Poemas neste tema
Solidão
Fernando Pessoa
O ribeiro bate, bate
O ribeiro bate, bate
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
1 407
Fernando Pessoa
Os ranchos das raparigas
Os ranchos das raparigas
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
1 257
Fernando Pessoa
A Senhora da Agonia
A Senhora da Agonia
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
1 613
Fernando Pessoa
Vai alta sobre a montanha
Vai alta sobre a montanha
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.
1 512
Fernando Pessoa
A estrada inteiramente insubjectiva
A estrada inteiramente insubjectiva
Branca, branca, sem pensamento algum
Branca, branca, sem pensamento algum
1 496
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
929
Fernando Pessoa
Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.
1 401
Fernando Pessoa
Velha cadeira deixada
Velha cadeira deixada
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
2 660
Fernando Pessoa
Já sei: alguém disse a verdade.
Já sei: alguém disse a verdade.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
1 181
Fernando Pessoa
Estou acima do que agrada aos grandes
Estou acima do que agrada aos grandes
Ou aos cultos apraz, a sós comigo
E com o mistério.
Tornei a minha alma exterior a mim.
Ou aos cultos apraz, a sós comigo
E com o mistério.
Tornei a minha alma exterior a mim.
1 302
Fernando Pessoa
Monólogo à Noite
Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido de (...)
E anulamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta e (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ter infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido de (...)
E anulamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta e (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ter infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
1 463
Fernando Pessoa
Epílogo?
(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
1 452
Fernando Pessoa
Longe de mim em mim existo
Longe de mim em mim existo
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
1 279
Fernando Pessoa
Perdido / No labirinto de mim mesmo, já
Perdido
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz, onde sentir-me irmãos.
Por isso não concebo alegremente,
Mas com profunda pesadez em mim,
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere.
Ouvir um riso
Amarga-me a alma — mas por quê não sei.
Sinto como um insulto esta alegria...
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir é rir... não de mim mas, talvez
Do meu ser.
Um insulto ao mistério estar a rir
E tendo o horror, do poder durar eterno
Do incompreendido! Estranho!
Felicidade, (...) composto
De sensualidade e infantilismo...
Como te posso eu ter, felicidade?
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz, onde sentir-me irmãos.
Por isso não concebo alegremente,
Mas com profunda pesadez em mim,
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere.
Ouvir um riso
Amarga-me a alma — mas por quê não sei.
Sinto como um insulto esta alegria...
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir é rir... não de mim mas, talvez
Do meu ser.
Um insulto ao mistério estar a rir
E tendo o horror, do poder durar eterno
Do incompreendido! Estranho!
Felicidade, (...) composto
De sensualidade e infantilismo...
Como te posso eu ter, felicidade?
1 313
Fernando Pessoa
Não me concebo amando, nem dizendo
Não me concebo amando, nem dizendo
A alguém «eu te amo», sem que me conceba
Sob uma outra alma que não é a minha
Toda a expansão e transfusão de vida
Me horroriza como a avaro a ideia
De gastar e gastar inutilmente,
Inda que no gastar se esboce gozo,
Um terror como de crime,
Uma frieza como ante o impossível
Tolhe a própria visão dum meu amor
Dentro em meu ser. Sentir amor, talvez,
Pois quem sabe o que está fadado
(...) ;mas amar, amar,
Nunca... não só o horror de (...)
Mas o pudor de dizer o que sinto
E ser amante aos olhos e ouvidos
Duma alma consciente, o entregar-me
Eu, o mistério de uma consciência,
Ao mistério duma outra consciência.
O poder estar inerte e (...)
Que só concebo como meu.
A vida é o esquecer-se continuamente
Mas eu, nesta minha intensa vida,
Vivi em mim tão solitariamente,
Que não sei esquecer-me, nem tirar
De mim meus olhos d'alma; e em cada gesto
De amor que eu fazia, analisá-lo
Até lhe descobrir o horror e (...)
Da essência do mistério; e ao ver tão perto
Como entre minhas mãos o revelado
Horror de tudo, logo deixarei
A possibilidade de amar
Cair delas tremendo. Do universo
A alma misteriosa eu sempre atento
Em toda a parte vejo; se já estas
Inanimadas cousas que me cercam
Me dão, nas muitas horas em que as fito,
Não com os sentidos mas com a alma logo,
Directamente como com a vista,
Me torturam, no auge do terror
Pelo mistério que não são e são;
Quanto mais — oh horror de o conceber! —
Ao ouvir vozes íntimas de alma
De um ser amante — minhas ou para mim —
Ao ouvir assim perto, ao ver assim
Próximo da minha alma sempre atenta
Uma voz do mistério feito vida —
Quanto mais, como se a solução
Do mistério mesmo me turbasse
Até à morte de terror e espanto,
Não se me esfriaria em medo a alma
Ao ver em um olhar brilhar o horror
De haver consciência e existências.
Não é o acanhamento virginal
Que da própria luxúria se perturba,
Nem o ideal pudor, por delicada
A alma, do que em amar é grosseria
Inevitavelmente; não o medo
De ser inapreciado ou ser troçado;
Nem terror de impotência a Ser (...)
Me ocupa. É mais negro sentimento
Mais íntimo, mais frio e mais ligado
Ao que, de continuado pensamento,
Me é o que eu chamo a alma que é minha.
E isto
Decerto lograria a incompreensão
Que primordial não é no meu temer
E a troça da alma no olhar espreitando
E (...) de quem é
Diferente de todos e de tudo,
Como um universo à parte, grande nisto
Mas sem poder d'alguém ser entendido
Senão por louco, ou desvairado ou triste,
Injúrias de insuficiência e acanhamento
De compreensão.
A alguém «eu te amo», sem que me conceba
Sob uma outra alma que não é a minha
Toda a expansão e transfusão de vida
Me horroriza como a avaro a ideia
De gastar e gastar inutilmente,
Inda que no gastar se esboce gozo,
Um terror como de crime,
Uma frieza como ante o impossível
Tolhe a própria visão dum meu amor
Dentro em meu ser. Sentir amor, talvez,
Pois quem sabe o que está fadado
(...) ;mas amar, amar,
Nunca... não só o horror de (...)
Mas o pudor de dizer o que sinto
E ser amante aos olhos e ouvidos
Duma alma consciente, o entregar-me
Eu, o mistério de uma consciência,
Ao mistério duma outra consciência.
O poder estar inerte e (...)
Que só concebo como meu.
A vida é o esquecer-se continuamente
Mas eu, nesta minha intensa vida,
Vivi em mim tão solitariamente,
Que não sei esquecer-me, nem tirar
De mim meus olhos d'alma; e em cada gesto
De amor que eu fazia, analisá-lo
Até lhe descobrir o horror e (...)
Da essência do mistério; e ao ver tão perto
Como entre minhas mãos o revelado
Horror de tudo, logo deixarei
A possibilidade de amar
Cair delas tremendo. Do universo
A alma misteriosa eu sempre atento
Em toda a parte vejo; se já estas
Inanimadas cousas que me cercam
Me dão, nas muitas horas em que as fito,
Não com os sentidos mas com a alma logo,
Directamente como com a vista,
Me torturam, no auge do terror
Pelo mistério que não são e são;
Quanto mais — oh horror de o conceber! —
Ao ouvir vozes íntimas de alma
De um ser amante — minhas ou para mim —
Ao ouvir assim perto, ao ver assim
Próximo da minha alma sempre atenta
Uma voz do mistério feito vida —
Quanto mais, como se a solução
Do mistério mesmo me turbasse
Até à morte de terror e espanto,
Não se me esfriaria em medo a alma
Ao ver em um olhar brilhar o horror
De haver consciência e existências.
Não é o acanhamento virginal
Que da própria luxúria se perturba,
Nem o ideal pudor, por delicada
A alma, do que em amar é grosseria
Inevitavelmente; não o medo
De ser inapreciado ou ser troçado;
Nem terror de impotência a Ser (...)
Me ocupa. É mais negro sentimento
Mais íntimo, mais frio e mais ligado
Ao que, de continuado pensamento,
Me é o que eu chamo a alma que é minha.
E isto
Decerto lograria a incompreensão
Que primordial não é no meu temer
E a troça da alma no olhar espreitando
E (...) de quem é
Diferente de todos e de tudo,
Como um universo à parte, grande nisto
Mas sem poder d'alguém ser entendido
Senão por louco, ou desvairado ou triste,
Injúrias de insuficiência e acanhamento
De compreensão.
1 377
Fernando Pessoa
O pensar, e o pensar sempre
O pensar, e o pensar sempre
Dá-me uma forma íntima e (...)
De sentir, que me torna desumano.
Já irmanar não posso o sentimento
Com o sentimento doutros, misantropo
Inevitavelmente e em minha essência.
Toda a alegria me gela, me faz ódio,
Toda a tristeza alheia me aborrece,
Absorto eu na minha, maior muito
Que outras. E a alegria faz-me odiar
Porque eu alegre já não posso ser,
E, conquanto o não queira assim sentir
Sinto em mim que a minha alma não tolera
Que seja alguém do que ela mais feliz.
O rir insulta-me por existir,
Que eu sinto que não quero que alguém ria
Enquanto eu não puder! Se acaso tento
Sentir, querer, só quero incoerências
De indefinida aspiração imensa,
Que mesmo no seu sonho é desmedida.
E às vezes com pensar sinto crescer
Em mim loucuras de (...)
E impulsos que me transem de terror
Mas são apenas (...) e passam.
Mais de sempre é em mim (quando não penso
E estou no pensamento obscurecido)
Uma vaga e (...) aspiração
Quiescente, febril e dolorosa
Nascida do (...) pensamento
E acompanhando-o comovidamente
Nas inércias obscuras do meu ser.
Dá-me uma forma íntima e (...)
De sentir, que me torna desumano.
Já irmanar não posso o sentimento
Com o sentimento doutros, misantropo
Inevitavelmente e em minha essência.
Toda a alegria me gela, me faz ódio,
Toda a tristeza alheia me aborrece,
Absorto eu na minha, maior muito
Que outras. E a alegria faz-me odiar
Porque eu alegre já não posso ser,
E, conquanto o não queira assim sentir
Sinto em mim que a minha alma não tolera
Que seja alguém do que ela mais feliz.
O rir insulta-me por existir,
Que eu sinto que não quero que alguém ria
Enquanto eu não puder! Se acaso tento
Sentir, querer, só quero incoerências
De indefinida aspiração imensa,
Que mesmo no seu sonho é desmedida.
E às vezes com pensar sinto crescer
Em mim loucuras de (...)
E impulsos que me transem de terror
Mas são apenas (...) e passam.
Mais de sempre é em mim (quando não penso
E estou no pensamento obscurecido)
Uma vaga e (...) aspiração
Quiescente, febril e dolorosa
Nascida do (...) pensamento
E acompanhando-o comovidamente
Nas inércias obscuras do meu ser.
1 832
Fernando Pessoa
A vida é má e o pensamento é mau,
A vida é má e o pensamento é mau,
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.
Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.
Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.
Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...
Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!
(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.
Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.
Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.
Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...
Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!
(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
995
Fernando Pessoa
Seja: / Já que este audaz e imenso pensamento
Seja:
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
828
Fernando Pessoa
Diálogo na treva?
Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
1 353
Fernando Pessoa
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
1 460
Fernando Pessoa
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
2 161
Fernando Pessoa
BUILD ME A COTTAGE
Build me a cottage deep
In a forest, a simple, silent home,
Like a breath in a sleep,
Where all wish may be never to roam
And a pleasure all smallness may keep.
A palace high then build,
With confusion of lights and of rooms,
A strange sense to yield,
Whither my desire from the cottage's glooms
May go, to return, unfulfilled.
Then dig me a grave,
That what cottage nor palace can give
I at length may have,
That the weariness of all ways to live
May cease like the last of a wave.
In a forest, a simple, silent home,
Like a breath in a sleep,
Where all wish may be never to roam
And a pleasure all smallness may keep.
A palace high then build,
With confusion of lights and of rooms,
A strange sense to yield,
Whither my desire from the cottage's glooms
May go, to return, unfulfilled.
Then dig me a grave,
That what cottage nor palace can give
I at length may have,
That the weariness of all ways to live
May cease like the last of a wave.
1 437
Fernando Pessoa
IN THE STREET
I pass before the windows lit
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
1 549
Fernando Pessoa
SONG OF THE LEPER
He was a nauseous leper
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
Was the grass.
And the leper sang this song:
«The leper is excluded from his race,
The leper is driven out,
The leper is thrust out
From hall and street and way;
He must not show his face
Where human beings may.
For him there are whips and stones;
He cannot even stay
Where mongrels fight for bones
And are allowed to play.
«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
But the leper is accurst
And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.
«The toad, the newt, the viper
Are tolerate and borne,
But the vile and nauseous leper
Makes vomit in deep scorn;
Repugnance is for him
Inevitably born
«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
Upon the wind they stray,
The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.
And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:
«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»
«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.
«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
Was the grass.
And the leper sang this song:
«The leper is excluded from his race,
The leper is driven out,
The leper is thrust out
From hall and street and way;
He must not show his face
Where human beings may.
For him there are whips and stones;
He cannot even stay
Where mongrels fight for bones
And are allowed to play.
«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
But the leper is accurst
And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.
«The toad, the newt, the viper
Are tolerate and borne,
But the vile and nauseous leper
Makes vomit in deep scorn;
Repugnance is for him
Inevitably born
«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
Upon the wind they stray,
The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.
And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:
«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»
«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.
«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
1 615