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Poemas neste tema

Paixão

Rosy Feros

Rosy Feros

Dedos do silêncio

Vem...
     Me toma à beira da noite,
     caminha por mim
     com seus passos molhados,
     despeja seu rio no meu cálice
     – pois minha emoção é só água.

Vem...
     Que eu lhe dou um trago
     deste meu vinho guardado,
     destas minhas uvas
     frescas de inverno...
     Que eu derramo em gotas meu perfume
     pelos quatro cantos do seu corpo,
     vestindo sua pele com a camurça
     da nudez e do silêncio.

Vem...
     Deita e me canta,
     sente meu desejo
     se esgueirando pelos seus dedos,
     veleja sem bússola
     pelos meus sentidos,
     me olha como quem pede lua...

     Deixa eu sussurrar minhas folhas,
     soprar minhas pétalas
     pelo seu peito de relva,
     pelo seu solo macio.
     Vem... Não volta,
     esquece a hora morta
     do cotidiano de sempre.
     Me toca feito música
     e deixa eu cantar meu bolero
     pelas suas curvas de carne...

     Sinto-me inocência
     passeando por suas alturas,
     por seus andares cheios
     da mais noturna noite densa.

     Desvenda essa face molhada
     e me mostra a sua vertente original
     de emoção-fêmea pura...
     Que eu o espero na branca paz
     do meu ventre adormecido,
     dos meus braços plenos
     de fogueiras e cantigas.

Vem...
     Que eu desfolho
     toda essa sua vontade nua,
     que eu desperto
     todo esse seu lado cigano...
     pois o meu leite é morno
     e é rosa franca meu sorriso.
     Deixa seu barco
     navegar pelo meu leito,
     que eu carrego no peito a ânsia
     de hastear a bandeira do infinito...

Vem...
     Deita... Me namora...
     Me afoga no espelho de luz
     dessa madrugada afora,
     me diz que no nosso tempo
     não há tempo nem hora,
     que eu não agüento
     a flor do sexo que arde
     nas entranhas de mim...

     Deixa que eu amanheça
     na espuma dessa sua onda quente,
     deixa sua emoção fluir
     da garganta num repente...
     Que eu carrego nos olhos de relento
     a voz que lhe pede a terra
     e que lhe entrega o mar.

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Bruno Kampel

Bruno Kampel

Mulher

Não quero uma mulher
Que seja gorda ou magra
Ou alta ou baixa
Ou isto e aquilo.

Não quero uma mulher
Mas sim um porto, uma esquina
Onde virar a vida e olhá-la
De dentro para fora.

Não espero uma mulher
Mas um barco que me navegue
Uma tempestade que me aflija
Uma sensualidade que me altere
Uma serenidade que me nine.

Não sonho uma mulher
Mas um grito de prazer
Saindo da boca pendurada
No rosto emoldurado
No corpo que se apoie
Nas pernas que me abracem.

Não sonho nem espero
Nem quero uma mulher
Mas exijo aos meus devaneios
Que encontrem a única
Que quero sonho e espero
Não uma, mas ela.

E sei onde se esconde
E conheço-lhe as senhas
Que a definem. O sexo
Ardente, a volúpia estridente
A carência do espasmo
O Amor com o dedo no gatilho.

Só quero essa mulher
Com todos seus desertos
Onde descansar a minha pele
Exausta e a minha boca sedenta
E a minha vontade faminta
E a minha urgência aflita
E a minha lágrima austera
E a minha ternura eloquente.

Sim, essa mulher que me excite
Os vinte e nove sentidos
A única a saber
O que dizer
Como fazer
Quando parar
Onde Esperar.

Essa a mulher que espero
E não espero
Que quero e não quero
Essa mulherportoesquina
Que desejo e não desejo
Que outro a tenha.

Que seja alta ou baixa
Isto ou aquilo
Mas que seja ela
Aquela que seja minha
E eu seja dela
Que seja eu e ela
Euela eu lá nela
Que sejamos ela.

E eu então terei encontrado
A mulher que não procuro
O barco, a esquina, Você.
Sim, você, que espreita
Do outro lado da esquina, no cais,
A chegada do marinheiro
Como quem apenas me espera.

Então nos amarraremos sem vergonha
À luz dos holofotes dos teus olhos,
E procriaremos gritos e gemidos
Que iluminarão todas as esquinas.

Será o momento de dizer
Achei/achamos amei/amamos
E por primeira vez vocalizar o
Somos, pluralizando-nos
Na emoção do encontro.

Essa a mulher
que não procuro
nem espero.
Você, viu? Você!

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Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

Moreninha (trechos)

Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!

Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!

E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.

...

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má;
– Como tu ficas bonita
Com as tranças presas na fita,
Com as flores no samburá!

Eu disse então: – "Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores
"Deixa perfumes sentir!"
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã;
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importa rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia
Como mais linda não há.
Jesus! como eras bonita
Com as tranças presas na fita,
Com as flores no samburá!

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