Poemas neste tema
Saudade e Ausência
António Ramos Rosa
A Sede do Silêncio
A sede do silêncio é um fruto do silêncio. A sede da palavra nasce da palavra que nasce do silêncio. A necessidade do silêncio é uma necessidade da palavra que (não) se perde na palavra. Distância, deserto, de árvore em árvore, a eterna sede, a sede do eterno, da frugal transparência do efémero. Terra, toda a distância da terra em cada sílaba, em cada vocábulo sem água. A página é deserto e caminho errante, obstinado. O horizonte do deserto anula a miragem, nega o imaginário. A sede da página é sede da ausência e sede da palavra do horizonte. A ausência é a segunda dimensão do dia, o outro lábio da terra, a verdadeira voz do vocábulo.
1 138
António Ramos Rosa
Uma Substância de Sombra Um Aroma Quase
Uma substância de sombra um aroma quase
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
1 045
António Ramos Rosa
67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil
67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
1 072
António Ramos Rosa
20. de Amor — Na Pedra E Cinza Verde
20
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
911
António Ramos Rosa
34. a Que For Nua a Nua Nuvem
34
A que for nua a nua nuvem
branca e por ser pobre lâmpada
por amor de Sílvia e suas pernas altas
por amor dos seus pequenos pulsos.
Pela imagem da folha em ti aberta
pelos cabelos pelos ombros por estas sílabas
por todo o frágil fragmento Sílvia
tu serás incandescente como a silva ardente.
Por ti que nunca foste a alta
rapariga que tu foste por ti Sílvia
eu não escrevo as palavras florescentes
mas o túmulo pobre do amor ausente.
A que for nua a nua nuvem
branca e por ser pobre lâmpada
por amor de Sílvia e suas pernas altas
por amor dos seus pequenos pulsos.
Pela imagem da folha em ti aberta
pelos cabelos pelos ombros por estas sílabas
por todo o frágil fragmento Sílvia
tu serás incandescente como a silva ardente.
Por ti que nunca foste a alta
rapariga que tu foste por ti Sílvia
eu não escrevo as palavras florescentes
mas o túmulo pobre do amor ausente.
1 109
António Ramos Rosa
A Boca Desviada,…
A boca desviada, sem o segredo do ar, sem o saber do outro, a boca solitária espera, sem sono e sem sombras, só com a água da sua sede, com o árido desejo da palavra dela e da outra boca que lê.
1 322
António Ramos Rosa
Onde Não Chegam Os Lábios,…
Onde não chegam os lábios, onde as mãos não ascendem, o intervalo interminável, as palavras dispersam-se, insectos da aridez essencial, breves breves e longas no deserto em que não se inscrevem, em que não ressoam.
1 080
António Ramos Rosa
Se Fosse o Espaço Ou o Corpo
Se fosse o espaço ou o corpo
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
529
António Ramos Rosa
A Imagem Que Conduz Ao Corpo
A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?
Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema
Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada
Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?
Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?
As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva
Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?
Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema
Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada
Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?
Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?
As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva
Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
1 112
António Ramos Rosa
A Noite da Rua
Mão longe
da mão longe a apagar-se
ao fim da mão a rua extrema fria
ao fim da mão a rua os olhos frios
mão da terra para
o sol frio
mão ou lâmpada
nos arbustos
Língua de sol a sombra nas esquinas
Mão fria tropeçada rente ao fim da rua
rente ao longe nua
no sol frio da noite
da mão longe a apagar-se
ao fim da mão a rua extrema fria
ao fim da mão a rua os olhos frios
mão da terra para
o sol frio
mão ou lâmpada
nos arbustos
Língua de sol a sombra nas esquinas
Mão fria tropeçada rente ao fim da rua
rente ao longe nua
no sol frio da noite
1 221
António Ramos Rosa
O Impossível Grito
à Mila
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala
Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo
Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro
E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria
E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível
Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!
Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão
Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!
Não será este um caminho uma forma do grito?
Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia
A forma desgarrada de um grito flutua
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala
Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo
Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro
E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria
E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível
Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!
Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão
Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!
Não será este um caminho uma forma do grito?
Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia
A forma desgarrada de um grito flutua
1 013
António Ramos Rosa
A Caminho Na Ausência
à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue
Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome
Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?
A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo
A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?
A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel
Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?
O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?
O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa
O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas
Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja
Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome
Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro
A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo
O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho
E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue
Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome
Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?
A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo
A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?
A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel
Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?
O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?
O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa
O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas
Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja
Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome
Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro
A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo
O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho
E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 091
António Ramos Rosa
Uma Distância de Sombra Sem Palavras
Uma distância de sombra sem palavras
Uma distância e uma palavra mas não era
a distância nem a sombra era só ela
ela na nudez da ausência ela só ela
Seria a terra o pé e a sombra do seu braço
já não era a pedra do seu peito mas a erva
a sua perfeição de sombra sobre o rosto
e o seu rosto nu o seu rosto sem sombra
Era a distância e o alto corpo frágil
na distância e na presença em sua água
com os frutos frágeis do seu ser e o medo
de ser tão pura no ardor de ser
Uma distância e uma palavra mas não era
a distância nem a sombra era só ela
ela na nudez da ausência ela só ela
Seria a terra o pé e a sombra do seu braço
já não era a pedra do seu peito mas a erva
a sua perfeição de sombra sobre o rosto
e o seu rosto nu o seu rosto sem sombra
Era a distância e o alto corpo frágil
na distância e na presença em sua água
com os frutos frágeis do seu ser e o medo
de ser tão pura no ardor de ser
1 148
António Ramos Rosa
Aqui Ele Diz a Minha Única Pátria
Aqui ele diz a minha única pátria
era uma pedra era um lugar e uma sombra
não sei em qualquer parte agora não
havia a mão de alguém havia um corpo
e era a minha única pátria a minha sombra
era o que ele dizia a sua amiga
aquela pedra e sombra e árvore aquela amiga
era a sua única pátria agora não
era uma pedra era um lugar e uma sombra
não sei em qualquer parte agora não
havia a mão de alguém havia um corpo
e era a minha única pátria a minha sombra
era o que ele dizia a sua amiga
aquela pedra e sombra e árvore aquela amiga
era a sua única pátria agora não
1 096
António Ramos Rosa
Presença Ausência
a Jean Malrieu
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra
Se te encontrasse diria esplendor diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha
Tantas sombras sombras Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra
Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres
Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?
Porquê estas palavras estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia
Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra
E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se
tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio
Chamo-te com as mãos da terra
Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo
lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra
Se te encontrasse diria esplendor diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha
Tantas sombras sombras Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra
Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres
Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?
Porquê estas palavras estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia
Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra
E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se
tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio
Chamo-te com as mãos da terra
Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo
lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
1 167
António Ramos Rosa
Quem Me Deu o Braço E o Ombro E o Fruto
Quem me deu o braço e o ombro e o fruto
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
1 124
António Ramos Rosa
Entrar. Com o Vagar do Campo. Sem Ferir.
Entrar. Com o vagar do campo. Sem ferir.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.
Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.
Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho
com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.
Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.
Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho
com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
1 025
António Ramos Rosa
Este Viver Comum
Este viver comum
será nosso futuro
É nosso já presente
este amor que não temos
É nosso e nosso o tempo
que de tão longe somos
O pomo puro que negam
branco se fez no dia
será nosso futuro
É nosso já presente
este amor que não temos
É nosso e nosso o tempo
que de tão longe somos
O pomo puro que negam
branco se fez no dia
578
António Ramos Rosa
Através da Memória
a Jorge de Sena
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
629
Francisco Mallmann
I
trago-lhe boas notícias
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
813
Edmir Domingues
soneto IV - Carnaval de ilusões
Fantasias de luas esquecidas
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
671
Edmir Domingues
soneto IX - E tu não vinhas
Nunca houvesse o luar da tanta espera
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
676
Edmir Domingues
Soneto com jeito de chegança
Ventos do mar que não peninsulares
trouxeram nossas vozes de chegança,
navegantes de barcos de esperança
na roupa das cantigas seculares.
Lembrávamos Lisboa, os mansos lares,
as cachopas pousadas na lembrança,
as vagas que nem sempre de bonança,
na saudade da copla e dos cantares.
Outros, os capitães-de-mar-e-guerra,
tristes de ver o barco agora em terra
descem do rito náutico aos lamentos.
Sem curva de marés nos decompomos
porquanto marinheiros já não somos
mas o gesto e a canção dos movimentos.
trouxeram nossas vozes de chegança,
navegantes de barcos de esperança
na roupa das cantigas seculares.
Lembrávamos Lisboa, os mansos lares,
as cachopas pousadas na lembrança,
as vagas que nem sempre de bonança,
na saudade da copla e dos cantares.
Outros, os capitães-de-mar-e-guerra,
tristes de ver o barco agora em terra
descem do rito náutico aos lamentos.
Sem curva de marés nos decompomos
porquanto marinheiros já não somos
mas o gesto e a canção dos movimentos.
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Edmir Domingues
soneto II - Nunca mais
Nunca mais o ente amado em doce veste
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
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