Poemas neste tema
Noite e Lua
Charles Bukowski
Sobre Latas De Cerveja E Embalagens De Açúcar
o boi, eu,
eu estou com frio esta noite
esta manhã
as 4 da madrugada
só com uma lata de cerveja e 2
charutos;
mulher e criança saindo
quarta-feira;
o rádio toca uma ária escocesa e
o velho aquecedor solta
gás, gás, gás,
se eu apenas conseguisse dormir.
eu não consigo dormir.
a morte nem sempre chega como uma bomba
ou uma puta gorda
às vezes a morte rasteja polegada a polegada
como uma pequena aranha rastejando na sua barriga
enquanto você
dorme.
isso não é novidade para você,
eu sei.
as mãos do meu esqueleto rezam esta noite
rezam por algo
não sei
o quê.
minhas mãos seguram este charuto
sobre meu sonho
esvaziado.
eu sou
meio que uma piada suja
contada vezes demais contada tarde demais
quando as pessoas não conseguem mais
rir.
há uma embalagem na mesa.
leio seu rótulo, diz:
medidas de açúcar: 1 libra de pó igual a
4 e 1/2 xícaras coadas; 1 libra granulada igual a
2 e 1/2 xícaras etc.
agora, aí está um novo mundo! eu fico sentado e olho de soslaio a caixa,
esquecendo de tudo:
General Grant
sopa de ervilhas
etc.
o boi, eu, estou com frio esta noite.
amanhã vou à mercearia arrumar embalagens de cartolina vazias
para que eles possam empacotar suas
coisas. a mulher guarda toda espécie de cartas, retalhos,
fotografias. a garotinha, é claro, tem seus
brinquedos de garotinha.
preciso de mais para ler. leio minha lata de cerveja. diz:
fermentada com água pura de fonte da primavera de Rocky Mountain
que se converte em mijo; fermentada da carne que
se converte em repasto para vermes;
fermentada com amor que se converte em nada; minha terra e
sua terra; meu túmulo e seu túmulo; um gosto de
mel; um sonho de uma noite de ouro; eu vim por esse caminho por
um tempo e depois parti: fermentado, ferrado,
emprestado, cedido e mentido em nome da
Vida.
eu tomo essa cerveja.
paguei por
ela.
agora são 5:30 da manhã e muita gente fodeu e
dormiu e agora está saindo de seus pequenos sonhos enquanto
o homem no rádio pergunta se eu quero dinheiro emprestado por
minha casa.
consigo dormir com isso. consigo dormir pensando que
quem sabe na próxima vez em que houver tumultos nas ruas
quem sabe eles me deixem participar
mesmo minha pele sendo da cor errada
e enquanto eles estão lutando por Cadillacs e
TVs a cores
eu estarei lutando por outra coisa -
para quê
neste momento
não está claro para
mim.
mas pode ser que quando eu despertar tudo isso esteja claro
neste momento
é terminar o charuto
esperar pela mercearia abrir e
trocar esses shorts
sujos.
eu estou com frio esta noite
esta manhã
as 4 da madrugada
só com uma lata de cerveja e 2
charutos;
mulher e criança saindo
quarta-feira;
o rádio toca uma ária escocesa e
o velho aquecedor solta
gás, gás, gás,
se eu apenas conseguisse dormir.
eu não consigo dormir.
a morte nem sempre chega como uma bomba
ou uma puta gorda
às vezes a morte rasteja polegada a polegada
como uma pequena aranha rastejando na sua barriga
enquanto você
dorme.
isso não é novidade para você,
eu sei.
as mãos do meu esqueleto rezam esta noite
rezam por algo
não sei
o quê.
minhas mãos seguram este charuto
sobre meu sonho
esvaziado.
eu sou
meio que uma piada suja
contada vezes demais contada tarde demais
quando as pessoas não conseguem mais
rir.
há uma embalagem na mesa.
leio seu rótulo, diz:
medidas de açúcar: 1 libra de pó igual a
4 e 1/2 xícaras coadas; 1 libra granulada igual a
2 e 1/2 xícaras etc.
agora, aí está um novo mundo! eu fico sentado e olho de soslaio a caixa,
esquecendo de tudo:
General Grant
sopa de ervilhas
etc.
o boi, eu, estou com frio esta noite.
amanhã vou à mercearia arrumar embalagens de cartolina vazias
para que eles possam empacotar suas
coisas. a mulher guarda toda espécie de cartas, retalhos,
fotografias. a garotinha, é claro, tem seus
brinquedos de garotinha.
preciso de mais para ler. leio minha lata de cerveja. diz:
fermentada com água pura de fonte da primavera de Rocky Mountain
que se converte em mijo; fermentada da carne que
se converte em repasto para vermes;
fermentada com amor que se converte em nada; minha terra e
sua terra; meu túmulo e seu túmulo; um gosto de
mel; um sonho de uma noite de ouro; eu vim por esse caminho por
um tempo e depois parti: fermentado, ferrado,
emprestado, cedido e mentido em nome da
Vida.
eu tomo essa cerveja.
paguei por
ela.
agora são 5:30 da manhã e muita gente fodeu e
dormiu e agora está saindo de seus pequenos sonhos enquanto
o homem no rádio pergunta se eu quero dinheiro emprestado por
minha casa.
consigo dormir com isso. consigo dormir pensando que
quem sabe na próxima vez em que houver tumultos nas ruas
quem sabe eles me deixem participar
mesmo minha pele sendo da cor errada
e enquanto eles estão lutando por Cadillacs e
TVs a cores
eu estarei lutando por outra coisa -
para quê
neste momento
não está claro para
mim.
mas pode ser que quando eu despertar tudo isso esteja claro
neste momento
é terminar o charuto
esperar pela mercearia abrir e
trocar esses shorts
sujos.
1 067
Charles Bukowski
A Palavra Final
sempre no poema
nós erramos por pouco.
ah,
para dizer a palavra final
você precisa
matar o peixe,
jogar fora a
cabeça e o rabo
(especialmente os olhos)
e comer o restante.
há essa fome
de sair pela estrada
procurando aquilo
em um Cadillac 1998,
árvores ao longo da rodovia,
uma lua manchada de estrume,
e passar por cima dele
e sair e
olhar aquilo,
segurar em sua mão
e olhar aquilo,
examiná-lo
(especialmente os olhos)
então jogar fora
e
s'imbora de Cadillac.
nós erramos por pouco.
ah,
para dizer a palavra final
você precisa
matar o peixe,
jogar fora a
cabeça e o rabo
(especialmente os olhos)
e comer o restante.
há essa fome
de sair pela estrada
procurando aquilo
em um Cadillac 1998,
árvores ao longo da rodovia,
uma lua manchada de estrume,
e passar por cima dele
e sair e
olhar aquilo,
segurar em sua mão
e olhar aquilo,
examiná-lo
(especialmente os olhos)
então jogar fora
e
s'imbora de Cadillac.
641
Charles Bukowski
Prece Debaixo de Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 067
Charles Bukowski
Paz
perto da mesa de canto no
café
senta-se um casal de
meia-idade.
já terminaram seu
jantar
e cada um deles bebe uma
cerveja.
são 9 da noite.
ela fuma um
cigarro.
então ele diz alguma coisa.
ela concorda.
depois fala.
ele sorri, move a
mão.
os dois estão
sossegados.
através das persianas junto à
sua mesa
luzes fulgurantes de néon vermelho
não param de
piscar.
não há guerra nenhuma.
não há inferno nenhum.
então ele ergue a sua garrafa de
cerveja.
é verde.
leva-a aos lábios,
inclina-a.
é uma pequena coroa.
o cotovelo esquerdo dela está
sobre a mesa
e em sua mão
ela segura o
cigarro
entre o polegar e o
indicador
e
enquanto ela o
observa
as ruas lá fora
florescem
sob a
noite.
café
senta-se um casal de
meia-idade.
já terminaram seu
jantar
e cada um deles bebe uma
cerveja.
são 9 da noite.
ela fuma um
cigarro.
então ele diz alguma coisa.
ela concorda.
depois fala.
ele sorri, move a
mão.
os dois estão
sossegados.
através das persianas junto à
sua mesa
luzes fulgurantes de néon vermelho
não param de
piscar.
não há guerra nenhuma.
não há inferno nenhum.
então ele ergue a sua garrafa de
cerveja.
é verde.
leva-a aos lábios,
inclina-a.
é uma pequena coroa.
o cotovelo esquerdo dela está
sobre a mesa
e em sua mão
ela segura o
cigarro
entre o polegar e o
indicador
e
enquanto ela o
observa
as ruas lá fora
florescem
sob a
noite.
1 301
Charles Bukowski
22.000 Dólares Em 3 Meses
a noite chegou como um ser que se arrasta
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
999
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 057
Charles Bukowski
Gelo para as Águias
Sigo lembrando dos cavalos
sob o luar
sigo lembrando de alimentar os cavalos
açúcar
pedras oblongas de açúcar
mais parecendo gelo,
e suas cabeças são como cabeças
de águias
cabeças calvas que poderiam morder e
não mordem.
Os cavalos são mais reais que
meu pai
mais reais que Deus
e poderiam ter pisado nos meus
pés mas não pisaram
poderiam ter feito coisas horríveis
mas não fizeram.
Eu tinha quase 5 anos
mas ainda não consegui esquecer;
ó meu deus eles eram fortes e bons
as línguas vermelhas molhadas
projetadas para fora de suas almas.
Tinha começado a antipatizar com meu pai. Ele sempre estava zangado com alguma coisa. Onde quer que fôssemos, ele dava um jeito de discutir com as pessoas. Mas a maioria parecia não se assustar com sua figura; as pessoas normalmente o encaravam, calmamente, o que o deixava ainda mais exaltado. Se fôssemos comer fora, o que raramente acontecia, ele sempre encontrava algo de errado na comida e algumas vezes se recusava a pagar.
– Tem cocô de mosca na nata! Que diabo de lugar é este?
– Minhas desculpas, senhor. Não vamos cobrar nada. Apenas faça o favor de se retirar.
– Está certo, estou de saída! Mas voltarei. E voltarei para pôr abaixo esta maldita espelunca!
De outra feita, estávamos numa loja de conveniências, e eu e minha mãe ficamos de lado enquanto meu pai gritava com um atendente. Outro funcionário perguntou a minha mãe:
– Quem é esse sujeito horrível? Toda vez que ele vem aqui arranja uma discussão.
– É meu marido – disse minha mãe ao funcionário.
E ainda lembro de mais outra. Ele estava trabalhando como leiteiro e fazia entregas de manhã bem cedo. Certa manhã ele me acordou.
– Vamos, quero lhe mostrar uma coisa.
Fui até a rua com ele. Eu estava de pijama e chinelos. Ainda era noite, e a lua brilhava alta no céu. Caminhamos até o caminhão de leite, que era puxado a cavalo. O animal estava bastante quieto.
– Veja – disse meu pai. Ele pegou um torrão de açúcar, colocou sobre a palma da mão e levou até a boca do cavalo. O animal apanhou o torrão da sua mão. – Agora, tente você...
Colocou um torrão de açúcar na minha mão. Tratava-se de um enorme cavalo.
– Aproxime-se! Mantenha a mão estendida!
Tive medo de que o cavalo me mordesse. A cabeça se curvou; pude ver suas narinas, os lábios se retraíram, vi a língua e os dentes, e então o torrão de açúcar desapareceu.
– Aqui. Tente outra vez...
E eu tentei. O cavalo abocanhou o torrão e balançou a cabeça.
– Agora – disse meu pai –, vou levar você de volta para dentro antes que o cavalo cague em cima de você.
Não me era permitido brincar com outras crianças.
– Essas crianças são más – dizia meu pai –, e os pais delas são pobres.
– É verdade – concordava minha mãe.
Meus pais queriam ser ricos. Por isso, imaginavam-se ricos.
Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes. Não gostei delas. Sempre me sentia enjoado, e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. Pintávamos com tinta guache. Plantávamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comíamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infância, gostava mais dela que dos meus pais.
– Misto-quente
sob o luar
sigo lembrando de alimentar os cavalos
açúcar
pedras oblongas de açúcar
mais parecendo gelo,
e suas cabeças são como cabeças
de águias
cabeças calvas que poderiam morder e
não mordem.
Os cavalos são mais reais que
meu pai
mais reais que Deus
e poderiam ter pisado nos meus
pés mas não pisaram
poderiam ter feito coisas horríveis
mas não fizeram.
Eu tinha quase 5 anos
mas ainda não consegui esquecer;
ó meu deus eles eram fortes e bons
as línguas vermelhas molhadas
projetadas para fora de suas almas.
Tinha começado a antipatizar com meu pai. Ele sempre estava zangado com alguma coisa. Onde quer que fôssemos, ele dava um jeito de discutir com as pessoas. Mas a maioria parecia não se assustar com sua figura; as pessoas normalmente o encaravam, calmamente, o que o deixava ainda mais exaltado. Se fôssemos comer fora, o que raramente acontecia, ele sempre encontrava algo de errado na comida e algumas vezes se recusava a pagar.
– Tem cocô de mosca na nata! Que diabo de lugar é este?
– Minhas desculpas, senhor. Não vamos cobrar nada. Apenas faça o favor de se retirar.
– Está certo, estou de saída! Mas voltarei. E voltarei para pôr abaixo esta maldita espelunca!
De outra feita, estávamos numa loja de conveniências, e eu e minha mãe ficamos de lado enquanto meu pai gritava com um atendente. Outro funcionário perguntou a minha mãe:
– Quem é esse sujeito horrível? Toda vez que ele vem aqui arranja uma discussão.
– É meu marido – disse minha mãe ao funcionário.
E ainda lembro de mais outra. Ele estava trabalhando como leiteiro e fazia entregas de manhã bem cedo. Certa manhã ele me acordou.
– Vamos, quero lhe mostrar uma coisa.
Fui até a rua com ele. Eu estava de pijama e chinelos. Ainda era noite, e a lua brilhava alta no céu. Caminhamos até o caminhão de leite, que era puxado a cavalo. O animal estava bastante quieto.
– Veja – disse meu pai. Ele pegou um torrão de açúcar, colocou sobre a palma da mão e levou até a boca do cavalo. O animal apanhou o torrão da sua mão. – Agora, tente você...
Colocou um torrão de açúcar na minha mão. Tratava-se de um enorme cavalo.
– Aproxime-se! Mantenha a mão estendida!
Tive medo de que o cavalo me mordesse. A cabeça se curvou; pude ver suas narinas, os lábios se retraíram, vi a língua e os dentes, e então o torrão de açúcar desapareceu.
– Aqui. Tente outra vez...
E eu tentei. O cavalo abocanhou o torrão e balançou a cabeça.
– Agora – disse meu pai –, vou levar você de volta para dentro antes que o cavalo cague em cima de você.
Não me era permitido brincar com outras crianças.
– Essas crianças são más – dizia meu pai –, e os pais delas são pobres.
– É verdade – concordava minha mãe.
Meus pais queriam ser ricos. Por isso, imaginavam-se ricos.
Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes. Não gostei delas. Sempre me sentia enjoado, e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. Pintávamos com tinta guache. Plantávamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comíamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infância, gostava mais dela que dos meus pais.
– Misto-quente
1 279
Charles Bukowski
Conversa às Três e Meia da Madrugada
às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
1 043
Charles Bukowski
A Noite Em Que Eles Pegaram o Branquelo
sonho de pássaro e papéis de parede descolando
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
1 123
Charles Bukowski
2 Cravos
meu amor me trouxe 2 cravos
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
1 022
Charles Bukowski
Minha
Ela jaz ali embolada.
Posso sentir a grande montanha vazia
de sua cabeça
mas ela está viva. Boceja e
coça o nariz e
puxa para si as cobertas.
Logo lhe darei o beijo de boa-noite
e nós vamos dormir.
E longínqua é a Escócia
e embaixo da terra
correm os roedores.
Ouço motores na noite
e pelo céu rodopia uma
branca mão:
boa noite, querida, boa noite.
Posso sentir a grande montanha vazia
de sua cabeça
mas ela está viva. Boceja e
coça o nariz e
puxa para si as cobertas.
Logo lhe darei o beijo de boa-noite
e nós vamos dormir.
E longínqua é a Escócia
e embaixo da terra
correm os roedores.
Ouço motores na noite
e pelo céu rodopia uma
branca mão:
boa noite, querida, boa noite.
683
Charles Bukowski
O Amor É Uma Forma de Egoísmo
vadiagem, a trompa de eustáquio e a hera verde insetomorta
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falávamos de coisas que não importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionávamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustáquio!
já se foram os dias, já se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que não importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos são ouro
teu cabelo é ouro
teu amor é ouro
teu túmulo é ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mãos são ouro e tua voz é ouro
e todas as crianças caminhando
e as árvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto você está
trompa de eustáquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estão indo embora
por cima das árvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leão
junto aos portões de ouro.
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falávamos de coisas que não importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionávamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustáquio!
já se foram os dias, já se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que não importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos são ouro
teu cabelo é ouro
teu amor é ouro
teu túmulo é ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mãos são ouro e tua voz é ouro
e todas as crianças caminhando
e as árvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto você está
trompa de eustáquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estão indo embora
por cima das árvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leão
junto aos portões de ouro.
1 152
Charles Bukowski
Quente
há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
1 195
Charles Bukowski
Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato
ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
1 394
Charles Bukowski
Invasão
eu não sabia que
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
1 256
Charles Bukowski
Parabéns, Chinaski
conforme me aproximo dos 70
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
1 099
Charles Bukowski
Me Modernizando
bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”
“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.
agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”
“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.
agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 050
Charles Bukowski
Meus Novos Pais
(para o sr. e a sra. P.C.)
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
965
Charles Bukowski
55 Camas Na Mesma Direção
essas meias-noites brilhantes
cobras de gabardine passando através
de paredes, sons
interrompidos por batidas de carros de bêbados em
carros de dez anos de idade
você sabe que sujou de novo e depois
de novo
é nessas meias-noites brilhantes
em meio à luta contra mariposas e minúsculos
mosquitos,
sua mulher atrás de você
se retorcendo nos cobertores
pensando que você não a ama mais;
não é verdade, claro,
mas as paredes são familiares e
já gostei de paredes
já louvei paredes:
me dá uma parede que eu te dou um caminho –
isso é tudo o que pedi em
troca. mas acho que eu queria dizer:
eu te dou o meu
caminho.
é muito difícil escrever um
soneto enquanto você dorme num albergue noturno com
55 homens roncando
em 55 camas todas elas apontadas na mesma direção.
vou contar o que eu pensava:
esses homens perderam tanto a chance quanto a
imaginação.
dá pra descobrir tanto sobre os homens pelo
modo como eles roncam quanto pelo modo como eles
andam, mas por outro lado
nunca fui grande coisa nos sonetos.
mas outrora eu achava que encontraria todos os grandes homens na
rua da amargura,
outrora eu achava que encontraria grandes homens por lá
homens fortes que haviam descartado a sociedade,
em vez disso encontrei homens que a sociedade havia
consumido.
eles eram embotados
ineptos e
ainda
ambiciosos.
os chefes me pareceram mais
interessantes e mais vivos dos que os
escravos.
e isso não era muito romântico. costumamos gostar mais de coisas
românticas.
55 camas apontadas na mesma
direção e
eu não conseguia dormir
minhas costas doíam
e havia uma sensação invariável na minha
testa como um pedaço de
chapa de metal.
realmente não era muito terrível mas de certo modo
era muito impossível.
e eu pensei,
todos esses corpos e todos esses dedos nos pés e todas
essas unhas e todos esses pelos nos
cus e todo esse fedor
imaculada e aceita malhação das
coisas,
não podemos fazer algo a respeito?
sem chance, veio a resposta, eles não
querem.
então, olhando tudo em volta
todas aquelas 55 camas apontadas na mesma
direção
eu pensei,
todos esses homens foram bebês um dia
todos esses homens foram fofinhos e
rosados (com exceção dos pretos e dos amarelos
e dos vermelhos e dos outros).
eles choravam e sentiam,
tinham um caminho.
agora viraram
sofisticados e
fleumáticos
indesejados.
eu
saí.
eu me meti entre 4 paredes
sozinho.
eu me dei uma brilhante
meia-noite. outras meias-noites brilhantes
chegaram. não era tão
difícil.
mas se eles tivessem estado lá:
(aqueles homens) eu teria ficado lá com
eles.
se isso puder poupar você dos mesmos anos de erro
permita-me:
o segredo está nas paredes
ouvir um pequeno rádio
enrolar cigarros
beber
café
cerveja
água
suco de uva
uma lâmpada ardendo perto de você
tudo vem de arrasto –
os nomes
a história
um fluxo um fluxo
o olhar da psique de cima pra baixo
o efeito zunidor
a queima de macacos.
as brilhantes paredes da meia-noite:
não há como parar nem mesmo quando sua cabeça rola
embaixo da cama e o gato enterra
as fezes.
cobras de gabardine passando através
de paredes, sons
interrompidos por batidas de carros de bêbados em
carros de dez anos de idade
você sabe que sujou de novo e depois
de novo
é nessas meias-noites brilhantes
em meio à luta contra mariposas e minúsculos
mosquitos,
sua mulher atrás de você
se retorcendo nos cobertores
pensando que você não a ama mais;
não é verdade, claro,
mas as paredes são familiares e
já gostei de paredes
já louvei paredes:
me dá uma parede que eu te dou um caminho –
isso é tudo o que pedi em
troca. mas acho que eu queria dizer:
eu te dou o meu
caminho.
é muito difícil escrever um
soneto enquanto você dorme num albergue noturno com
55 homens roncando
em 55 camas todas elas apontadas na mesma direção.
vou contar o que eu pensava:
esses homens perderam tanto a chance quanto a
imaginação.
dá pra descobrir tanto sobre os homens pelo
modo como eles roncam quanto pelo modo como eles
andam, mas por outro lado
nunca fui grande coisa nos sonetos.
mas outrora eu achava que encontraria todos os grandes homens na
rua da amargura,
outrora eu achava que encontraria grandes homens por lá
homens fortes que haviam descartado a sociedade,
em vez disso encontrei homens que a sociedade havia
consumido.
eles eram embotados
ineptos e
ainda
ambiciosos.
os chefes me pareceram mais
interessantes e mais vivos dos que os
escravos.
e isso não era muito romântico. costumamos gostar mais de coisas
românticas.
55 camas apontadas na mesma
direção e
eu não conseguia dormir
minhas costas doíam
e havia uma sensação invariável na minha
testa como um pedaço de
chapa de metal.
realmente não era muito terrível mas de certo modo
era muito impossível.
e eu pensei,
todos esses corpos e todos esses dedos nos pés e todas
essas unhas e todos esses pelos nos
cus e todo esse fedor
imaculada e aceita malhação das
coisas,
não podemos fazer algo a respeito?
sem chance, veio a resposta, eles não
querem.
então, olhando tudo em volta
todas aquelas 55 camas apontadas na mesma
direção
eu pensei,
todos esses homens foram bebês um dia
todos esses homens foram fofinhos e
rosados (com exceção dos pretos e dos amarelos
e dos vermelhos e dos outros).
eles choravam e sentiam,
tinham um caminho.
agora viraram
sofisticados e
fleumáticos
indesejados.
eu
saí.
eu me meti entre 4 paredes
sozinho.
eu me dei uma brilhante
meia-noite. outras meias-noites brilhantes
chegaram. não era tão
difícil.
mas se eles tivessem estado lá:
(aqueles homens) eu teria ficado lá com
eles.
se isso puder poupar você dos mesmos anos de erro
permita-me:
o segredo está nas paredes
ouvir um pequeno rádio
enrolar cigarros
beber
café
cerveja
água
suco de uva
uma lâmpada ardendo perto de você
tudo vem de arrasto –
os nomes
a história
um fluxo um fluxo
o olhar da psique de cima pra baixo
o efeito zunidor
a queima de macacos.
as brilhantes paredes da meia-noite:
não há como parar nem mesmo quando sua cabeça rola
embaixo da cama e o gato enterra
as fezes.
698
Charles Bukowski
Gorjeio No
gorjeio no melro de minha noite
por entre respiração de pechblenda,
e que os condados aumentem seus impostos
e o lenhador sinta coceiras em seu sono;
gorjeio no melro de minha noite,
e que os exércitos se vistam para dançar
nas ruas, e garotinhas
beijem as frutas que enchem suas barrigas;
gorjeio no melro de minha noite,
esgote os seus verões em grunhidos e gemidos,
belisque os caules dos lírios quando
o coração do câncer queimar o amor;
gorjeio no melro de minha noite,
gorjeio na nota,
meu país é alto para cair
a ferrugem dos dias
de Moscou a Nova York
acrescenta um terror de horas
mas não reclamo
os dez mil beijos
ou os paus e as pedras
ou Roma quebrada,
mas espero a sua nota,
meus dedos arranham
a mesa iluminada de sol.
por entre respiração de pechblenda,
e que os condados aumentem seus impostos
e o lenhador sinta coceiras em seu sono;
gorjeio no melro de minha noite,
e que os exércitos se vistam para dançar
nas ruas, e garotinhas
beijem as frutas que enchem suas barrigas;
gorjeio no melro de minha noite,
esgote os seus verões em grunhidos e gemidos,
belisque os caules dos lírios quando
o coração do câncer queimar o amor;
gorjeio no melro de minha noite,
gorjeio na nota,
meu país é alto para cair
a ferrugem dos dias
de Moscou a Nova York
acrescenta um terror de horas
mas não reclamo
os dez mil beijos
ou os paus e as pedras
ou Roma quebrada,
mas espero a sua nota,
meus dedos arranham
a mesa iluminada de sol.
1 065
Charles Bukowski
O Aluguel Também É Alto
há feras no saleiro
e aeródromos na cafeteira.
a mão da minha mãe está na gaveta das sacolas
e da parte de trás das colheres vêm
os gritos de pequenos animais torturados.
no armário há um homem que foi assassinado
vestindo uma nova gravata verde
e sob o piso
há um anjo prestes a se sufocar com narinas resplandecentes.
é difícil viver aqui.
é bem difícil viver aqui.
à noite as sombras são criaturas não nascidas.
debaixo da cama
aranhas matam pequenas e minúsculas ideias.
as noites são ruins
as noites são bem ruins
bebo para dormir
preciso beber para dormir.
pela manhã
durante o café
vejo-os rolarem os mortos rua abaixo
(nunca leio sobre isso nos jornais).
e há águias por toda a parte
pousadas sobre os telhados, no gramado, dentro do meu carro.
as águias não possuem olhos e cheiram a enxofre.
é bem desencorajador.
as pessoas me visitam
sentam-se em cadeiras a minha frente
e eu as vejo rastejando com parasitas –
insetos verdes e dourados e amarelos
eles não são nunca varridos.
tenho vivido aqui por muito tempo.
logo preciso ir para Omaha.
dizem que tudo é de jade por lá
e que não se move.
dizem que você pode pregar desenhos na água
e dormir no alto dos olivais.
me pergunto será que isso é
verdade?
não posso viver aqui por muito mais tempo.
e aeródromos na cafeteira.
a mão da minha mãe está na gaveta das sacolas
e da parte de trás das colheres vêm
os gritos de pequenos animais torturados.
no armário há um homem que foi assassinado
vestindo uma nova gravata verde
e sob o piso
há um anjo prestes a se sufocar com narinas resplandecentes.
é difícil viver aqui.
é bem difícil viver aqui.
à noite as sombras são criaturas não nascidas.
debaixo da cama
aranhas matam pequenas e minúsculas ideias.
as noites são ruins
as noites são bem ruins
bebo para dormir
preciso beber para dormir.
pela manhã
durante o café
vejo-os rolarem os mortos rua abaixo
(nunca leio sobre isso nos jornais).
e há águias por toda a parte
pousadas sobre os telhados, no gramado, dentro do meu carro.
as águias não possuem olhos e cheiram a enxofre.
é bem desencorajador.
as pessoas me visitam
sentam-se em cadeiras a minha frente
e eu as vejo rastejando com parasitas –
insetos verdes e dourados e amarelos
eles não são nunca varridos.
tenho vivido aqui por muito tempo.
logo preciso ir para Omaha.
dizem que tudo é de jade por lá
e que não se move.
dizem que você pode pregar desenhos na água
e dormir no alto dos olivais.
me pergunto será que isso é
verdade?
não posso viver aqui por muito mais tempo.
693
Charles Bukowski
Eu Estou Morto Mas Sei Que Os Mortos Não São Desse Jeito
os mortos podem dormir
eles não acordam e se enfurecem
eles não têm uma esposa.
o rosto branco dela
como uma flor numa janela
fechada se eleva e
olha para mim.
a cortina fuma um cigarro
e uma mariposa morre num
acidente na autoestrada
enquanto examino as sombras de minhas
mãos.
uma coruja, do tamanho de um relógio de bebê
bate por mim, vamos vamos
ela diz enquanto Jerusalém é arrastada
por saguões manchados por corrimento.
a erva das 5 da manhã é nasal agora
em sussurros de cruzadores e vales
na luz estuprada que traz consigo
os pássaros fascistas.
apago a lâmpada e entro na cama
ao lado dela, ela pensa que estou ali
murmura uma gratidão rósea
enquanto estendo minhas pernas
à medida de um caixão
entro e nado para longe
de sapos e fortunas.
eles não acordam e se enfurecem
eles não têm uma esposa.
o rosto branco dela
como uma flor numa janela
fechada se eleva e
olha para mim.
a cortina fuma um cigarro
e uma mariposa morre num
acidente na autoestrada
enquanto examino as sombras de minhas
mãos.
uma coruja, do tamanho de um relógio de bebê
bate por mim, vamos vamos
ela diz enquanto Jerusalém é arrastada
por saguões manchados por corrimento.
a erva das 5 da manhã é nasal agora
em sussurros de cruzadores e vales
na luz estuprada que traz consigo
os pássaros fascistas.
apago a lâmpada e entro na cama
ao lado dela, ela pensa que estou ali
murmura uma gratidão rósea
enquanto estendo minhas pernas
à medida de um caixão
entro e nado para longe
de sapos e fortunas.
1 220
Charles Bukowski
O Eu Singular
há esses pequenos penhascos
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
822
Charles Bukowski
Eu Também Tenho a Cueca Carimbada
escuto suas vozes do lado de fora:
“ele sempre bate à máquina até tão
tarde?”
“não, é bastante incomum.”
“ele não deveria bater a essa
hora.”
“isso quase nunca acontece.”
“ele bebe?”
“acho que sim.”
“ontem ele foi até a caixa
do correio só de cuecas.”
“eu também vi.”
“ele não tem amigos.”
“está velho.”
“não deveria bater a esta hora.”
eles entram e começa
a chover enquanto
3 disparos soam a meia quadra
de distância e
um dos arranha-céus no
centro de L.A. começa
a arder
em chamas de 8 metros que lambem a escuridão
da noite.
“ele sempre bate à máquina até tão
tarde?”
“não, é bastante incomum.”
“ele não deveria bater a essa
hora.”
“isso quase nunca acontece.”
“ele bebe?”
“acho que sim.”
“ontem ele foi até a caixa
do correio só de cuecas.”
“eu também vi.”
“ele não tem amigos.”
“está velho.”
“não deveria bater a esta hora.”
eles entram e começa
a chover enquanto
3 disparos soam a meia quadra
de distância e
um dos arranha-céus no
centro de L.A. começa
a arder
em chamas de 8 metros que lambem a escuridão
da noite.
1 137