Poemas neste tema
Noite e Lua
Charles Bukowski
Junkies
“ela aplicou no pescoço”, ela me
disse. eu disse que era para me aplicar
na bunda e ela tentou e disse, “oh-oh”,
e eu disse, “que merda está acontecendo?”
ela disse, “nada, este é o modo Nova York
de fazer a coisa”, e tentou enfiar a agulha de novo e disse,
“oh, merda”. Peguei o negócio e tentei me aplicar
no braço, consegui injetar uma parte.
“não sei por que as pessoas
se metem com isso, não há nada
de mais. acho que são todos uns coitados
e querem realmente chegar ao fundo do poço. não
há saída, é como se eles não conseguissem
chegar onde querem ou pretendem
e não tivessem outra saída.
isso tinha que ser assim.
ela aplicou no pescoço.”
“eu sei”, eu disse. “liguei pra ela, ela
mal conseguia falar, disse que estava com
laringite. tome um pouco deste vinho.”
era vinho branco e 4h20 da manhã e sua
filha dormia no quarto. a tevê
a cabo estava ligada sem volume e
um enorme pôster com um John Wayne ainda jovem
nos velava, e não nos beijamos nem sequer fizemos
amor e acabei saindo de lá às 6h15
depois que a cerveja e o vinho acabaram
e também para que sua filha não acordasse para ir ao
colégio e me encontrasse ali sentado na
cama de sua mãe
com o John Wayne e a noite encerrada
e sem quaisquer esperanças para quem quer que fosse...
disse. eu disse que era para me aplicar
na bunda e ela tentou e disse, “oh-oh”,
e eu disse, “que merda está acontecendo?”
ela disse, “nada, este é o modo Nova York
de fazer a coisa”, e tentou enfiar a agulha de novo e disse,
“oh, merda”. Peguei o negócio e tentei me aplicar
no braço, consegui injetar uma parte.
“não sei por que as pessoas
se metem com isso, não há nada
de mais. acho que são todos uns coitados
e querem realmente chegar ao fundo do poço. não
há saída, é como se eles não conseguissem
chegar onde querem ou pretendem
e não tivessem outra saída.
isso tinha que ser assim.
ela aplicou no pescoço.”
“eu sei”, eu disse. “liguei pra ela, ela
mal conseguia falar, disse que estava com
laringite. tome um pouco deste vinho.”
era vinho branco e 4h20 da manhã e sua
filha dormia no quarto. a tevê
a cabo estava ligada sem volume e
um enorme pôster com um John Wayne ainda jovem
nos velava, e não nos beijamos nem sequer fizemos
amor e acabei saindo de lá às 6h15
depois que a cerveja e o vinho acabaram
e também para que sua filha não acordasse para ir ao
colégio e me encontrasse ali sentado na
cama de sua mãe
com o John Wayne e a noite encerrada
e sem quaisquer esperanças para quem quer que fosse...
788
Charles Bukowski
12:18 A.M.
decapitado no meio da
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.
vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.
escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.
retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.
tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.
a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.
alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.
volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.
dou uma risada.
é bom que eles não
saibam.
pego minha cabeça
coloco-a novamente em meu
pescoço
entro sob os lençóis e
não consigo dormir.
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.
vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.
escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.
retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.
tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.
a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.
alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.
volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.
dou uma risada.
é bom que eles não
saibam.
pego minha cabeça
coloco-a novamente em meu
pescoço
entro sob os lençóis e
não consigo dormir.
890
Charles Bukowski
Um Poema Para a Armadura Peitoral
tenho um ditado, “os duros sempre retornam”.
mas Vera era mais doce do que a maioria,
e assim fiquei surpreso quando
ela chegou naquela noite
dizendo, “me deixe entrar”.
“não, não, estou trabalhando num soneto.”
“ficarei só um minuto, depois me
vou.”
“Vera, se eu deixar você entrar sei que só sairá daqui
em 3 ou 4 dias.”
era noite e eu não acendera
a luz da varanda e assim não pude vê-la
se aproximar
mas
ela lançou uma direita que
explodiu bem no centro do meu
peito.
“baby, esse foi um soco lindo.
agora caia fora.”
então fechei a porta.
ela voltou 5 minutos depois:
“Hank, não consigo achar meu carro, eu
juro que não consigo achar. me ajude
a encontrá-lo!”
vi meu amigo Bobby-the-Riff
caminhando. “ei, Bobby ajude
essa aí a achar o carro. nos
falamos depois.”
foram juntos.
mais tarde Bobby disse que encontraram
o carro na frente do pátio de alguém,
motor e luzes
ligados.
não ouvi mais falar de Vera
desde então
a não ser que seja ela
quem me liga
às 2 e 3 e 4 da manhã
e não responde quando eu
digo “alô”.
mas Bobby diz que
pode cuidar dela
então decidi deixá-la
para Bobby.
ela mora numa rua lateral em algum lugar de
Glendale
e eu o ajudo a abrir o
mapa rodoviário enquanto bebemos nossas
Schlitz dietéticas.
mas Vera era mais doce do que a maioria,
e assim fiquei surpreso quando
ela chegou naquela noite
dizendo, “me deixe entrar”.
“não, não, estou trabalhando num soneto.”
“ficarei só um minuto, depois me
vou.”
“Vera, se eu deixar você entrar sei que só sairá daqui
em 3 ou 4 dias.”
era noite e eu não acendera
a luz da varanda e assim não pude vê-la
se aproximar
mas
ela lançou uma direita que
explodiu bem no centro do meu
peito.
“baby, esse foi um soco lindo.
agora caia fora.”
então fechei a porta.
ela voltou 5 minutos depois:
“Hank, não consigo achar meu carro, eu
juro que não consigo achar. me ajude
a encontrá-lo!”
vi meu amigo Bobby-the-Riff
caminhando. “ei, Bobby ajude
essa aí a achar o carro. nos
falamos depois.”
foram juntos.
mais tarde Bobby disse que encontraram
o carro na frente do pátio de alguém,
motor e luzes
ligados.
não ouvi mais falar de Vera
desde então
a não ser que seja ela
quem me liga
às 2 e 3 e 4 da manhã
e não responde quando eu
digo “alô”.
mas Bobby diz que
pode cuidar dela
então decidi deixá-la
para Bobby.
ela mora numa rua lateral em algum lugar de
Glendale
e eu o ajudo a abrir o
mapa rodoviário enquanto bebemos nossas
Schlitz dietéticas.
1 161
Manuel Bandeira
Noturno da Mosela
A noite... O silêncio...
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não pára! que não pára!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge — e sinto que foge inutilmente!
O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...
Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!
Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.
Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...
No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...
Petrópolis, 1921
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não pára! que não pára!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge — e sinto que foge inutilmente!
O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...
Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!
Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.
Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...
No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...
Petrópolis, 1921
1 686
Manuel Bandeira
Chambre Vide
Petit chat blanc et gris
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pêse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frêre du silence
Reste encore
Reste auprês de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat
La nuit pêse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Ou sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de Pélectricite
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frere du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprês de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.
Petrópolis, 1925
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pêse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frêre du silence
Reste encore
Reste auprês de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat
La nuit pêse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Ou sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de Pélectricite
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frere du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprês de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.
Petrópolis, 1925
1 742
Manuel Bandeira
Piscina
Que silêncio enorme!
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
1 512
Manuel Bandeira
O Martelo
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
2 318
Manuel Bandeira
Lua
A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
O mar jaz como um céu tombado,
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.
O mar jaz como um céu tombado,
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
1 822
Manuel Bandeira
O Fauno
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte,
Grita o fauno:
— "Bem que velho,
Te reclamo.
Bem que velho,
Te desejo,
Quero e chamo,
O novelletum quod ludis
In solitudine cordis!
Ó desejada que ainda
Não sabes que és desejada!
Deixa os brancos véus do pejo
E no inóspito jardim
Das oliveiras te cobre
De cilício da paixão!
Respira as auras ardentes,
Cospe fogo,
Vira vento e furacão,
Sopra rijo sobre mim,
Me delabra, me ensorcela,
Ninfa bela!
Não jamais
Ninfomaníaca: és triste,
Ês calada,
És elegíaca.
Por isso mesmo é que te amo,
Te desejo,
Quero e chamo,
"Ninfa! Aonde estás? Aonde?..."
Grita o fauno, mas só o eco
De sua voz lhe responde
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte.
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte,
Grita o fauno:
— "Bem que velho,
Te reclamo.
Bem que velho,
Te desejo,
Quero e chamo,
O novelletum quod ludis
In solitudine cordis!
Ó desejada que ainda
Não sabes que és desejada!
Deixa os brancos véus do pejo
E no inóspito jardim
Das oliveiras te cobre
De cilício da paixão!
Respira as auras ardentes,
Cospe fogo,
Vira vento e furacão,
Sopra rijo sobre mim,
Me delabra, me ensorcela,
Ninfa bela!
Não jamais
Ninfomaníaca: és triste,
Ês calada,
És elegíaca.
Por isso mesmo é que te amo,
Te desejo,
Quero e chamo,
"Ninfa! Aonde estás? Aonde?..."
Grita o fauno, mas só o eco
De sua voz lhe responde
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte.
1 312
Manuel Bandeira
O Súcubo
Quando em silêncio a casa adormecia e vinha
Ao meu quarto a aromada emanação dos matos,
Deslizáveis astuta, amorosa e daninha,
Propinando na treva o absinto dos contatos.
Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha,
Um por um despojando os fictícios recatos,
Estreitáveis-me cauta e essa pupila tinha
Fosforescências como a pupila dos gatos.
Tudo em vós flamejava em instintiva fúria.
A garganta cruel arfava com luxúria.
O ventre era um covil de serpentes em cio...
Sem paixão, sem pudor, sem escrúpulos — éreis
Tão bela! e as vossas mãos, fontes de calefrio,
Abrasavam no ardor das volúpias estéreis...
Teresópolis, 1912
Ao meu quarto a aromada emanação dos matos,
Deslizáveis astuta, amorosa e daninha,
Propinando na treva o absinto dos contatos.
Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha,
Um por um despojando os fictícios recatos,
Estreitáveis-me cauta e essa pupila tinha
Fosforescências como a pupila dos gatos.
Tudo em vós flamejava em instintiva fúria.
A garganta cruel arfava com luxúria.
O ventre era um covil de serpentes em cio...
Sem paixão, sem pudor, sem escrúpulos — éreis
Tão bela! e as vossas mãos, fontes de calefrio,
Abrasavam no ardor das volúpias estéreis...
Teresópolis, 1912
1 401
Manuel Bandeira
O Descante de Arlequim
A lua ainda não nasceu.
À escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu,
De amores frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, polido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
À escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu,
De amores frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, polido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
1 213
Manuel Bandeira
Chanson Des Petits Esclaves
Constellations
Maitresses vraiment
Trop insouciantes
O petits esclaves
Secouez vos chaînes
Les cieux sont plus sombres
Que les beaux miroirs
Finis les tracas
Finie toute peine.
O petits esclaves
Black-boulez les reines
La folle journée
7 aurai vite fait
D'avoir mis d'emblée
Toutes les sirênes
Sous mes arrosoirs
Car voici demain
O petits esclaves
Secouez vos chaines
Donnez-vous la main.
Maitresses vraiment
Trop insouciantes
O petits esclaves
Secouez vos chaînes
Les cieux sont plus sombres
Que les beaux miroirs
Finis les tracas
Finie toute peine.
O petits esclaves
Black-boulez les reines
La folle journée
7 aurai vite fait
D'avoir mis d'emblée
Toutes les sirênes
Sous mes arrosoirs
Car voici demain
O petits esclaves
Secouez vos chaines
Donnez-vous la main.
1 297
Manuel Bandeira
Confidência
Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso
Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido...
Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.
Em tuas mãos de morte, ó minha Noite escura!
Aperta as minhas mãos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim há de grave e carinhoso.
1918
Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido...
Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.
Em tuas mãos de morte, ó minha Noite escura!
Aperta as minhas mãos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim há de grave e carinhoso.
1918
1 071
Manuel Bandeira
Solau do Desamado
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
1 434
Manuel Bandeira
Tema e Voltas
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
1 277
Manuel Bandeira
Madrugada
As estrelas tremem no ar frio, no céu frio...
E no ar frio pinga, levíssima, a orvalhada.
Nem mais um ruído corta o silêncio da estrada,
Senão na ribanceira um vago murmáúrio.
Tudo dorme. Eu, no entanto, olho o espaço sombrio,
Pensando em ti, ó doce imagem adorada!...
As estrelas tremem no ar frio, no céu frio,
E no ar frio pingam as gotas da orvalhada...
E enquanto penso em ti, no meu sonho erradio,
Sentindo a dor atroz dessa ânsia incontentada,
— Fora, aos beijos glaciais e cruéis da geada,
Tremem as flores, treme e foge, ondeando, o rio,
E as estrelas tremem no ar frio, no céu frio...
E no ar frio pinga, levíssima, a orvalhada.
Nem mais um ruído corta o silêncio da estrada,
Senão na ribanceira um vago murmáúrio.
Tudo dorme. Eu, no entanto, olho o espaço sombrio,
Pensando em ti, ó doce imagem adorada!...
As estrelas tremem no ar frio, no céu frio,
E no ar frio pingam as gotas da orvalhada...
E enquanto penso em ti, no meu sonho erradio,
Sentindo a dor atroz dessa ânsia incontentada,
— Fora, aos beijos glaciais e cruéis da geada,
Tremem as flores, treme e foge, ondeando, o rio,
E as estrelas tremem no ar frio, no céu frio...
1 434
Manuel Bandeira
Dentro da Noite
Dentro da noite a vida canta
E esgarça névoas ao luar...
Fosco minguante o vale encanta.
Morreu pecando alguma santa...
A água não pára de chorar.
Há um amavio esparso no ar...
Donde virá ternura tanta?...
Paira um sossego singular
Dentro da noite...
Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta
Que definhou do mal de amar...
Ouve... Dir-se-ia uma garganta
Súplice, triste, a soluçar
Dentro da noite...
E esgarça névoas ao luar...
Fosco minguante o vale encanta.
Morreu pecando alguma santa...
A água não pára de chorar.
Há um amavio esparso no ar...
Donde virá ternura tanta?...
Paira um sossego singular
Dentro da noite...
Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta
Que definhou do mal de amar...
Ouve... Dir-se-ia uma garganta
Súplice, triste, a soluçar
Dentro da noite...
2 236
Marina Colasanti
O perigo é quando
No ano de mil quinhentos e quarenta e dois
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
1 105
Marina Colasanti
Livres à noite
Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
1 007
Marina Colasanti
Mesmo se
Corredores do dia
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
1 145
Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 268
Marina Colasanti
Respiram à noite
À noite
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 029
Marina Colasanti
Perspectiva à noite
Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 129
Marina Colasanti
DEPOIS DA CHUVA E ANTES DA NOITE
Que doce é essa montanha
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente
a neblina desponta
coleando espirais entre as encostas
e em algum ponto
um som de cachoeira se enovela.
A mata toda estala
de tantas leves patas
tantas asas
e o lento acomodar de terra e tocas.
Na moita de bambus
mais um broto se lança
agudo prumo procurando o alto.
A tarde deita em pregas as suas sombras.
E na distância
cães esparsos latem
escorraçando o escuro que se expande.
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente
a neblina desponta
coleando espirais entre as encostas
e em algum ponto
um som de cachoeira se enovela.
A mata toda estala
de tantas leves patas
tantas asas
e o lento acomodar de terra e tocas.
Na moita de bambus
mais um broto se lança
agudo prumo procurando o alto.
A tarde deita em pregas as suas sombras.
E na distância
cães esparsos latem
escorraçando o escuro que se expande.
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