Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
Vinicius de Moraes
Soneto Simples
Chegara enfim o mesmo que partira: a porta aberta e o coração voando ao
encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, almas
cinzentas plácidas passando — somente a amiga é como o melro branco!
E enfim partira o mesmo que chegara; o horizonte transpondo o pensamento
e nas auroras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo
de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos... (foi quando
desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos...)
encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, almas
cinzentas plácidas passando — somente a amiga é como o melro branco!
E enfim partira o mesmo que chegara; o horizonte transpondo o pensamento
e nas auroras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo
de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos... (foi quando
desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos...)
1 186
Vinicius de Moraes
O Bom Pastor
Amo andar pelas tardes sem som, brandas, maravilhosas
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em voo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma...
Amo andar nessas tardes...
Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agigantado
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma...
E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi...
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras...
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva...
E pelos caminhos já percorridos, voltando com a noite
Amo sonhar...
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em voo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma...
Amo andar nessas tardes...
Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agigantado
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma...
E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi...
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras...
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva...
E pelos caminhos já percorridos, voltando com a noite
Amo sonhar...
1 209
Vinicius de Moraes
O Vale do Paraíso
Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas
nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.
Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil
janelas
A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
E a água estará fria e todos correrão pela grama
E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
E haverá coaxos distantes a cada instante
Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.
Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
E as borboletas se fecundando não me responderão.
Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema
inexistência
Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
Lá onde eu irei.
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas
nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.
Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil
janelas
A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
E a água estará fria e todos correrão pela grama
E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
E haverá coaxos distantes a cada instante
Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.
Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
E as borboletas se fecundando não me responderão.
Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema
inexistência
Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
Lá onde eu irei.
1 181
Vinicius de Moraes
Velha História
Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
1 108
Vinicius de Moraes
O Poeta Na Madrugada
Quando o poeta chegou à cidade
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.
Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.
Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.
1 160
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cada Manhã o Alvoroço da Luz
Me acorda: a luz atravessa a paisagem e a casa
— A dormir tinha esquecido não as coisas
Mas sua meticulosa beleza
Múltipla
No princípio Deus disse
Faça-se a luz
— E com a luz da manhã o mundo principia
Digo a luz e não o sol
Nos dias de nevoeiro emergem formas brancas
Aqui e além como se vogassem
Numa deriva cismadora e serena
Nos dias de sol os ciprestes enegrecem
E ao longe brilha o regozijo das vidraças
1987
— A dormir tinha esquecido não as coisas
Mas sua meticulosa beleza
Múltipla
No princípio Deus disse
Faça-se a luz
— E com a luz da manhã o mundo principia
Digo a luz e não o sol
Nos dias de nevoeiro emergem formas brancas
Aqui e além como se vogassem
Numa deriva cismadora e serena
Nos dias de sol os ciprestes enegrecem
E ao longe brilha o regozijo das vidraças
1987
1 432
Sophia de Mello Breyner Andresen
Teu Passo Não Enraizou Nas Areias de Seda
Embora te iniciasse Ártemis
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical
Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto
Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical
Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto
Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
1 464
Sophia de Mello Breyner Andresen
Enigmáticos, Desertos E Suspensos
Os espaços vermelhos do poente,
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços
Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços
Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.
1 157
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Poema E a Casa
Paramos devagar entre paredes brancas
Entre mobílias escuras e as janelas verdes
Um longo instante paramos em frente
Das mil luzes e mil estátuas do poente
Entre mobílias escuras e as janelas verdes
Um longo instante paramos em frente
Das mil luzes e mil estátuas do poente
1 231
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. À Luz do Aparecer a Madrugada
À luz do aparecer a madrugada
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
708
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Cigarras
Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
1 235
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã
Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro
1 675
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Esperança Mora
No vento e nas sereias —
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
1 569
Adélia Prado
Inverno
A árvore na montanha
me chama a ver do alto
o sol derreter a bruma.
Sob o que parece um oceano cinzento
não se enxerga o vergel, os bois.
Lanternas criam halos maravilhosos,
de um navio parado em alto-mar.
O onipresente vapor evanesce as imagens,
exsuda, pela respiração do criador das coisas,
a beleza linfática do mundo.
Provada no corpo é fria.
Na alma expandida é gozo.
me chama a ver do alto
o sol derreter a bruma.
Sob o que parece um oceano cinzento
não se enxerga o vergel, os bois.
Lanternas criam halos maravilhosos,
de um navio parado em alto-mar.
O onipresente vapor evanesce as imagens,
exsuda, pela respiração do criador das coisas,
a beleza linfática do mundo.
Provada no corpo é fria.
Na alma expandida é gozo.
1 280
Adélia Prado
Nossa Senhora Dos Prazeres
No que se pode chamar de rua,
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
739
Adélia Prado
O Oráculo
A luz arcaica,
a que antes de tudo
no coração da treva preexistia,
é a iminente aurora
que do topo do mundo
o galo anuncia.
Dão medo
seus olhos amarelos multimóbiles.
Olhando fixo pra lugar nenhum,
bruto como um profeta
o galo anuncia.
a que antes de tudo
no coração da treva preexistia,
é a iminente aurora
que do topo do mundo
o galo anuncia.
Dão medo
seus olhos amarelos multimóbiles.
Olhando fixo pra lugar nenhum,
bruto como um profeta
o galo anuncia.
1 288
Adélia Prado
Mote da Viúva
Sol com chuva
casamento da viúva
que de maneira discreta
oferece docinhos.
O noivo não disfarça a pressa
de ficar a sós com a experiente mulher.
É bom ter calma,
até que o último a sair
bata de novo à porta
querendo seu guarda-chuva.
Como de um satélite
que a olhos nus navega devagar,
vê-se a terra lá embaixo,
rios, campinas, cidadezinhas, torres,
entra dia, sai noite,
uma volta completa.
Lambendo o mel da lua a viúva
ensina o homem a raiar.
casamento da viúva
que de maneira discreta
oferece docinhos.
O noivo não disfarça a pressa
de ficar a sós com a experiente mulher.
É bom ter calma,
até que o último a sair
bata de novo à porta
querendo seu guarda-chuva.
Como de um satélite
que a olhos nus navega devagar,
vê-se a terra lá embaixo,
rios, campinas, cidadezinhas, torres,
entra dia, sai noite,
uma volta completa.
Lambendo o mel da lua a viúva
ensina o homem a raiar.
1 153
Adélia Prado
A Pintora
Hoje de tarde
pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas
e comecei a chorar,
até me lembrar de que podia
falar sem mediação com o próprio Deus
daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.
Me agarrei aos seus pés:
Vós sabeis, Vós sabeis,
só Vós sabeis, só Vós.
O bagaço da laranja, suas sementes
me olhavam da casca em concha
na mão seca.
Não queria palavras pra rezar,
bastava-me ser um quadro
bem na frente de Deus
para Ele olhar.
pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas
e comecei a chorar,
até me lembrar de que podia
falar sem mediação com o próprio Deus
daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.
Me agarrei aos seus pés:
Vós sabeis, Vós sabeis,
só Vós sabeis, só Vós.
O bagaço da laranja, suas sementes
me olhavam da casca em concha
na mão seca.
Não queria palavras pra rezar,
bastava-me ser um quadro
bem na frente de Deus
para Ele olhar.
2 725
Adélia Prado
Aqui, Tão Longe
Neste bairro pobre todos têm um real
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
1 182
Adélia Prado
Duas Horas da Tarde No Brasil
Tanto quanto a vida amo este calor,
esta claridade metafísica,
este pequeno milagre:
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.
Quem sofre é meu coração,
às duas horas da tarde quer rezar.
Quem me chama é Deus?
É Seu olho centrífugo o que me puxa?
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,
seu jeito triste de fechar a boca.
A quem amo enfim?
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem
e confundo você, mesquinho,
e confundo você, vaidoso,
com o que me quer com ele
gemendo na sua cama de cruz?
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,
de batuques, de meus quadris excessivos.
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?
Brasileiro não é. Estranhíssimo, sim,
com seu corpo desnudo e perfurado,
mendigando carinho, igual ao meu.
Minha pátria, como as outras, tem folclore,
cantigas cheias de melancolia.
Como posso aceitar que morreremos?
E a alma do povo, a quem aproveitaria?
Frigoríficos são horríveis
mas devo poetizá-los
para que nada escape à redenção:
Frigorífico do Jiboia
Carne fresca
Preço joia.
De novo quero rezar pra não ficar estrangeira
meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu.
esta claridade metafísica,
este pequeno milagre:
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.
Quem sofre é meu coração,
às duas horas da tarde quer rezar.
Quem me chama é Deus?
É Seu olho centrífugo o que me puxa?
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,
seu jeito triste de fechar a boca.
A quem amo enfim?
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem
e confundo você, mesquinho,
e confundo você, vaidoso,
com o que me quer com ele
gemendo na sua cama de cruz?
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,
de batuques, de meus quadris excessivos.
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?
Brasileiro não é. Estranhíssimo, sim,
com seu corpo desnudo e perfurado,
mendigando carinho, igual ao meu.
Minha pátria, como as outras, tem folclore,
cantigas cheias de melancolia.
Como posso aceitar que morreremos?
E a alma do povo, a quem aproveitaria?
Frigoríficos são horríveis
mas devo poetizá-los
para que nada escape à redenção:
Frigorífico do Jiboia
Carne fresca
Preço joia.
De novo quero rezar pra não ficar estrangeira
meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu.
1 901
Adélia Prado
Móbiles
Que belo poema se poderia escrever.
Coisas espicaçadoras não faltam,
hortigranjeiros esperando transporte
e tudo que é necessário:
tenho que fazer o almoço.
Ou supostamente ético:
batia gente na porta,
Tialzi no corador virava as calcinhas todas
de modo a esconder o fundo.
Uma laranjeira rebrota,
preciosa árvore do mato dá espinhos,
folhinhas miúdas, flores cujas pétalas
são fios agrupados em contas de odorífero ouro.
Elas explicam o mundo como os pintinhos explicam,
perfeitos até as unhas, emplumados, vivos,
invencível delicadeza
que homem algum já fez com sua mão.
Surpreendido de noite com a mão nos ouvidos,
o moço dizia: não durmo, é a música do bar,
este galo seu que canta fora de hora.
Mentira. É por causa da vida que não dorme,
da zoeira sem fim que a vida faz.
Quer casar e não pode,
seu emprego é mau,
seu pâncreas, ingrato e preguiçoso.
Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição.
O dia passa, a noite, saio da sombra e digo:
é só isso que eu quero,
ficar no sol até enrugar o couro.
Mas vai-se o sol também atrás do morro,
a noite vem e passa sobre mim
que longe de espelhos alimento sonhos
quanto a viagens, glórias,
homens raros me ofertando colares, palavras
que se podem comer, de tão doces,
de tão aquecidas, corporificadas.
A parreira verga de flores,
eu durmo inebriada,
achando pouca a beleza do mundo,
ansiando a que não passa nem murcha
nem fica alta, nem longe,
nem foge de encontrar meu duro olhar de gula.
A beleza imóvel,
a cara de Deus que vai matar minha fome.
Coisas espicaçadoras não faltam,
hortigranjeiros esperando transporte
e tudo que é necessário:
tenho que fazer o almoço.
Ou supostamente ético:
batia gente na porta,
Tialzi no corador virava as calcinhas todas
de modo a esconder o fundo.
Uma laranjeira rebrota,
preciosa árvore do mato dá espinhos,
folhinhas miúdas, flores cujas pétalas
são fios agrupados em contas de odorífero ouro.
Elas explicam o mundo como os pintinhos explicam,
perfeitos até as unhas, emplumados, vivos,
invencível delicadeza
que homem algum já fez com sua mão.
Surpreendido de noite com a mão nos ouvidos,
o moço dizia: não durmo, é a música do bar,
este galo seu que canta fora de hora.
Mentira. É por causa da vida que não dorme,
da zoeira sem fim que a vida faz.
Quer casar e não pode,
seu emprego é mau,
seu pâncreas, ingrato e preguiçoso.
Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição.
O dia passa, a noite, saio da sombra e digo:
é só isso que eu quero,
ficar no sol até enrugar o couro.
Mas vai-se o sol também atrás do morro,
a noite vem e passa sobre mim
que longe de espelhos alimento sonhos
quanto a viagens, glórias,
homens raros me ofertando colares, palavras
que se podem comer, de tão doces,
de tão aquecidas, corporificadas.
A parreira verga de flores,
eu durmo inebriada,
achando pouca a beleza do mundo,
ansiando a que não passa nem murcha
nem fica alta, nem longe,
nem foge de encontrar meu duro olhar de gula.
A beleza imóvel,
a cara de Deus que vai matar minha fome.
1 245
Adélia Prado
As Seis Badaladas do Entardecer
Cantores populares no Brasil
fizeram fama e fortuna
cantando-lhe o doce encanto.
Pinhos plangeram,
mágoas rolaram, dolentes,
flores após langores
e até lívidas papoulas
estremeceram de frio nestes versos:
‘Como lívidas papoulas
são teus olhos lantejoulas.’
Envém a noite com seu negro manto,
restos de luz no poente,
também chamado ocaso
e mais lindamente crepúsculo,
na voz do cantor do rádio.
Papai já jantou faz tempo,
mamãe já morreu faz tempo,
faz tempo que estou aqui
fingindo fazer chalaça.
Papai olha o relógio:
‘6 horas já. Quem não fez não faz mais.’
Vermelhidões de incêndio,
os rostos meio pálidos fulguravam.
fizeram fama e fortuna
cantando-lhe o doce encanto.
Pinhos plangeram,
mágoas rolaram, dolentes,
flores após langores
e até lívidas papoulas
estremeceram de frio nestes versos:
‘Como lívidas papoulas
são teus olhos lantejoulas.’
Envém a noite com seu negro manto,
restos de luz no poente,
também chamado ocaso
e mais lindamente crepúsculo,
na voz do cantor do rádio.
Papai já jantou faz tempo,
mamãe já morreu faz tempo,
faz tempo que estou aqui
fingindo fazer chalaça.
Papai olha o relógio:
‘6 horas já. Quem não fez não faz mais.’
Vermelhidões de incêndio,
os rostos meio pálidos fulguravam.
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Adélia Prado
Tabaréu
Vira e mexe eu penso é numa toada só.
Fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu. O mais universal a que chego
é a recepção de Nossa Senhora de Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste feito
água no fundo da mina, levantando morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de repente
com trovoada e raio. Não desaponta nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.
Fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu. O mais universal a que chego
é a recepção de Nossa Senhora de Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste feito
água no fundo da mina, levantando morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de repente
com trovoada e raio. Não desaponta nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.
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