Ao dobrar o guardanapo
Para o meteres na argola
Fizeste-me conhecer
Como um coração se enrola.
Para o meteres na argola
Fizeste-me conhecer
Como um coração se enrola.
1 327
Fernando Pessoa
Quando agora me sorriste
Quando agora me sorriste
Foi de contente de eu vir,
Ou porque me achaste triste,
Ou já estavas a sorrir?
Foi de contente de eu vir,
Ou porque me achaste triste,
Ou já estavas a sorrir?
1 222
Fernando Pessoa
Caiu no chão a laranja
Caiu no chão a laranja
E rolou pelo chão fora.
Vamos apanhá-la juntos,
E o melhor é ser agora.
E rolou pelo chão fora.
Vamos apanhá-la juntos,
E o melhor é ser agora.
2 501
Fernando Pessoa
Castanhetas, castanholas —
Castanhetas, castanholas —
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.
1 399
Fernando Pessoa
O teu carrinho de linha
O teu carrinho de linha
Rolou pelo chão caído.
Apanhei-o e dei-o e tinha
Só em ti o meu sentido.
Rolou pelo chão caído.
Apanhei-o e dei-o e tinha
Só em ti o meu sentido.
854
Fernando Pessoa
Essa costura à janela
Essa costura à janela
Que lhe inclinou a cabeça
Fez-me ver como era dela
Que o coração tinha pressa.
Que lhe inclinou a cabeça
Fez-me ver como era dela
Que o coração tinha pressa.
1 379
Fernando Pessoa
Teus olhos poisam no chão
Teus olhos poisam no chão
Para não me olhar de frente.
Tens vontade de sorrir
Ou de rir? É tão diferente!
Para não me olhar de frente.
Tens vontade de sorrir
Ou de rir? É tão diferente!
930