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Poemas neste tema

Recomeço e Renascimento

Angela Santos

Angela Santos

Spring Cleaning


dias em que se acorda com o ímpeto da limpeza e ordenação
do espaço que nos rodeia. De repente nos damos conta do que ao
longo do tempo sem têm acumulado ao nosso redor, silenciosamente
e já sem utilidade, papeis e objetos.
E sem saber
como nem porquê, despertamos para as coisas mais ou menos inúteis
que por esquecimento, preguiça, ou pelo simples hábito
de as ver naquele lugar, fomos deixando invadir o nosso espaço,
isso que agora só vemos como lixo.
Até
as idéias viram lixo e nesses momentos em que a irreprimível
vontade de colocar as coisas no seu lugar reaparece, sentimos que é
necessário agendar, priorizar, limpar os gavetões mesmo
os da memória e da vida.
Abrindo
os armários, damos conta de que aquele vestido já não
condiz com a cor que trazemos por dentro, e aquele amontoado de papeis
com informação, só foi útil num determinado
momento; aquele outro objeto que alguém nos ofereceu, juntamente
com outros que fomos acumulando, ao longo do tempo, hoje os olhamos
e sentimos estarem somente ocupando espaço, fora da gente.
Até
o odor de coisas velhas assoma, e no ambiente que nos rodeia parece
estar faltando alguma coisa. Dá vontade de queimar incenso, colocar
flores por toda a casa.
E olhando
as estantes onde repousam meus livros, meus velhos discos de vinil e
os modernos Cds, me pareceu não ser aquele o local ideal para
os deixar e logo ali imaginei o espaço ideal para onde gostaria
de transladá-los. Assim acontece a quem compartilhando o espaço
onde vive, precisa se habituar a todos esses objetos que não
chegam pela sua própria mão ou escolha. Conviver é
ceder e a partilha de espaço nos obriga a respeitar a forma como
os outros o ocupam também.
Organizar
o espaço...ordenar a vida. Naquele momento isso me pareceu importante
movida pela vontade de refrescar e renovar. Aqui onde estou a desorganização,
é um estado quase permanente. Me incomoda a organização
excessiva. É como se um certo "fora de ordem" se tenha tornado
imprescindível ao meu equilíbrio. A organização
rígida é algo que afronto dentro de mim. Inconscientemente
vejo nessa excessiva ordenação das coisas, um modo de
ficar presa aos lugares, e eu sei que ainda não piso o lugar
onde quero criar raízes. Vivo numa dimensão "inter-espacial",
entre o lugar real e o lugar das projeções. Entre os dois
procuro lançar a ponte que torne o espaço da projeção
nesse outro o lugar : o da realidade vivida.
E porque
de limpeza, de ordenação de refrescar, se pretendia aludir,
me vem á memória a muito comum frase entre os ingleses
: "Spring Cleaning", a refrescada geral a dar a tudo com o anuncio
da Primavera. Tudo isto vem ao caso, porque neste lado do mundo, já
se sente que a Primavera em breve se anunciará e com ela chegará
o emergir silencioso das coisas em germinação, aguardando
o momento de irromperem.
"Spring
Cleaning", poderia ser esse o nome a dar a esse ímpeto que
despertou comigo, hoje: refrescar, renovar, retirar do caminho objetos
que nos prendem ao ontem, sobretudo ao ontem que murchou, desimpedir
o caminho de impecilhos que nos tolhem o caminhar , mudar atitudes,
romper com indecisões, olhar as pessoas nos olhos, colocar os
pingos nos "is", escrever preto no branco e mais importante que tudo
: cumprir o inadiável, com a mesma força misteriosa com
que irrompem as coisas acoitadas no seio da terra, que explodem com
a chegada da Primavera.

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Janis Joplin

Janis Joplin

Um Dia, Uma Dúvida

Hoje
foi um dia bom
Eu estava feliz
Feliz porque eu sei que você estava pensando em mim
Hoje foi um dia bom
Nem frio nem calor, apenas aquela brisa de saudade.
Hoje foi um dia bom
Senti você perto de mim, mesmo sem você estar
Hoje foi um dia bom
O vento trazia um beijo seu, tão doce e tão...
É, hoje foi um dia bom
Minha alma estava calma, parece até q encontrou a outra metade.

Hoje foi um dia diferente
Nao sei o q deu em mim, mas uma felicidade enorme me invadiu...
Hoje foi um dia assim...
Eu estava que nem boba, sorrindo à toa...
Hoje foi pleno...
Fui ao outro lado e voltei, e voltei feliz assim, sabe!?
Hoje foi sonho ou realidade?!...
Acho q foi os dois juntos, misturados com fantasias, imaginações..

Hoje o dia foi pra você...
Pensei, pensei , e eu só pensava em você.
Hoje, só de pensar que o Hoje esta pra acabar...
AH! Se todos os dias fossem como Hoje...
"O hoje não é mais hoje, hoje foi ontem"
Afinal, q dia é hoje?
É, acho que foi ontem, "e eu queria que o tempo pudesse voltar
dessa vez"
Hoje foi um dia de libertação, de conquista...
Libertei minha alma, deixei-a calma, soltei-a do passado...
Me reconquistei novamente, enfim, nasci de novo...
Hoje foi o dia da serpente...
"Serpente, nem sente, que me envenenou"...
Hoje foi "O Dia"...
O dia que eu senti,
O dia que eu chorei,
O dia de ser feliz,
O dia que eu descobri,
O dia que me libertou,
O dia que me ensinou,
O dia seu
O dia meu
O dia das almas...
O dia de calma,
Enfim, hoje foi "O Dia"...

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José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

O Romanceiro

Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho

um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro

Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim

um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé

Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei

Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho

e lançaste o pregão ao vento :

- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos

- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido

Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido

- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito

O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro

- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar

- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho

- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto

- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado

- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear

- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam

- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor

Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce

Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã

Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres

Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas

- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade

- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados

- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento

Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas

As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído

Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver

- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia

Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito

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Renato Russo

Renato Russo

Metal contra as nuvens

I
Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais

Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão

Reconheço o meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos

Mas minha terra é a terra que é minha
E sempre será minha terra
Tem a lua, tem estrelas e sempre terá

II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa

Quase acreditei, quase acreditei

E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo

Vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo

Olha o sopro do dragão

III
É a verdade que assombra
O descaso que condena
A estupidez que o destrói

Eu vejo tudo o que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende

Essa é a terra-de-ninguém
E sei que devo resistir -
Eu quero a espada em minhas mãos

Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão

Não me entrego sem lutar -
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então

IV
- Tudo passa, tudo passará

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas para contar

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe para trás -
Apenas começamos

O mundo começa agora -
Apenas começamos

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