Poemas neste tema
Política e Poder
Carlos Drummond de Andrade
Plataforma Política
O noturno mineiro
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
998
Carlos Drummond de Andrade
O Senhor Diretor
O fraque do diretor,
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
1 188
Carlos Drummond de Andrade
A Visita do Rei
I
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
1 005
Carlos Drummond de Andrade
A Difícil Escolha
Cada manhã, a Liga pela Moralidade,
serviçal, pontual,
indica os filmes que podemos ver,
os prejudiciais,
os com reserva,
os inofensivos.
A Mulher de Cláudio, com Pina Menichelli,
tem decotes inconvenientíssimos.
Quando o Coração Quer, com Francesca Bertini,
é coleção de cenas sensuais.
Remorsos do Cura, não sei com quem,
imoralíssimo.
Alta imoralidade, em Pacto Infernal,
2o episódio: adultério à vista.
Dorothy Dalton. O Dom da Fascinação,
bem, pode ser visto com algumas reservas.
É tão farto o cardápio, que vacilo:
Não posso ir a todos os cinemas,
e é só uma noite cada filme.
Meu Deus, ajudai-me neste passo:
Vejo a Bertini? Vejo a Menichelli?
serviçal, pontual,
indica os filmes que podemos ver,
os prejudiciais,
os com reserva,
os inofensivos.
A Mulher de Cláudio, com Pina Menichelli,
tem decotes inconvenientíssimos.
Quando o Coração Quer, com Francesca Bertini,
é coleção de cenas sensuais.
Remorsos do Cura, não sei com quem,
imoralíssimo.
Alta imoralidade, em Pacto Infernal,
2o episódio: adultério à vista.
Dorothy Dalton. O Dom da Fascinação,
bem, pode ser visto com algumas reservas.
É tão farto o cardápio, que vacilo:
Não posso ir a todos os cinemas,
e é só uma noite cada filme.
Meu Deus, ajudai-me neste passo:
Vejo a Bertini? Vejo a Menichelli?
1 190
Carlos Drummond de Andrade
O Grande Filme
Vejo Intolerância, de Griffith,
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
1 008
Carlos Drummond de Andrade
Aniversário de João Pupini
Já vou dormir, não vou dormir.
No silente Caminho Novo,
sete tiros da carabina.
Eu nada escuto do meu quarto.
Ninguém escuta, de tão longe.
Mas adivinho sete tiros
estampados na noite fria.
É João Pupini festejando
seu natalício italiano,
atirando contra as estrelas
o chumbo gaio de estar vivo.
É João Pupini ameaçando
o sono azul do município,
o equilíbrio e a paz do mundo.
Já se eriça, irado, o bigode
marcial de Guilherme 2o.
O czar, o king George, Francisco
José e mais altas potências
protestam contra o despropósito
de João Pupini fazer anos
declarando guerra mundial.
O delegado de polícia,
sentinela internacional,
convoca seu destacamento:
“Eia, sus, ao Caminho Novo,
a prender o guerreiro doido,
que além de ser mau elemento
vota sempre na oposição”.
Sua casa logo arrombada
a coronha, facão e ombro,
João Pupini dá o sumiço
pelos fundos de treva e brejo,
embolado mais a família,
pois lutar contra a Força Pública,
nem o ousara Napoleão.
Mas é preso nos vãos atalhos
em que zaranza atarantado,
e recolhido à enxovia
o formidando atirador.
Nem Deus te salva, João Pupini!
(fico cismando, no sem sono
de carabina, junho e noite.)
Solitário, incomunicável,
Pupini diz: “Vou suplicar
à autoridade justiciosa
o direito de fazer anos
e jovialmente celebrá-lo”.
Mas retrucam-lhe: “Assine e sele
petição na forma da lei”.
Onde papel, no úmido escuro
do xadrez todo enxadrezado
de feros ferros e ferrolhos?
Onde estampilha, Deus do céu,
se só uma barata sela,
no chão da cela, madrugada,
a prova de estar acordada?
Sem requerer, como provar
que, entre mil mortos e feridos
pela arma-fúria de Pupini,
estão todos salvos, tranquilos?
Como explicar ao Presidente,
a Hermes, Pinheiro, Jangote,
que ninguém fez mal a ninguém?
Tiro de noite é novidade
na cidade sem distração
e noite por demais comprida?
O rádio está por inventar,
a televisão, nem se fala.
Quem tem fogo vai despejá-lo
na horta gelada, por que não?
Ainda há dias, rente ao quartel,
no rancho insone do Thiers,
tiros sem alvo pipocaram,
ninguém foi preso, até foi bom
ouvir alguém vencer o tédio
detonando a salva nervosa
que infundia vida ao mar morto.
Mas João Pupini, suspeitado
(suspeita, não: certeza plena)
de sorrir para os perdedores
da eleição presidencial;
João ruísta, João subversivo,
João celebrar seu nascimento
a poder de bala, o bandido?
Lá dorme João no chão sem lã.
Estou sentindo: a poucos passos
da cadeia ali bem em frente,
e dormirá tempos e luas,
se ruístas alvoroçados
não soltarem pelas quebradas
o latino grito: Habeas corpus.
(Que só mais tarde entenderei.
Por enquanto, perto de mim,
algo se passa, impercebido,
como sempre se passam coisas
no deserto Caminho Novo
ou
neste menino peito ansioso.)
No silente Caminho Novo,
sete tiros da carabina.
Eu nada escuto do meu quarto.
Ninguém escuta, de tão longe.
Mas adivinho sete tiros
estampados na noite fria.
É João Pupini festejando
seu natalício italiano,
atirando contra as estrelas
o chumbo gaio de estar vivo.
É João Pupini ameaçando
o sono azul do município,
o equilíbrio e a paz do mundo.
Já se eriça, irado, o bigode
marcial de Guilherme 2o.
O czar, o king George, Francisco
José e mais altas potências
protestam contra o despropósito
de João Pupini fazer anos
declarando guerra mundial.
O delegado de polícia,
sentinela internacional,
convoca seu destacamento:
“Eia, sus, ao Caminho Novo,
a prender o guerreiro doido,
que além de ser mau elemento
vota sempre na oposição”.
Sua casa logo arrombada
a coronha, facão e ombro,
João Pupini dá o sumiço
pelos fundos de treva e brejo,
embolado mais a família,
pois lutar contra a Força Pública,
nem o ousara Napoleão.
Mas é preso nos vãos atalhos
em que zaranza atarantado,
e recolhido à enxovia
o formidando atirador.
Nem Deus te salva, João Pupini!
(fico cismando, no sem sono
de carabina, junho e noite.)
Solitário, incomunicável,
Pupini diz: “Vou suplicar
à autoridade justiciosa
o direito de fazer anos
e jovialmente celebrá-lo”.
Mas retrucam-lhe: “Assine e sele
petição na forma da lei”.
Onde papel, no úmido escuro
do xadrez todo enxadrezado
de feros ferros e ferrolhos?
Onde estampilha, Deus do céu,
se só uma barata sela,
no chão da cela, madrugada,
a prova de estar acordada?
Sem requerer, como provar
que, entre mil mortos e feridos
pela arma-fúria de Pupini,
estão todos salvos, tranquilos?
Como explicar ao Presidente,
a Hermes, Pinheiro, Jangote,
que ninguém fez mal a ninguém?
Tiro de noite é novidade
na cidade sem distração
e noite por demais comprida?
O rádio está por inventar,
a televisão, nem se fala.
Quem tem fogo vai despejá-lo
na horta gelada, por que não?
Ainda há dias, rente ao quartel,
no rancho insone do Thiers,
tiros sem alvo pipocaram,
ninguém foi preso, até foi bom
ouvir alguém vencer o tédio
detonando a salva nervosa
que infundia vida ao mar morto.
Mas João Pupini, suspeitado
(suspeita, não: certeza plena)
de sorrir para os perdedores
da eleição presidencial;
João ruísta, João subversivo,
João celebrar seu nascimento
a poder de bala, o bandido?
Lá dorme João no chão sem lã.
Estou sentindo: a poucos passos
da cadeia ali bem em frente,
e dormirá tempos e luas,
se ruístas alvoroçados
não soltarem pelas quebradas
o latino grito: Habeas corpus.
(Que só mais tarde entenderei.
Por enquanto, perto de mim,
algo se passa, impercebido,
como sempre se passam coisas
no deserto Caminho Novo
ou
neste menino peito ansioso.)
639
Carlos Drummond de Andrade
Segundo Dia
Sou anarquista. Declaro honestamente.
(A tarde vai cerzindo no recreio
o pano de entrecortada confissão.)
Espanto, susto. Como?
O quê? Por quê? Explica essa besteira.
A solução é a anarquia. Sou
anarquista. Nem de longe vocês captam
o sublime anarquismo. Sou.
Com muita honra. Mas vocês, que são?
Vocês são uns carneiros
de lã obediente.
Zombam de mim. Me vaiam: Anarquista
a-nar-quis-tá a-nar-quis-tá-tá!
(Medo de mim, oculto em gozação?)
O bicho mau, o monstro repelente
conspurcando o jardim de Santo Inácio.
Avançam. Topo a briga. Me estraçalho
lutando contra todos. Furor mil.
Morro ensanguentado. Não. Não mato algum
nem me tocam sequer.
Negro e veloz, chegou a tempo
o Padre, e me salva do massacre,
porém não do apelido: o Anarquista.
(A tarde vai cerzindo no recreio
o pano de entrecortada confissão.)
Espanto, susto. Como?
O quê? Por quê? Explica essa besteira.
A solução é a anarquia. Sou
anarquista. Nem de longe vocês captam
o sublime anarquismo. Sou.
Com muita honra. Mas vocês, que são?
Vocês são uns carneiros
de lã obediente.
Zombam de mim. Me vaiam: Anarquista
a-nar-quis-tá a-nar-quis-tá-tá!
(Medo de mim, oculto em gozação?)
O bicho mau, o monstro repelente
conspurcando o jardim de Santo Inácio.
Avançam. Topo a briga. Me estraçalho
lutando contra todos. Furor mil.
Morro ensanguentado. Não. Não mato algum
nem me tocam sequer.
Negro e veloz, chegou a tempo
o Padre, e me salva do massacre,
porém não do apelido: o Anarquista.
1 038
Carlos Drummond de Andrade
Primeira Eleição
Marechal Hermes
e Rui Barbosa
lá vêm guerreando
pela montanha.
Olha a trovoada!
A pena, a espada,
qual perde, ganha?
E na sacada
o brado rouco,
o retintim,
a espora, a hora
do boletim.
Toda a cidade
se apaixonando.
Mas das mulheres
o voto, quando?
Menino vota
no faz de conta.
Ruísta, hermista,
sangue na crista!
Somos de Rui
os vexilários.
Já tudo rui
entre os contrários.
O formidando
som da vitória:
ao município
tamanha glória.
Doces projetos,
altos propósitos,
sonhos urbanos,
ideais humanos.
Rui vencedor.
Viva o Brasil
… de Hermes na posse.
Tosse? Bromil.
e Rui Barbosa
lá vêm guerreando
pela montanha.
Olha a trovoada!
A pena, a espada,
qual perde, ganha?
E na sacada
o brado rouco,
o retintim,
a espora, a hora
do boletim.
Toda a cidade
se apaixonando.
Mas das mulheres
o voto, quando?
Menino vota
no faz de conta.
Ruísta, hermista,
sangue na crista!
Somos de Rui
os vexilários.
Já tudo rui
entre os contrários.
O formidando
som da vitória:
ao município
tamanha glória.
Doces projetos,
altos propósitos,
sonhos urbanos,
ideais humanos.
Rui vencedor.
Viva o Brasil
… de Hermes na posse.
Tosse? Bromil.
767
Carlos Drummond de Andrade
Arcebispo
Dom Silvério em visita pastoral
fala pouco, está cansado, levanta a mão
lenta e abençoa.
Entre bambus e arcos triunfais
é o primeiro bispo (arcebispo) que eu vejo.
Não tem a rude casca do vigário
nem a expressão de diabo-crítico de Padre Júlio.
É manso, está cansado, olha de longe,
de um palácio esfumado de Mariana
o povo circunflexo.
fala pouco, está cansado, levanta a mão
lenta e abençoa.
Entre bambus e arcos triunfais
é o primeiro bispo (arcebispo) que eu vejo.
Não tem a rude casca do vigário
nem a expressão de diabo-crítico de Padre Júlio.
É manso, está cansado, olha de longe,
de um palácio esfumado de Mariana
o povo circunflexo.
1 141
Carlos Drummond de Andrade
Suum Cuique Tribuere
O vigário decreta a lei do domingo
válida por toda a semana:
— Dai a César o que é de César.
Zé Xanela afundado no banco
vem à tona d’água
ardente
acrescenta o parágrafo:
— Se não encontrar César, pode dar a Sá Cota Borges, que é mãe dele.
válida por toda a semana:
— Dai a César o que é de César.
Zé Xanela afundado no banco
vem à tona d’água
ardente
acrescenta o parágrafo:
— Se não encontrar César, pode dar a Sá Cota Borges, que é mãe dele.
1 259
Carlos Drummond de Andrade
Intimação
Abre em nome da lei.
Em nome de que lei?
Acaso lei tem nome?
Em nome de que nome
cujo agora me some
se em sonho o soletrei?
Abre em nome do rei.
Em nome de que rei
é a porta arrombada
para entrar o aguazil
que na destra um papel
sinistramente branco
traz, e ao ombro o fuzil?
Abre em nome de til.
Abre em nome de abrir,
em nome de poderes
cujo vago pseudônimo
não é de conferir:
cifra oblíqua na bula
ou dobra na cogula
de inexistente frei.
Abre em nome da lei.
Abre sem nome e lei.
Abre mesmo sem rei.
Abre, sozinho ou grei.
Não, não abras; à força
de intimar-te, repara:
eu já te desventrei.
(lc)
Em nome de que lei?
Acaso lei tem nome?
Em nome de que nome
cujo agora me some
se em sonho o soletrei?
Abre em nome do rei.
Em nome de que rei
é a porta arrombada
para entrar o aguazil
que na destra um papel
sinistramente branco
traz, e ao ombro o fuzil?
Abre em nome de til.
Abre em nome de abrir,
em nome de poderes
cujo vago pseudônimo
não é de conferir:
cifra oblíqua na bula
ou dobra na cogula
de inexistente frei.
Abre em nome da lei.
Abre sem nome e lei.
Abre mesmo sem rei.
Abre, sozinho ou grei.
Não, não abras; à força
de intimar-te, repara:
eu já te desventrei.
(lc)
1 242
Carlos Drummond de Andrade
Império Mineiro
Vêm da “corte”, vêm “de baixo”
as casimiras mais finas
as sedas mais celestinas
as requintadas botinas
de primeira comunhão
as porcelanas-da-China
os relógios musicais
os espelhos venezianos
os lustres, os castiçais
as banheiras esmaltadas
as delícias enlatadas
os biscoitos coloridos
as esdrúxulas bebidas
de rótulos ilegíveis
chocolates divinais
quadriláteros de doce
cristalizado irisado
vêm revistas e jornais
os rondós parnasianos
as orações magistrais
do senador Rui Barbosa
vêm mulheres fulminantes
em reluzentes postais
com vestidos transparentes
muito acima do soalho
e do sonho dos meninos
vêm cometas e vêm mágicas
de berliques e berloques
vêm senhores de bigode
lourenço, fala de estranja,
fazendo chover na serra
o chuvisco de dinheiro
em troca apenas de terra
já farta de dar feijão
vem “de baixo”, vem do Rio
toda a civilização
destinada especialmente
a nossa vila e parentes
e nossa mor importância.
Bem que o Rio é nosso escravo.
Somos senhores do mundo
por via de importação.
as casimiras mais finas
as sedas mais celestinas
as requintadas botinas
de primeira comunhão
as porcelanas-da-China
os relógios musicais
os espelhos venezianos
os lustres, os castiçais
as banheiras esmaltadas
as delícias enlatadas
os biscoitos coloridos
as esdrúxulas bebidas
de rótulos ilegíveis
chocolates divinais
quadriláteros de doce
cristalizado irisado
vêm revistas e jornais
os rondós parnasianos
as orações magistrais
do senador Rui Barbosa
vêm mulheres fulminantes
em reluzentes postais
com vestidos transparentes
muito acima do soalho
e do sonho dos meninos
vêm cometas e vêm mágicas
de berliques e berloques
vêm senhores de bigode
lourenço, fala de estranja,
fazendo chover na serra
o chuvisco de dinheiro
em troca apenas de terra
já farta de dar feijão
vem “de baixo”, vem do Rio
toda a civilização
destinada especialmente
a nossa vila e parentes
e nossa mor importância.
Bem que o Rio é nosso escravo.
Somos senhores do mundo
por via de importação.
1 372
Carlos Drummond de Andrade
Portão
O portão fica bocejando, aberto
para os alunos retardatários.
Não há pressa em viver
nem nas ladeiras duras de subir,
quanto mais para estudar a insípida cartilha.
Mas, se o pai do menino é da oposição
à ilustríssima autoridade municipal,
prima da eminentíssima autoridade provincial,
prima por sua vez da sacratíssima
autoridade nacional,
ah, isso não: o vagabundo
ficará mofando lá fora
e leva no boletim uma galáxia de zeros.
A gente aprende muito no portão
fechado.
para os alunos retardatários.
Não há pressa em viver
nem nas ladeiras duras de subir,
quanto mais para estudar a insípida cartilha.
Mas, se o pai do menino é da oposição
à ilustríssima autoridade municipal,
prima da eminentíssima autoridade provincial,
prima por sua vez da sacratíssima
autoridade nacional,
ah, isso não: o vagabundo
ficará mofando lá fora
e leva no boletim uma galáxia de zeros.
A gente aprende muito no portão
fechado.
2 346
Carlos Drummond de Andrade
Aqui Havia Uma Praça
A Praça da Estação em Belo Horizonte,
duas vezes a conheci: antes e depois das rosas.
Era a mesma praça, com a mesma dignidade,
o mesmo recado para os forasteiros:
“Esta cidade é uma promessa de conhecimento,
talvez de amor”.
A segunda Estação da Central, inaugurada por Epitácio,
o Monumento do Starace, encomendado por Antônio Carlos,
são feios? São belos?
São linhas de um rosto, marcas de vida.
A praça de entrada de Belo Horizonte,
mesmo esquecida, mesmo abandonada pelos Poderes Públicos,
conta pra gente uma história pioneira
de homens antigos criando realidades novas.
É uma praça — forma de permanência no tempo —
e merece respeito.
Agora querem levar para lá o metrô de superfície.
Querem massacrar a memória urbana, alma da cidade,
num de seus últimos pontos sensíveis e visíveis.
Esvoaça crocitante sobre a Praça da Estação
o Metrobel decibel a granel sem quartel.
Planejadores oficiais insistem em fazer de Belo Horizonte
linda linda linda de embalar saudade
mais uma triste anticidade.
25/08/1981
duas vezes a conheci: antes e depois das rosas.
Era a mesma praça, com a mesma dignidade,
o mesmo recado para os forasteiros:
“Esta cidade é uma promessa de conhecimento,
talvez de amor”.
A segunda Estação da Central, inaugurada por Epitácio,
o Monumento do Starace, encomendado por Antônio Carlos,
são feios? São belos?
São linhas de um rosto, marcas de vida.
A praça de entrada de Belo Horizonte,
mesmo esquecida, mesmo abandonada pelos Poderes Públicos,
conta pra gente uma história pioneira
de homens antigos criando realidades novas.
É uma praça — forma de permanência no tempo —
e merece respeito.
Agora querem levar para lá o metrô de superfície.
Querem massacrar a memória urbana, alma da cidade,
num de seus últimos pontos sensíveis e visíveis.
Esvoaça crocitante sobre a Praça da Estação
o Metrobel decibel a granel sem quartel.
Planejadores oficiais insistem em fazer de Belo Horizonte
linda linda linda de embalar saudade
mais uma triste anticidade.
25/08/1981
1 775
Carlos Drummond de Andrade
Forja
E viva o Governo: deu
dinheiro para montar
a forja.
Que faz a forja? Espingardas
e vende para o governo.
Os soldados de espingarda
foram prender criminoso
foram fazer eleição
foram caçar passarinho
foram dar tiros a esmo
e viva o governo e viva
nossa indústria matadeira.
dinheiro para montar
a forja.
Que faz a forja? Espingardas
e vende para o governo.
Os soldados de espingarda
foram prender criminoso
foram fazer eleição
foram caçar passarinho
foram dar tiros a esmo
e viva o governo e viva
nossa indústria matadeira.
1 409
Carlos Drummond de Andrade
A Excitante Fila do Feijão
Larga, poeta, a mesa de escritório,
esquece a poesia burocrática
e vai cedinho à fila do feijão.
Cedinho eu disse? Vai, mas é de véspera,
seja noite de estrela ou chuva grossa,
e sem certeza de trazer dois quilos.
Certeza não terás, mas esperança
(que substitui, em qualquer caso, tudo),
uma espera-esperança de dez horas.
Dez, doze ou mais: o tempo não importa
quando aperta o desejo brasileiro
de ter no prato a preta, amiga vagem.
Camburões, patrulhinhas te protegem
e gás lacrimogêneo facilita
o ato de comprar a tua cota.
Se levas cassetete na cabeça
ou no braço, nas costas, na virilha,
não o leves a mal: é por teu bem.
O feijão é de todos, em princípio,
tal como a liberdade, o amor, o ar.
Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.
Bocas oitenta mil vão disputando
cada manhã o que somente chega
para de vinte mil matar a gula.
Insiste, não desistas: amanhã
outros vinte mil quilos em pacotes
serão distribuídos dessa forma.
A conta-gotas vai-se escoando o estoque
armazenado nos porões do Estado.
Assim não falta nunca feijão-preto
(embora falte sempre nas panelas).
Método esconde-pinga: não percebes
que ele torna excitante a tua busca?
Supermercados erguem barricadas
contra esse teu projeto de comer.
Há gritos, há desmaios, há prisões,
suspense à la Hitchcock ante as cerradas
portas de bronze, guardas do escondido
papilionáceo grão que ambicionas.
É a grande aventura oferecida
ao morno cotidiano em que vegetas.
Instante de vibrar, curtir a vida
na dimensão dramática da luta
por um ideal pedestre mas autêntico:
Feijão! Feijão, ao menos um tiquinho!
Caldinho de feijão para as crianças…
Feijoada, essa não: é sonho puro,
mas um feijão modesto e camarada
que lembre os tempos tão desmoronados
em que ele florescia atrás da casa
sem o olho normativo da Cobal.
Se nada conseguires… tudo bem.
Esperar é que vale — o povo sabe
enquanto leva as suas bordoadas.
Larga, poeta, o verso comedido,
a paz do teu jardim vocabular,
e vai sofrer na fila do feijão.
25/10/1980
esquece a poesia burocrática
e vai cedinho à fila do feijão.
Cedinho eu disse? Vai, mas é de véspera,
seja noite de estrela ou chuva grossa,
e sem certeza de trazer dois quilos.
Certeza não terás, mas esperança
(que substitui, em qualquer caso, tudo),
uma espera-esperança de dez horas.
Dez, doze ou mais: o tempo não importa
quando aperta o desejo brasileiro
de ter no prato a preta, amiga vagem.
Camburões, patrulhinhas te protegem
e gás lacrimogêneo facilita
o ato de comprar a tua cota.
Se levas cassetete na cabeça
ou no braço, nas costas, na virilha,
não o leves a mal: é por teu bem.
O feijão é de todos, em princípio,
tal como a liberdade, o amor, o ar.
Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.
Bocas oitenta mil vão disputando
cada manhã o que somente chega
para de vinte mil matar a gula.
Insiste, não desistas: amanhã
outros vinte mil quilos em pacotes
serão distribuídos dessa forma.
A conta-gotas vai-se escoando o estoque
armazenado nos porões do Estado.
Assim não falta nunca feijão-preto
(embora falte sempre nas panelas).
Método esconde-pinga: não percebes
que ele torna excitante a tua busca?
Supermercados erguem barricadas
contra esse teu projeto de comer.
Há gritos, há desmaios, há prisões,
suspense à la Hitchcock ante as cerradas
portas de bronze, guardas do escondido
papilionáceo grão que ambicionas.
É a grande aventura oferecida
ao morno cotidiano em que vegetas.
Instante de vibrar, curtir a vida
na dimensão dramática da luta
por um ideal pedestre mas autêntico:
Feijão! Feijão, ao menos um tiquinho!
Caldinho de feijão para as crianças…
Feijoada, essa não: é sonho puro,
mas um feijão modesto e camarada
que lembre os tempos tão desmoronados
em que ele florescia atrás da casa
sem o olho normativo da Cobal.
Se nada conseguires… tudo bem.
Esperar é que vale — o povo sabe
enquanto leva as suas bordoadas.
Larga, poeta, o verso comedido,
a paz do teu jardim vocabular,
e vai sofrer na fila do feijão.
25/10/1980
1 204
Carlos Drummond de Andrade
Esboço de Figura
Antonio Candido ou
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
1 265
Carlos Drummond de Andrade
Foi-Se a Copa?
Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus, chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
a Copa da Liberdade.
24/06/1978
Adeus, chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
a Copa da Liberdade.
24/06/1978
1 636
Carlos Drummond de Andrade
Em Março, Esta Semana
Segunda-feira a gente ficou presa
não no Distrito: em casa, ante o combate
de Cassius Clay e Frazier… Que tristeza
ver Muhammad Ali tatibitate,
hesitando, caindo, prolongando
por 15 rounds nossa aflição inglória:
Vai resistir? Virar a luta? Quando
acaba esta cruenta e lenta história?
Sem apostar um dólar ou cruzeiro
(pois nutro por tabefes sacro enjoo),
lamento haver perdido: o palradeiro
tem minha simpatia no seu voo
rumo à ideia de paz, num mundo em guerra.
Até um boxeador acusa o vício
de nos entrematarmos sobre a Terra,
este açougue instalado num hospício.
Lá se foi Harold Lloyd, um velho chapa
do tempo em que o cinema era calado
e a gente é que falava… Eis que à socapa
voltam risos e sombras do passado.
— Viu Carlito no Circo? — Não quis ver,
pois já não sou o broto carlitiano,
e procurando nele o antigo ser,
não mais o encontro… Deve haver engano.
Mudaria Carlito ou mudei eu?
(Sempre me perseguindo o eterno Assis,
como se a vida não me houvesse assaz
revelado o segredo de uma noz
escondida num papo de avestruz.)
A rima neste ponto se perdeu,
mas que importa? Se a Light não me apaga
a luz, visitarei com Geysa Bôscoli
(oh, abram alas!) Chiquinha Gonzaga
no livro que através o tempo fosco lhe
recorda o humano e musical perfil.
Que mulher e que mina de talento
em polca, xote, valsa, tango, mil
composições, arte lançada ao vento!
Mas que é isso, no Parque de Iguaçu?
Que diz o Frisch? Por manhas de posseiros
vejo as fontes secando e o solo nu?
Roubam nossos tesouros derradeiros?
Orlando Villas-Boas, por seu lado,
no Parque do Xingu, pede magoado:
— Mudem-me, por favor, esse traçado
de rodovia, que desmantelado
deixa o viver do índio na floresta
e nada lhe oferece além da triste
integração, essa ilusória festa
a que ele, sem defesa, não resiste.
Falar em índio, grande livro este,
novinho, de Darcy Ribeiro. Leste?
Uma serena avaliação de dados
a serem fundamente meditados
enquanto não se extingue a velha raça
de teto errante e de ventura escassa.
Já não mais tranço as rimas, e daí?
Parelhas são, mas contam o que li,
o que vi (ou não vi), prestando ouvido
na direção do terceiro partido.
Quem é que vai fundar, que pioneiro,
um que falta; o primeiro e verdadeiro?
Havia de ser bom. Mas como? Onde?
O eco anda maroto, não responde.
E vem-me a tentação, mais uma vez,
de romper estruturas… Um, dois, três:
“Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada…”
— Mas isto é de Bilac! — Então, adeus… Mais nada.
13/03/1971
não no Distrito: em casa, ante o combate
de Cassius Clay e Frazier… Que tristeza
ver Muhammad Ali tatibitate,
hesitando, caindo, prolongando
por 15 rounds nossa aflição inglória:
Vai resistir? Virar a luta? Quando
acaba esta cruenta e lenta história?
Sem apostar um dólar ou cruzeiro
(pois nutro por tabefes sacro enjoo),
lamento haver perdido: o palradeiro
tem minha simpatia no seu voo
rumo à ideia de paz, num mundo em guerra.
Até um boxeador acusa o vício
de nos entrematarmos sobre a Terra,
este açougue instalado num hospício.
Lá se foi Harold Lloyd, um velho chapa
do tempo em que o cinema era calado
e a gente é que falava… Eis que à socapa
voltam risos e sombras do passado.
— Viu Carlito no Circo? — Não quis ver,
pois já não sou o broto carlitiano,
e procurando nele o antigo ser,
não mais o encontro… Deve haver engano.
Mudaria Carlito ou mudei eu?
(Sempre me perseguindo o eterno Assis,
como se a vida não me houvesse assaz
revelado o segredo de uma noz
escondida num papo de avestruz.)
A rima neste ponto se perdeu,
mas que importa? Se a Light não me apaga
a luz, visitarei com Geysa Bôscoli
(oh, abram alas!) Chiquinha Gonzaga
no livro que através o tempo fosco lhe
recorda o humano e musical perfil.
Que mulher e que mina de talento
em polca, xote, valsa, tango, mil
composições, arte lançada ao vento!
Mas que é isso, no Parque de Iguaçu?
Que diz o Frisch? Por manhas de posseiros
vejo as fontes secando e o solo nu?
Roubam nossos tesouros derradeiros?
Orlando Villas-Boas, por seu lado,
no Parque do Xingu, pede magoado:
— Mudem-me, por favor, esse traçado
de rodovia, que desmantelado
deixa o viver do índio na floresta
e nada lhe oferece além da triste
integração, essa ilusória festa
a que ele, sem defesa, não resiste.
Falar em índio, grande livro este,
novinho, de Darcy Ribeiro. Leste?
Uma serena avaliação de dados
a serem fundamente meditados
enquanto não se extingue a velha raça
de teto errante e de ventura escassa.
Já não mais tranço as rimas, e daí?
Parelhas são, mas contam o que li,
o que vi (ou não vi), prestando ouvido
na direção do terceiro partido.
Quem é que vai fundar, que pioneiro,
um que falta; o primeiro e verdadeiro?
Havia de ser bom. Mas como? Onde?
O eco anda maroto, não responde.
E vem-me a tentação, mais uma vez,
de romper estruturas… Um, dois, três:
“Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada…”
— Mas isto é de Bilac! — Então, adeus… Mais nada.
13/03/1971
962
Carlos Drummond de Andrade
A Lamentável História Dos Namorados
Namorados, namorados,
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
1 191
Carlos Drummond de Andrade
A Bolsa, o Bolso
“À Bolsa!” é o novo grito. A Bolsa, a vida
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
1 367
Carlos Drummond de Andrade
Esparsos de 1976
Rios de Petrópolis
A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.
*
Mais uma
Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.
*
Propaganda eleitoral
Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?
*
Aniversário
Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.
*
Candidato
Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,
não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.
*
150 anos da Câmara dos Deputados
É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.
*
Repetição
Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.
*
Comércio da privacidade
Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
*
A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.
*
Mais uma
Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.
*
Propaganda eleitoral
Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?
*
Aniversário
Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.
*
Candidato
Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,
não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.
*
150 anos da Câmara dos Deputados
É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.
*
Repetição
Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.
*
Comércio da privacidade
Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
*
862
Carlos Drummond de Andrade
Lira Pedestre
Gerontologia econômica
Simone de Beauvoir, tua lição
não me interessa, não, sobre a velhice.
Prefiro agora ver José da Cruz,
mineiro de Ouro Preto (quem diria?),
trabalhando de dar sumiço a velhos.
“Já não valem mais nada”, ele declara.
Como não? Valem muito: à custa deles,
cria José, em meio à vida cara,
uma nova e rendosa profissão.
No balcão
O cafezinho está mais caro?
Sabe melhor o cafezinho?
De diâmetro aumentou a xícara?
A colherzinha não é mais de prata
(se algum dia foi), e um sorriso
de boas-vindas nos acolhe
sob os bigodes do gerente?
É mais café o cafezinho,
mais quente, inspira mais piadas
a seus costumeiros clientes?
Tem um pó mais fino, o adoçante
não mata mais que o ciclamato,
e há no açúcar um princípio
de tornar o dia contente
quando o céu da boca relembra
o cafezinho em pé tomado?
O cafezinho contém mesmo
café do bom, que a velha casa
de nosso avô servia a todos,
e repetiam todos, uai?
Não. Simplesmente, meus amigos,
o cafezinho está mais caro.
Acordo entre cavalheiros
O esquadrão primeiro, depois
de liquidar mil marginais,
ao esquadrão número dois
se dirigiu em termos tais:
— Se tu me tascas, eu te tasco,
não sobra um para semente.
É melhor acordo: um carrasco
não deve morrer inocente!
Quem avisa amigo é
Que vontade antiga de ir a Roma,
ver as coisas antigas, sentir
a alma antiga das coisas.
Certa manhã,
entrar na Basílica de São Pedro,
procurar Miguel Ângelo:
ainda briga muito com Bramante?
Depois, ajoelhar-me,
pedir a Deus a graça, entre milhares,
de que careço…
— Ah, isso não — adverte Paulo VI
em amistoso alarme:
É tão esplendoroso aqui, bofé,
que rezar nesta igreja não dá pé.
25/04/1970
Simone de Beauvoir, tua lição
não me interessa, não, sobre a velhice.
Prefiro agora ver José da Cruz,
mineiro de Ouro Preto (quem diria?),
trabalhando de dar sumiço a velhos.
“Já não valem mais nada”, ele declara.
Como não? Valem muito: à custa deles,
cria José, em meio à vida cara,
uma nova e rendosa profissão.
No balcão
O cafezinho está mais caro?
Sabe melhor o cafezinho?
De diâmetro aumentou a xícara?
A colherzinha não é mais de prata
(se algum dia foi), e um sorriso
de boas-vindas nos acolhe
sob os bigodes do gerente?
É mais café o cafezinho,
mais quente, inspira mais piadas
a seus costumeiros clientes?
Tem um pó mais fino, o adoçante
não mata mais que o ciclamato,
e há no açúcar um princípio
de tornar o dia contente
quando o céu da boca relembra
o cafezinho em pé tomado?
O cafezinho contém mesmo
café do bom, que a velha casa
de nosso avô servia a todos,
e repetiam todos, uai?
Não. Simplesmente, meus amigos,
o cafezinho está mais caro.
Acordo entre cavalheiros
O esquadrão primeiro, depois
de liquidar mil marginais,
ao esquadrão número dois
se dirigiu em termos tais:
— Se tu me tascas, eu te tasco,
não sobra um para semente.
É melhor acordo: um carrasco
não deve morrer inocente!
Quem avisa amigo é
Que vontade antiga de ir a Roma,
ver as coisas antigas, sentir
a alma antiga das coisas.
Certa manhã,
entrar na Basílica de São Pedro,
procurar Miguel Ângelo:
ainda briga muito com Bramante?
Depois, ajoelhar-me,
pedir a Deus a graça, entre milhares,
de que careço…
— Ah, isso não — adverte Paulo VI
em amistoso alarme:
É tão esplendoroso aqui, bofé,
que rezar nesta igreja não dá pé.
25/04/1970
651
Carlos Drummond de Andrade
Conversa de Amigos
— Meu capitão, alvíssaras! O AI-5
vai ser cassado, e tudo fica brinco
na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei,
sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.
— Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos
de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,
tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar
e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.
Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?
— Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.
Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…
Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,
mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.
— Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.
Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.
De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes
o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),
há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,
capaz de garantir a liberdade
com sua irmã — responsabilidade.
Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,
consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.
Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.
E que me contas mais? Outros assuntos?
— Não sei se deva pô-los assim juntos.
Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel
de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,
seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.
De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil
de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… — Cáspite, caramba!
— O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,
para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos
do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.
— Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.
06/12/1977
vai ser cassado, e tudo fica brinco
na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei,
sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.
— Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos
de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,
tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar
e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.
Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?
— Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.
Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…
Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,
mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.
— Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.
Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.
De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes
o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),
há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,
capaz de garantir a liberdade
com sua irmã — responsabilidade.
Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,
consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.
Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.
E que me contas mais? Outros assuntos?
— Não sei se deva pô-los assim juntos.
Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel
de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,
seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.
De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil
de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… — Cáspite, caramba!
— O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,
para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos
do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.
— Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.
06/12/1977
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