Poemas neste tema
Amor Romântico
Carlos Drummond de Andrade
O Amor E Seus Contratos
Voltas a um mote de Joaquim-Francisco Coelho
Nos contratos que tu lavras
não vi, Amor, valimento.
Só palavras e palavras
feitas de sonho e de vento.
Tanto nas juras mais vivas
como nos beijos mais longos
em que perduram salivas
de outras paixões ainda ativas,
sopro de angolas e congos,
eu sinto a turva incerteza
(ai, ouro de tredas lavras)
da enovelada surpresa
que põe tanto de estranheza
nos contratos que tu lavras.
Por mais que no teu falar
brilhe a promessa incessante
de um afeto a perdurar
até o mundo acabar
e mesmo depois — diamante
de mil prismas incendidos — ,
amarga-me o pensamento
de serem pactos fingidos
e nos seus subentendidos
não vi, Amor, valimento.
Experiência de escrituras
eu tenho. De que me serve?
Após sofridas leituras
de ementas e de rasuras,
no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios
de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios,
teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.
As nulidades tamanhas
que te invalidam o trato
não sei se provêm de manhas
ou de vistas mais estranhas.
Serão talvez teu retrato
gravado em vento ou em sonho
como aéreo documento
que nunca mais recomponho.
São todas — digo tristonho —
feitas de sonho e de vento.
Nos contratos que tu lavras
não vi, Amor, valimento.
Só palavras e palavras
feitas de sonho e de vento.
Tanto nas juras mais vivas
como nos beijos mais longos
em que perduram salivas
de outras paixões ainda ativas,
sopro de angolas e congos,
eu sinto a turva incerteza
(ai, ouro de tredas lavras)
da enovelada surpresa
que põe tanto de estranheza
nos contratos que tu lavras.
Por mais que no teu falar
brilhe a promessa incessante
de um afeto a perdurar
até o mundo acabar
e mesmo depois — diamante
de mil prismas incendidos — ,
amarga-me o pensamento
de serem pactos fingidos
e nos seus subentendidos
não vi, Amor, valimento.
Experiência de escrituras
eu tenho. De que me serve?
Após sofridas leituras
de ementas e de rasuras,
no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios
de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios,
teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.
As nulidades tamanhas
que te invalidam o trato
não sei se provêm de manhas
ou de vistas mais estranhas.
Serão talvez teu retrato
gravado em vento ou em sonho
como aéreo documento
que nunca mais recomponho.
São todas — digo tristonho —
feitas de sonho e de vento.
1 314
Carlos Drummond de Andrade
O Colegial E a Cidade
Fizeram bem os suíços
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
612
Carlos Drummond de Andrade
Sina
Nesta mínima cidade
os moços são disputados
para ofício de marido.
Não há rapaz que não tenha
uma, duas, vinte noivas
bordando no pensamento
um enxoval de desejos,
outro enxoval de esperanças.
Depois de muito bordar
e de esperar na janela
maridos de vai-com-o-vento,
as moças, murchando o luar,
já traçam, de mãos paradas,
sobre roxas almofadas,
hirtas grades de convento.
os moços são disputados
para ofício de marido.
Não há rapaz que não tenha
uma, duas, vinte noivas
bordando no pensamento
um enxoval de desejos,
outro enxoval de esperanças.
Depois de muito bordar
e de esperar na janela
maridos de vai-com-o-vento,
as moças, murchando o luar,
já traçam, de mãos paradas,
sobre roxas almofadas,
hirtas grades de convento.
1 091
Carlos Drummond de Andrade
Maralto
Que coisa é maralto?
O mar que de assalto
cobre toda a vista?
Galo cuja crista
salta em sobressalto
a quem lhe resista?
O mar — que é maralto?
Acaso torre alta
nuvem tronco espanto
de fluido agapanto,
de flores em malta
doida, a cada canto
do mar que se exalta?
Marulho ou maralto?
Mar seco tão alto,
de um íris cambiante
que em azul-cobalto
se volve num salto
e no peito amante
o duro basalto,
a pena constante
de amar vai roendo,
e a sedenta falta
— voz baixa, mar alto
em sal convertendo?
Que outra onda mais alta,
maralto metuendo,
que um amor sofrendo?
Maralto, maraltas!
Quanto mais esmaltas
de espuma esse rosto
branco descomposto,
mais se espremem altas
uvas de teu mosto,
mais vivo é seu gosto.
Maralto fremente
gêiser sob asfalto
puro jato ardente
pranto que se sente
vagando em contralto
veementemente,
alto mar maralto!
Na lívida escama
no agudo ressalto
de teu cosmorama,
quem sabe, maralto,
o que de tão alto,
tão alto, anda falto
no amor de quem ama?
(vb)
O mar que de assalto
cobre toda a vista?
Galo cuja crista
salta em sobressalto
a quem lhe resista?
O mar — que é maralto?
Acaso torre alta
nuvem tronco espanto
de fluido agapanto,
de flores em malta
doida, a cada canto
do mar que se exalta?
Marulho ou maralto?
Mar seco tão alto,
de um íris cambiante
que em azul-cobalto
se volve num salto
e no peito amante
o duro basalto,
a pena constante
de amar vai roendo,
e a sedenta falta
— voz baixa, mar alto
em sal convertendo?
Que outra onda mais alta,
maralto metuendo,
que um amor sofrendo?
Maralto, maraltas!
Quanto mais esmaltas
de espuma esse rosto
branco descomposto,
mais se espremem altas
uvas de teu mosto,
mais vivo é seu gosto.
Maralto fremente
gêiser sob asfalto
puro jato ardente
pranto que se sente
vagando em contralto
veementemente,
alto mar maralto!
Na lívida escama
no agudo ressalto
de teu cosmorama,
quem sabe, maralto,
o que de tão alto,
tão alto, anda falto
no amor de quem ama?
(vb)
1 859
Carlos Drummond de Andrade
O Combate da Luz
A Alphonsus de Guimaraens Filho
O combate da luz
contra os monstros da sombra:
assim tua poesia
é alvorada e angústia.
Pousa a morte nos ramos
do tronco apendoado.
Mas da seiva rebentam
novos, florentes cânticos.
Não pode o céu noturno
desfazer os berilos,
os íntimos diamantes
do verso teu ao mundo,
inefável presente
não de matéria vã:
do que melhor define
o fluido sentimento,
o lancinante anseio,
a sublimada essência
do amor, cativo e livre
— teu lírico segredo.
Pois pelo amor resgatas
o pensamento lúgubre,
a dor de antigas fontes,
as perdidas paragens,
e na era absurda crias
a ligação perene
da saudade dos anjos
na chama da poesia.
O combate da luz
contra os monstros da sombra:
assim tua poesia
é alvorada e angústia.
Pousa a morte nos ramos
do tronco apendoado.
Mas da seiva rebentam
novos, florentes cânticos.
Não pode o céu noturno
desfazer os berilos,
os íntimos diamantes
do verso teu ao mundo,
inefável presente
não de matéria vã:
do que melhor define
o fluido sentimento,
o lancinante anseio,
a sublimada essência
do amor, cativo e livre
— teu lírico segredo.
Pois pelo amor resgatas
o pensamento lúgubre,
a dor de antigas fontes,
as perdidas paragens,
e na era absurda crias
a ligação perene
da saudade dos anjos
na chama da poesia.
1 199
António Ramos Rosa
O Círculo da Casa
Sem te nomear e quase sem te ver, tu és o círculo
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
686
Carlos Drummond de Andrade
Véspera
Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
1 113
Carlos Drummond de Andrade
Lira do Amor Romântico
Ou a eterna repetição
Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.
Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.
Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.
Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.
Atirei um limão n’água,
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!
Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.
Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.
Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.
Atirei um limão n’água,
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.
Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.
Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.
Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.
Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.
Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.
Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.
Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.
Atirei um limão n’água,
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!
Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.
Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.
Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.
Atirei um limão n’água,
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.
Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.
Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.
Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.
Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
1 522
Carlos Drummond de Andrade
Epitalâmio
Para Márcia e Luís Hamilton
Musas latinas, musas gregas, musas
do velho Olimpo e do moderno mundo,
com alto sopro bafejai-me a lira
e dai-lhe o sentimento mais profundo.
Tenho a cumprir nobre missão de bardo,
devo cantar o amor naquele instante
miraculoso, antigo e sempre novo,
de transpassar em luz o peito amante.
Hoje Márcia gentil, neta de Horácio
(poeta ele também, por seus cabelos
de argêntea messe, e ardente coração),
une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los,
sinto surdir de oculta fonte o som
de música celeste, que às esferas
sublimes reconduz o ser humano,
e impregna de doçura as próprias feras;
o som da força cósmica, movente
do sol e das estrelas, conhecida,
que o florentino pôs em nobre verso,
e no meu tosco verso eis refletida:
o som do amor, o som do ameno grito
melodioso e santo e grave e jovial,
dramático, dolente, sobre-humano,
trazendo à vida uma razão geral.
Vai, Márcia, sê feliz, e teu esposo
contigo de mãos dadas, tempo afora,
um só sejam os dois, de tal maneira
que pouse a eternidade em cada hora.
Vosso himeneu, dos astros protegido,
seja lição de bem amar, oferta
a quantos, imaturos, desnorteados,
em vão tentam seguir a rota certa.
O sonho em vós se cristaliza e assume
o contorno sensível da existência.
Cada palavra e beijo que trocardes
dos deuses conterá a pura essência.
Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos,
os da alegria ritos celebrando,
despedem-se de vós. Eia, a caminho.
Tende por certo: amar se aprende amando.
Musas latinas, musas gregas, musas
do velho Olimpo e do moderno mundo,
com alto sopro bafejai-me a lira
e dai-lhe o sentimento mais profundo.
Tenho a cumprir nobre missão de bardo,
devo cantar o amor naquele instante
miraculoso, antigo e sempre novo,
de transpassar em luz o peito amante.
Hoje Márcia gentil, neta de Horácio
(poeta ele também, por seus cabelos
de argêntea messe, e ardente coração),
une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los,
sinto surdir de oculta fonte o som
de música celeste, que às esferas
sublimes reconduz o ser humano,
e impregna de doçura as próprias feras;
o som da força cósmica, movente
do sol e das estrelas, conhecida,
que o florentino pôs em nobre verso,
e no meu tosco verso eis refletida:
o som do amor, o som do ameno grito
melodioso e santo e grave e jovial,
dramático, dolente, sobre-humano,
trazendo à vida uma razão geral.
Vai, Márcia, sê feliz, e teu esposo
contigo de mãos dadas, tempo afora,
um só sejam os dois, de tal maneira
que pouse a eternidade em cada hora.
Vosso himeneu, dos astros protegido,
seja lição de bem amar, oferta
a quantos, imaturos, desnorteados,
em vão tentam seguir a rota certa.
O sonho em vós se cristaliza e assume
o contorno sensível da existência.
Cada palavra e beijo que trocardes
dos deuses conterá a pura essência.
Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos,
os da alegria ritos celebrando,
despedem-se de vós. Eia, a caminho.
Tende por certo: amar se aprende amando.
1 234
Carlos Drummond de Andrade
A Vida Passada a Limpo
Ó esplêndida lua, debruçada
sobre Joaquim Nabuco, 81.
Tu não banhas apenas a fachada
e o quarto de dormir, prenda comum.
Baixas a um vago em mim, onde nenhum
halo humano ou divino fez pousada,
e me penetras, lâmina de Ogum,
e sou uma lagoa iluminada.
Tudo branco, no tempo. Que limpeza
nos resíduos e vozes e na cor
que era sinistra, e agora, flor surpresa,
já não destila mágoa nem furor:
fruto de aceitação da natureza,
essa alvura de morte lembra amor.
sobre Joaquim Nabuco, 81.
Tu não banhas apenas a fachada
e o quarto de dormir, prenda comum.
Baixas a um vago em mim, onde nenhum
halo humano ou divino fez pousada,
e me penetras, lâmina de Ogum,
e sou uma lagoa iluminada.
Tudo branco, no tempo. Que limpeza
nos resíduos e vozes e na cor
que era sinistra, e agora, flor surpresa,
já não destila mágoa nem furor:
fruto de aceitação da natureza,
essa alvura de morte lembra amor.
1 187
Carlos Drummond de Andrade
Amor
O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
*
“Amor” — eu disse — e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
*
“Amor” — eu disse — e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.
1 948
Carlos Drummond de Andrade
Os Materiais da Vida
Drls? Faço meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em claviluxcamabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
a noite asfáltica
plkx
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em claviluxcamabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
a noite asfáltica
plkx
1 807
António Ramos Rosa
Um No Outro
Não aceito o que ainda não tem nome. Escuto
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
1 112
Carlos Drummond de Andrade
Sonetos do Pássaro
I
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um voo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um voo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
1 700
Carlos Drummond de Andrade
Os Poderes Infernais
O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.
Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.
Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe
o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.
Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.
Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe
o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.
1 274
António Ramos Rosa
A Filha do Sono
Tu és a filha do sono e cintilas na folhagem.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
621
António Ramos Rosa
Os Reflexos do Corpo
Entre o sono e o sílex, sob a furtiva abóbada,
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
1 042
António Ramos Rosa
Sim, Digamos Sim Sem o Dizer
Sim, digamos sim sem o dizer
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
1 112
António Ramos Rosa
Eu Vi o Corpo Em Fogo
Eu vi o ouro e o desenho de água que vibrava
em suaves membros, em veios de alegria,
e numa trança cintilante e curva. Vi o corpo em fogo
e vi a sua música, a transparência ardente e alta,
as suas sílabas fulvas, as suas lâmpadas verdes.
Era um incêndio claro e uma vertigem lenta
e uma melodia vagarosa, aérea
e um riso da folhagem e uma coluna transparente.
Não era a cinza trémula, nem uma obscura pomba.
Era uma lisura de estar nos seus contornos leves
e um ardor feliz de lâmpada que descia
num gracioso vagar uma colina repousada.
Acendia-se o lugar que somos na matéria amorosa
e as nascentes jorravam num delírio de brancura.
As palavras renasciam nas sílabas vermelhas.
em suaves membros, em veios de alegria,
e numa trança cintilante e curva. Vi o corpo em fogo
e vi a sua música, a transparência ardente e alta,
as suas sílabas fulvas, as suas lâmpadas verdes.
Era um incêndio claro e uma vertigem lenta
e uma melodia vagarosa, aérea
e um riso da folhagem e uma coluna transparente.
Não era a cinza trémula, nem uma obscura pomba.
Era uma lisura de estar nos seus contornos leves
e um ardor feliz de lâmpada que descia
num gracioso vagar uma colina repousada.
Acendia-se o lugar que somos na matéria amorosa
e as nascentes jorravam num delírio de brancura.
As palavras renasciam nas sílabas vermelhas.
953
António Ramos Rosa
Corpo Nocturno
Suspenso de uma varanda nocturna, na densa evanescência da noite, quem escuta, quem vê as sílabas derrubadas, as vogais e as gotas noctâmbulas, as miríades estilhaçadas de um dédalo que é talvez o corpo incendiado, o corpo inacessível? Todo o desejo é desejo de espaço e das gargantas que o habitam, despertas, vivíssimas. Um sombrio sangue mistura-se à espuma do ar, combina-se com o silêncio das árvores, penetra nas bocas com um delicado calor. Breve maravilha imóvel. Que música de minúcias leves! É apenas um lábio ou uma boca que crepita na sombra? Os ombros respiram como barcos, as palavras enrolam-se como folhas calmas no corpo que se abandona à terra numa obscura e ardente lucidez.
1 174
António Ramos Rosa
As Palavras do Ar
Varanda aberta. Espaço. Noite enrolada em folhas, noite de antenas e aromas, noite de bocas nubladas e brancas. Brilham constelações de lâmpadas através das nuvens. Escuto. Nem palavras nem silêncio. A voz é um odor da sombra. Deixa-me tocar-te o rosto, o teu rosto de espaço. Vejo-te através das pálpebras. Toco as mãos aéreas e silenciosas que atravessam a folhagem. Vejo os lábios rodeados de fogo. Estou no círculo da distância e escrevo as palavras adormecidas no ar.
1 239
António Ramos Rosa
Viver Em Ti
Vivo sem ti. Tu mesma, em ti mesma, quem és tu? Inexpugnável, no círculo de ti mesma, tu mesma em ti dentro, quem és tu? A minha ignorância do teu ser é completa. É a distância de uma total separação. Porque eu nada sei, nada, nunca saberei de ti um lábio, um impulso, um ardor de ser, um sossegado olhar, uma sensação feliz, uma sílaba viva do teu corpo. Queria ser-te, queria estar em ti, no mistério vivo e absoluto que tu és. Queria ser o deus fascinado de ti, no centro de ti, vendo-te, cheirando-te, sabendo-te, ouvindo-te, todo redondo e cheio, dentro e fora de ti, no vazio de ti, na espessura ardente e obscura do teu ser. Como te quero assim, no inteiro contacto, tocando-te e respirando-te, ardendo onduladamente em tuas veias! Esta é a mais perfeita glória, o gozo mais pleno, a mais maravilhosa identidade. Estou em ti e já nada me distancia ou me separa do que tu és dentro de ti e fora de ti. Estou dentro de ti, cego e luminoso, sou o teu espaço interno, o teu permanente renascer. Sou agora o que tu és, um caos suave e tumultuoso, um movimento permanente de sombras e de luzes, de ritmos e de cores. Estou dentro do teu corpo, maravilhosamente dentro, no sol do teu sexo, no centro da tua consciência. Sinto-me extremamente vivo em todos os teus poros. Toco o que tu tocas, ardo onde tu ardes, respiro o que tu respiras. Tudo o que eu disser é a tua própria palavra, a tua confiança vertiginosa, o teu alento de fulgurante ignorância.
1 220