Poemas neste tema
Serenidade e Paz Interior
António Ramos Rosa
No Centro Tranquilo
Casa: com o rumor das dunas e das aves
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
528
António Ramos Rosa
Meio-Dia
Contemplo a mulher adormecida. Ocupa uma metade do terraço, longa e voluptuosamente extensa, constelada de um silêncio que é todo aéreo e ondulante. Em volta o mundo converteu-se num pomar unânime. É um meio-dia interminável. Tudo está imóvel, fixo, como um centro. As superfícies lisas, brancas, sem reflexos, sem sombras. Imperceptível, insondável é o gesto fulgurante da imobilidade. A intensidade da presença identifica-se com o vazio da ausência. O meu corpo entende o corpo da mulher, enrola-se nas volutas da sua música silenciosa, adere às paisagens brancas do seu sono completo. Imóvel, não procuro palavras, nem as mais leves e transparentes: sinto-me fluido, extremamente aberto. Conheço as sensações da mulher nua: água, terra, fogo e vento. Conheço-a e amo-a através delas, numa relação de felicidade intensa e ao mesmo tempo imponderável. O sono da mulher é de horizontes múltiplos e em si germina o centro abrindo o aberto sem limites.
1 239
António Ramos Rosa
Quase
Quase vejo uma face cega e tranquila entre o sono e a morte.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
1 038
António Ramos Rosa
Na Plenitude do Espaço
Um rumor de jardim, luzes sobre as águas, num ramo de espaço em firme esplendor, calor de flancos brancos, estrela de sílex. Estou fixo e livre neste centro com uma intensidade monótona, habitado pelo vento, ao rumor das lâmpadas. Contente de ser teu e de ser meu, na expressão plana do desenho e na expressão redonda do volume, alto em densidade e transparente, animal de fundo e de ar, no equilíbrio fluido de um movimento sólido, glória claríssima que não explode, que não arde, imensa, imensa, mas à medida do corpo ardente, límpido, unificado. A integridade canta, a voluptuosidade canta em pássaro em ar em palavra em lábio em silêncio em corpo. Estou com a luz, na harmonia segura, nesta água viva do universo, alegre, alegre de ser a placidez imensa do azul, quase como um pássaro humilde, delicado, universal.
1 212
António Ramos Rosa
Vagas de Amplitude
Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
600
António Ramos Rosa
O Sono do Espaço
Um sono sem superfície nem fundo. Um sono sem sonhos, um sono totalmente obscuro e branco. E, através da sua espessura, a calma intensa de um olhar ilimitado.
1 111
António Ramos Rosa
Osmose
A pausa concêntrica dilata-se ao céu vazio e ao círculo branco do horizonte. Na árvore, o ouvido ouve o rumor distante de uma memória que acaba de nascer da sóbria luz que se levanta. Tudo o que aparece no ar novo e fresco abre-se no oval de uma presença que se faz vagarosa aceitação e serena certeza. De toda a parte aflui uma brisa voluptuosamente suave. A osmose é incessante. O enigma apresenta-se luminoso como uma morada marinha. Todos os meandros circulam perante o olhar intacto e todas as energias redondas vibram nos seus volumes sólidos, completos.
1 077
António Ramos Rosa
O Que Separa E o Que Une
O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
568
António Ramos Rosa
Este É o Lugar de Todas As Ausências
Este é o lugar de todas as ausências
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
603
António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
1 237
António Ramos Rosa
O Encontro
Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água.
1 073
António Ramos Rosa
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
1 190
António Ramos Rosa
A Terra
Um corpo estende-se no pó, entre estrelas, paredes, folhas. Tem o céu inteiro sobre a sombra intacta. A plenitude do espaço é um relâmpago perfeito. A grande respiração da noite, cálida e serena, é a língua da unidade com os seus cães e astros gloriosos. A distância já não anula nem separa na sua única vibração monótona. Tudo se reúne e se compreende sob a sombra da noite porque a terra nos rodeia sem confusão nem imagens ilusórias. A terra é agora um barco tranquilo. Abertas estão as portas do mundo silencioso adormecido e vivo.
1 073
António Ramos Rosa
Livre E Perdido
Sei a fundura do não-saber: embriaguez perfeita. Como uma folha ou uma pedra ou uma sombra, eis que respiro sem uma ideia, sem uma forma, sem um começo. Não sou mais do que esta prolongada pausa evanescente, mas que se dilata e em si mesma se esconde como uma pedra. Nada tenho a dizer: sou um sopro, um esquecimento que estremece, uma sensação apenas, aérea, desprendida, total. Não fui nem serei, sou simplesmente um âmbito em que a fragilidade não é a fragilidade, e a leveza é a exacta leveza do desconhecido que respira através de mim, comigo. Estou claramente no abandono do obscuro, vivo no espaço, na liberdade simples do ar, ao nível do mínimo e do amplo, sem medidas seguras nem padrões conhecidos. Sou um astro apagado, liberto do seu fulgor, sem destino, sem órbita, mas verticalmente azul, entregue à ondulação de um absoluto que corre no sangue e à superfície da pele. Que embriagada é a fragilidade de estar vivo assim! Que deliciosamente inventada, que verdadeira é esta fuga no espaço, sereno e ébrio com o ar! Sem ilusões na ilusão mais completa, na mais viva, na mais aérea e elementar, sem palavras e com todas as palavras, sombras, pedras, folhas, estrelas, autos, animais, tudo aceso no apagamento interior onde tudo ressoa como liberdade interna, um voo frágil, incerto, vazio, mas viva e central plenitude prolongando-se, dissipando-se, repousando. Como se estivera na água e cego, vejo maravilhosamente as intensidades, as formas, os fluxos, os rios de sombra e luz, os caminhos flutuantes, a sombria folhagem que se dissipa, que renasce… Só, sem estar só, sou o âmbito natural, a inteligência vaga, ligeira, cúmplice do espaço. Ninguém me encontrará. Já não sou: sou o perdido no ar, no vazio: estou embriagado de ser.
1 220
António Ramos Rosa
Pausas, Pausas Brancas
Pausas, pausas brancas
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
1 052
António Ramos Rosa
No Círculo Total
Onde estou respiro e ardo. Nada sei. Sou a seiva incandescente do compacto. Mas a densidade coincide com a mais viva ligeireza. A grande massa móvel da folhagem insufla-me um sangue verde que me dá uma sensação aérea de imponderável vigor. Estou completo como uma onda do mar, como uma árvore, como um muro branco. A tranquilidade é absoluta. Ninguém responde, nada responde, é aqui o círculo total. Movimentos leves, movimentos fundos, movimentos obscuros e sempre aéreos, movimentos claros. O que outrora eram os deuses estende-se no esplendor das coisas e dos seres. Que magnífica dilatação de todo o espaço interno! Estou talvez no centro liberto. Sinto a realidade numa profusão harmoniosa que me inclui, que me abraça, que a mim vem e de mim rompe em tranquilos e ardentes jorros. Tudo o que vejo toco. O vento que perpassa nas folhas corre-me pelas veias e pelas fibras. Fibras de um corpo, fibras do universo, vibrando no universo. Suspenderam-se as interrogações, nada pode ser proclamado nem aclamado aqui. Estou no templo natural. Totalmente ébrio de uma totalidade em que repouso e vibro. Sou tudo aquilo em que estou. Folhagem e água, ar, pedras, o sono verde da terra, as cores, os muros, as árvores e as casas adormecidas, rugosas, tudo, o todo inteiro, aqui, na coincidência feliz de ser, de mais ser, ebriamente límpido, misteriosamente idêntico.
1 099
António Ramos Rosa
Oscilando Na Ligeireza
Urdindo talvez a água e as lâmpadas de madeira.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
1 041
António Ramos Rosa
No Espaço
Vejo e respiro o azul como o sopro de um imenso animal. Inalterável, transparente, no seu mudo esplendor. Uma suavidade de pedra e de horizonte. Um voo suspenso que é todo o espaço e o majestoso fulgor de um espelho que é todo ar. Na profundidade do ar sou um animal do ar. Nudez da inocência, respiração do sol. Corpo sem sombra, sem segredo, íntimo, evidente, ardente, translúcido. Mundo volátil em expansão segura, mundo do princípio do desejo e da sua plenitude inicial. Em vez de palavras, a fragrância feliz e inexaurível de uma inocência solar. O sim do espaço, o sim do esquecimento.
1 205
António Ramos Rosa
Na Transparência da Sombra
Dorme na transparência da sombra ignorante
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
991
António Ramos Rosa
O Jardim
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
1 293
António Ramos Rosa
A Mulher Que Medita Aérea
Esparsa e prateada com a palma erguida
aérea e vagarosa no sono cintilante
em que medita a nudez de ser como uma lâmpada
até ao fundo em nostalgia ondeia
e a claridade irisa e abre-se ao silêncio.
Ilumina-se no círculo de um mistério verde.
É livre no ligeiro equilíbrio de um vigor
que vem das folhas e do ar e quase voa
em reverência ardente ao que está sendo
em transparência nua e em arcos de frescura.
Demora inclinada sobre as águas incandescentes
numa alegria branca e grita inteiramente.
Demora e respira a brisa que inebria
e limpa. Pelo espaço alarga a sua esfera
e decanta na penumbra a paz que se aclara.
aérea e vagarosa no sono cintilante
em que medita a nudez de ser como uma lâmpada
até ao fundo em nostalgia ondeia
e a claridade irisa e abre-se ao silêncio.
Ilumina-se no círculo de um mistério verde.
É livre no ligeiro equilíbrio de um vigor
que vem das folhas e do ar e quase voa
em reverência ardente ao que está sendo
em transparência nua e em arcos de frescura.
Demora inclinada sobre as águas incandescentes
numa alegria branca e grita inteiramente.
Demora e respira a brisa que inebria
e limpa. Pelo espaço alarga a sua esfera
e decanta na penumbra a paz que se aclara.
1 055
António Ramos Rosa
Antes Que Tudo Seja
Por ela os animais entram tão íntimos e lentos
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
537
António Ramos Rosa
Apenas Um Tremor
Vai-se tecendo a paz num caos contemplado
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
1 075
António Ramos Rosa
A Mulher
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
1 247