Poemas neste tema
Serenidade e Paz Interior
António Ramos Rosa
O Corpo Lúcido
No sítio onde se desenha o sono e a solidão
se perfaz o reino. Somos altura e atenção de antena
no corpo lúcido que se compenetra
no ardor de estar abrindo-se a um poder imenso
e circular que o liga à clareira incandescente.
Conhecemos o inviolável nos seus anéis e lâmpadas
e frutos. Estremecemos na passagem imóvel
em uníssono com as recém-nascidas vozes
que ténues sobem de um planeta verde.
Cada onda se eleva lenta e arredonda
e reúne o ouro e a tristeza num profuso
círculo. Aqui a atenção se esquece e ilumina
as sombras mais distantes, e o vento insufla
a embriaguez de estar sendo apenas uma folha
que estremece ao alto, acesa e frágil.
se perfaz o reino. Somos altura e atenção de antena
no corpo lúcido que se compenetra
no ardor de estar abrindo-se a um poder imenso
e circular que o liga à clareira incandescente.
Conhecemos o inviolável nos seus anéis e lâmpadas
e frutos. Estremecemos na passagem imóvel
em uníssono com as recém-nascidas vozes
que ténues sobem de um planeta verde.
Cada onda se eleva lenta e arredonda
e reúne o ouro e a tristeza num profuso
círculo. Aqui a atenção se esquece e ilumina
as sombras mais distantes, e o vento insufla
a embriaguez de estar sendo apenas uma folha
que estremece ao alto, acesa e frágil.
995
António Ramos Rosa
Antes Que Tudo Seja
Por ela os animais entram tão íntimos e lentos
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
537
António Ramos Rosa
A Força Alegre
É alegre a força que ainda não tem sinal
a não ser o veludo de um gesto sem ruído
e alta e animal se eleva no seu curso
e no lúcido furor de uma clara onda
se distende e enrola na vibração do vento
que lhe arredonda o sangue na festa rapidíssima
que não se inventa ou inventa na surpresa
da evidência viva à superfície lúcida,
e musical, eléctrica, constrói volume e linha
e espaço. Espraia-se ligeira a formosura
em transparentes paisagens que estremecem
tão altas e lisas que se espelham
em repouso de sombras e azuis. E qual
um voo oculto no silêncio, um círculo calmo
resume em si a inércia feliz do movimento.
a não ser o veludo de um gesto sem ruído
e alta e animal se eleva no seu curso
e no lúcido furor de uma clara onda
se distende e enrola na vibração do vento
que lhe arredonda o sangue na festa rapidíssima
que não se inventa ou inventa na surpresa
da evidência viva à superfície lúcida,
e musical, eléctrica, constrói volume e linha
e espaço. Espraia-se ligeira a formosura
em transparentes paisagens que estremecem
tão altas e lisas que se espelham
em repouso de sombras e azuis. E qual
um voo oculto no silêncio, um círculo calmo
resume em si a inércia feliz do movimento.
1 094
António Ramos Rosa
Apenas Um Tremor
Vai-se tecendo a paz num caos contemplado
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
1 075
António Ramos Rosa
Na Transparência da Sombra
Dorme na transparência da sombra ignorante
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
991
António Ramos Rosa
A Mulher
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
1 247
António Ramos Rosa
O Jardim
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
1 293
António Ramos Rosa
A Mulher do Espaço
Tua ardente harmonia, tua felicidade aérea
é o sonho súbito do ser, o seu sangue perfeito.
Estendes-te muito alto, muito baixo: nascente
subterrânea, sopro de asas. Suavidade oval.
Vibras repentina na fluência perfumada.
És um sonho do ar e uma palavra que inicia
com um sabor completo. As coisas aparecem
como dentro de ti, veladas, luminosas.
Como se dissipam lentas as tuas órbitas ligeiras!
Num acto puro rodas à volta do vazio
tão fundo e tão azul e nem sequer estremeces
e és uma ausência branca que acalma e que deslumbra.
Que hálitos, que rumores flexíveis e sedosos!
Em círculos a nudez demora-se em desejos
onde tudo é abolido e tudo principia.
é o sonho súbito do ser, o seu sangue perfeito.
Estendes-te muito alto, muito baixo: nascente
subterrânea, sopro de asas. Suavidade oval.
Vibras repentina na fluência perfumada.
És um sonho do ar e uma palavra que inicia
com um sabor completo. As coisas aparecem
como dentro de ti, veladas, luminosas.
Como se dissipam lentas as tuas órbitas ligeiras!
Num acto puro rodas à volta do vazio
tão fundo e tão azul e nem sequer estremeces
e és uma ausência branca que acalma e que deslumbra.
Que hálitos, que rumores flexíveis e sedosos!
Em círculos a nudez demora-se em desejos
onde tudo é abolido e tudo principia.
978
António Ramos Rosa
Um Corpo Vegetal
Um corpo vegetal repousa, um corpo de sossego
em leves impulsos, em silêncio e cor.
Óleo sobre os lábios, penumbra, júbilo. Lâmpadas e muros.
Este é o instante branco dos imóveis relâmpagos.
Vagueio entre ondas amantes, entre dedos e folhas.
Sou um viajante em núpcias com a sombra
e com a luz. O mundo não sonha. Sonho eu as coisas?
O mundo amoroso sinto-o nas paredes, na inocente vertigem,
é sempre um corpo unânime que murmura na folhagem.
Num frenesim disperso abraço esguias formas.
Os meus companheiros são vagabundos ténues, inocentes selvagens.
Que plenitude vazia, que viagens tão leves!
Não outro mas o mundo das antenas amorosas.
Formas insubmissas, formas felizes, formas vivas
que o olhar bebe num sossegado assombro.
em leves impulsos, em silêncio e cor.
Óleo sobre os lábios, penumbra, júbilo. Lâmpadas e muros.
Este é o instante branco dos imóveis relâmpagos.
Vagueio entre ondas amantes, entre dedos e folhas.
Sou um viajante em núpcias com a sombra
e com a luz. O mundo não sonha. Sonho eu as coisas?
O mundo amoroso sinto-o nas paredes, na inocente vertigem,
é sempre um corpo unânime que murmura na folhagem.
Num frenesim disperso abraço esguias formas.
Os meus companheiros são vagabundos ténues, inocentes selvagens.
Que plenitude vazia, que viagens tão leves!
Não outro mas o mundo das antenas amorosas.
Formas insubmissas, formas felizes, formas vivas
que o olhar bebe num sossegado assombro.
1 065
António Ramos Rosa
As Figuras do Espaço
Mais próximo de uma simples coisa diminuta.
Um domínio interior de silêncio e frescura.
Vejo com nitidez os tímidos animais,
os pequenos buracos, as folhas vagarosas,
o ligeiro movimento da água nas veredas.
Na evidência da luz em sílabas aéreas
as formas naturais propagam o desejo.
O vento é um vagar, facilidade pura.
Estou numa onda serena e abraço todo o espaço.
Que raízes procuro, que obscura flor ainda?
O que nos diz a sombra, o que nos diz o silêncio?
São palavras aéreas? São as figuras do espaço
tranquilas e longínquas? Uma única boca para o vento,
uma sílaba clara, uma ressonância calma
em volúveis vogais na ausência dos caminhos.
Um domínio interior de silêncio e frescura.
Vejo com nitidez os tímidos animais,
os pequenos buracos, as folhas vagarosas,
o ligeiro movimento da água nas veredas.
Na evidência da luz em sílabas aéreas
as formas naturais propagam o desejo.
O vento é um vagar, facilidade pura.
Estou numa onda serena e abraço todo o espaço.
Que raízes procuro, que obscura flor ainda?
O que nos diz a sombra, o que nos diz o silêncio?
São palavras aéreas? São as figuras do espaço
tranquilas e longínquas? Uma única boca para o vento,
uma sílaba clara, uma ressonância calma
em volúveis vogais na ausência dos caminhos.
1 031
António Ramos Rosa
O Obscuro
Porque o obscuro cresce e cresce em ambíguas sombras,
porque a folhagem sobe já os declives, porque a boca
respira a árvore obscura, porque o suave clamor
das sombras se propaga no nocturno espaço.
Frases, que possíveis frases imediatas e seguras
oferecem os arcos da tranquilidade luminosa?
Onde a ternura e o perfume, onde o pulso
amoroso que navega na aragem?
Quando poderei consumar-me na certeza do espaço?
Algo oscila em mim como uma folha, algo diz sim.
É uma corrente de ar brilhante, é um lugar que emerge
de obscuras veias. Que leveza no vento! Estou no meio do espaço.
Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar.
porque a folhagem sobe já os declives, porque a boca
respira a árvore obscura, porque o suave clamor
das sombras se propaga no nocturno espaço.
Frases, que possíveis frases imediatas e seguras
oferecem os arcos da tranquilidade luminosa?
Onde a ternura e o perfume, onde o pulso
amoroso que navega na aragem?
Quando poderei consumar-me na certeza do espaço?
Algo oscila em mim como uma folha, algo diz sim.
É uma corrente de ar brilhante, é um lugar que emerge
de obscuras veias. Que leveza no vento! Estou no meio do espaço.
Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar.
1 093
António Ramos Rosa
Figuras
Delícia dos movimentos calmos, ecos
talvez de um sonho, mas figuras tão vivas
com as suas espáduas largas e vazias.
Corpos sem sombras entre a chama e o vento.
Adormecem no ar, navegam sem navios.
Não vivem no mar mas na ausência que é o mar
quando a palavra o diz. Não estão no bosque
mas na folha que escrevo. Chega a noite das árvores
em que eles são no silêncio uma folhagem de olhos.
Não murmuram sequer, na mais pura cadência.
Escrevo a lentidão das figuras serenas
que respiram na tranquila nitidez aérea.
Os nomes dão-lhes vida sem caminhos prévios.
No vazio do desejo se acende o seu fulgor.
Estão no nosso estar de campos sossegados.
talvez de um sonho, mas figuras tão vivas
com as suas espáduas largas e vazias.
Corpos sem sombras entre a chama e o vento.
Adormecem no ar, navegam sem navios.
Não vivem no mar mas na ausência que é o mar
quando a palavra o diz. Não estão no bosque
mas na folha que escrevo. Chega a noite das árvores
em que eles são no silêncio uma folhagem de olhos.
Não murmuram sequer, na mais pura cadência.
Escrevo a lentidão das figuras serenas
que respiram na tranquila nitidez aérea.
Os nomes dão-lhes vida sem caminhos prévios.
No vazio do desejo se acende o seu fulgor.
Estão no nosso estar de campos sossegados.
1 181
António Ramos Rosa
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
1 170
António Ramos Rosa
Mediadora Límpida
Delicada insondável
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço
Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco
Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio
Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras
Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido
Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo
Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio
Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar
Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço
Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco
Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio
Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras
Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido
Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo
Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio
Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar
Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.
526
António Ramos Rosa
Os Prestígios Simples
Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
1 081
António Ramos Rosa
Mediadora do Sono
É uma nuvem que repousa? Um barco
no jardim?
A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
Há um lado do silêncio iluminado,
há um sol das folhas nas veias do jardim.
Que ócio e que segredo nas corolas de água!
Leves densidades de um incêndio branco.
Adormeceu a voz. O encanto é sossego.
Amorosa lentidão de uma infinita espera.
A nuvem repousa. A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
no jardim?
A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
Há um lado do silêncio iluminado,
há um sol das folhas nas veias do jardim.
Que ócio e que segredo nas corolas de água!
Leves densidades de um incêndio branco.
Adormeceu a voz. O encanto é sossego.
Amorosa lentidão de uma infinita espera.
A nuvem repousa. A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
1 135
António Ramos Rosa
Mediadora de Estar
A paz é de sombra. Imóvel
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.
Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,
espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.
Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.
Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,
espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.
Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.
1 179
António Ramos Rosa
Mediadora da Casa
Tão próxima da casa,
discreta maravilha
que vive num murmúrio
em sua vida mínima.
Feliz de ser concreta
num ambiente secreto.
Todo o rumor um concerto
numa penumbra serena.
Intacto o silêncio sempre
é um repouso redondo.
Tudo se oculta e se abre
entre a vigília e o sonho.
Sem forma, refulge num sono
inicial, movem-se minúcias,
sombras de brisa, recolhe
a suavidade do mundo.
discreta maravilha
que vive num murmúrio
em sua vida mínima.
Feliz de ser concreta
num ambiente secreto.
Todo o rumor um concerto
numa penumbra serena.
Intacto o silêncio sempre
é um repouso redondo.
Tudo se oculta e se abre
entre a vigília e o sonho.
Sem forma, refulge num sono
inicial, movem-se minúcias,
sombras de brisa, recolhe
a suavidade do mundo.
952
António Ramos Rosa
Mediadora da Lucidez Espacial
Principia por
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
1 045
António Ramos Rosa
Mediadora Imediata
Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 018
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
990
António Ramos Rosa
Mediadora Simples
Demora em sossegos fundos
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.
Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.
Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.
Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.
Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.
Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.
Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.
1 020
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência
Escreve sobre paisagens de areia.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha
nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,
o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha
nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,
o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
1 012
António Ramos Rosa
Mediadora da Ausência
O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
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