Poemas neste tema
Animais e Natureza
Eugénia Tabosa
A gata
(A meu filho Carlos)
A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.
A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.
1 204
Zezé Pina
Haikais
chuva na praia
o céu beija o mar
– gaivota espera
neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila
velho castelo
menina à janela
sonho de infância
lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance
vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.
noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.
o céu beija o mar
– gaivota espera
neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila
velho castelo
menina à janela
sonho de infância
lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance
vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.
noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.
1 073
Angela Santos
Pássaro
Azul a Horizonte
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
1 152
Angela Santos
Clara Luz
Na
grandeza das coisas simples
te
vejo e sinto...
na brisa marinha,
no marulhar das folhas
no ondear da seara em pleno verão
no canto dos pássaros,
no cheiro da terra molhada,
nas gotas de chuva nos beirais
no gosto da fruta madura.....
Na simplicidade do que é grande
te vejo....
nessa mão que se estende
a outra mão aflita,
no pulsar do coração
pelo amigo que se vai,
na firmeza dos teus gestos
na verdade das palavras
com que vens até mim....
Em tudo isso te vejo
e adivinho-te no que sinto.....
e és grande porque simples
matriz...húmus…terra..raiz.
É assim, amor, que meus olhos te vêem
banhados por uma clara e límpida luz....
que espelha o teu dentro
onde a mim me vejo
como se um espelho reflectindo a alma
segredasse o que ela a ti mesma diz.
grandeza das coisas simples
te
vejo e sinto...
na brisa marinha,
no marulhar das folhas
no ondear da seara em pleno verão
no canto dos pássaros,
no cheiro da terra molhada,
nas gotas de chuva nos beirais
no gosto da fruta madura.....
Na simplicidade do que é grande
te vejo....
nessa mão que se estende
a outra mão aflita,
no pulsar do coração
pelo amigo que se vai,
na firmeza dos teus gestos
na verdade das palavras
com que vens até mim....
Em tudo isso te vejo
e adivinho-te no que sinto.....
e és grande porque simples
matriz...húmus…terra..raiz.
É assim, amor, que meus olhos te vêem
banhados por uma clara e límpida luz....
que espelha o teu dentro
onde a mim me vejo
como se um espelho reflectindo a alma
segredasse o que ela a ti mesma diz.
757
Angela Santos
Subtileza
Num
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
1 004
Angela Santos
Vaga-lume
Se
um vaga-lume
no seu bater de asas de seda
chegasse junto da tua janela
e nesse som imperceptível que notasses
te dissesse:
Amor aqui me tens, Vaga-lume feita
adornando a tua noite cortando o silencio
com meu leve bater de asas
olhando a clara luz que me vem de ti
me atrai, cega e extenua
quando perdida na luz do meu rodopiar constante
sou vaga-lume na noite
vaga-lume, feita amante.
um vaga-lume
no seu bater de asas de seda
chegasse junto da tua janela
e nesse som imperceptível que notasses
te dissesse:
Amor aqui me tens, Vaga-lume feita
adornando a tua noite cortando o silencio
com meu leve bater de asas
olhando a clara luz que me vem de ti
me atrai, cega e extenua
quando perdida na luz do meu rodopiar constante
sou vaga-lume na noite
vaga-lume, feita amante.
1 150
Angela Santos
Coisas Simples
Paro
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
1 146
Angela Santos
Retrato
De
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é
Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…
a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…
de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.
E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha
E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é
Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…
a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…
de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.
E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha
E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.
1 020
Angela Santos
A Nossa Casa
Entrando,
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
1 156
Angela Santos
Puros Sangue
Desgarra-se
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...
Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.
Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...
Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia
Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...
Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.
Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...
Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia
Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.
1 100
Angela Santos
Ser ou Não
Ser
Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras
E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser
Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém
E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade
Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.
Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras
E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser
Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém
E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade
Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.
1 053
Angela Santos
Fontes
No
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
1 019
Angela Santos
Casual
É
noite
uma casa ao longe,
pequenos olhos acesos
favos de gesso suspensos
na vertical
Azulejo púrpura
telhado de uniforme
laranja
E aqui tão perto
o miar de um felino…
fome ou cio?
noite
uma casa ao longe,
pequenos olhos acesos
favos de gesso suspensos
na vertical
Azulejo púrpura
telhado de uniforme
laranja
E aqui tão perto
o miar de um felino…
fome ou cio?
1 118
Angela Santos
Fragilidade
Como
uma borboleta
frágil
apanhada de imprevisto
na perpendicular do tempo
assim me sinto
Borboleta
instante de ser alado
meu breve instante de infinito
lembras-me o tempo
fraccionado, ou indiviso?
Danço e rodopio
na luz, minha armadilha,
e só me detenho se chega a exaustão
sabendo que ali é o fim do voo
anseio ainda minhas leves asas
para me lançar na imensidão.
uma borboleta
frágil
apanhada de imprevisto
na perpendicular do tempo
assim me sinto
Borboleta
instante de ser alado
meu breve instante de infinito
lembras-me o tempo
fraccionado, ou indiviso?
Danço e rodopio
na luz, minha armadilha,
e só me detenho se chega a exaustão
sabendo que ali é o fim do voo
anseio ainda minhas leves asas
para me lançar na imensidão.
1 267
Angela Santos
Hic et Nunc
Agora
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.
Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..
e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.
Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..
e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.
1 133
Miriam Paglia Costa
Coagulação do Instante
devo
ir, preciso ir, mas
a caminho
a flor do cacto
estrela presa em moitas do jardim
distraída planta
esquece o rabo fora da toca
e neva este verão
um floco
um floco só
na haste da escuridão
a flor e eu
a serena e a irritável
a que se cumpre e a que deseja
face a face
com grade de permeio
a do zoológico mira a do botânico
uma é estática
na outra, fluir repele o êxtase
a flor e eu, que
bicho hirsuto
porco-espinho
capivara
queixada perdida de seu bando
abrando
e, branda
doce
cega pelo branco
(estátua de osso
esquecido do esqueleto)
calço a alma da flor
e ando
ir, preciso ir, mas
a caminho
a flor do cacto
estrela presa em moitas do jardim
distraída planta
esquece o rabo fora da toca
e neva este verão
um floco
um floco só
na haste da escuridão
a flor e eu
a serena e a irritável
a que se cumpre e a que deseja
face a face
com grade de permeio
a do zoológico mira a do botânico
uma é estática
na outra, fluir repele o êxtase
a flor e eu, que
bicho hirsuto
porco-espinho
capivara
queixada perdida de seu bando
abrando
e, branda
doce
cega pelo branco
(estátua de osso
esquecido do esqueleto)
calço a alma da flor
e ando
747
Odylo Costa Filho
Soneto da Tarde
Não digo que o sol pare, nem suplico
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.
Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.
O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.
Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.
Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.
O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.
Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
1 549
Regina Souza Vieira
Dádiva
Sou mais
forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.
Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.
...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.
forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.
Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.
...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.
726
Hilda Hilst
De tanto te pensar
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua nágua.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua nágua.
3 245
Regina Souza Vieira
A Abóbora Menina
Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
1 098
Silvaney Paes
Sol
De desconforto
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.
E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.
Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.
E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.
E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.
Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.
E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.
1 066
Jorge Viegas
Silenciosa Felicidade
Acordam
as sombras floridas
Flutuando alegremente
Pela intensidade do intimo desejo.
Brincam os sentidos
Seguindo o voo colorido das aves
E ouvindo o murmúrio azul dos riachos.
Dançam pensamentos cristalinos
Sobre a suavidade deslizante
Das gotas brilhantes das cascatas.
Vibram comovidos carinhos
Aquecendo ardentes fontes seculares
Da alquimia sensual do beijo.
Resplandecem nuvens de sensibilidade
Espalhando misteriosas ternuras
Pelos perfumes infinitos da felicidade
E no emaranhado das lianas espirituais
Abraçamos majestosos segredos da luz da vida
Criando a magia absorvente do amor.
as sombras floridas
Flutuando alegremente
Pela intensidade do intimo desejo.
Brincam os sentidos
Seguindo o voo colorido das aves
E ouvindo o murmúrio azul dos riachos.
Dançam pensamentos cristalinos
Sobre a suavidade deslizante
Das gotas brilhantes das cascatas.
Vibram comovidos carinhos
Aquecendo ardentes fontes seculares
Da alquimia sensual do beijo.
Resplandecem nuvens de sensibilidade
Espalhando misteriosas ternuras
Pelos perfumes infinitos da felicidade
E no emaranhado das lianas espirituais
Abraçamos majestosos segredos da luz da vida
Criando a magia absorvente do amor.
1 189
Marcelo Ribeiro
Pássaro Ferido
Ferido
o pássaro que voa;
Bico entreaberto
Garras preparadas e penas eriçadas
O coração saltitando
Dentro do minúsculo peito
Coberto de penas alvas tingidas de rubro
O mais belo tom de rubro:
O vivo vermelho do sangue da liberdade
Ferido o pássaro que voa
Porém livre
o pássaro que voa;
Bico entreaberto
Garras preparadas e penas eriçadas
O coração saltitando
Dentro do minúsculo peito
Coberto de penas alvas tingidas de rubro
O mais belo tom de rubro:
O vivo vermelho do sangue da liberdade
Ferido o pássaro que voa
Porém livre
1 200
Luiz Felipe Coelho
E na ausência surgiu a vida
A ausência
era um gigantesco bloco,
estarrecedor desprezo ao fluxo do tempo.
Orquídeas habitavam suas fendas,
confraternizavam com as samambaias,
delirando bebadas da úmida verdade da Terra,
buscando a luz do Sol,
o vento e os pássaros.
Admirei-a, espantoso nada,
cadeira vazia, transparente janela a ressoar
nas breves melodias ensinadas pelo vento,
aprisionando o Universo do lado de dentro,
enquanto fabricava a vida e, aos poucos,
consegui enxergar sua totalidade,
o quase vazio onde cometas de luz nasciam.
Contornei a ausência por dentro de mim,
até vislumbrar sua interna clareira,
ninho de ventos a desabrochar,
e onde começava uma dura construção,
uma alegre doação.
Silenciei então e os ecos adormeceram,
grávidos de espanto.
era um gigantesco bloco,
estarrecedor desprezo ao fluxo do tempo.
Orquídeas habitavam suas fendas,
confraternizavam com as samambaias,
delirando bebadas da úmida verdade da Terra,
buscando a luz do Sol,
o vento e os pássaros.
Admirei-a, espantoso nada,
cadeira vazia, transparente janela a ressoar
nas breves melodias ensinadas pelo vento,
aprisionando o Universo do lado de dentro,
enquanto fabricava a vida e, aos poucos,
consegui enxergar sua totalidade,
o quase vazio onde cometas de luz nasciam.
Contornei a ausência por dentro de mim,
até vislumbrar sua interna clareira,
ninho de ventos a desabrochar,
e onde começava uma dura construção,
uma alegre doação.
Silenciei então e os ecos adormeceram,
grávidos de espanto.
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